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Instrumento primeiro de alegria
Marina Colasanti O vocabul�rio da sa�de feminina est� cheio de palavras complicadas: tens�o pr�-menstrual, anorexia, climat�rio. Outras s�o aparentemente simples, mas escondem - toda mulher sabe disso - uma aura de mist�rio: gravidez, celulite, vaidade. Em comum, todas elas afligem, angustiam, causam d�vidas nem sempre f�ceis de resolver. No entanto, nunca a medicina esteve t�o preparada para responder esses questionamentos e p�r para funcionar a engenhosa e incr�vel m�quina que � o corpo da mulher. Claro, n�o h� como colocar a sa�de em dia se a alma n�o vai bem. O especial a que voc� tem acesso agora encara dois desafios: mostrar, em termos compreens�veis, os avan�os que ajudam a mulher a cuidar-se melhor. E sugerir pequenos h�bitos que, no fim das contas, resultam em grandes efeitos.
H�, no mundo, tr�s bilh�es de mulheres. S� oito s�o top models." Esse slogan da marca Body Shop, que foi surpreendentemente veiculado junto com uma esp�cie de Barbie loura e gorda, nos diz que existem dois corpos de mulher: um, real, cotidiano e comum � maioria; outro, idealizado e raro - um modelo. Mas seriam s� dois corpos, da mulher? Ou poder�amos subdividir nosso corpo em tantos outros corpos, um para cada inten��o do olhar que nos observa? Unas e fragmentadas, somos corpo-sedu��o, corpo-sexualidade, corpo-maternidade, corpo-est�tica, corpo-sa�de, corpo-religi�o, se � que n�o estou esquecendo algum. E cada corpo de que somos investidas assume o poder sobre os outros, assume o poder sobre n�s. "Nosso corpo nos pertence" gritamos um dia voltadas para o corpo-maternidade, sem perceber que o grito, visto no todo, era mais um desejo do que uma afirma��o. Nosso corpo, aquilo que acreditamos ser nosso mais concreto bem individual, n�o nos pertence de fato, e nunca nos pertenceu. � uma cria��o coletiva, moldada pelos interesses, pelas necessidades e pelos conhecimentos da comunidade. � uma entidade que, nascida para nos servir, cresce para servir tamb�m aos outros, para encaixar-se, o mais harmoniosamente poss�vel, no intrincado mosaico que constitui a sociedade. E � justamente na harmonia desse encaixe, mais do que na individualidade sonhada, que reside nosso bem-estar. O pre�o da ma�� Preocupa��es, ali�s, n�o tinha de esp�cie alguma. N�o precisava nem mesmo preocupar-se em seduzir Ad�o ou em mant�-lo. Eva nem sequer menstruava. Nada de c�licas ou TPM. Seu corpo era puramente natural, como uma palmeira. At� comer a ma�� (algo me diz que o gesto s� lhe foi tributado porque n�o deu certo. Tivesse sido um sucesso, atribu�am a Ad�o). Ent�o Deus a castigou, n�o apenas introduzindo no seu corpo as dores e a servid�o do parto, mas tomando dela esse corpo e entregando-o a quantos ela viesse a procriar povoando o mundo. Como o Visconde Medardo de Terralba dividido ao meio por um tiro de canh�o no romance de Italo Calvino, assim tamb�m fomos imediatamente divididas em duas pela maldi��o divina. De um lado a santa, do outro a pecadora. Quantas restri��es para o corpo da santa, que n�o podia mostrar-se, que n�o podia ter prazer, que existia s� para parir e amamentar. Quanto obrigat�rio prazer para o corpo da pecadora, que devia exibir-se, vender-se, evitar filhos, at� eventualmente pegar uma boa doen�a e abandonar qualquer dessas atividades para sempre. Mas assim como nos partiram, tamb�m nos emendavam. A virgindade foi a cola que durante s�culos fez de n�s um s� corpo, urna do sagrado. Virgens destinadas desde a inf�ncia aos templos ou aos conventos, fomos a prote��o da sociedade. "Em todos os lares crist�os � necess�rio que haja uma virgem, pois a salva��o da casa inteira est� nessa virgem. E quando a ira recair sobre toda a cidade, n�o recair� sobre a casa em que houver uma virgem", escreveu Eus�bio de Emesa no s�culo III. Do nosso corpo dispunham, para o bem e para o mal. No nosso corpo mandavam, para a abund�ncia ou para a conten��o: que par�ssemos muitos filhos quando a expans�o era necess�ria, que deix�ssemos de pari-los quando a expans�o era excessiva. O corpo que havia sido de Eva n�o era mais natural como uma palmeira, havia-se transformado num corpo social e a sociedade - dos homens - ditava as regras para ele. Ainda ditam, mas de maneira mais sutil. Tivemos primeiro que libertar nosso pensamento. Depois foi a palavra. E s� ent�o pudemos come�ar a libertar o corpo. Foi um longo processo.
