| As primeiras coisas cap�tulo 11 |
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| A ess�ncia das coisas que n�o perecem | |||||||||||||||||
| Everton saiu da sala cabisbaixo, mas ao ver aos colegas do lado de fora rindo enquanto comentavam a prova, assumiu um sorrisinho seguro. - Como foi? perguntou um deles. Como poderia ter sido, depois do que acontecera na v�spera? Muito mal, � claro. - Tranq�ilo � respondeu � Qualquer acidente de percurso a gente recupera depois. E seguiu por entre o grupo, ganhou as escadas e as desceu vagarosamente, tornando a adquirir a express�o pensativa de antes. Transp�s a porta e parou um instante ao lado de outro colega, que do parapeito da entrada do pr�dio da Escola de Engenharia observava o movimento com um cigarro pendurado no canto da boca. Ao ver Everton, perguntou tamb�m: - E a�? Foi bem? - A contento � respondeu pousando na mureta as apostilas e o estojo da calculadora que carregava. A fuma�a do cigarro do colega, levada pelo vento, circundou Everton, que n�o p�de conter um gesto de repulsa. Fingindo n�o ter visto, o outro perscrutou os c�us e comentou: - Parece que o c�u vai desabar. Veio de carro? - N�o � Everton tamb�m olhou o c�u, que anunciava chuva iminente � � melhor eu ir logo se n�o s� chego em casa de barco. Desceu os �ltimos lances da escadaria do pr�dio e tomou a dire��o do port�o. N�o havia ainda dado trinta passos quando grossas gotas de chuva come�aram a cair. Principiou a correr, mas lembrando que a m�e estava no hospital, que as visitas estavam restritas a uma pessoa, sendo que sua irm� havia se prontificado a ser essa pessoa no primeiro dia e que, conseq�entemente, n�o havia pressa de chegar em casa, entrou na biblioteca disposto a esperar o fim da chuva. Como os jornais do dia estivessem todos ocupados, deixou a carteirinha no balc�o e subiu ao primeiro patamar, olhando as bordas dos livros sem saber exatamente o que buscava. Biologia, Qu�mica, Literatura, francesa, depois italiana, inglesa e por fim brasileira. O corredor havia acabado e nada lhe chamara a aten��o. Apoiou-se ao parapeito de madeira e ficou algum tempo observando a f�ria da borrasca que se sacudia a cidade, pela grande janela. Aquilo n�o acabaria t�o cedo. Voltou-se, ent�o, para as prateleiras dos livros e resolveu pegar um que fosse pequeno e do qual nunca tivesse ouvido falar. Abdias, de Cyro dos Anjos. Lembrou dum moleque que empinava pipa com ele e que se chamava Abdias. Em nome dos bons, tempos, desceu co mele, deixou a ficha da biblioteca sobre o balc�o, junto de sua carteirinha e sentou-se o mais aconchegadamente que p�de em uma cadeira em uma das cadeiras de madeira dispostas atr�s das grossas pilastras. O come�o da hist�ria do professor de literatura que come�a a dar aulas num aristocr�tico col�gio para mo�as na Belo Horizonte dos anos 30 foi meio sonolento. Lia r�pido, contudo. Passadas cerca de vinte p�ginas, deparou-se com um trecho curioso, que dizia: "Aos dezesseis anos, todas as paisagens s�o belas, ou melhor, nem h� paisagens. Somos ricos de tudo, e de tudo temos provis�o que baste para suprir as coisas daquilo que lhes falta, segundo o nosso deleite..." Ao lado, nas bordas da p�gina, Everton leu numa cuidadosa e inclinada caligrafia, escrita a l�pis: "Segundo Machado de Assis, aos dezesseis (ou ser� aos quinze?) tudo � infinito. Completo: aos vinte, chocamo-nos com o finito." Esse vest�gio de que vida inteligente passara por ali, animou Everton a continuar a leitura. Pouco mais adiante, achou outra interven��o daquela leitora (a caligrafia n�o deixava d�vidas) espirituosa. O livro dizia: "A mo�a resumiu para mim, naquele momento, todas as antigas namoradas, e sua casa representou os misteriosos pal�cios que as escondiam. � poss�vel que a amada seja uma s� e apenas exista em nosso esp�rito. Nela se encarnar�o transitoriamente formas femininas que se assemelham, mas essas formas passam, fugazes, e a amada permanece id�ntica a si mesma, dentro de n�s, fora do tempo." Ao lado estava anotado: "Somos ego�stas, eis tudo. Pobre C�lio. Mas pobre