"Mas o fruto do esp�rito �: ... a mansid�o..."
G�latas 6: 22 e 23


Depois da tempestade

"O mar... parece grosso, como se algo escuro corresse l� no profundo, l� no profundo... preparando, instigando..."

O sorriso no �lbum de casamento � genu�no. Ent�o o sentimento tamb�m. Era. �, quem sabe? Ela afasta um pouco a foto central, que pega duas p�ginas, e olha tentando recolher alguma verdade. Algo que ela n�o conhecesse.

Fecha o �lbum, ap�ia-o sobre o colo e os cotovelos sobre o couro, as m�os juntas. Vem uma vontade de olhar o rel�gio, ela n�o quer ceder, n�o quer ceder. Dez e quarenta e dois. O que significa que folhear o �lbum pela mil�sima vez, e todo aquele trabalho para recolher alguma verdade negligenciada... n�o custou mais que nove minutos.

Ela n�o quer ceder, n�o quer ceder. Mas olha. A porta. Im�vel. Silenciosa. S� o tique-taque, e os �nibus na avenida. Dez e quarenta e tr�s. Olha o telefone. Im�vel e silencioso.

Abre ent�o o �lbum de novo e fixa sua aten��o inteirinha naquele sorriso da foto central, genu�no, inquestion�vel. "Isso � amor" ela diz, batucando a unha do dedo indicador da m�o direita sobre o rosto do marido.

"o mar... as primeiras ondas, o encapelamento... ele est� ficando nervoso, quer se mostrar bravio. H� algo escuro l� no profundo, no profundo, e o c�u escurece..."

Ela acorda. Ele est� deitando. "Pergunto ou n�o pergunto?" ela pensa. Finge que n�o acorda, continua virada pra parede, dormindo de lado. Ele se ajeita, de lado tamb�m, de costas pra ela.

Ela abre os olhos na escurid�o. Perscruta o ar. "Ele disse alguma coisa?" "Pergunto ou n�o pergunto?" Um cheiro distante alfineta seu nariz. Ela levanta um pouco a cabe�a, uma ruga de estranheza na fronte. Com cuidado para n�o fazer barulho aspira o ar. Nada. De novo... sim, o cheiro.

Seus olhos est�o agora tristes. Ela chora e ele n�o ouve nada, ressona ruidosamente.

"o mar... tempestade, ondas altas, borrasca... quer virar o barco, quer mostrar o que pode sua f�ria, ondas altas!"

Agora ele n�o faz mais quest�o de esconder. N�o tem como. As desculpas de excesso de trabalho n�o colam mais, ele chega dia ap�s dia, sempre de madrugada, sempre os olhos vermelhos.

Mas ela n�o sabe como conversar sobre o assunto. A todo momento tentou se convencer que era mentira, fazia mais for�a do que ele para acreditar que Antonio n�o estava viciado outra vez.

Seu nome era M�rcia, o dele Antonio. Conheceram-se na casa dos pais dela, ele um amigo de seu irm�o. O namoro s� engata mesmo muito depois de seu irm�o haver morrido de overdose, ele se mostra impressionado com o fim do amigo e se interna numa cl�nica de desintoxica��o. Talvez ele lhe fizesse lembrar o irm�o, n�o saberia dizer, mas o romance � bom, ele ama tanto e a cerca de tantos e tantos cuidados e aten��es, e quer trabalhar mais para lhe dar a casa que ela quer. Que ela ama tamb�m, perdidamente, ama!

"Para onde estamos indo?" ela se pergunta, e sente o beb� que est� dentro de si. N�o precisa fazer teste nenhum, ela sabe que ele est� ali dentro dela. Ela se pergunta e olha para ele, que est� se arrumando para sair, e olha para o rel�gio. Nove e meia.

Ele percebe que ela olha, ele sabe bem o absurdo da situa��o mas prefere sair com pressa, sem dar satisfa��o. Ela se joga no sof�, e chora olhando a porta silenciosa e im�vel.

Dorme assim, ainda chorando, cansada. A janela est� aberta e um vento favor�vel traz at� sua sala o barulho do mar. � fraco, mas por um �timo de minuto se sobrep�e ao barulho da avenida e na confus�o da sua mente ela agora � uma garotinha, se debru�ando para colocar a m�o na �gua enquanto o barco avan�a, seu pai forte, com um bonezinho amarelo e camiseta da f�brica, junto ao motor, olhando com os olhinhos apertados o destino, alguma ilha... Seus irm�os na proa, rindo com a �gua que levantava e espirrava pra dentro... Ela olha pra baixo, a �gua, tenta ver l� no fundo do verde escuro.

Seu pai est� na ilha e conversa com um pescador. O pescador diz que est� armando uma borrasca, era melhor n�o se lan�ar ao mar agora. A tempestade vem, o mar se rebela. Mas eles est�o abrigados, na palho�a do pescador.

A espuma que sobe do mar e a f�ria da chuva que cai a marcam l� no fundo, ela est� segurando a m�o do pai, o corpo aninhado ao dele.

- Que bom se a gente pudesse evitar as tempestades da vida desse jeito.

O pai diz e ela olha pra cima.

Ela ouve o barulho na porta. Ele est� chegando. M�rcia se assenta, ajeita os cabelos e tenta dar um ar inexpressivo ao olhar. Ele se assusta com a presen�a dela ali, mas est� confuso, a droga entope sua cabe�a e n�o d� pra n�o transparecer.

Ele ap�ia as costas na parede e vai deslizando, at� sentar no ch�o e segura a cabe�a nas m�os.

"Vou encarar a tempestade" - ela pensa.

"o mar... pl�cido como nunca. Porque a calmaria � maior depois da tempestade. E as �guas s�o cristalinas e d� pra ver o fundo e � branquinho branquinho..."


Marco Aur�lio Brasil Lima
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