Textos BelÁfrica

 

DE SEQUESTROS, RESGATES & HISTÓRIA

 

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

Laboratório Experimental de Psicologia
e Psicoterapia Fenomenológico Existencial.
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A epidemia de seqüestros, e resgates -- porque é esta: a questão do resgate, a questão central --, no Brasil, é impressionante. Endemia? Ganha cada vez mais ares de endemia, sim.

Mais impressionante, para quem se interessa, é a disposição social, mais especificamente cultural, que lhe secunda. Na verdade, que lhe serve de condição de possibilidade. Conhecemos muito pouco da constituição da sociedade e da cultura Brasileiras. Em particular daqueles estratos mais originais que, para bem e para mal, nos constituíram. Por isso, que são tão incompreensíveis alguns aspectos da realidade do país.

Conhecemos muito pouco do quanto somos, para bem e para mal, um país Africano. Um país de povo, e de elites -- em particular elites – Africanas; Africanas e africanizadas, no caso destas últimas. E, no caso dessas últimas, africanizadas na interface entre o mais rapace do colonialismo europeu e as culturas do deserto do Saara e do Norte da África, portadoras estas, sempre, de aspectos de cultura de saque e rapinagem. Em muitas dimensões como aspectos de culturas de sobrevivência, social e culturalmente funcionais no seu tempo e meio próprios.

Somos um país africano, evidentemente, assim, não apenas no sentido da africanidade dos povos e culturas de pele negra da África subssaariana, sudanesa, imigrados como cativos nos momentos iniciais da cultura e da sociedade brasileiras. Na verdade, esses foram as primeiras e ancestrais vítimas da monstruosa rapinagem colonialista. Primeiro, Fenícia, Grega, Romana, Indiana, Árabe e Judaica; Portuguesa, Espanhola, Magrebina e Norte Européia.

Não podemos pensar essas questões de modos maniqueístas e preconceituosos. Apenas darmo-nos conta da realidade histórica, ancorados na perspectiva da genericidade humana.

As culturas do Saara, e do Norte da África, e do Magreb, em particular, Berberes, Árabe-Berberes (de Moura chamada) e Árabes viviam, e vivem, em meios superlativamente inóspitos, como sabemos. Do Saara, são culturas que vivem no deserto durante o inverno. O verão torna a vida aí impossível. Nômades, se deslocam para as franjas meridionais do deserto, e, em particular, setentrionais – uma vez que mais ricas. Aí o saque e a rapinagem eram, e ainda são freqüentes. Frequentemente por questões de mera sobrevivência, agudizadas sempre quando de um verão mais rigoroso[i].

Fenícios, Gregos, Romanos, Árabes, Judeus, Portugueses, Espanhóis, Italianos, Franceses, Ingleses, Holandeses, Alemães, Belgas (...) sempre foram à África em busca de suas riquezas, desde sempre, desde os Fenícios, pelo menos; e, desde sempre, participaram do monumental saque da África, mais dramaticamente representado pelo milenar comércio de gente, pela preação, apresamento, e violenta transformação em cativos e escravos de enormes contingentes de um dos povos mais lindos e sábios da terra. Primeiro, para o rigorosamente horroroso tráfico transsaariano de cativos, para a escravidade, na Índia, nos países Árabes, e na Europa. Depois, o comércio transatlântico de gente cativa, para as Américas. Não podemos esquecer que deste comércio sempre participaram elites dos próprios povos de pele negra da África subssariana, que, de um modo importante, sempre realizaram a fase da produção desse comércio, perseguindo e preando aldeões indefesos, e transformando-os em cativos.

Uma questão importante é entender o quanto este nefando comércio de gente contribui culturalmente, em particular em países como o Brasil, para a deterioração do conceito e do valor da vida humanos.

Não se trata de revolver culpas e responsabilidades, supostas inocências, agravantes e atenuantes... Como observava Espinosa: Sou humano, e nada do que é humano me é estranho...

A verdade, não obstante, é que quando a sociedade e a cultura Brasileiras se constituem, elas se constituem no ápice da elaboração e do refinamento de um poder colonial rapinante, que, não raro conflitivamente, precisava se constituir elaborar-se e refinar-se, como condição de produção, e de manutenção, do fluxo de mercadorias do saque Africano. Poder colonial que elaborava elites rapinantes locais, no Norte da África, no Magreb, no Saara, e na própria África subssaariana; mas que se mantinha e emanava de suas fontes, em metrópoles Européias, em metrópoles do Oriente Médio, e da própria África. Exército e funcionários, todo um conjunto de populações a serviço do colonialismo e do saque colonial.

Um dos momentos mais marcantes de toda a história deste processo é quando o alucinado e desinformado D. Sebastião, Rei de Portugal, filho da Mãe Joanna**, resolve realizar o seu desvairado projeto de tornar-se senhor dos Mouros, e invade a África, o Marrocos, em 1578. O desastre é praticamente total, e todo o exército português, junto com um séqüito de nobres, eclesiásticos, cortesãos, e seus serviçais, é trucidado, ou aprisionado, nas areias de Alcacer el-Kebir no norte do Marrocos.

