Psicologia Ambiental Textos

 

ENSAIOS EXPERIMENTAIS EM PSICOLOGIA
AMBIENTAL FENOMENOLÓGICO
EXISTENCIAL 4.

 

SANTUÁRIO DAS ÁGUAS

Jalapão

 

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

 

 

O que é o Jalapão? Esta pergunta subjaz a um interesse cada vez maior pelo Jalapão, e ao suprimento de informações fragmentárias e sumárias, não raro distorcidas, ou francamente errôneas.

De longe às vezes não é fácil de discernir.

Uma coisa é ponto pacífico, e indo pela ordem de prioridades, e direto ao assunto: o chamado Jalapão é em seu subsolo um imenso aqüífero, situado na região de ecótone entre as Caatingas dos Sertões do Sudoeste do Estado Piauí, do Sul do Estado do Maranhão, e do Extremo Oeste do Estado da Bahia, por um lado; por outro, o Cerrado e a Amazônia do Sudeste do Estado do Tocantins.

Uma região[1] que tem, como limites Ocidentais, a Chapada das Mangabeiras (antiga Chapada da Tabatinga); como limite Oriental Meridional, a Cidade de Ponte Alta no Estado do Tocantins; e como limite Oriental Setentrional a Cidade de Novo Acordo, também no Estado do Tocantins. De forma que, grosso modo, a região do Jalapão forma um triângulo, tendo com vértice Oriental a Chapada das Mangabeiras; como vértices Ocidentais as cidades de Novo Acordo, ao Norte; e a cidade de Ponte Alta, ao Sul.

Fitogeograficamente, assim, a região guarda características intermediárias da flora, com a concomitante fauna, do Cerrado, e do Sertão, com características, também, da Amazônia.

Da Chapada das Mangabeiras, nascem, de um lado, o Rio Parnaíba, pelo Rio Parnaibinha; de outro lado, afluentes do Rio São Francisco, como o Sapão e o Preto; de outro lado, afluentes do Tocantins, como o Rio Galhão e o Rio Formoso, que vão desaguar no Rio do Sono, o Rio Novo, o Rio Ponte Alta, e o Rio das Balsas. De modo que nascem na Chapada das Mangabeiras, no Jalapão, rios que vão se compor com as águas de três importantes bacias de rios brasileiros, a do Parnaíba, a do São Francisco e a do Tocantins.

No âmbito do Jalapão, inclusive, misturam-se em suas origens águas originárias da bacia do Rio Tocantins e da Bacia do São Francisco, caracterizando o que se conhece em hidrologia como o fenômeno de águas emendadas.

 

As areias quartzosas da Serra do Espírito Santo, fazem com que ela se desfaça lentamente, sob a ação da erosão eólica e pluvial[2]. As areias conduzidas pelo vento se acumulam diante da Serra, ganhando a forma de dunas. O que confere a esta área do Jalapão uma aparência de deserto. A aparência de deserto é também conferida pelo ambiente arenoso e poeirento de Cerrado e de Sertão, de uma superfície geológica decorrente da decomposição de pedra de areia vermelha. E do fato de que as águas descem para o subsolo de imensa receptividade, aflorando nos cursos determinado dos riachos e rios, lagos e brejos.

Por isso que freqüentemente se pensa, equivocadamente, que o Jalapão é uma espécie de deserto. Na verdade, apesar da aparência ressequida da superfície de Cerrado, ou mesmo de Caatinga, o Jalapão estaria mais para um imenso oásis no Sertão e no Cerrado, em função de um subsolo composto por um portentoso aqüífero, que verte uma impressionante quantidade de águas para tão pequena região. Águas que contribuem de um modo importante para a constituição das mencionadas bacias.

 

A região foi ocupada, desde a pré-história, por paleo-índios, que precederam os indígenas que conhecemos; e, em seguida, por índios Croas. Mateiros, o povoado conhecido como “a capital do Jalapão” foi fundado, segundo a sua história, por caçadores vindos do Piauí, do Maranhão, e da Bahia.

Com a colonização, brancos e mestiços chegaram à região, dizimando os indígenas.

Durante a febre da borracha, na primeira metade do século XX, a região foi invadida por colonos do Maranhão, em busca do látex, para a fabricação de borracha, produzido pelas mangabeiras da Chapada da Tabatinga (depois denominada de Chapada das Mangabeiras). Até que a demanda pela produção da borracha brasileira entrou em declínio, o que certamente levou mais habitantes para a região, em função do enorme drama social decorrente da decadência da produção de borracha na Amazônia.