Do inferno ao para�so Olhando os afrescos romanos daquele tempo poder�amos crer que nosso corpo continua o mesmo. Seria um equ�voco. Mudou sobretudo nossa rela��o com ele. Empurramos a morte para mais longe. Depois come�amos a empurrar para longe a velhice. Agora, tendo come�ado por ficar mais tempo velhos, estamos querendo ficar mais tempo jovens. Eternamente, se poss�vel. E nessa corrida pela manuten��o da juventude e da beleza as mulheres s�o as mais empenhadas. Um bom neg�cio, sem d�vida. Fornecemos beleza a longo prazo para o deleite de alheios olhos e pagamos por ela, movimentando o mercado com mais de US$ 20 bilh�es anuais para a ind�stria de cosm�ticos, 33 bilh�es para a ind�stria das dietas, e 300 milh�es para a cirurgia est�tica. Engasgado com isso ficaria S�o Cipriano, arcebispo de Carthoye, que em tempos bem distantes escreveu: "Cuidado, Deus pode vos lan�ar ao inferno por n�o vos reconhecer sob as m�scaras de pintura." Deus n�o nos lan�aria ao inferno. Ao inferno nos lan�amos n�s mesmas, sorridentes. Ao inferno das academias, dos regimes, da corrida, da bicicleta, do alongamento, dos halteres. Suamos mais do que se queimadas pelas chamas, para conquistar o para�so da forma f�sica, das n�degas r�gidas, das coxas sem celulite, do corpinho sarado. Ao contr�rio dos ascetas gregos para quem "muitos exerc�cios, muita comida e bebida, muita evacua��o dos intestinos e muita copula��o" eram "sinal de falta de refinamento", consideramos falta de refinamento fazer pouco ou nenhum exerc�cio. E embora concordemos com o resto, � em grande parte pensando na "copula��o" que mantemos um olho no espelho e outro na balan�a. Depois de tanta cis�o, a maioria das mulheres conseguiu emendar a santa e a pecadora. Nosso santo corpinho quer se exibir, e para isso o tratamos. A m�e de fam�lia conquistou o direito de usar biqu�ni, embora perdendo com isso o direito aos peitos ca�dos. Em parte gra�as a nossas hoje j� antigas reivindica��es, o mundo descobriu aquilo que de repente nos parece um ovo de Colombo, que sa�de e sexo andam juntos, para ambos os g�neros em igual medida. Que o corpo � nosso primeiro instrumento de alegria. E que amar � a forma mais gratificante de estar jovem. Tempo de mudan�a Na virada do mil�nio as mulheres j� est�o vivendo quase o dobro do que as suas av�s. Sua expectativa de vida atual � de 65 anos nos pa�ses subdesenvolvidos, segundo a Organiza��o das Na��es Unidas. Nos pa�ses ricos, a expectativa feminina de vida � 71 anos. No in�cio do s�culo, a maioria morria aos 34 anos, durante o parto ou pouco depois do nascimento do beb�, de hemorragia ou por infec��es. Mas cada avan�o importante da medicina, como a anestesia e os antibi�ticos, empurrou a vida um pouco mais � frente. Em 2050, prev�-se que as mulheres de pa�ses como o Brasil viver�o 86 anos e os homens, 82 anos. Mas h� um outro aspecto da longevidade - o acesso aos servi�os m�dicos e a qualidade desse atendimento - que poderia aumentar a expectativa de vida da brasileira. "Existe um fosso entre a tecnologia e a nossa realidade", diz o ginecologista Jos� Aristodemo Pinotti, chefe do Departamento de Obstetr�cia e Ginecologia do Hospital das Cl�nicas de S�o Paulo. Traduzindo: descobriu-se muita coisa sobre o corpo feminino e para ele foram criados muitos tratamentos, mas isso n�o significa a redu��o da morte em pa�ses como o Brasil, onde a sa�de n�o � prioridade. H� v�rios e tristes exemplos. Embora as formas para detec��o precoce do c�ncer de mama e do colo do �tero sejam bem conhecidas e a mortalidade diminua nos pa�ses desenvolvidos, no Brasil esse tipo de tumor se expande. Outra evid�ncia das dificuldades de atendimento � mortalidade materna - 30 vezes maior aqui do que nos pa�ses de Primeiro Mundo. Tamb�m � bastante reduzido o n�mero de brasileiras que usufrui dos benef�cios da terapia de reposi��o hormonal, trazida na d�cada de 80 e indicada para tratar os efeitos do climat�rio (per�odo que antecede a �ltima menstrua��o). Os tratamentos de infertilidade permanecem restritos a quem disp�e de recursos ou tempo para esperar na fila de um servi�o de refer�ncia. Pode-se, ent�o, concluir que as mulheres de alto poder aquisitivo s�o mais saud�veis. A afirmativa � parcialmente verdadeira porque h� outros complicadores. Muitas mulheres - pobres ou ricas - tamb�m deixam de se consultar por falta de informa��o ou pudor. O Papanicolau, exame para detectar c�ncer de colo do �tero, por exemplo, n�o � feito nem em 10% da popula��o feminina. Apesar de sombrio, h� sinais de que esse panorama pode ser mudado. J� existem mulheres que colocam o cuidado com a sa�de no topo das suas preocupa��es e procuram conhecer bem o pr�prio corpo. � o primeiro passo para que as mulheres, al�m de viver mais, vivam melhor.
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