| As primeiras coisas cap�tulo 9 |
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| Tinta | ||||||||||||||||||
| Em estado de semi-sonol�ncia, Everton meio que sonha, meio que recorda, meio que inventa. Primeiro uma janela muito aberta, por onde o sol entra a jorros, fazendo dan�ar no ar aquelas fugidias part�culas brilhantes de poeira. Ele passa a m�o por entre elas, tenta agarrar uma, n�o consegue, perde a paci�ncia, chacoalha tudo e v� a fren�tica movimenta��o que num momento volta a ser vagarosa, uma calma flutuante. Todas as namoradas come�am a desfilar � sua frente. K�tia, Simone, a bela e burra Fl�via, M�rcia, aquela do relacionamento rel�mpago, outras que s� desejou, algumas que desprezou e depois se arrependeu e as que s� ocuparam seu pensamento por uns poucos dias ou horas. Uma bonita prociss�o de rostos femininos, desigual, mas vibrante, misturando no peito do rapaz sensa��es nost�lgicas, prazenteiras, com outras tristes e lastim�veis. Falhas na comunica��o, desencontros. Ou simplesmente desencanto. M�ltiplas sensa��es mel�fluas a deslizarem-lhe pelas cordas da inconsci�ncia. Enfim, a aten��o se fixa, por entre flutuantes gr�nulos de poeira ensolarados, em Simone. Ele pede desculpas ainda uma vez, ela lhe vira as costas. Ele olha de novo, percebe que ela est� chorando. Ele se rebela contra o tom amargo que at� seu sonho insiste em assumir. Corre, alcan�a Simone, pede, suplica mas ela chora e vira as costas, vira as costas e chora. S�bito sua imagem se desfaz. No lugar dela a m�e, de faces coradas cortadas por um largo sorriso, na outra ponta de uma gangorra. Ele ri, a v� contra o c�u azul, contra as nuvens brancas, depois a v� contra a grama, subindo e descendo, ele gargalha. Agora est� ao lado dela, de m�os dadas, esperando para atravessar a avenida no centro velho de S�o Paulo. Ele olha os pr�dios velhos com curiosidade. A m�e percebe e diz: - Tudo muito cinza, n�o � filhinho? � verdade! A falta de cor agora salta aos olhos. - Vai chegar um dia que a vida vai estar assim. Agora, quando tudo � colorido, voc� tem que armazenar nalgum cantinho a� � toca no peito do menino � a tinta pra pintar esse cinza horr�vel. Entendeu? Ele n�o entendeu. Viu um homem de camiseta p�lo e cal�as jeans chegando da rua com um saco de balas, um olhar alheio, e nada de car�cias, sequer palavras. Isso faz muito tempo � pensou. Numa pequena igreja um homem falava de forma serena sobre o livro do Apocalipse. Repetia tanto a palavra que Everton jamais seria capaz de esquec�-la. Ele descrevia um lugar que estava pintado l�, um lugar que deveria ser t�o lindo que fazia o av�, ao seu lado, chorar sorrindo. - O que tem nesse lugar? Everton pergunta. - Pessoas � o av� responde num sorriso. Segurou a m�o do velhinho e encostou a cabe�a em seu ombro. Fim do sonho-mem�ria. No colo, um livro aberto, adormec�ra na leitura. Esfregou os olhos com as costas das m�os e espregui�ou deixando cair o livro no ch�o. As v�vidas impress�es das imagens que acabara de ver ainda latejavam na mente, mas um resfolegar profundo ao seu lado o trouxe com viol�ncia para a realidade. - M�e! Gritou ao notar que n�o estava tudo bem. A mulher n�o respondeu. Seus olhos semi-cerrados deixavam entrever uma linha branca, a boca aberta parecia procurar ar. Ele pegou sua m�o, gritou mais uma, duas, tr�s vezes e vendo que nada acontecia ia levantar-se quando a irm� entrou correndo no quarto. - Que foi? Sentou-se no banco de tr�s do Fusca com a m�e nos bra�os, e olhando para seu rosto desfigurado chorava convulsivamente. A irm� dirigia o mais r�pido que podia, assustada demais para chorar. N�o entendeu quando ouviu Everton dizer, atr�s de si: - Minha tinta colorida t� no finzinho, m�e! E voc� ainda tem tanta! |
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