Na verdade, no tempo de formação geológica da Terra, toda a região do Jalapão foi fundo de um mar interior. Mar este que adentrava a região amazônica e se espalhava pelo Brasil Central; novamente se conectando com o oceano externo na altura do Rio da Prata.

As idas e vindas desse mar -- e sua ida definitiva, em função da elevação da Cordilheira dos Andes -- deixou na região do Jalapão um subsolo de arenito. Este tipo de rocha é altamente permeável à água, podendo captá-la e reter com uma enorme capacidade de armazenamento. Podendo, assim, acumulá-la em enormes proporções, vertendo-a subseqüentemente em águas superficiais.

O sub-solo do Jalapão caracteriza-se, assim, e caracterizou-se, ao longo dos milênios, como um subsolo com uma imensa capacidade de receber, armazenar e verter a água armazenada, um imenso aquífero. Muita água já é perenemente armazenada neste subsolo. As chuvas anuais, no período de Setembro-Outubro a Abril, anualmente, repõem a água vertida. De modo que o Jalapão é sempre um portentoso aqüífero. Cognominado por alguns como Caixa D’Água do Brasil. O que efetivamente é pouco enquanto designação.

As chuvas anuais cuidam assim de regenerar e re-plenificar a enorme e impressionante capacidade de absorção e de armazenamento de águas desse subsolo aqüífero. De modo que este aquífero mantém lagos, rios e regatos perenes; e se mantém como um impressionante fenômeno hídro ecológico, em que as águas brotam do solo abudantíssimas, freqüentes e intensas, tanto por sua força eruptiva como pela força da gravidade na descida para os rios que vão se constituir nos afluentes do Parnaíba, do Tocantins e do São Francisco.

Localmente, estas águas configuram um impressionante fenômeno hídrico, compondo uma infinidade de rios, riachos e regatos, que cruzam toda a região, com suas quedas d’água, cachoeiras e corredeiras, mais ou menos intensas; lagos, e brejos. Alguns dos laguinhos se formando a partir de águas que brotam com tal força e intensidade que nelas boiando uma pessoa não consegue afundar, tal é a pressão com que essas águas brotam do chão. Os chamados fervedouros. Em alguns locais os rios podem ser tão torrenciais que permitem a prática do rafting, em locais que podem ser considerados como dos melhores do mundo para tal prática.

 

Muito diferentemente do modo como às vezes se pensa o Jalapão, como um deserto, em função da aridez da maior parte de sua superfície, e em função das dunas de areias quartzosas, decorrentes da decomposição da Serra do Espírito Santo, muito diferentemente, o Jalapão é, especificamente, um imenso fenômeno hídro ecológico. Que reivindica, de um modo irrecusável, a nossa admiração e perplexidade, o nosso respeito, carinho, e decidida proteção e preservação.

 

JALAPA, LAPA, LAPÃO, LAPADA, LAMBADA, JALAPÃO

 

O termo Jalapão decorre da planta designada como Jalapa (Ipomea cuneifólia). No caso Jalapa Grande.

A nossa popular e sensual Dama da Noite, de sublime e generoso, insuperável, perfume, ao começo da noite, pertence à família da Jalapa.

Talvez a pudéssemos chamar, não sem algum carinho, de Jalapinha. Carinho em particular pelo modo como ela alegra nossas vidas espalhando generosa e gratuitamente o seu sublime e doce perfume, e com as cores generosamente vivas de suas pequenas e cheirosas flores.

Particularmente pequenas, quando comparadas com as flores e tubérculos (batatas) do Jalapão.

Certamente que existe toda uma tradição popular erótica, e deliciosa, mais ou menos clandestina, e incrível, e incrivelmente sensual, com relação a esta planta. Erótica popular tradicional que pode remontar aos índios que habitaram a região*. E certamente remonta à cultura descendente dos mateiros e colonizadores que remotamente a colonizaram. Com relação à Jalapinha isto pode não se manifestar, além do sensual perfume, à boca da noite... Mas certamente que não é ingênua a sua designação como Dama da noite...

 

Existem variedades diversas da Jalapa. Além de suas flores, que podem ser designadas como Jalapa, a planta Jalapa também possui um tubérculo oblongo e subterrâneo, a batata da Jalapa.

A Jalapa (a flor) da Jalapa (a planta) da região do Jalapão (Jalapa grande, uma lapa de Jalapa), é bem maior do que a nossa querida Jalapinha. Maior, digo, a bela flor branca.

Maior, também, a Jalapa, Jalapão, o tubérculo, a batata do Jalapão, que reside enterrada no chão, no interior de nossa feminina mãe Terra.

