As primeiras coisas
cap�tulo 12
As primeiras coisas
No dia seguinte, Everton saiu da prova j� sem se lembrar dela. Sorriu para colegas e saiu do pr�dio subindo a pequena colina pela frente da Lanchonete Central e da ag�ncia banc�ria. Parou em frente � pequena capela, hesitando um pouco. Por fim decidiu-se a continuar com as
id�ias que gestara na sua noite, sozinho em casa, e entrou.

Havia umas quinze fileiras de bancos de madeira compridos, com corredores no centro e nas duas extremidades do recinto. Na frente, um piano de cauda brilhava em sil�ncio, um p�lpito de madeira bastante simples e um �rg�o coberto.

Everton encaminhou-se at� o quarto banco e sentou-se � ponta dele bastante rijo, sem saber bem que atitude tomar. Nas costas de cada banco havia uma prateleira com B�blias e exemplares de O Cantor Crist�o dispostos alternadamente. Everton levantou a m�o para pegar
uma B�blia mas a recolheu e guardou no bolso. Olhou em redor desconcertado, tirou a m�o do bolso e a espalmou junto � outra, entrela�ando os dedos � maneira que fazia quando era menino e ia com o av� � igreja. Tentou fechar os olhos mas sentiu-se rid�culo e soltou as m�os sobre o colo.

Permaneceu assim alguns instantes, curvo e im�vel, mas cobrou �nimo e de s�bito colocou-se de joelhos abaixou a cabe�a e fechou os olhos. Percorreu-lhe a espinha uma sensa��o de familiaridade, j� havia passado por aquilo, sentia na boca o gosto daqueles momentos distantes. Essa sensa��o deu lugar ent�o a um conflito: o que deveria pedir? Seria certo pedir um milagre? Se n�o, o qu�?

Sem abrir a boca come�ou a contar �quele Deus cuja exist�ncia fizera de tudo para ignorar, at� ali, o seu dilema. Depois de o expor sentiu-se melhor e passou a falar o quanto m�e era importante para ele. Relembrou momentos que sua mem�ria despejava ante seus olhos. Disse o quanto sofreria se fosse privado da companhia dela. N�o escolhia palavras, ia falando e � medida que falava sentia nascer em si a esperan�a, que n�o era muito diferente de uma certeza de estar sendo ouvido. Falava e ia percebendo coisas e as agradecia e continuava falando e outras coisas se lhe descortinavam.

Everton descobriu que aquele "algo no olho do homem que n�o pertence � ess�ncia das coisas que perecem", a respeito do qual lera em Abdias, est� muito pr�ximo do brilho que fulgurava nos olhos do av�, que estava certo da ressurrei��o e do reencontro.

Decorridos vinte minutos sentou-se outra vez, com o cora��o aquecido. Abriu uma B�blia ao acaso. Deu com o Apocalipse, l� nas �ltimas p�ginas, como se quisesse conhecer o fim da hist�ria logo de uma vez: "E vi um novo c�u e uma nova terra. Porque j� o primeiro c�u e a
primeira terra passaram, e o mar j� n�o existe." Mais � frente: "Eis aqui o tabern�culo de Deus com os homens, pois com eles habitar�, e eles ser�o o seu povo, e o mesmo Deus estar� com eles, e ser� o seu Deus. E Deus limpar� de seus olhos toda a l�grima; e n�o haver� mais
morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque as primeiras coisas s�o passadas."

Ele fechou o livro com cuidado e o colocou de volta no apoio.

- Eu n�o preciso de um milagre � sua voz rasgou o sil�ncio.

O milagre j� havia acontecido. Sentindo os olhos abertos para o ver, Everton se levantou, pois tinha pressa de encontrar a m�e no curto hor�rio de visitas a que tinha direito. Tinha o que lhe falar.

Quando saiu da capela tinha no rosto um sorriso t�o radiante que parecia iluminar a escurid�o daquele inverno que j� expirava. Ele teve vontade de olhar cada pessoa nos olhos, comunicar o inexprim�vel sem nenhuma palavra. Fixou um rapaz de cabe�a raspada que passava com
um fone de ouvido, mas ele n�o reparou em Everton. Olhou duas garotas que andavam devagar; uma delas at� olhou para ele, mas desviou os olhos em seguida, continuando a conversar com a amiga. Olhou uma mo�a de tez p�lida que vinha atr�s, com longos cabelos negros presos na nuca, abra�ada a um fich�rio. Ela olhou para ele com grandes e bonitos olhos amendoados um pouco surpresos, um pouco expectantes.

Aquela mesma luz ele levou consigo por todo o trajeto naquele dia, espantando o negrume e seus acess�rios como solid�o, medo e ang�stia de sobre si. Poder�amos dizer que aquela mesma luz ele levou a tantos outros lugares pelos anos que seguiram, o que equivaleria dizer que ele foi feliz para sempre. Ele e sua luz.
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