"Mas o fruto do espirito �: ... a paz..."
Galatas 5: 22


Mas o que � paz?

Final de janeiro de 1999, nas proximidades de Orahovac, Kosovo. Ibrahim sentou-se � sombra de uma velha e seca oliveira, porque seu p� o estava matando. Tirou o sapato esquerdo com muito cuidado e ficou algum tempo contemplando desolado a sola do p� cheia de bolhas estouradas, que agora sangravam.

- Tome isso - ele levantou os olhos e viu Hashim de p� � sua frente, e estendia-lhe um peda�o de aniagem. Embrulhe seus p�s com isso, voc� vai se sentir um pouco melhor. O que n�o pode � parar.

Ibrahim tomou a aniagem com um sorriso de gratid�o e enquanto o enrolava ao redor do p� ferido, disse:

- Sente-se, Hashim. Uns minutinhos n�o v�o fazer tanta diferen�a.

Hashim soltou um profundo suspiro, lan�ando um olhar amplo sobre a multid�o que caminhava silenciosa colina abaixo, e por fim sentou-se ao lado de Ibrahim.

- Onde est� sua esposa? perguntou Ibrahim. O outro apenas apontou para um punhado de gente que vinha a uns trezentos metros.

- Daqui a pouco � minha vez de carregar o menino.

Ibrahim come�ou a cal�ar o sapato deixando escapar por entre os dentes um surdo gemido de dor. Por fim disse, olhando o companheiro com tristeza:

- Queria ter algu�m a quem carregar.

- Voc� vai ter outros filhos, Ibrahim. Muitos deles - disse Hashim, colocando a m�o sobre o ombro dele.

- Sim, eu vou. Pe�o a Al� que me d� tantos quantos bastem para vingar os meus mortos.

Ficaram em sil�ncio por alguns instantes. O grupo que vinha atr�s os alcan�ou. Hashim levantou-se, andou at� uma mulher que caminhava com um olhar rude e uma crin�a no colo e tomou a crian�a para si. A mulher ficou evidentemente aliviada e sorriu timidamente, sem parar de andar. Segurando o menino no bra�o esquerdo, Hashim estendeu o direito para Ibrahim e o ajudou a levantar-se. Foram seguindo lado a lado, olhando os albaneses que n�o suportavam o calor, o cansa�o e os ferimentos e iam caindo na beira da estrada.

- Eu n�o - Hashim disse como se a conversa n�o houvesse sido interrompida. Eu pe�o que Al� me d� paz.

O seu interlocutor arregalou muito o olho e bradou:

- Paz?! Hashim, eles destru�ram tua casa! Eles roubaram o teu direito sagrado ao solo, eles mataram sem piedade o teu pai, teus primos, gente com o mesmo sangue que voc�, e teriam matado a voc� tamb�m se tivessem oportunidade! E voc� quer paz? Al� se envergonha de voc�, Hashim! Voc� o desonra falando desse jeito...

Ibrahim continuaria destilando seu �dio mas uma dor terr�vel no p� machucado o interrompeu. Ele abaixou-se para tocar o local com o rosto crispado pela dor. Hashim come�ou a pensar no que falaria. Como explicar que estava cansado? Como explicar que s� queria que seu filho crescesse com tranq�ilidade, que n�o fazia mais qualquer diferen�a se ele cresceria em Pristina ou na Alb�nia, mas apenas que seu filho efetivamente cresceria? Que teria uma vida sem bombas e minas? Ele n�o havia estudado, como Ibrahim, e nem era muito religioso, e por isso para ele as coisas eram mais simples... O que ele queria era simplesmente um pouco de toler�ncia! Ele pensava em como explicaria isso, mas Ibrahim voltou � carga, enquanto andava segurando o joelho esquerdo com as duas m�os:

- Hashim, voc� n�o entende? N�o existe paz. Ningu�m est� em paz sabendo que foi espoliado. N�o existe paz de verdade quando voc� est� numa terra que n�o � a sua, comendo de um solo em que seus pais n�o plantaram, enquanto outros se refestelam na tua casa, na tua rua, com o que � seu. E depois, Hashim, que paz existiria mesmo se as coisas fossem diferentes? Como podemos dormir tranq�ilos ao lado de gente diferente de n�s? E se mesmo entre n�s n�o sabemos o que � melhor, o que queremos, o que devemos exigir pra n�s. Paz � uma fic��o, Hashim, n�o existe e por isso n�o � muito saud�vel que voc� sonhe com isso, entende?

Hashim continuava andando, olhando � sua frente com aspecto cansado e triste, sem dizer palavra. De vez em quando olhava para o filho, que dormia com o rosto escondido no seu ombro  e o abra�ava pelo pesco�o.

Ibrahim soltou um estridente grito de dor e sentou-se embaixo de outra �rvore na beira da estrada, ofegante, mas sem esquecer o assunto:

- Paz - bufou enquanto massageava o p� por cima do sapato de solas gastas - o que � paz, Hashim? olhou com olhos injetados para o companheiro e perguntou de novo, em tom baixo mas cheio de uma energia que fez Hashim tremer:

- O que � paz?

Hashim estava parado � frente do companheiro, olhando com comisera��o para sua dor, sem pensar em responder qualquer coisa, mas ent�o ouviram um ru�do que vinha de tr�s da �rvore. Era m�sica?! Se havia alguma coisa que causava real estranheza naqueles retirantes, que n�o encaixava naquela situa��o, naquele momento, se havia algo que n�o se ouvia h� muitos dias, era m�sica. Ambos olharam para o estranho som e viram a vi�va de Edam, sentada sobre uma pedra, com o o �nico filho que lhe restara deitado, a cabe�a descansando sobre seu colo e ela entoava uma antiga cantiga crist� enquanto acariciava os cabelos de seu filho. Logo entenderam o que havia acontecido: o rapaz acabava de morrer.

Edam f�ra o �nico crist�o que havia sido tolerado em toda a comunidade. Ele era filho de Abrahim, que se tornara crist�o h� muitas d�cadas, antes do socialismo na Iugosl�via. Diferentemente do que ocorrera com outros crist�os, ele n�o foi expulso porque conseguiu o respeito de todos quando salvou sozinho a dezessete pessoas que se afogavam na grande enchente de 56. Edam e seus quatro filhos mais velhos morreram na limpeza �tnica que os s�rvios haviam acabado de realizar em todo Kosovo e agora o ca�ula tamb�m falecia. O que iria aquela mulher crist� sozinha no mundo fazer na Alb�nia, para onde estavam indo? E, com tudo, por que ela cantava?

O filho de Hashim acordou com a m�sica, esfregou os olhinhos e ficou algum tempo olhando para a mulher. Pediu ao pai para descer e foi at� a mulher que cantava de olhos fechados. Ele sentou-se � sua frente, descansando o rosto nas m�os, prestando profunda aten��o na m�sica. A mulher ouviu o ru�do e, assustada, abriu os olhos parando de cantar. O menino fez um muxoxo como se tivesse sido contrariado, ent�o ela sorriu e continuou sua arrastada cantiga, que falava alguma coisa sobre um castelo forte...

Sentindo um enorme n� na garganta, Hashim murmurou para o colega:

- Por que n�o pergunta a ela, Ibrahim? Ela sabe... ela sabe...



Marco Aur�lio Brasil Lima
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