Assim, no caso do/da, Jalapão (a Jalapa da região e que dá o nome à região do Jalapão) a coisa toma outros sentidos metafórico sensuais e sensoriais. O/A Jalapão é assim  uma flor grande, bem maior que a da Jalapinha. E a batata do Jalapão, oblongo tubérculo, é bem maior que o das outras Jalapas, inspirando o entusiasmo e a sensualidade da erótica popular.

As flores da Jalapão, como as das orquídeas, insinuam sensualidade. Não só pelos aromas adocicados de seus perfumes, mas, em particular, pelas suas formas. Vistas de frente, insinuam delicadas formas de vulva. O/A Jalapão se complementa com um profundo canal, até os seus órgãos mais internos. De onde, certamente, provém um aspecto do sentido do termo lapa de sua designação, talvez o sentido mais originário, na língua latina.

Em sua forma oblonga, o tubérculo da Jalapa do Jalapão é maior do que os tubérculos das outras JalapasI. Permanece enterrado na terra. Ícone analógico da relação erótica, poderoso apelo à sensualidade da erótica popular de um população que vivia imersa e circunscrita em poderosa relação como riquíssimo e profundo ambiente natural.

O Jalapão (a planta), assim, oferece uma inspiradora analogia erótica que certamente afetava e afeta à cultura e as pessoas das rarefeitas comunidades do Jalapão. Além de ser uma planta que insinua sugestivamente nas formas de suas flores a representação da vulva e da vagina femininas; insinua nas formas de seu tubérculo o órgão sexual masculino; e é ela toda uma insinuação da representação do intercurso sexual, ainda sugerido pelo fincamento, no solo da terra, e interação com a terra, de seu tubérculo.

O termo Lapa tem um sentido e derivações de sentido interessantes. Originalmente ele tem o sentido de cavidade. Mas não foi apenas com esse sentido que eu o aprendi quando criança. Claro que lapa sempre disse respeito às lapinhas de natal, ou dos santos católicos, grutas onde se armavam os personagens do drama cristão do nascimento de Jesus Cristo, ou de um santo, ou santa.

Mas lapa sempre disse respeito, também, ao tamanho de um objeto de grandes proporções. E se me permita dizer, são comuns no Nordeste expressões como, por exemplo, uma lapa de mulher!, ou Uma lapa de buceta! Uma lapa de cacete (genital, ou não)!

Lapada, no sentido de pancada com um objeto oblongo e flexível, numa surra, por exemplo; o que eu acho que remete a surras com as oblongas, e lapadas, ocas, bainhas de espada; e, posteriormente, de facão, tristemente comuns em uma certa época do Nordeste e do Brasil.

Ou ainda, por derivação desta última, a performance machistamente masculina no intercurso sexual.

Relativo também a lapada, é o termo lambada, da sensual dança. (Sem comentários).

E eu não precisaria explicar, em função do hit popular que dominou o último carnaval no Nordeste, o sentido da expressão lapada na rachada. Imagino que na linguagem da erótica popular do Jalapão a expressão mais adequada poderia ser lapada na jalapa; bem no sentido, talvez, de que o buraco certamente é mais para dentro.

O que aqui importa, todavia, é a curiosidade de que a anatomia do (a) Jalapão (a planta), em específico de sua flor, e de seu tubérculo, e a relação deste seu tubérculo com a terra, oferecem inspiração e sugestão à sensualidade erótica da tradição popular, numa icônica não só de orgãos, mas de relação e harmonia sexual... De tal modo que termos que nele cabem, como lapa, lapada, jalapa, jalapão, podem se referir, igual e alternativamente, ao órgão genital feminino, e ao órgão genital masculino, da mesma forma que podem se referir, de modo entusiástico e celebrativo, ao intercurso sexual.

Acho que não sem motivo, o termo Jalapão designou a região, e faz parte, de um modo intenso, do imaginário e da erótica popular.

Não sem motivo, certamente, em pleno mês de Setembro, no Jalapão, em Ponte Alta, sete meses depois do carnaval, ouvi, por várias vezes, carros com poderosas, e horrorosas, caixas de som tocando alegremente Lapada na Rachada -- o hit do último carnaval no Nordeste -- os donos com olhares marotos e ousados...

 

De modo que o uso do termo está longe de se dever às qualidades fitoterápicas purgativas, e outras, do Jalapão (a planta). Estes sentidos, ainda, podem ser interessante e importantemente desdobrados e elucidados, na direção de toda uma erótica cósmica que a geo-logia do Jalapão protagoniza. E do deleite e necessidade da cultura das comunidades locais e das pessoas de se integrar a esta erótica, eroticamente.

