| "Mas o fruto do esp�rito �: ...a bondade..." G�latas 5: 22 De ansiedades e n�o ansiedades - "N�o andeis ansiosos, n�o andeis ansiosos..." Acho que de tanto eu repetir isso vou acabar ansioso por n�o ficar ansioso! - Fernando pensou enquanto assoprava as m�os para ver se as esquentava. O vento frio vinha de tr�s, direto na sua nuca. Mesmo assim, ele n�o queria mudar de banco. Aquele dava a melhor vista da rua, e olhar as pessoas era sempre uma distra��o. A situa��o n�o ia bem. Era o d�cimo sexto emprego que procurava em duas semanas. Tinha esquecido qualquer sombra de orgulho, estava topando tudo: motorista, metal�rgico, mensageiro, assistente administrativo, o que viesse era lucro. - Volte �s tr�s horas - a mo�a da recep��o da ag�ncia de empregos disse sem olhar pra ele. Pelo menos dera alguma esperan�a. A vaga era de soldador, s� que em Mau�. Se desse certo ele teria que fazer contorcionismos pra chegar em Mau�. Como � que se chega em Mau�? O est�mago roncou. Claro, ele lembra vagamente o que � comer. De manh� foi s� um gole de leite ralo, puro mesmo. Tinha aquela bolacha �gua e sal, mas ele n�o ousava tocar naquilo. � que a m�e estava doente, poxa vida, e passando frio naquele quarto �mido. Que est� meio destelhado em cima... e n�o adianta insistir que ela n�o troca com ele de jeito nenhum, ent�o fica l�, na cama, sem saber o que � sol, sem nem comer direito e quer melhorar de que jeito? Tomara ent�o que coma as bolachas, porque o arroz j� era. - Sessenta e cinco reais - ele diz de si pra si, lembrando do que iria gastar pra consertar o telhado. A verdade � que a situa��o n�o ia bem, e por isso repetia sempre o "n�o andeis ansiosos". Voc� sabe, uma abrevia��o do "n�o andeis ansiosos quanto ao que haveis de vestir ou quanto ao que haveis de comer", que Jesus falou. Repetir aquilo era um escudo contra o des�nimo, contra a desesperan�a, e ele agarrava o escudo com ambas as m�os. Em frente � pra�a havia um restaurante bonito, de mesas na cal�ada. Alguns se aventuravam nas mesas externas, apesar do frio, porque �quela hora batia um solzinho redentor ali. Fernando olhava o casal da mesa do canto. Ali tamb�m a situa��o parecia n�o ir bem. A mulher falava e gesticulava e n�o parecia feliz e o homem nervoso, evitava olh�-la. Fernando entendeu que ela fazia uma mesma pergunta repetidas vezes, e que a resposta era muito importante pra ela. Podia at� soar indiscreto, ficar ali, naquele banco, xeretando a vida dos outros, mas, era sempre um passatempo muito bom, e ele chegou � conclus�o de que a mulher estava cobrando algum tipo de decis�o do homem � sua frente. Fernando viu quando o homem abaixou a cabe�a e a afundou entre as m�os, os olhos bem fechados, os cotovelos apoiados na mesa, . Tinha um bel�ssimo rel�gio aquele pulso, ele notou. Notou tamb�m que a mulher ficou muito perturbada com aquela rea��o dele. Tanto que at� uma l�grima rolou, Fernando viu. Ela se levantou, pegou a bolsa e saiu pela rua, andando apressada, enquanto o homem continuava ali, a cabe�a entre as m�os, os dedos afundados nos cabelos. Fernando viu quando ele come�ou a balan�ar a cabe�a em sinal afirmativo e por fim, com um gesto de quem toma uma decis�o, sem ligar pras consequ�ncias, e com um largo sorriso ele levantou a cabe�a e abriu os olhos e Fernando viu dali do seu banco como o homem ficou assustado por n�o v�-la mais ali. Fernando teve muita pena de todo aquele atordoamento. Ele olhava ao redor de si abobalhado, e com um qu� de desesperado, e eis a� uma coisa que incomoda muito a Fernando... Ele correu ent�o, atravessou a rua sem olhar e disse para o homem: - Senhor... com licen�a, mas acho que aquela senhora que estava aqui com o senhor foi bem por ali, olha l� - e apontou a dita cuja que se perdia entre as pessoas que transitavam alheias a tudo e principalmente a todos. O homem se levantou e olhou na dire��o que ele apontava. Ent�o olhou fundo nos olhos de Fernando com um brilho que ele n�o esqueceria t�o cedo e dando um tapinha no seu bra�o disse um r�pido e emocionado "valeu!" antes de sair correndo atr�s da mulher. Aquele neg�cio fez Fernando sentir-se bem. De longe, viu quando o tal homem alcan�ou a tal mulher e viu, apesar de que o ponto ali n�o era t�o privilegiado quanto o banco da pra�a em rela��o � mesa do restaurante pra ver alguma coisa, viu que depois de alguns instantes conversando, todo aquele neg�cio terminou em um abra�o apertado. Fernando puxou mais o z�per do casaco de nylon, esfregou as m�os e saiu com um sorriso muito grande em dire��o ao seu banco de pra�a. At� as tr�s horas ainda tinha muito tempo. Marco Aur�lio Brasil Lima |
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