Os Marroquinos tinham então farto material. Uma vez que a indústria dos regates de europeus, muitos dos quais apreendidos nas incursões piratas do Mediterrâneo, a indústria dos seqüestros e resgates de europeus, era das mais prósperas no Magreb.

De modo que, liquidado o exército Português em Alcacer el-Kebir, morto D. Sebastião, os guerreiros Mouros disputavam avidamente a abundância de nobres, donzelas, eclesiásticos... que desavisadamente se encontravam no campo de batalha, seguindo, de modos mais ou menos forçados, o tresloucado Rei em sua empreitada fatídica.

Os resgates foram estabelecidos, e longos os trâmites de comunicação e negociação, até que pudessem ser devidamente saldados, e repatriados os que o puderam ser...

Bonvill[ii] descreve monumental, e instrutivamente (se nos permita citá-lo de modo um pouco extensivo, e ilustrativo):

A batalha de El-Ksar el-Kebir estava terminada. Em seis horas os Mouros conquistaram a vitória – eles chamaram a vitória de Wad el-Mekhazen –, a vitória que deixou a Europa atônita e alterou o curso da história em dois continentes.

As pesadas nuvens da batalha pairaram por sobre uma cena de indescritível horror e confusão, da qual as muitas centenas de não combatentes enlouquecidos eram o centro. (...) no campo de batalha de El-Ksar não havia escapatória, ou retaguarda por onde se pudesse fugir. À medida que os guerreiros caíam, a batalha foi se tornando cada vez ainda mais próxima. “Este exército”, escreveu uma testemunha ocular, “que chegou a ocupar cerca de três milhas de área, foi, em um momento, consumido pela espada, e pelo medo restringiu-se de tal forma, que uma pequena sala poderia contê-lo.”

As mulheres, padres, serviçais e escravos, acovardados entre os carros e bagagens, tiveram que agüentar muitas formas de angústia. Desde o início da luta, eles tiveram que dividir o seu miserável abrigo com o sempre crescente fluxo de recrutas aterrorizados, ou com o fluxo de feridos que podiam coxear ou rastejar a distância até lá. Mas não eram apenas esses que buscavam abrigo. Outros eram os fidalgos e nobres covardes, alguns dos quais se esconderam em suas carruagens; usando depois, como desculpa para a sua covardia, o intolerável calor. Logo, havia uma tal congestão no pequeno espaço no qual todas essas pessoas eram comprimidas, que homens e mulheres enlouquecidos se pisoteavam mortalmente em seus aterrorizados esforços para se refugiar das conseqüências da derrota.

Quando, no início da batalha, os Mouros adentraram o centro do quadrilátero, empenharam-se em destruir e massacrar tudo que pudessem, antes que fossem dominados ou expulsos. À medida que a luta chegava mais e mais perto, os não combatentes chegaram ao alcance dos arcabuseiros inimigos, de modo que, próximo ao final, eram varridos por tiros de todos os lados. O seu terror chegou ao auge nos últimos estágios da batalha, quando milhares de Mouros caíram sobre eles com lâminas brilhantes.

No século dezesseis mostrava-se pouca misericórdia com os prisioneiros de guerra. Em Haarlem, em 1574, Alva matou, a sangue frio, 2300 prisioneiros. O exército Turco, de quem os Mouros tinham aprendido a arte da guerra, decapitava todos os prisioneiros. Felizmente, para os sobreviventes Cristãos de El-Kasar, aquele era um dos poucos costumes militares Otomanos não copiados pelos Mouros. Não se dava isso, certamente, a causa de quaisquer sentimentos de compaixão. Era em função do fato de que manter os Cristãos para resgate tinha sido uma lucrativa fonte de receita para as gerações passadas. Os governantes de toda a costa da Barbaria tinham se tornado tão dependentes deste tráfico, em que os corsários famosos desempenhavam o papel mais importante, que ele tinha se tornado indispensável para a sua economia. Os poderes Cristãos tinham tido que aquiescer, a ponto de colocarem negociadores de resgates de cativos nos principais portos Africanos. Botar mão num Cristão vivo era o sonho dos mais humildes da população, porque era o caminho mais seguro para a riqueza.

Quando, portanto, os Mouros caíram sobre os sobreviventes Cristãos, era muito mais para assegurar prisioneiros, do que para a destruição final dos odiados infiéis.* (...) Alguns dos bem nascidos, por outro lado, demonstraram afobação nunca vista para entregar as suas armas e clamar por clemência, balbuciando promessas dos ricos resgates que eles poderiam oferecer. Mas não eram apenas prisioneiros nobres que os Mouros desejavam. As mulheres estavam entre as primeiras a serem avidamente procuradas, naquela massa em luta de humanidade aterrorizada. Na sua avidez, os perseguidores voltavam às vezes as suas armas uns contra os outros, especialmente quando competiam por uma jovem particularmente bela, ou por um nobre, cujas ricas vestimentas ofereciam a promessa de um resgate principesco.