Em termos antropológicos, e nessa conexão, com relação ao nosso tema, algo de muito interessante, certamente, é como o Jalapão (a planta) veio metaforicamente a significar, de um modo poderosamente sensual, as genitálias masculina e feminina, a relação sexual em específico, e o intercâmbio em geral masculino/feminino de Yin e de Yang. Em específico, mais precisamente, o equilíbrio de Yin e de Yang, de masculino e feminino.

O Jalapão (o lugar) é -- e trabalhemos para que continue sendo -- um lugar imensamente saudável, de uma impressionante potência de saúde. Potência generativa. As águas do Jalapão são filhas e filhos telúricos do encontro potente e saudável do céu com a terra.

A potência da terra, potência de yin, feminina desde sempre, é avassaladora. Em sua potência receptiva ela recebe o céu, yang, as águas do céu, com uma receptividade imensa, monumental, geo-lógica..., como se fosse um imenso imã a atrair o Céu...

De suas alturas, o céu anualmente se resigna a descer (anualmente, de Outubro a Abril). E Céu e Terra, Yin e Yang, o Masculino e o Feminino cósmicos se encontram. Na harmonia deste encontro, plenificada, a terra – que normalmente tende a descer – inverte a sua tendência normal, e sobe, e borbulha, água, nos fervedouros, e lagos, e verte-se nos rios e regatos, abundantemente, movimentando-se em corredeiras e cachoeiras, e nas correntes velozes -- agora já Yang, nessas características -- para ir nutrir (Yin) as terras imensas das bacias às quais, novamente Yin, ela vai nutrir diligentemente.

Na verdade, protagonismo de uma imensa e desmedida erótica cósmica. É esta erótica que constitui o Jalapão. Seus fervedouros, lagos, regatos, correntes, rios e riachos... e a sua gente.

Psicologicamente falando, existencialmente, conviver com esta erótica telúrica e cósmica exige, igualmente, saúde. Na verdade, um certo grau de sacralização dela, para nela se poder integrar. Assim como os Incas sacralizaram as montanhas, o lago, o altiplano, as estrelas, a lua, o arco-iris, o lago, a água...

A erótica do Jalapão não é simplesmente uma erótica mundana e vulgar. É uma erótica sagrada, que se integra com a poderosa erótica cósmica da região.

As rarefeitas e isoladas populações do Jalapão, mais acessível nos tempos remotos, em particular, a partir do Sertão do Piauí, do Maranhão, e da Bahia, tiveram que co-habitar com esta imensa saúde, e com esta imensa erótica cósmica, integrada pelas chuvas anuais do céu, pela imensa receptividade e poder de acumulação da Terra, e pelas vertentes nas veredas e lagos das limpíssimas e abundantes águas desse intercurso.

A sensualidade desta erótica impregnou, certamente, a erótica das relações inter humanas. Em particular de uma população que conviveu, e em parte descendeu, dos indígenas.

A Jalapa, o Jalapão forneceu em sua anatomia poderosos elementos para a metaforização da tradição popular desta erótica, e temos aí a erótica da Jalapa e do Jalapão, e a designação deste imenso aqüífero, Santuário de águas do Brasil.

 

O Jalapão (a planta) foi, e ainda, certamente, é, um elemento importante da farmacopéia fitoterápica nativa das populações rarefeitas e isoladas. Para se ter uma noção das condições de saúde, conta-se que quando uma pessoa adoecia no Jalapão, ela era carregada por cinco dias em uma rede, por vinte pessoas que se revezavam. Até uma fazenda da região. De lá ela era conduzida até Porto Nacional. Se não fosse muito grave, efetivamente...Dentre outro usos, o Jalapão é medicamento efetivo na farmacopéia nativa local como purgativo. Contra hidropsia, contra icterícia, obstrução de vísceras, e corrimento vaginal...

 

Há ainda uma característica muito curiosa das propriedades do Jalapão (a planta), que certamente teve, e tem poderoso apelo à imaginação popular... O Tiú é um grande e valente lagarto, que não enjeita uma boa briga com uma venenosíssima cascavel, comum na região. Quando é picado pela cobra, o Tiú corre para o meio do mato, em busca de um pé de Jalapão (a planta). Cava, acessa o jalapão (a batata da planta), e avidamente rói, come, e chupa a sua seiva, que é antídoto potente contra o veneno da cobra. Certamente este fato requer mais estudos, mas é evidente em outros lugares da Amazônia. E traz algo a mais acerca desta planta incrível, é ela, certamente, um poderoso medicamento antiofídico, conhecido e utilizado pelos animais. Ou pelo menos pelo Tiú.

