Prof. Dr. Wagner André Pedro

Departamento de Apoio, Produção e Saúde Animal Curso de Medicina Veterinária – UNESP

Araçatuba – SP

Resumo de palestra proferida na XI RAIB, no Instituto Biológico

MORCEGOS NA ÁREA URBANA

Os morcegos constituem um grupo de mamíferos voadores de rica diversidade em espécies, e de hábitos alimentares variados. No Brasil são conhecidas 147 espécies, das quais 69 ocorrem no Estado de São Paulo (W.A.PEDRO, 1998).

Embora desempenhem importantes "serviços ecossistêmicos", como a regulação populacional de insetos noturnos, a dispersão de sementes de centenas de espécies vegetais, e a polinização das flores de outras tantas, em algumas situações os morcegos têm se constituído em problemas associados a saúde pública e ao desenvolvimento da pecuária nas Américas.

Nos Estados Unidos os morcegos são os principais transmissores da raiva para seres humanos (HUNT & BHATNAGAR, 1997); no Brasil, ocupam o segundo lugar (TAKAOKA, 1996). Em relação a pecuária estima-se que, no Brasil, 42 milhões de cabeças de gado estão sob risco decorrente da possibilidade de surtos de raiva, associados aos morcegos hematófagos (TADDEI et al., 1991).

Além da raiva, a histoplasmose representa outro problema de saúde pública associado aos quirópteros. Causada pelo fungo Histoplasma capsulatum, cujos esporos se desenvolvem nas fezes dos morcegos, pode acarretar uma micose profunda nos seres humanos, comprometendo orgãos importantes como os pulmões (TADDEI, 1983).

Algumas espécies de morcegos têm se beneficiado das ações antrópicas (FENTON, 1997). As habitações construídas pelo homem, bem como túneis e pontes, oferecem oportunidades de abrigos. A iluminação artificial das cidades, que atrai insetos noturnos, e o plantio de árvores frutíferas, oferecem oportunidades de alimentação. No Brasil, e com ênfase para o Estado de São Paulo, podem ser destacadas, nesse contexto, espécies pertencentes as famílias Phyllostomidae, Vespertilionidae e Molossidae.

Os morcegos pertencentes à família Phyllostomidae caracterizam-se, em geral, por apresentarem um apêndice nasal em forma de folha triangular. Nesse grupo estão incluídas espécies frugívoras e nectarívoras, além de espécies insetívoras, carnívoras, folívoras, sanguívoras e onívoras. As frugívoras, comuns em áreas urbanas e rurais de municípios do Estado de São Paulo, em geral são Carollia perspicillata, Platyrrhinus lineatus e Artibeus lituratus. Nas cidades essas espécies são atraídas e mantidas por frutos de embaúbas, figueiras e sete-copas, entre outras árvores frutíferas. As nectarívoras pertencem as espécies Glossophaga soricina e Anoura caudifer, sendo atraídas e mantidas pelo néctar e pólen de flores do açoita-cavalo, unha-de-vaca, jatobá e pequi, entre muitas outras.

Os Vespertilionidae distinguem-se por apresentar a membrana entre os membros posteriores, chamada de uropatágio, em forma de "V". São de hábito insetívoro, em sua grande maioria. As espécies dos gêneros Myotis, Eptesicus e Histiotus são comuns em cidades brasileiras, podendo viver em folhas velhas de palmeiras.

Os morcegos pertencentes à família Molossidae caracterizam-se por apresentar a cauda livre, sendo de hábito alimentar insetívoro. É muito comum abrigarem-se em forros de casas, e nos vãos de edifícios, nas áreas urbanas. Destacam-se, nesses casos, espécies pertencentes aos gêneros Molossus e Eumops.

A mitigação dos problemas causados pelos morcegos, em áreas urbanas, a meu ver poderá ser decorrente de processos atuando em três diferentes níveis: (1) de um programa de educação ambiental, abrangente, a ser aplicado em escolas de primeiro e segundo graus, conscientizando a população jovem da importância ecológica dos morcegos, e portanto, de sua preservação, e alertando para os perigos associados ao contato com os mesmos; (2) de um programa efetivo de controle da raiva rural e urbana, com campanhas eficientes de vacinação de animais domésticos, e monitoramento das populações de morcegos nessas áreas, com ênfase às populações do morcego-vampiro-comum, Desmodus rotundus.; (3) de programas paisagísticos municipais, que privilegiem o plantio de árvores que não constituam fonte de alimento ou de abrigo aos morcegos e, paralelamente, sejam apoiadas iniciativas de criação de parques e reservas, visando a conservação dos quirópteros, bem como do restante da fauna local. Além disso, nas reuniões de grupos de especialistas em morcegos e de saúde pública, têm sido incrementada a participação de engenheiros e arquitetos, visando uma conscientização da importância em se considerar, no planejamento das habitações, as condições de acessibilidade a morcegos e outros animais.

A efetiva participação de orgãos públicos e da comunidade, nesses três níveis, educacional, de saúde pública, e de arquitetura e urbanismo, possibilitará uma coexistência mais harmoniosa entre as pessoas e os morcegos.

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