MITOLOGIA INFANTIL

 Jo�o C�ndido Tessar

    Outro dia eu estava sentando numa ponta de meio fio de fronte a minha casa sem ter muito que fazer. Anoitecia, mansamente. Barulho de crian�as chorando. Cachorros latindo. Mulheres gritando por seus filhos. B�bados cantando. E um barulho so�obrava-me aos ouvidos como se fosse chuva batendo na calha.

    Estava ali pensando no que escrever. Pensei em escrever sobre a dualidade religiosa dos Persas antigos. Ou, talvez, escrevesse  sobre as mulheres �rabes. Pensei em escrever tamb�m sobre a verticaliza��o na orla mar�tima. Quando j� ia decidido a escrever sobre uma dessas coisas o filho de um vizinho meu veio sentar-se, de igual modo, a mim, na ponta do meio fio da cal�ada de sua resid�ncia.

    Fiquei ali olhando o garoto magrinho. Ele me olhava e baixava a cabe�a com muita timidez. N�o nos conhec�amos muito. Verdade que eu era muito amigo do seu pai, o Zeca da borracharia. Foi, ent�o, que tive a id�ia de cham�-lo para conversar.

    O moleque se aproximou de mim com um sorriso estampido na cara. Sentou-se junto a mim, pegou de um graveto na m�ozinha magra, e come�ou a garatujar algo de incompreens�vel. Perguntei, � certo, o que estava desenhando. Disse-me que n�o sabia ainda. Havia outro dia visto uns desenhos de um pintor famoso na televis�o e gostaria de desenhar t�o bem como o tal pintor.

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