| Passos - IV Confiss�es Os olhos bem apertados e molhados, Luiza vive um instante de sil�ncio dentro de si e nesse instante se instala a mem�ria do feriado long�nquo - quanto? ela tinha treze anos. Certo, quatorze anos l� atr�s - em que alugaram o chal� em Campos do Jord�o. Ela passou os quatro dias espirrando, com a alergia ati�ada pelo bolor e umidade do lugar. �s vezes a s�rie de espirros era tamanha que ela chegava a perder os sentidos por alguns instantes. Era essa a sensa��o an�loga de agora? Ou n�o. A do espirro em si. Um misto de al�vio e sofrimento, o nariz j� machucado. O barulho do motor do carro de Denis. Ela chora, mas n�o olha pela janela, deixa que ele v� embora, que v� embora. Luiza deixa o corpo deitar no sof�, abra�ada � almofada. O barulho da televis�o no quarto dos pais e a sensa��o de alheamento deles ao momento tamb�m refor�am a sensa��o de mistura dentro de si. Era bom que estivessem ignorantes de tudo, mas a solid�o do�a. Pensou em como a luz � mais forte depois da escurid�o, em como o som � mais estridente depois do sil�ncio e achou mais do que natural ser a solid�o mais profunda e �spera na seq��ncia do amor correspondido. Perguntava-se o que exatamente fizera Denis ir embora daquele jeito. Seria o di�logo logo ap�s ela se olhar detidamente no espelho da casa dele, h� dois dias? - Eu preciso te pedir perd�o - e ele arregalou os olhos. - Por qu�? - Por v�rias coisas. - Ok. - N�o. Vamos a elas... - Luiza, n�o precisa... - Eu preciso, amor! Eu quero que voc� me perdoe de verdade por n�o ter vindo te ver quando voc� ficou doente, naquela quarta-feira. Eu disse que sa� muito tarde do trabalho. Nem foi t�o tarde assim, naquele dia eu sa� �s oito, e estava muito cansada. Fui insens�vel e menti, foi horr�vel! Ali�s, insensibilidade n�o foi um caso isolado, n�o �? Mostrei isso milh�es de vezes. - Bobagem! - ...empurrando sempre para frente as f�rias que voc� queria que eu tirasse, dando desculpa atr�s de desculpa para n�o sair da casa dos meus pais, colocando o trabalho na frente da nossa rela��o um bilh�o de vezes, n�o pegando no telefone pra dar satisfa��o quando estive na It�lia aquela vez, e a mesma coisa nas duas vezes que fui pra Chicago resolver aqueles pepinos... Ele n�o dizia mais nada, apenas olhava com uma ruga de estranhamento na testa. Ela continuava falando, sem tirar os olhos dele, com evidente necessidade de ser perdoada genuinamente, e falava de ego�smo, de deslealdade, dando datas e fatos minuciados. Depois de tudo ela ficou aliviada com o perd�o dele, geral e irrestrito, e tentou n�o ver seu desconforto. - Deixa eu ir, amor - pegando a bolsa e dando-lhe um beijo - Obrigada! Tirou oitocentos e cinq�enta quilos dos meus ombros. Estou com pressa porque tenho que ter esse mesmo papo com meu pai. - Escuta, se voc� quer mesmo fazer isso, pede uma desculpa coletiva duma vez, n�o precisa ficar tocando em cada fato... - N�o, amor! Eu preciso chamar cada mancada pelo nome dela. Voc� sabia que no Israel antigo o pecador tinha que levar um cordeiro, que simbolizava Cristo, e sobre a cabe�a dele confessar o pecado? Mas a B�blia diz que tinha que confessar "naquilo que pecou", ou seja, dizer exatamente a raz�o daquele pedido de perd�o... - Sei, sei - ele atalhou com um gesto enf�tico. Escuta, isso n�o d�i? Quero dizer, voc� n�o sofre com isso? - Claro - ela sorria - mas muito mais dif�cil foi olhar no espelho e reconhecer tudo isso para mim mesma e ent�o confessar para Deus! Depois dessa parte a coisa flui mais f�cil, te garanto! No seu sof�, Luiza ouve o sil�ncio. O som do motor do carro de Denis desapareceu na dist�ncia, ele j� havia ido embora e ela sofria por isso. N�o entendia como ele podia preferir a pessoa anterior, aquela que era antes. Como podia algu�m n�o ver a vantagem de tanta luz sobre a mesquinharia? Da transpar�ncia sobre a dissimula��o. A mistura dentro dela continuava indefin�vel. A parte positiva vinha de sentir que a guinada, a mudan�a de rumo, fora para valer. E na sua cabe�a pipocavam promessas inef�veis. E de sobre os ombros o al�vio de um peso de culpas a afagava. E a parte positiva tomava lentamente conta de tudo. ---------------------------------------------------------------------------------- Caminho a Cristo, Ellen G. White, cap�tulo 4 "Abra o cora��o a Deus", p. 41: "O cora��o humilde e contrito, rendido pelo arrependimento genu�no, apreciar� algo do amor de Deus e do pre�o do Calv�rio; e, como um filho confessa sua transgress�o a um amante pai, assim trar� o verdadeiro penitente todos os seus pecados perante Deus. E est� escrito: 'Se confessarmos nossos pecados, Ele � fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injusti�a." Marco Aur�lio Brasil Lima |
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