 

 

O COTIDIANO E O EXTRA COTIDIANO NO DESENVOLVIMENTO DE CONSCIÊNCIA E ATENÇÃO ECOLÓGICAS DE PROTEÇÃO E PRESERVAÇÃO DO JALAPÃO.

 

Com sua imensa importância ecológica, o Jalapão (a região) ainda é muito pouco conhecido, para além de suas comunidades locais, e de um fluxo crescente de turistas e visitantes. Visitantes que nem sempre apreendem a sua beleza e fantástica dinâmica ecológica, para além da extasiante beleza imediata de tantas de suas regiões.

As informações que se veicula sobre a região ainda são muito fragmentárias, parciais, ou distorcidas.

A questão urgente é a da proteção e preservação do Jalapão, contra as agressões e destruições, já em curso. Em particular por ação das queimadas, do plantio soja, e pelo gado. Que já produzem danos muito significativos. Danos que podem ser irreversíveis.

A questão central é a de preservar e proteger o ciclo ecológico das águas do Jalapão. Como forma de proteger o ciclo ecológico das águas no mundo e no Brasil, em particular nas bacias dos Rios Tocantins e Amazonas, do Rio Parnaíba e do Rio São Francisco; e dos sistemas ecológicos brasileiros e mundiais de que eles participam.

Isto requer o desenvolvimento de uma consciência e atenção ecológicas locais, regionais, brasileira, e mundial -- com relação à importância do Jalapão, e com relação à necessidade e efetivação de ações ecológicas governamentais e não governamentais de proteção e de preservação.

É importante observar que tanto o Governo Federal como os governos estaduais estabeleceram importantes reservas no Jalapão. Reservas que são importantes conquistas, e importantes pontos de partida. Mas ainda insuficientes.

Como há muito desconhecimento, e se dissemina a noção de que a região é uma região excepcional, há um interesse crescente pelo Jalapão; interesse especializado, e interesse turístico. Mas uma enorme carência de informações fidedignas.

A designação da região como Jalapão, forte e estritamente enraizada na tradição da cotidianidade local como vimos, confunde e prejudica a compreensão do que ele efetivamente significa -- por parte, em particular, das pessoas que não vivem a sua cotidianidade, ou até que eventualmente a visitam, mas que não conseguem apreender os seus sentidos maiores. Esta perspectiva de compreensão mais abrangente e essencial só pode ser dada numa perspectiva e ótica extra-cotidianas. O que conflita com os sentidos cotidianos de compreensão e da designação da região.

A questão se complica, ainda, quando as populações externas apreendem de um modo distorcido o significado do Jalapão. Como um deserto no Brasil Central, por exemplo, como um oásis, etc. O que não esclarece e confunde a consciência coletiva extra-cotidiana.

É, assim, muito necessário -- ao lado da valorização e do respeito pela perspectiva e óticas cotidianas -- o desenvolvimento regular e durador de uma perspectiva e ótica extra cotidianas do Jalapão. Que possa esclarecer e apreender os seus sentidos mais essenciais e abrangentes, o sentido de sua importância ecológica, da necessidade, dos modos, e da mobilização, da ação, institucional e informal, governamental e não governamental, por sua proteção e preservação ecológicas.

Ou seja, uma compreensão do Jalapão na esfera da extra cotidianidade da Ecologia, da Cultura e da Política ecológicas, da Ciência, da Filosofia, da Antropologia, da Sociologia, do Direito, dos movimentos sociais, e das  instituições da sociedade civil...

Esfera extra cotidiana esta que se interpenetra, mas que está fora, da esfera das objetivações em si da vida cotidiana do Jalapão.

A distinção, e as relações, entre “vida cotidiana” e “vida extra cotidiana”[3] nos permite assim entender questões muito importantes com relação ao Jalapão. No que concerne, mesmo, inclusive, à própria designação de Jalapão.

Pensar assim as distinções e interpenetrações das esferas sociais da vida cotidiana e da vida extra cotidiana em termos do Jalapão é extremamente necessário. Isto porque existe uma significativa contradição entre o que significa o Jalapão ecologicamente -- significado que só pode ser apreendido numa ótica e perspectiva de culturas extra-cotidianas, das objetivações genéricas da humanidade --; e a sua apreensão, inclusive a designação, na esfera cotidiana das populações que o habitam, na esfera das objetivações em si da vida cotidiana, adstrita à cotidianidade da linguagem, dos usos e dos objetos.

