�Mas o fruto do espirito �: ... a fidelidade..."
G�latas 5: 22


Jurisprud�ncia

Ela segurava a x�cara com as duas m�os, para aquec�-las, e o vapor que sa�a do leite dan�ava � sua frente. Com os olhos, acompanhava os gestos mec�nicos do marido, que colocava p�es na torradeira, em p�, de costas pra ela. Ela o conhecia muito bem e n�o precisava muito pra perceber que alguma coisa o preocupava. Ele franzia o cenho sem perceber. Ficava mais calado que o habitual. Sem falar que at� conciliar o sono aquela noite ele chacoalhou a perna direita sem parar. Ela o conhecia muito bem.

- Voc� n�o vai experimentar a gel�ia de damasco que a V�nia trouxe?

Ele a olhou algum tempo, como se ela tivesse falado algo dif�cil de entender.

- Onde est�?

Ela apontou. Estava � frente dele, ao lado da torradeira, um enorme pote com um pedacinho de pano xadrezinho fixado com el�stico, em cima. Xadrezinho de amarelo. Ela esperou que ele sentasse e come�asse a comer e ent�o perguntou:

- Quer falar?

Ele lan�ou um olhar interrogador pra ela, mas ent�o entendeu. Sorriu amarelo, deixou o p�o no prato e fez um gesto com as duas m�os, como quem diz: "n�o d� pra esconder mesmo..."

- Tenho uma decis�o dif�cil pra tomar.

- Eu imaginei. Me conte o que � - ela tomou um largo gole do leite.

- Bom... a historinha � a seguinte: um casal resolve comprar um apartamento. Roda a cidade inteira, faz mil contas, mil planos, analisa todas as possibilidades e finalmente decide. Um dois quartos, l� no Campo Limpo. S� que depois de pagar as presta��es religiosamente durante dois anos eles descobrem que devem mais do que financiaram, e o res�duo come�a a jogar a presta��o pras alturas.

- Hum... conhe�o uma hist�ria parecida - ela sorri.

- Bom, mas acontece que agora eles entram na justi�a. Um advogado novo os convence que aquela cobran�a de juros sobre juros e a forma como o contrato foi feita � ilegal, porque o C�digo de Defesa do Consumidor pro�be...

- Ele enganou os dois... ou tem raz�o?

Ele respira fundo, inclina a cabe�a para um lado.

- Boa pergunta. Acontece que dois advogados muito famosos, e que trabalham para bancos - ele arqueia as sobrancelhas - escreveram uns pareceres dizendo, em suma, que o C�digo de Defesa do Consumidor n�o pode ser aplicado a contratos banc�rios, entende? Que esse tipo de contrato n�o caracteriza uma rela��o de consumo propriamente dita... E essa tese � muito forte...

Ela o observa por tr�s da fuma�a da x�cara.

- Embora eu entenda que n�o - ele arremata como quem confessa um pecado.

- Por que?

- Ah, � um rolo que acho que voc� n�o vai entender e que nem lhe interessaria muito. O que interessa � isso, eu concordo com o casalzinho, que t� enforcado at� o pesco�o e que n�o sabe como vai pagar a escola do filho que ano que vem entra em idade escolar.

- Mas... voc� n�o v� problema em discordar dos tais advogados. Voc� j� julgou casos parecidos sem problema.

- T�, mas acontece que, como eu disse, o parecer dos advogados se tornou uma tese muito forte, e entre os ju�zes existe uma certa press�o para adot�-la. Todo mundo est� sabendo que eu tenho esse caso pra decidir. Se for pelo lado dos bancos, vamos formar uma jurisprud�ncia maci�a, entende? Quer dizer, essa posi��o vai ser cada vez mais dif�cil de reverter.

- Est�o te pressionando?

Ele fez que sim com a cabe�a. Ela suspirou profundamente e depois de um novo gole da x�cara, perguntou:

- Quem?

Ele estava olhando para a mesa. Levantou as sobrancelhas olhando para a mulher:

- Juliano. Entre outros, claro. Mas principalmente Juliano.

Ela arregalou os olhos. Lembrou de Juliano recebendo seu marido como assistente, no come�o da carreira. Lembrou de como ele os ajudou a mobiliar sua casa. Lembrou da amizade forte que surgiu entre os dois juizes de gera��es diferentes, de suas discuss�es jur�dicas infind�veis at� quando passavam uns dias no s�tio dele. Lembrou de Juliano protegendo seu marido do esquema de cartas marcadas das promo��es de 1994. Juliano. Juliano. O protetor. O �cone, o referencial. Juliano...

Ela passou o dia irrequieta. O rel�gio parecia n�o andar. Ligou duas vezes para o gabinete do marido mas n�o conseguiu falar com ele, estava em audi�ncia. N�o havia o que a distra�sse. O tempo todo ficou relembrando o que respondera ao marido, e recriminava-se achando que n�o tinha dado o apoio suficiente, a tranq�ilidade pra ele decidir em paz. N�o devia ter falado da visita da sua m�e no fim-de-semana, que hora mais impr�pria!

Quando ela ouviu o barulho das chaves na porta, prendeu a respira��o. Ela estava no sof� da sala, embrulhada em um cobertor, adormecida em cima de um livro. Ela prestou muita aten��o no rosto dele. Olhou cada movimento, enquanto ele virava a chave, enquanto se virava, e deixava a pasta no ch�o, o palet� sobre a poltrona. Enquanto vinha e a beijava. Nesse momento, ali�s, ele passou a m�o direita sobre a cabe�a dela, da frente pra tr�s, acomodando seus cabelos atras da orelha.

Essa car�cia n�o deixava enganar. Ela o conhecia bem, sabia qual tinha sido sua decis�o. Era importante pra ela saber se seu marido optava entre a fidelidade ao velho amigo, a quem tanto devia, ou � sua convic��o pessoal. Precisava saber se se ele continuava o homem por que se apaixonou, a quem dedicou a melhor parte de sua vida. Ent�o sorriu.

Ele passou adiante, a caminho da cozinha, como sempre fazia, mas ela quis confirmar e perguntou:

- Quem ganhou?

- A consci�ncia - ele respondeu.

Ela sorriu mais largo. Conhecia seu marido muito, muito bem...

Marco Aur�lio Brasil Lima
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