 

Epidemias de seqüestro, e indústria de resgates, não são, portanto, uma novidade exatamente. O mais curioso e interessante é entender o como essas culturas que estavam tão envolvidas nessas indústrias do século dezesseis estão imbricadas no que, pro bem e pro mal, pra dor e delícia, temos como sociedade e cultura brasileiras. E aqui, não nos ajuda constatar que a indústria de seqüestros e resgates no Brasil atual é uma indústria popular. Primeiro, por menos que pareça, certas elites estão nela imbricadas até o pescoço. Basta ver, por exemplo, como esta indústria pode estar imbricada com o financiamento de campanhas políticas. Para altos cargos, sem dúvida, mas para os pequenos cargos, como vereador, por exemplo.

Por outro lado, Magebrinos ou Europeus, Mouros ou Cristãos, não existem inocentes. Os Europeus que chegavam, acrescentaram à sua iniqüidade colonial as estratégias coloniais da África branca. Não seria muito dizer que povo e elite, somos todos Africanos, num certo sentido. A cultura colonial da elite européia que veio para o Brasil fez uma pós-graduação e treinamento prático nas desumanas e especificamente desumanizantes estratégias de poder colonial na África, no comércio de vilipêndio da África. Em particular nos negócios da produção de açúcar no Magreb, e nas Ilhas Atlânticas. Povo e elite, fomos todos, de um modo importante, aculturados na África nas estratégias do poder colonialista.

O fato é que estas como outras mazelas de nossa formação só evoluem e se resolvem com a prática perseverante do estado de direito democrático.

Corria a primeira metade do século dezessete (menos de cinqüenta anos depois da triste empreitada de Dom Sebastião, seu exército e séqüito, no Marrocos), em Pernambuco, e na região entre a Paraíba e o São Francisco. Os Holandeses iniciavam a aventura de ocupação do Nordeste do Brasil. O General Matias de Albuquerque construíra um arraial da resistência no Engenho Apipucos. Lá deixara a sua guarnição, e se dirigira com uma tropa para o Cabo de Santo Agostinho, para lutar pelo Porto de Nazaré (Porto de Galinhas, depois?). Porto que permitia todo o suprimento do mar para a resistência. O Holandês, enquanto isso, cercou, atacou e tomou o arraial, que concentrava, além da soldadesca, grande parte da população local. Da mesma forma que em seguida tomou o Porto de Nazaré.

No O Valeroso Lucideno, Frei Manoel Calado[iii] descreve:

... e por respeito da grande fome, e sede se haviam rendido e entregado partido. Tanto que os Holandeses se viram senhores da fortaleza, e os nossos desarmados, logo lhe quebraram todas as promessas que lhe haviam feito antes de se entregarem, e nenhuma coisa assentada no contrato lhe cumpriram, antes levaram a todos prisioneiros para o Recife, e ali lhe disseram que se haviam de resgatar cada um por cabeça, como se fossem cativos de Argel*; e eles mesmos sinalavam o preço, que cada um havia de pagar por si. E como ali estavam muitos homens nobres, e ricos, senhores de engenho, e lavradores de canas, uns marcavam a cem cruzados, outros duzentos, outros subindo mais, e houve um homem que comprou a liberdade por quatro mil cruzados. E desta sorte e com esta tirania nunca vista, ajuntaram grande soma de dinheiro, e ficaram os moradores empenhados; e preadvinhando as tiranias que com eles se haviam de usar pelo tempo adiante.

 

Podemos ver, assim, que não só o século dezesseis do Magreb e do Norte da África, para muito bem, e muito mal, está entre nós; os Magrebinos criaram escola -- terão sido realmente eles os mestres? --, Mesmo no insuspeito Norte Europeu.

 

 

 



[i] BONVILL, E. W. THE TRADE ROOTS OF THE MOORS. West African Kindoms of the Fourteenth Century. Princeton, Markus Wiener Publishers, 1958.

** Realmente, D. Sebastião era filho de D. Joanna, filha de Carlos V, Rei da Espanha, e de D. João III de Portugal. O pai de D. Sebastião morreu pouco antes de seu nascimento. Para retornar à Espanha, a mãe abandonou-o recém nascido aos cuidados da avó, a Rainha Catarina, sua tia, irmã de Carlos V.

[ii] BONVILL, E. W. THE BATLE OF ALCAZAR. An Account of the Defeat of Don Seabastian of El-Kazar el-Kebir. 1936. p.139.

* Grifos nossos.

[iii] CALADO, Frei Manuel O VALEROSO LUCIDENO. Recife, CEPE, 2004. p. 56.

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