| �Mas o fruto do esp�rito �: ... a benignidade..." G�latas 5:22 A turba e o gato O gato piscou duas vezes antes de decidir dar aquele salto. Caiu sobre o muro e sem ligar para a algazarra que vinha do outro lado, passou algum tempo lambendo suas patas, deliciado com o sol que batia. Desceu do muro pelo outro lado e fez nova parada para novas lambe��es. Quando deu por si, j� estava nas m�os do menino. - Peguei! Peguei! - gritou o moleque sardento com uniforme azul e branco e uma ova��o de entusiasmo dos colegas acompanhou seu brado de triunfo. Para o gato era tudo muito nonsense. Quem poderia querer correr daquele jeito numa hora da tarde como aquela, onde o sil�ncio da cidade e aquele solzinho benfazejo s� faziam convidar � prostra��o, ao estado de imobilidade absoluta? Agora ali estava ele. Sendo rodopiado pelo rabo como se fosse um i�-i�. Sendo jogado pra cima como se fosse um saco. Eles haviam feito um c�rculo ao seu redor, para que n�o fugisse. Assustado, quando ca�a no ch�o ele andava atordoado buscando desesperadamente uma brecha. De repente um chute por tr�s o fazia ver estrelas. Novo pux�o pelo rabo. Mais um salto nas alturas. Filipe estava na roda de bobinho quando Marlom exclamou "olha o gato ali, perto do muro!" e, como tudo mundo, correu at� o bicho, deixando a bola esquecida no meio do p�tio. Como todo mundo, ele vibrou quando Marlom gritou "peguei, peguei!" Mas da� pra diante ele n�o conseguiu acompanhar mais todo mundo. Ficou um pouco de fora da roda. � que subia um neg�cio ruim pela sua garganta. Tocou a campainha. - O recreio acabou! gritou um Que vamos fazer com ele? outro perguntou Que tal botar num saco e jogar no lixo? algu�m sugeriu Ou pendurar na �rvore e depois da aula pegar ele de novo? foi a id�ia da outro. - N�o. (Marlom:) Vamos jogar ele no laguinho. e uma exclama��o de excita��o acompanhou aquelas s�bias palavras. A turba atravessou o p�tio atropelando algumas meninas, que j� se aprumavam na fila. O neg�cio ruim ficou maior na garganta de Filipe. Antes que Marlom consumasse sua brilhante id�ia, ele se adiantou e falou com voz firme: - Assim n�o! Marlom interrompeu o movimento de lan�amento no meio. � sua frente, o profundo e escuro laguinho parecia esperar placidamente, de molhados bra�os abertos. Os meninos acharam que Filipe conhecia uma t�cnica melhor de atirar gatos em laguinhos, ent�o Marlom entregou o bichano em suas m�os. Era justo. Filipe fora o �nico que n�o se divertira l� atr�s. Ele o pegou n�o pelo rabo, mas pelas costelas, com cuidado. Permaneceu um curto mas intenso instante com ele assim, entre as m�os. Sentiu o cora��ozinho acelerado do bicho batendo. Viu seus olhos assustados. Ent�o, sem olhar os colegas, num r�pido movimento, virou-se de costas e atirou o gato por cima do muro. Pela sua cabe�a passava a pergunta: "ser� que era muito alto pra ele?" e a resposta: "acho que n�o, nesse ponto do muro tem o morrinho do quintal da Zuza..." Ele sentiu que n�o tinha mais a coisa ruim na garganta. Mas em seguida percebeu que agora tinha uma coisa ruim nas costas, onde recebeu a pancada que o atirou no ch�o. Do lado de l�, o gato olhava com arregalad�ssimos olhos para aquele muro. Chacoalhou a cabe�a, piscou duas vezes e seguiu seu rumo. Marco Aur�lio Brasil Lima |
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