| LUTA EM CUBA |
| Texto de Autoria de Che Guevara; foi publicado nas revistas cubanas Bohemia e Verde Olivo e posteriormente em livro. |
| "No dia 2 de dezembro desembarcamos em Cuba, num lugar chamado Belic, na praia das Colosadas. Fomos denunciados. Desembarcamos a toda pressa, com a avia��o inimiga a nos perseguir nos alagadi�os adentro. Nem bem hav�amos chegado, o ex�rcito da ditadura j� estava em nosso encal�o. Finalmente, depois de uma marcha exaustiva, chegamos a um posto chamado Alegr�a del P�o, na prov�ncia de Santa Cruz, munic�pio de Niquero, perto do cabo Cruz. Hav�amos perdido quase todo o nosso armamento no desastroso desembarque, bem como o arsenal m�dico e os alimentos. Um guia, campon�s da regi�o, nos traiu, entregando -nos aos soldados de Batista. Exaustos, mal pod�amos caminhar. Come�amos a ouvir o barulho de avi�es sobrevoando a regi�o. Todos os nosso homens tinham os p�s feridos pela caminhada e eu sofria muito com seguidas crises de asma. S�bito fomos atacados. Tiros de todos os lados. Um deles me atingiu. Pensei que ia morrer, vi cenas dram�ticas com meus companheirs feridos. Precis�vamos atingir o outro lado do canavial, onde deveria estar Fidel com outra tropa. Foi um esfor�o terr�vel, escapando das balas. Caminhamos at� que a noite nos impediu de avan�ar e resolvemos dormir todos juntos, amontoados, atacados pelos mosquitos, sofrendo pela sede e pela fome. Esse foi o nosso batismo de fogo no dia 5 de dezembro de 1956. Assim, come�ou a forjar -se o ex�rcito rebelde. De noite sa�mos caminhando na montanha, guiandos pela estrela polar. N�s nos orient�vamos para o leste, em dire��o � Sierra Maestra. Encontramos tr�s companheiros numa pequena praia (Camilo Cienfuegos, Pancho Gonz�les e Pablo Hurtado). Com eles �ramos oito, n�o t�nhamos not�cias de mais sobreviventes. Tudo o que sab�amos era que caminhando com o mar � nossa direita �amos para o leste, isto �, para Sierra Maestra, o lugar onde dev�amos nos refugiar. Depois de passar dias de muita fome e sede, acabamos por encontrar camponeses que nos alimentaram, mas depois nos denunciaram. Outros tornaram -se fi�is companheiros e mais tarde se incorporaram ao nosso partido. Por fim um campon�s nos disse saber onde encontrar Fidel. Nossa pequena tropa se apresentava sem uniformes e sem armamentos, j� que asa duas pistolas eram tudo o que t�nhamos conseguido salvar do desastre. A reprimenda de Fidel foi muito violenta: 'Voc�s n�o pagaram a falta que cometeram, porque abandonar fuzis, nessas circunst�ncias, s� se paga com a vida. A �nica esperan�a de sobreviver que tinham no caso de se defrontarem com o ex�rcito eram suas armas. Abandon� -las foi um crime e uma estupidez.' O ataque a um pequeno quartel situado na foz do rio La Plata, na Sierra Maestra, constituiu nossa primeira vit�ria e alcan�ou certa repercuss�o. Foi a prova de que o ex�rcito rebelde existia e estava disposto a lutar; e, para n�s, a reafirma��o das nossas possibilidades de triunfo final. Isso ocorreu no dia 14 de janeiro de 1957, pouco mais de um m�s depois da surpresa em Alegr�a del P�o. Nossa atitude para com os feridos contrastava sempre com a do ex�rcito, que n�o somente assassinava os nossos feridos como abandonava os seus. Esta diferen�a surtiu efeito com o tempo e se constitui num dos fatores do triunfo. Seguindo pelas encostas dos morros que bordejam o rio Infierno, chegamos a uma pequena abertura circular na montanha onde existiam duas cho�as camponesas. Fizemos ali nosso acampamento. Fidel