| Mas o fruto do esp�rito �: ... o dom�nio pr�prio..." G�latas 5: 22 e 23 Todo dia � uma encruzilhada - Olha s�... minha mulher t� gr�vida! - Legal... legal... escuta, a gente vai no Toca hoje, o Gimba tamb�m vai. Vai levar a viola, fazer aquele som. Faz uma cara que voc� n�o aparece, chega hoje l�. A gente fuma um. Antonio n�o sabia direito o que falar. Ficou algum tempo segurando o telefone, deixando sua tens�o transparecer pela respira��o. Enfim come�ou, um pouco desajeitado: - Poxa, Pico, acabei de te dizer que eu t� legal, t� indo � igreja com a minha mulher, a gente t� vivendo umas coisas boas, que eu nunca... - Ah... s�. Ent�o, mas aparece l�, n�o precisa fumar nada n�o, a gente s� troca uma id�ia. A galera t� com saudade de voc�. A liga��o j� havia terminado havia alguns minutos e enquanto Antonio olhava a reprodu��o de Van Gogh que tinha na parede, aquela �ltima frase reboava em sua mente, batendo de um lado para o outro, tentando amolecer uma geleira que ele tinha ali e que at� ent�o julgava ser inexpugn�vel. N�o era. Come�ou a pesar os pr�s e contras. Ali�s, deteve-se mais foi nos pr�s mesmo... 1 - a saudade era rec�proca; 2 - talvez os caras realmente sentissem sua falta, talvez ele fosse realmente importante para eles, apesar de agora n�o partilhar mais dos seus ideais de divers�o; 3 - ele os conhecia, sabia como falar com eles e num tempo atr�s at� que tinha uma boa ascend�ncia sobre o grupo, ent�o, talvez fosse da vontade de Deus que ele n�o cortasse o contato com os amigos, antes, usasse da amizade como canal pra contar da sua experi�ncia com Jesus, evangelizar aqueles caras que estavam l�, morrendo n�o aos poucos, mas aos muitos mesmo... talvez esse fosse seu minist�rio particular. Havia uma sombra ali, ao seu lado direito. Na sala de TV, mais precisamente, e ele evitava olhar pra ela. Queria tornar aos pr�s, encar�-los de novo, quem sabe pela repeti��o n�o se convencesse definitivamente... mas a sombra. Lentamente tirou seus olhos da "Noite estrelada" e os pousou sobre M�rcia, que passava roupa na t�bua colocada � frente da TV. Ela parece que pressentiu que os olhos dele estavam sobre ela, porque olhou para ele e abriu aquele sorriso... as duas covinhas. Ah, aquele sorriso. Ok, vamos aos contras, Antonio pensou. O argumento contr�rio n�o chegou a ser formulado em palavras, como todos aqueles pr�s. Ficou nublado na sua mente, impreciso. Apenas um cheiro. Um cheiro forte, de fuma�a, e ele n�o precisava dar nomes aos bois para saber que esse era o cheiro do ambiente do bar para o qual havia sido convidado. O cheiro vinha sempre associada � id�ia de um tipo de conversa, um tipo de rela��o. Olhos vermelhos e aqueles jovens adultos, ainda teimando em seus jogos adolescentes, presos a eles na cren�a ing�nua de que eles lhe garantiam liberdade genu�na, uma forma de protesto contra a estupidez do mundo normalzinho, do mundo certinho, um pulo mais acima. Antonio olhava para seus dedos, descansando sobre o colo, e sentia aquele cheiro. Olhou para a porta do apartamento. Ela lhe trazia dois sentidos: o de sair e o da lembran�a, ele sentado ao ch�o chorando, e M�rcia o abra�ando e falando aquelas coisas que quebraram dentro dele a ilus�o de liberdade. M�rcia olhou de novo. Achou que ele estava dormindo, mas de repente ele abriu os olhos e se levantou. Ela ouvia atentamente seus passos. Ele foi at� o quarto, ela ouviu a porta do arm�rio se abrir. Quando ele apareceu de novo, estava levantando o z�per do blus�o. - Eu vou... - ele disse em voz muito baixa, incerta ainda - comprar p�ozinho, aquele l� acabou, n�? Ela fez que sim com a cabe�a e cobrando for�as abriu outra vez aquele sorriso. Ele saiu sob a luz daquele sorriso mas ali, na sala de TV ele se apagou. Ficou no lugar um esgar de ang�stia, de uma esposa que tentava n�o duvidar de seu marido, tentava ignorar que ele agora estava travando uma batalha que era dele, apenas, ela n�o poderia interferir, poderia somente sofrer as conseq��ncias. O caminho at� a padaria e de volta deveria demorar seis ou sete minutos. Ela deu uma margem de atraso de cinco minutos, e o rel�gio insistia em empurrar o tempo. O pequenino rel�gio digital ali do videocassete parecia agora o Big Ben, ocupava todo seu campo visual, a fez esquecer da camisa que passava. Dezesseis minutos, ela observou. Dezesseis. Sentiu �gua se formar nos seus olhos. Antes que a derramasse, por�m, ouviu o barulho do elevador. Prestou aten��o. Que sil�ncio era aquele, Senhor? O barulho da chave virando tirou todas as d�vidas e o cheiro de p�o quentinho invadiu sua casa. Ela voltou a ficar iluminada com a luz imarscesc�vel daquele sorriso. Marco Aur�lio Brasil Lima |
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