A designação como tal do Jalapão tem um sentido original cotidiano, local, que tende a se perder cada vez mais, para a própria população local, tornando-se um termo cada vez menos significativo; e que não traduz, esconde, ou que conflita com o que significa efetivamente o Jalapão, em termos geológicos e ecológicos; em termos do que significa o Jalapão para as populações das bacias dos Rios Parnahyba, São Francisco, e do Tocantins; em termos do que significa o Jalapão para a Bacia Amazônica, para o Brasil, para a Terra, para a Humanidade, num tempo em que urge o desenvolvimento de uma consciência crítica e ativa da necessidade de um respeito pelas águas, pela preservação de seus mananciais, reservatórios, e ciclos...

Uma coisa é, assim, o significado e a importância do Jalapão para aquelas exíguas comunidades que o habitam, e para as quais o Jalapão tem um sentido e importância na vida cotidiana. Mesmo para as outras comunidades ribeirinhas dos riachos e rios que emanam do Jalapão, e que têm nessas águas um elemento central de sua vida cotidiana.

Outra coisa, distinta, que não anula nem desvaloriza a esfera da cotidianidade, é ganhar distância das esferas de objetivações em si da vida cotidiana, e apreender e compreender o Jalapão de uma perspectiva não cotidiana, da ótica e perspectiva da genericidade humana, das objetivações genéricas do humano, ou seja da esfera não cotidiana da humanidade, que envolve, dentre outras, a ótica da ecologia, da ciência, da filosofia, da política, da arte, da gestão ambiental do presente e do futuro da humanidade.

A perspectiva não cotidiana do Jalapão permite uma apreensão dele e de sua importância para além dos estreitos, e pobres, limites da cotidianidade. A importância dele como aqüífero imenso e importantíssimo, depositário e provedor, possibilitador, de águas puras e abundantes; a importância dele para comunidades ao longo dos rios das bacias que ele nutre: a importância dele para as comunidades ao longo do Rio Parnaíba, que vai cortando o Piauí, até o seu Delta monumental, o maior delta das Américas. A importância dele para o Rio São Francisco, e para as suas populações barranqueiras e não barranqueiras, sertanejas, até o seu desaguar, no Delta entre Alagoas e Sergipe, na altura do pontal do Peba, que tem certamente muita areia carreada da Serra do Espírito Santo, nas proximidades da Chapada das Mangabeiras. A importância do Jalapão na constituição das águas da Bacia do Tocantins , e, daí, na constituição das águas dos rios da Bacia do Amazonas...

Para além do chão calcinado de areia decorrente de pedra vermelha, para além da sensualidade dos belíssimos e charmosos riachos, brejos, lagos, fervedouros, corredeiras e cachoeiras; para além das águas para os mergulhos e banhos puríssimos e deliciosos; para além da puríssima, e vital, água de beber das populações autóctones; para além da água abundante para suas cotidianas lavadeiras – tudo muito importante, evidentemente --, o Jalapão tem uma importância extra cotidiana fundamental, e histórica, para outras comunidades, para outras cotidianidades, ao longo das linhas e sinuosidades dos cursos d’água que ele engendra e generosamente nutre. São tantas e tão vastas, na Bacia do Tocantins, na Bacia do Amazonas, na Bacia do São Francisco, na Bacia do Parnaíba, para o clima e a qualidade de vida na Terra. Na verdade, efetivamente, uma importância histórica e fundamental para a humanidade como um todo. Importância que o nível de apreensão da cotidianidade, efetiva e decididamente, não pode dar conta...

A designação, histórica e cotidianamente constituída, de Jalapão não é suficiente para a importante apreensão dele na perspectiva extra cotidiana. E, mais que isto, confunde. Em particular, diante das confusas veiculações atuais de idéias de que o Jalapão seria um deserto do Estado do Tocantins, em função de suas dunas, (decorrência, na verdade, da erosão eólica e pluvial da Serra do Espírito Santo), confusa e paradoxalmente ornado de rios e cachoeiras...

A questão central é a de que o Jalapão é de uma importância monumental. Para as populações que lá habitam, e para as populações dos rios das bacias que ele contribui. Para o clima, condições e qualidade de vida no Brasil, e para o clima, condições e qualidade de vida na Terra. Definitivamente o Jalapão precisa ser protegido, preservado, e ecologicamente rigorosamente respeitado. E as perspectivas da cotidianidade das rarefeitas populações do Jalapão não poderiam, naturalmente, nem compreendê-lo enquanto tal, muito menos protegê-lo e preserva-lo.

Até porque, no caso da proteção e da preservação, as agressões e destruições ao Jalapão, em particular as decorrentes do plantio intensivo, usurário e irracional de soja, não advêm da esfera da cotidianidade das rarefeitas populações, e só podem ser entendidas, afrontadas e confrontadas, a partir de iniciativas oriundas de setores da não cotidianidade, relativas à cultura ecológica.

