"Mas o fruto do espirito �: ... o gozo..."
G�latas  5:22

As del�cias do C�u


Se eu j� a vi chorar? J�.

Fizeram uma festa junina l� atr�s da igreja. Quer dizer, era um tipo de festa junina, j� que n�o pode chamar assim porque junina tem a ver com santo cat�lico, n�? Na �poca atr�s da igreja era um lam�o. Uma parte do muro havia ca�do numa chuva e tava um frio danado. Haviam decorado com bandeirolas, tinham at� acendido uma fogueira, que era pra l� de disputada.

A festa ia meio desanimada. O pessoal conversava em panelinhas, n�o se misturava. De vez em quando alguem ia at� a mesa e pegava um p�-de-moleque e fazia um coment�rio, ou que tava muito duro, ou que tava uma del�cia, ou que tava era muito frio, e os outros davam umas risadinhas amarelas. S� a crian�aada se divertia, naquela correria e algazarra de sempre e a gente morrendo de medo de que eles fossem brincar na fogueira.

Ent�o ela chegou. Voc� deve imaginar, com ela chegou a vida. Seu sorriso aberto parecia que espantava o frio. Atr�s dela o Flavio, com uma touca azul e aquele narig�o vermelho, tamb�m com um sorriso de orelha a orelha... Ela ia � frente, falando com todo mundo, abra�ando, fazendo piadinhas, e o Flavio atras. Ele devia ter uns dezesseis anos ent�o, sabe?

Ela trouxe na sacola um aparelinho de som. Pediu pra Am�lia pegar o sac�o de pipoca que ela tinha estourado e foi ela mesma ligar o som. Colocou uma fita de m�sica caipira e mandou logo todo mundo se preparar para a quadrilha que ela ia dirigir. O irm�o Divino chegou pra ela e perguntou meio sem jeito se n�o era errado, ou algo assim, e a Ana, sempre rindo, disse que era uma brincadeira cultural, que n�o tinha nada de mais.

Num piscar de olhos estava todo mundo l�, enfileirado e dando as voltas do jeito que ela mandava. Num piscar de olhos a festa acontecia. Ela batia palmas, gritava, ria, e todo  mundo acompanhava, rindo tamb�m, feliz de estarmos todos juntos. Ela s� parava de vez em quando para ajeitar a touca do seu filho, que teimava em querer cair.

Ele ia junto, acompanhava tudo, rindo sem parar. Nessas coisas ele � bom, pega r�pido o que est� acontecendo, o que tem que fazer, precisa ver... Ele s� travou na hora que teve que passar pelo Danilo. �, o Danilo. � que voc� n�o o conheceu antes. Aquele menino era muito ruim, sabe?

Aconteceu um verdadeiro milagre! Naquele tempo ele vivia pegando no p� do Flavio, ridicularizando dele. N�o perdia uma chance de fazer alguma malvadeza. Uns dias antes ele tinha convencido o Flavio a abrir um registro que tinha l� no alto da parede ao lado dos banheiros; a torneira se soltou e um jorro de �gua caiu sobre ele. Ele ficou todo molhado e a Ana teve de voltar mais cedo pra casa, com o menino chorando feito uma crian�a. Outra vez ele soltou uma bombinha dentro do bolso do Flavio, estragou toda a calca dele e queimou um pouco da perna.

Ent�o, quando na quadrilha eles tinham que dar os bra�os um ao outro, o Flavio estancou, n�o foi adiante. A Melissa logo passou na frente do Danilo e pegou ela mesma no bra�o do Flavio, pra que a brincadeira n�o acabasse. O Danilo? Bom, ele ficou sem gra�a, mas deu uma risadinha boba e continuou pulando.

A festa continuou boa, animada, a Ana sempre com uma palavra agrad�vel para cada um. Ela sempre teve esse dom de descobrir quem est� desconfort�vel ou desajustado no ambiente, e coloc�-lo pra cima. Ela via as irm�zinhas velhinhas, que ficavam pelos cantos, e as punha no meio da roda, falando que elas estavam umas gatinhas, e elas riam que s� vendo...

L� pelas tantas todos fizeram uma roda em volta da mesa, para a ora��o. O irm�o Lucio ainda era vivo e ele tomou a frente. Pediu pra todo mundo dar as m�os e fez um discurso lindo sobre o valor daquele momento, em que est�vamos todos juntos. Eu lembro bem. Ele falou que a amizade que a gente estava experimentando � um antegozo das del�cias do C�u. Disse que isso n�o tem pre�o, que essas pessoas que ent�o nos davam a m�o seriam nossas vizinhas pela eternidade afora e que n�o havia nada mais precioso que garantir as duas coisas que podemos levar para o C�u: nosso car�ter e nossas amizades. Disse que dev�amos, enquanto era tempo, cultivar essas amizades, zelar pelo bem estar uns dos outros, porque n�o sab�amos quanto tempo estar�amos juntos em t�o boas condi��es. Coitado, parece que estava adivinhando que logo logo ele descansaria... Ent�o disse que cada um deveria pensar em algu�m ali da roda a quem gostaria de dizer que sua aus�ncia lhe seria muito dolorosa no C�u. A id�ia dele era que cada um pensasse em algu�m e ent�o orasse por essa pessoa, mas de repente o Flavio soltou  as m�os das pessoas que estavam ao seu lado e foi andando at� onde estava o Danilo. Todo mundo prendeu a respira��o. Ele ficou na frente daquela praga de menino e o abra�ou. O Danilo ficou sem gra�a, mas retribuiu o abra�o como gente.

Foi ent�o que eu, como acho que todo mundo fez, olhei para Ana. Duas l�grimas muito grossas escorriam dos seus olhos. Naquela tarde gelada de domingo eu fui at� ela e disse que o C�u seria muito cinza sem ela. Foi o que todo mundo fez, uns aos outros, porque naquela tarde gelada n�s todos experimentamos um pouco das del�cias do C�u, e amigo... que saudade que d�!

O que?

Bom, � verdade, voc� tem raz�o. A �nica vez que a vi chorar foi de alegria. Eu n�o tinha pensado nisso mas... puxa vida, isso n�o me surpreende!


Marco Aur�lio Brasil Lima
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