cuidou de nossas defesas. Mas, na madrugada do dia 22, alguns soldados invadiram nosso espa�o e trocamos tiros. O combate foi de uma ferocidade extraordin�ria. Morreram quatro inimigos. Escapamos de mais um violento ataque dos avi�es de Batista e acabamos nos escondendo na mata. Logo estaremos completando, no dia 2 de fevereiro, dois meses do desembarque do Granma. Nos dias 27 e 28 de fevereiro implantou -se a censura em todo o pa�s. Pelas 4 horas da tarde, uma numerosa tropa de soldados, sem saber de nossa presen�a (num vale pr�ximo a La Marcedas, hoje La Majagua), caminhava nessa dire��o. Tivemos de fugir correndo. Mas eu estava tendo um forte ataque de asma. Todos escaparam, mas para mim foi muito dif�cil e doloroso. Crespo me dizia: 'Argentino de merda, tens de caminhar ou te levo a coronhadas.' T�nhamos um encontro marcado com Fidel na casa de Epifanio, caminho que poderia ter sido feito em 24 horas, mas n�o conseguimos. O encontro era em 5 de mar�o, mas s� chegamos l� no dia 11, em raz�o das minhas dificuldades. No dia 16 chegaram cinq�enta homens de refor�o, com algum armamento, mas todos despreparados para as marchas. Com cerca de oitenta homens, os rebeldes se dividiram em tr�s grupos, sob a dire��o geral de Fidel. Eu tinha a fun��o de m�dico num deles. A primeira quinzena de maio foi de marcha cont�nua. Est�vamos na crista de Sierra Maestra, pr�ximos do pico Turquino. Depois de longa espera, recebemos mais armamentos. A 31 de maio t�nhamos 127 homens, na maioria armados. Preparamo -nos, ent�o, por decis�o de Fidel, para tomar o quartel El Uvero, � beira - mar. Esse combate foi um dos mais sangrentos que travamos. A luta durou duas horas e quarenta e cinco minutos. Do nosso lado, morreram seis companheiros. E muitos feridos, sendo dezenove fora de combate. Entre governistas, dezenove feridos, catorze mortos, catorze prisoneiros. Um tenente, depois de atingido, levantou a bandeira branca da rendi��o. A partir desse combate nosso moral aumentou enormemente. A coluna vitoriosa partiu no dia seguinte e eu permaneci no quartel cuidando dos feridos. Em 12 de julho de 1957, surgiu um manifesto de apoio � luta guerrilheira e propondo a nova ordem pol�tica para Cuba. Foi publicado nos jornais. Essa declara��o, para n�s, n�o era mais que uma pequena pausa no caminho. Cumpria continuar a tarefa fundamental, que era a de derrotar no campo de batalha o ex�rcito opressor. Naqueles dias formava -se uma nova coluna, cuja dire��o era entregue a mim, com o posto de capit�o. A nomea��o foi muito simples. Ao escrever os nomes que iam fazer parte da coluna, na hora de especificar o meu posto Fidel ordenou: 'P�e comandante'. Desse modo informal e quase disfar�ado, fui nomeado comandante da Segunda Coluna do Ex�rcito Guerrilheiro, que posteriormente se chamaria N�mero 4. No dia 31 de julho, fizemos o ataque ao quartel de Bueycito, comandado por mim. Seguimos em caminh�es ceonseguidos com os camponeses que nos apoiavam. Houve um tiroteio r�pido, no qual perdemos o companheiro Pedro Rivero, com um tiro no peito. E mais alguns outros, com ferimentos leves. Queimamos o quartel, depois de tirar tudo o que nos podia ser �til, e fomos nos caminh�es, levando prisioneiro o sargento. Com o assassinato de Frank Pais, numa rua de Santiago, perdemos um dos mais valiosos lutadores, mas a rea��o a seu assassinato, com uma greve espont�nea em toda Cuba, demonstrou que novas for�as se incorporavam � luta e que crescia o esp�rito combativo do povo. |