de mim." Anota��es como aquela foram se multiplicando pelas p�ginas seguintes. O enredo do romance tamb�m come�ou a mostrar-se rico e magn�tico, o bastante par instigar um coment�rio ora espirituoso, ora melanc�lico, e Everton esqueceu o mundo ao redor. Queria logo virar do avesso aquela hist�ria narrada com tanta maestria, mas tamb�m localizar pistas e vest�gios da leitora que o havia precedido. Cyro dos Anjos dizia, em certo ponto: "O amor � uma forma de loucura e, como a loucura, tem alternativas; agrava-se subitamente hoje, amanh� se atenua sem sabermos por qu�." E ao lado se lia: "Ora, e eu sempre fui muito s�bria. Minha sobriedade me constrange!" Everton riu da forma como dizia algo t�o triste com tanta gra�a. N�o amava, pois? Abdias escrevia em seu di�rio: "N�o era uma tristeza semelhante � da v�spera, que proviera do malogro da esperan�a de ver a jovem amiga. Era um sentimento diferente, an�logo, talvez, ao que nos desperta uma bela paisagem. Queremos fix�-la, aprision�-la dentro de n�s, como a crian�a aprisiona na sua rede, a borboleta. Queremos assenhorear-nos das coisas: mas a paisagem se desenha no espa�o infinito e se comp�e de imponder�veis de luz. N�s morreremos, e ela permanecer�, porque participa da natureza daquilo que vem desde o come�o dos tempos." E, a l�pis: "N�s morreremos. E n�o s� as coisas que est�o a� desde o come�o do tempo permanecer�o mesquinharias da �ltima metade do s�culo XX tamb�m." E, mais embaixo, um pouco espremido contra o canto da p�gina: "eu quis me assenhorear de um ou dois momentos. Ilus�o." E essa �ltima palavra estava separada, bem ao lado da frase do livro que dizia: "Porque as coisas belas me entristecem." Sua m�e n�o teria dito melhor. Everton continuou a leitura sensibilizado pela hist�ria e pelos ind�cios de que n�o fora o �nico e assim foi avan�ando na tarde, sem fome e sem cansa�o. A chuva arrefeceu, tornou-se um chuvisco ininterrupto, mas ele n�o percebeu. L� pelas tantas, uma personagem do livro falecia e ele chorou com o protagonista, como se antecipasse a morte da pr�pria m�e, agora evidentemente t�o pr�xima. Preocupado com n�o chamar a aten��o de ningu�m, enterrou a cabe�a no livro e leu, na p�gina seguinte: "Conquanto vejamos a morte em todas as coisas, ela permanece incompreens�vel, para n�s, quando atinge o ser humano e especialmente a criatura que amamos, porque h�, no olhar do homem, algo que n�o pertence � ess�ncia das coisas que perecem." Ele percebeu que ao lado havia algo escrito a l�pis, mas antes de ler gastou alguns momentos remoendo as palavras de Cyro dos Anjos. Com um profundo suspiro tornou �s p�ginas amarelas do livro e viu o que sua desconhecida predecessora havia anotado: "Incompreens�vel, inaceit�vel, inconform�vel, intoler�vel... Mas, que `algo' � esse? N�o consigo descobrir, por mais que busque, e vendo t�o ingentes esfor�os darem em nada eu desanimo e entrego os pontos e caio no ch�o e descreio. Acaba sendo tudo morte, mesmo." Imediatamente Everton tirou de seu bolso uma caneta e escreveu com for�a um enorme N�O! embaixo daquelas palavras, os olhos injetados, a respira��o pesada. Ficou olhando aquele di�logo entre ausentes e deu-se conta de que as violentas emo��es dos �ltimos dias estavam causando efeitos al�m do que seria saud�vel. N�o era hora de se deixar arrebatar, porque os pr�ximos dias poderiam reservar mais emo��es, mais viol�ncia. Espregui�ou-se, olhou a noite que j� caia do lado de fora e entregou-se � leitura das �ltimas trinta p�ginas do fant�stico livro que tinha nas m�os sentindo o cansa�o mental contrapor-se ao estranho refrig�rio espiritual que lhe tinha tomado conta. Tomou a chuva no rosto com prazer. Na mente, o par�grafo sobre a morte, que havia decorado, passeava � cata de compreens�o plena. Na casa vazia, banhou-se, comeu com voracidade e deitou sem conseguir apagar a n�tida sensa��o de que devia ainda naquela noite descobrir algo sumamente importante, e que os elementos par a descoberta os tinha todos bem � m�o. Assim, adormeceu. |
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