Roda-Mundo 

 Jo�o C�ndido Tessar

Era j� noitinha quando Roda-Mundo veio ver o mundo da janela de seu quarto. Seu quarto estava claro. Clar�ssimo. Mas, l� fora, tudo estava t�o barulhento, t�o escuro... As vozes pareciam, a malquerer, desgrudar-se das laringes... Existia todo um fisiologismo das palavras que escorriam pelos ladrilhos, pelas valas, pelas cal�adas e vinham devagar algumas, mais depressa outras alojar-se bem dentro do seu ouvido.

As palavras vinham, era o que parecia, debandadas. Vinham numa cad�ncia r�tmica desajustada... Na verdade, uma confus�o. Chegava-lhe um �oi� simples, �s vezes murcho, sem cor, sem entusiasmo, sem brilho e at� mesmo sem som. Depois lhe chegava um �boa noite� pobre, reles, med�ocre, sem prop�sito.

Aproximavam-se, por vezes, uns sussurros, uns gemidos e Roda-Mundo se animava. Logo depois vinha outro som mais fraco, menos sugestivo e Roda-Mundo se entediava. Ali, pr�ximo a sua casa, a capelinha do bairro estava em festa. Podia escutar o p�roco catequizando as almas de seus vizinhos.

Aos poucos lhe vinha acudir um �Jesus est� voltando�. Adiante um �Ave-Maria cheia de gra�a�. Era noite de plenil�nio. Roda-Mundo parecia cochilar de p�, escutando os sons... Vendo a lua cheia aparecer e desaparecer... Vindo mais para baixo e depois subindo r�pido, na velocidade da luz.

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