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Indaguei-lhe o que gostaria de desenhar. Olhou-me como se compreendesse algo muito al�m do que eu pudesse compreender, e me respondeu que gostaria de desenhar cavalos de vento e formigas de �gua, a�udes de pedra e mares de tinta. E n�o parou por a�. Gostaria de desenhar mulheres de fogo e homens de vidro. Livros de barros e sentimentos de papel. Gostaria de desenhar a si pr�prio diferente do que era e do que imaginava ser. Fiquei meio abobalhado com o moleque. Imaginei que daria um �timo escritor. Tinha muita imagina��o. Depois me contou que gostaria de me desenhar. Perguntei como eu seria no seu desenho e, taxativamente, o moleque assim me desenhou. Olhos de papel�o, nariz de vento, boca de vidro, orelhas de pano, bra�os de �gua, pernas de barros, barriga de cera, e m�o de veludo. Depois perguntei como desenharia seu pai, e o moleque abriu um sorriso danado, como se quisesse dizer que eu era besta. Mas logo come�ou a desenhar seu pai. Rosto de graxa, corpo de pano, e os p�s em forma de rodas quebradas. Indaguei como desenharia o mundo. N�o titubeou. O mundo seria de bonecos de panos, e as casas de vento. Os bichos seriam de �gua e os autom�veis de seda. N�o desenhou o dinheiro. Nem desenhou o amor. N�o desenhou a felicidade, nem a tristeza. Mas no seu olhar de artista conseguia deixar se desenhar apenas dor. Depois se levantou e foi embora, fingindo sorrir, mas que no fundo, na sua compreens�o infantil, sabia existir somente dor. |