| Passos - III Enfant t�rrible Pisou o grande corredor com seu sapato alto e caro e a prociss�o di�ria de bom dias teve in�cio. Uma a uma, todas as cabe�as em suas mesas iam levantando e sorrindo. J� h� algum tempo, contudo, aquele desfile de poder, poder que despertava tamanho respeito, n�o representava o afago matinal em seu ego de outrora. Viu Carlos, que de costas para ela conversava com Marino, mas que, percebendo que ela chegava, virou-se para dar um arrastado bom dia, seguido de um aceno. Ela lembrou-se da forma como ele costumava cham�-la, especialmente pelas costas: "enfant t�rrible". Hoje, apesar do algo inc�modo de toda aquela defer�ncia, ela esfor�ava-se por sorrir em retribui��o a cada sauda��o, sem saber muito bem porque. E pensava: " a 'enfant' pode continuar 't�rrible' na carreira, mas parece estar cada vez meno terr�vel." E aquilo era outra fonte de cisma. J� em sua cadeira, ligado o computador, procurava com avidez os e-mails, mas n�o os habituais. Corria a barra de rolagem em busca de algo de Edna, e n�o se enganara, ele estava l�. Antes, por�m, que ela pudesse ler, um profundo suspiro atraiu sua aten��o. Era a copeira, que havia entrado com seu costumeiro passo silencioso para abastecer sua mesa. Vendo que seu suspiro n�o passara em branco, a senhora tratou de falar alguma coisa: - �gua, n�o �, dona Luiza? A senhora n�o quer mais caf�, n�o � mesmo? - �gua, isso... - esquecera o nome dela. Ser� que algum dia soubera? Uma olhada r�pida no bendito crach� ajudou a terminar: ... dona Dora, obrigada. A mulher baixou os olhos e preparava-se pra sair, quando Luiza perguntou inopinadamente: - Tudo bem com a senhora, dona Dora? Surpreendida, a mulher come�ou a chorar. Contou do filho com problemas mentais, que sumia no mundo de quando em quando, a quem ela tinha que cercar de cuidados, e que estava sendo maltratado pelo namorado da filha. Contou que fora obrigada a proibir o candidato a genro de ir at� sua casa, e que isso estava atrapalhando o relacionamento com a filha, que n�o queria saber de trabalhar, ficava nas costas desse namorado, que n�o tinha emprego certo mas que de quando em quando aparecia com um carro diferente, o que a fazia desconfiar seriamente. - A senhora deve pensar que eu fiz mal em expulsar um homem que pode at� ser perigoso de casa, e revoltar a minha filha desse jeito, n�o �, dona Luiza? - Quem sou eu pra julgar voc�, Dora? A frase, aparentemente trivial, soou profundamente estranha aos ouvidos da pr�pria Luiza. Ela, que era t�o afiada pra julgar as pessoas, que tinha sempre um conceito irrecorr�vel a respeito de qualquer um com uma s� olhadela! � que de repente ela vestira a pele daquela pobre mulher, em pensamento. Cal�ara os seus sapatos, como diriam os americanos. Imaginara-se acordando n�o �s oito, mas �s quatro e meia, para dar uma ordem na casa, preparar o caf� do marido omisso e dos filhos, pegar dois �nibus lotados, e ao fim do dia refazer o caminho sendo por vezes assaltada, para encontrar em casa uma situa��o de guerra, onde seu trabalho recome�ava todo. Imaginou a filha desmiolada, o filho deficiente. Pensou que sensa��o esquisita era n�o saber o que fazer, n�o ter certeza de que atitude tomar. - Dora - ela disse entusiasmada - uma amiga me mandou isso aqui por e-mail, e tem me feito um bem enome. Eu leio todo dia, olha s� - e sacando uma pequena B�blia da bolsa, achou a p�gina marcada e leu: "mas tu... meu amigo... n�o temas porque sou contigo; n�o te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortale�o, e te ajudou, e te sustento com a destra da minha justi�a". A pobre mulher chorou muito e elas conversaram mais um bom tempo, enquanto do lado de fora pesco�os se esticavam para presenciar uma cena in�dita. Quando sozinha, depois de ter visto o sorriso p�lido de Dora voltar ao rosto, ela correu ao e-mail de Edna, que ficara na tela, e o respondeu assim: " Edna, quando a gente pode se encontrar de novo? Preciso te perguntar um monte de coisas. A come�ar pelo que eu vou fazer com o meu passado! O que fazer com todos os sorrisos que n�o dei, o que fazer com todos os sorrisos que n�o vi e n�o provoquei, com todos os sorrisos que sufoquei? Desculpa, voc� n�o deve estar entendendo nada... Nem eu. Pode ir l� em casa hoje � noite? Ou ent�o eu posso passar na tua, voc� � quem sabe. Um beijo, Luiza" Pela janela a Avenida Paulista fren�tica em movimento, e uma pomba voando. A pomba estava quase chegando � mansarda do edif�cio ao lado, mas de repente deu uma guinada e voou em outra dire��o completamente diferente. Luiza sorriu e sentiu que haveria de ser um belo dia, aquele. ------------------------------------------------------------------------------------------------- Caminho a Cristo, Ellen G. White, cap�tulo 3 "Mudan�a de rumo", p. 36: "quando reconhecermos a extens�o do cabo que para n�s foi descido, quando compreendermos alguma coisa do infinito sacrif�cio que Cristo fez em nosso favor, o cora��o se desfar� em ternura e contri��o." Marco Aur�lio Brasil Lima |
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