| "Mas o fruto do esp�rito �: o amor..." G�latas 5: 22 Consolo Sentado no banco de pl�stico vermelho do trem, o velho tinha sobre o colo um saquinho de supermercado com um pacote de biscoitos e algumas frutas sobre o qual descansava as m�os. Ele olhava a janela do outro lado, sua mente passeava pela recorda��o de algo vivido h� pouco e que lhe garantia agora um sorriso pl�cido, sereno. Revivia a cena em que seu neto ca�ula cruzava o jardim correndo para pular em seu pesco�o num abra�o efusivo, apertado, tradu��o incontest�vel de afei��o. Ele sorria e sentia outra vez na pele o impacto daquele abra�o, a risada infantil e o trem e as arvores passavam correndo. Aquela sensa��o lhe trazia uma vaga reminisc�ncia � mente. Lhe fazia pensar que havia sempre desejado algo mais no mundo que via, que sempre havia sentido a falta de algo em pureza e intensidade nas coisas � sua volta. Ele percebia que sua vida havia sido uma batalha renhida para colocar o tal algo de cuja falta esse mundo tanto se ressentia. Mas o que era? Qual o nome daquilo que tinha na ponta da l�ngua, uma palavrinha t�o banal, t�o comum...? Aquilo que guardava uma rela��o estreita com a cena que acabara de viver com seu neto? O que era? Ele se esfor�ava por lembrar a palavra que resumia os atributos daquilo que havia buscado incessantemente, uma simples palavrinha, mas seus pensamentos foram cortados pela entrada de um jovem casal que veio sentar-se exatamente � sua frente. Ela era uma moca clara, de cabelos longos e bonitos, e doces olhos castanhos; ele, rapaz de rosto angular, nariz pequeno e queixo largo como um boxeador, olhar um pouco duro um pouco amargo. Ele vestia terno e gravata e ela um vestido longo, mas via-se que era gente simples. O velho tinha por passatempo observar pessoas. Observou quando o rapaz sentou-se e colocou entre si e a moca a maleta escura que carregava e sobre ela o seu bra�o. O outro bra�o encostou no descanso do banco de pl�stico, levando a m�o ao queixo. A mo�a sentou-se e pareceu um pouco desconcertada, daquele tipo de desconcerto ocasionado por mil coisas, complexo. Assim, de algu�m que j� n�o sabe como proceder para mudar uma situa��o. Colocou a pequena bolsa de couro sobre o colo e apertou-a com as m�os olhando o companheiro. Depois de um bom tempo achou o que dizer, e o velho escutou: - A gente tirou amigo secreto hoje. Tirei o F�bio - concluiu com um meio sorriso. O rapaz perguntou sem olha-la e sem pressa: - Ah �? e depois de uma pausa: Que � que voc� vai dar pra ele? - Hum, n�o sei - ela se animou - pensei numa gravata, dessas de bichinho, que est�o na moda. Voc� n�o tem nenhuma assim, n�o � Ant�nio? e dizendo isso colocou o bra�o sobre o bra�o dele, descansando m�o sobre m�o. Ele, contudo, n�o moveu os dedos. Com um estalo de l�ngua tentou suavizar a resposta, mas ainda assim n�o conseguiu, ela saiu seca: - N�o gosto. - Ah, mas tem aquelas em que os bichinhos s�o bem pequenininhos - ela apertou e acariciou a m�o dele enquanto com a outra m�o segurou sua gravata para mostrar o que estava querendo dizer - n�o s�o todas espalhafatosas. Tem umas verdes, vinho... O rapaz baixou os olhos para sua gravata nas m�os da namorada, depois voltou a fitar o ar � sua frente, sempre com os dedos da m�o esquerda no rosto. Ela concluiu: - Sabe o tipo que eu quero dizer? - Sei - e depois, para concluir: eu n�o gosto, Patr�cia. Ela tornou a colocar a m�o direita sobre a bolsa e diminuiu o ritmo com que a m�o esquerda acariciava a do namorado. Por um instante o velho julgou ver no seu rosto uma ruga de sofrimento, mas se existira mesmo logo se desfez e ela tornou a olhar o rosto dele em sil�ncio. - � dif�cil, mas se eu conseguir mesmo esse contrato vou ter que passar pelo menos duas semanas me Bauru, acertando tudo, os detalhes... - ele disse. Voltou a ruga ao cenho da moca, dessa vez n�tida e incontest�vel. Ela disse baixinho: - Bem na �poca do Natal, Ant�nio? Ele deu de ombros querendo dizer: fazer o que? A mo�a ficou visivelmente desconcertada, olhou a m�o que acariciava a dele, sobre a maleta, olhando da m�o para o rosto que mirava o ar � sua frente. De repente levantou a m�o direita � testa do rapaz e com os dedos polegar e indicador tirou delicadamente uma inexistente sujeirinha, afagando depois o lugar com as pontas do dedo. Ele continuou com o olhar duro e amargo que n�o era na dire��o dela (antes fosse! pensava o velho) e ela baixou o seu olhar para o ch�o, e era agora um olhar amargurado tamb�m, envenenado pelo do seu companheiro, permanecendo assim um longo instante, em que apenas a paisagem atr�s de si se moveu. Ele se levantou, pegou a maleta pela al�a e dizendo: "vamos?" encaminhou-se para a porta. Ela levantou atr�s como que despertada de um sono. Ele parou frente ao vidro da porta e olhava para fora quando decidiu esticar o bra�o para oferecer a m�o � mo�a, que a agarrou depressa. Foi um gesto estranho o dele, igualmente duro, o corpo de frente, s� o bra�o para tr�s e a cabe�a entortada, com os olhos fitos na pr�pria m�o estendida. Ela sorriu nervosa, como que agradecendo uma merc�. Foram-se assim pela esta��o afora, deixando sozinhos o velho e seus pensamentos. O trem retomou a sua marcha e as arvores tornaram a passar correndo pela janela em frente. Ele agora estava triste. Pensamentos conflitantes se confundiam, mas de s�bito deu-lhe um estalo e ele encontrou a palavra que buscava com sofreguid�o havia pouco tempo: - Ah... � amor! Amor! Contudo, a despeito da vit�ria que alcan�ara em sua busca, a sombra de tristeza tornou a perpassar seus olhos cansados. Chegou a sua esta��o e ele desceu, devagar. Uma vez fora, vendo o trem zarpar de novo, confortou-se com a id�ia de que apesar de numa circunscri��o bastante limitada, sua batalha por aquilo que fazia falta ao mundo fora recompensada. Ele vira o fruto de seu trabalho, de seu suor. Sorriu, ent�o. N�o era o melhor consolo, mas era um. Marco Aur�lio Brasil Lima |
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