Novelo de L� 

A Dem�trio Fabiano Caluete

 Jo�o C�ndido Tessar

    Eu estava morto h� tr�s meses, e por fim, tornei a vida numa manh� de domingo. O sol tinha o mesmo brilho, os p�ssaros cantavam da mesma forma, mam�e ainda dormia, e era costume seu acordar depois das nove.

    Minha cama estava do mesmo modo, desfeita. H� tr�s meses que n�o se tocava em nenhum m�vel l� em casa. A poeira sobrava aos m�veis. O filtro de barro quebrou-se. A pia era um sebo s�. O banheiro desmantelado por completo. E meus sobrinhos n�o cresceram. Murcharam, tornaram-se cretinos.

    Levantei-me com passos lentos sem mesmo saber onde estava. A cama era de hospital p�blico. O cheiro de �ter espalhava-se por todo o local. Minha cabe�a... Minha cabe�a n�o sabia onde estava. Morri no passado, e para renascer n�o fiz parada no presente. Estou de volta. Mas n�o compreendo o futuro.

    No corredor de minha casa uma velha banguela antepusera-se em minha frente. Tentei falar. N�o houve comunica��o. Minha l�ngua era um novelo de l�. Cada palavra que eu pronunciava contorcia-me todo, e um gozo enorme deixava-se ver em meu rosto. A velha n�o me compreendia. Minha l�ngua era um novelo de l�.

    Um novelo de l�. Tentei cortar minha l�ngua. Fui para frente do espelho e minha imagem n�o refletia. Eu n�o tinha imagem. Corri pelos corredores da casa, e a velha banguela acompanhava-me querendo me dizer algo que eu n�o podia compreender.

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