As primeiras coisas
cap�tulo final
As chances
Bruna olhava o motorista que guiava o carro com as duas m�os sobre o volante, bastante teso. Sentada no banco de tr�s, tendo ao lado a bolsa e sobre o colo o fich�rio, desviava a vista daquele homem que havia acabado de conhecer para as cal�adas de Higien�polis com a mesma desaten��o. Repetia em pensamento as palavras do m�dico:

- Parece que voc� vai ter outra chance.

Riu. Ele havia feito de tudo para convenc�-la de que n�o havia corrido real risco de vida, mas acabou por se desmentir com aquele suspiro distra�do.

Ele deu mil outras recomenda��es, que deixou para a m�e ouvir, porque ela voltava sempre � cena do carro, o abafamento, o torpor, o escurecimento. Voltava �quelas sensa��es seguidamente. Nunca seu p�nico fora maior e mais ainda porque nos �ltimos tempos vinha se sentindo t�o bem, chegava mesmo a alimentar uma inconfessada expectativa... a formatura...

A palavra chance ecoava desprendida de todo o resto, suspensa e liberta, n�o s� de outras palavras como de significados tamb�m. Chance. Um fonema bobo, nonsense, algo que grudara e n�o sa�a de sua cabe�a, como uma melodia.

- � aqui, senhorita? o motorista perguntou, estancando-lhe s�bito a marcha em c�rculos da palavra chance.

O carro estava parado em frente ao port�o da Universidade Despertando, ela respondeu j� abrindo a porta:

- Ah, sim. Aqui j� est� bom... � ia falar o nome do homem, mas deu-se conta que havia esquecido.

- Como eu vou saber que horas tenho de vir buscar a senhorita?

- Eu ligo l� pra casa � ela disse e saiu do carro fechando a porta. Teria sido melhor descer em frente ao port�o de baixo, que era mais pr�ximo da faculdade de Direito, mas ela deu de ombros. Tinha tempo at� a prova e a dist�ncia n�o era assim t�o maior.

Come�ou a andar devagar, com cuidado, deixando as pessoas a ultrapassarem e tentando voltar ao curso de seus pensamentos anteriores, mas passou por ela um rapaz magro de cabe�a raspada com um disc-man em volume muito alto e m�sica dan�ante a distraiu. "Como algu�m pode ouvir um neg�cio desses, num volume desses, dentro da orelha, logo de manh�?" ela se perguntou, divertida.

Foi assim que algo aconteceu. Ao levantar os olhos viu saindo da capela um rapaz com um sorriso t�o radioso que n�o p�de deixar de se contaminar por ele. Era um rapaz, muito novo ainda, tinha jeito de aluno e sa�a da capela feliz. Era isso. Seus olhos se cruzaram por um instante � um instante curto e longo. Bruna sentiu alguma coisa l� dentro dela estalar.

Ela continuou descendo, e em frente ao banco dobrou � esquerda, na dire��o de seu pr�dio.

Havia visto um rapaz, um rapaz normal, saindo da capela numa manh� de sexta-feira com o rosto iluminado, como se dentro dele flu�sse um rio de paz, como se ele tivesse acabado de falar com Deus. Sentiu como Li�vin, o seu personagem predileto do seu livro predileto, Ana Karenina, de Liev Tolstoi, ao ouvir de um simples campon�s um enorme discurso em uma simples frase: Gra�as a Deus. O sorriso e o olhar do rapaz era um discurso desses: crer, sem malabarismos te�ricos ou
ret�ricos, mas crer. Crer sem maiores milagres do que este mesmo, o de crer. Como havia acontecido com o rapaz. Como acontecia com ela agora, enquanto pisava com cuidado as pedras do passeio, por entre as pra�as arborizadas da universidade, sentindo andar n�o mais em um
caminho para lugar algum em solid�o perp�tua, mas um caminho certo, tra�ado por m�os perfeitas, que pousavam suavemente sobre seu ombro, ali, ela podia sentir se se esfor�asse.

A cada passo um peda�o de rio se derramava dentro dela e corria mel�fluo, corria sereno. Sorriu. H� poucos dias ela se dizia: "eu apenas sorrio". Sorria mais forte agora, por constatar que melhor era sorrir tendo um grande motivo.

Subiu as escadas, entrou na sala de aula cumprimentando os colegas que estudavam para a prova cheios de nervosismo e sentou-se ao lado da janela. Suas amigas correram para perguntar como estava, o que havia acontecido nos dias anteriores, por que ela havia perdido as provas, mas ela queria falar de outra coisa.

- Acho que eu quero fazer parte da comiss�o de formatura. Conhe�o um lugar perfeito pra cola��o. Sabe, o anfiteatro do Anhembi t� ultrapassado e a gente n�o precisa de tanto espa�o...

Suas amigas a olhavam com espanto, mas foi ela mesma quem se interrompeu para observar algumas abelhas que constru�am sua casa no cimo da janela, em sim�tricos e revezados v�os.

Desistiram de entender ante tamanho sorriso, mas mais tarde haveriam de entender.



F I M
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