De modo que, é preciso desenvolver uma consciência e uma atenção ecológicas, ecológicoativas não cotidianas com relação ao Jalapão. Chega de veicular distorções e informações distorcidas com relação ao Jalapão para as integrações não cotidianas que por ele se interessam.

Progressivamente, as comunidades cotidianas do Jalapão, sem a perda de sua especificidade, integrar-se-ão a uma mentalidade não cotidiana a respeito dos significados e sentidos do Jalapão. E de como estes sentidos podem estar ligados, e potencializar, os seus meios de vida cotidiana. O que é fundamental, porque são estas comunidades que podem ser os guardiões cotidianos do Jalapão. É fundamental, e urge, uma melhora e progressiva otimização efetivas das condições e das qualidades de vida dessas comunidades, em função delas mesmo, e como recurso estratégico de sua proteção e preservação

Por outro lado, o desenvolvimento de uma mentalidade ecológica e ecológicoativa não cotidiana, no Brasil, e por todo o mundo, com relação ao Jalapão, passa por uma elucidação do que ele efetivamente é, além de um nome exótico, além da idéia de que se trata de um deserto no Brasil Central (um absurdo efetivo), ou coisas do gênero. Passa pelo conhecimento lúcido e claro, objetivo, atento e ativo da natureza e dos processos das destruições e agressões por que passa um ecossistema tão precioso. E pelo desenvolvimento efetivo, em todas as esferas, de ações ecologicamente necessárias para afrontar e enfrentar não cotidianamente as agressões e destruições.

 

 

 

O SALTO DAS CRIANÇAS DA PONTE ALTA DE PONTE ALTA NO RIO PONTE ALTA

Engraçado isso de uma ponte dar o nome ao rio.

Mas é exatamente isso que acontece em Ponte Alta. O rio Ponte Alta recebe o nome de sua ponte. Aliás, não só o rio, mas a própria cidade. Que é festejada como “O Portal do Jalapão”; e que por isso, apesar de suas belezas, quase que só serve de passagem para o Rio Novo e para Mateiros.

Dizem que havia um barqueiro que se ocupava de atravessar as pessoas e as mercadorias para o outro lado. Construíram a primeira ponte, quando a cidade começou a se constituir, e ele ficou tão transtornado que lançou uma maldição: a cidade só se libertaria do atraso quando fossem embora todos os descendentes das famílias que participaram de sua fundação.

Na verdade, há uma ponte mais alta no rio da Cidade. Uma ponte de concreto, moderna, alta e fria, construída por um governador para rivalizar com o antecessor, que recuperara a antiga. Mas esta, apesar de sua imponência e utilidade, é como se não existisse. Sozinha lá, em sua imponência.

A grande vedete, e alta ponte, da cidade é a reconstruída e antiga ponte de madeira. Festejadíssima, frequentadíssima. Não só por transeuntes, pelos carros e motos passantes, mas pelos turistas, e, em particular, pelas próprias pessoas da cidade, que nela têm um ponto de encontro. Apesar de sua função passageira, a ponte tem algo de praça. É interessante isso de uma ponte algo como praça...

Mas, talvez o mais importante, é que a ponte é uma fantástica plataforma de salto e mergulho das crianças, em particular; dos jovens e adultos, no Rio Ponte Alta. O Poder Público, inclusive preparou a ponte para tal. Além de sua estrutura básica de passagem, a ponte possui como que molduras laterais de forma trapezoidal, feitas com grossas madeiras. O trapézio no centro da ponte possui em cada uma de suas arestas uma tosca escada feita de pedaços de madeira transversais, sem nenhum corrimão. Os mergulhantes sobem ali como macacos, com incrível perícia e equilíbrio. Eu se ali fosse subir, não importa se para pular ou não, teria medo, antes do pulo, de desabar subindo para a plataforma de mergulho; caído no fundo do rio, tudo bem, o problema seria cair no meio da própria ponte.

Acredito que há uns seis metros da ponte para a parte mais alta do trapézio, onde está a plataforma de salto. Mais uns dez metros para baixo, da ponte até o rio. E dizem que uns seis metros de profundidade da superfície do rio até o fundo, no lugar dos mergulhos... Existem plataformas no nível da própria ponte, e no alto do trapézio central.

Continuamente vemos os pulos no vazio, e o “tchibum” do baque penetrante no rio. Seguido pelo afloramento do mergulhante à superfície, e pelo nado caracteristicamente muito rápido e vigoroso, seguindo por pouco tempo a corrente; e logo desviando em direção a uma das margens. Já que a corrente do rio é forte e veloz.

O rio Ponte Alta é um rio bastante vigoroso. Descendo do alto, e da potência, do aqüífero do Jalapão, em direção ao Tocantins, tem uma corrente volumosa, apesar de uma largura relativamente pequena, impetuosa e acelerada. Todo o ethos, e estilo, dos banhantes, com relação ao rio, interage, de um modo vigoroso, com estas suas características, em braçadas muito rápidas e fortes, para atravessá-lo, na diagonal de sua impetuosa corrente. Faz parte do estilo da brincadeira considerar que com a corrente do rio não se pode brincar. Isso considerado, o rio é lúdico.

Cruzar o rio é como o desafio de um ritual de iniciação. Os que cruzam, ainda crianças, regozijam-se disso. E adquirem um novo status. Para isso, sempre, o segredo é o vigor e a rapidez das braçadas, que impressiona por isso.

Um dia, fiquei incrédulo. Conhecedor das relações com a água de cachorros “do mar” -- sempre discretamente apavorados, e em busca de rapidamente retornar para a beira –-, vi, no calor da manhã já alta e escaldante, um cachorro vira latas branco descer o suave barranco em direção ao rio. E, serelepe e despreocupado, aproximar-se do rio sem vacilar. Pela rapidez com que se movia, considerei que poderia mergulhar no rio, e sinceramente temi por ele. Com aquelas patinhas finas, enfrentar aquela torrente... Surpreendi-me, não obstante: sem reduzir a velocidade, e aparentemente sem pensar, o cachorro, na mesma velocidade em que vinha, mergulhou no rio... E não só: prolongou-se a minha surpresa ao vê-lo nadar, rápida e vigorosamente, até atravessar o rio, sem nenhuma dificuldade, e sair num ponto mais ou menos defronte, quase em linha reta, do local onde mergulhara, na margem em que eu me encontrava... Justo como os meninos... Parou, espanou vigorosamente a água, visível e deliciosamente refrescado, na manhã escaldante, e seguiu rápida e alegremente em frente...

Jocosamente, pensei comigo mesmo, aí está o professor das artes do rio...

O Ponte Alta, na cidade de Ponte Alta, como disse, é um rio impetuoso. Não é muito largo, mas a quantidade de água, e em particular o declive, do centro do Jalapão até o Tocantins, faz com que suas águas corram compactas, fortes, e aparentemente mansas e profundas. De modo que é com este caráter compacto e forte da corrente do Rio Ponte Alta que os meninos têm que lidar, quando atravessam o rio; e quando mergulham em suas águas... A maior parte deles lida muito ludicamente com rio. Uma habilidade que se desenvolveu, certamente, com os índios que habitavam a região. De modo que se deixam calculadamente levar por sua corrente, até o ponto em que querem atingir na margem, e aí derivam lateral e rapidamente, saindo da corrente, e chegando à margem. Ou simplesmente o atravessam de modo rápido e vigoroso.

O rio é desta forma muito yang, brotando das entranhas do aqüífero do Jalapão. E exige esse modo vigoroso com que as crianças, jovens e adolescentes lidam com ele.

É até preocupante porque, do ponto de vista do chi, uma corrente assim tende a carrear a energia de suas margens, se não forem tomadas providências para compensá-la. Não é muito pensar que muito do atraso, fragilidade e aridez de Ponte Alta pode ter a ver com isso (ainda que seja forçoso admitir a concorrência de outros “sugadores humanos” de energia). Mas é impressionante ver a contradição entre sequidão a aridez de Ponte Alta, e volume contíguo de uma tal quantidade de água.

Mas um ritual de compensação é o salto e o mergulho no rio, a partir das alturas das plataformas da ponte.

Pois é um ritual, alegre ritual, lúdico, refrescante, emocionante, adrenalina pura, mas, nem por isso, menos interessante, e importante.

Dinâmica e esteticamente, ele compensa e busca aplacar, e harmonizar, o caráter yang do rio. Um ritual de valor e importância existencial, cultural, social, urbana; que até o cachorro entende, e que só não mergulha da plataforma, porque para ele seria inviável mesmo; mas que nem por isso deixa de tomar, regularmente, o seu mergulho ritual e refrescante. Eu vi.

Inevitável pensar de Maffesoli: Frente à finitude, e à brevidade do tempo que passa, a acentuação da forma é uma ilha de solidez e eternidade.

E, como em todo ritual, o capricho na forma é um interesse sine qua non dos mergulhantes do rio da ponte alta.

Começa pela habilidade de subir elegantemente aquela trave inclinada, até a parte mais alta do trapézio sobre a lateral da ponte, onde está a improvisada plataforma de mergulho. Não é para qualquer um. Lá em cima, em pé e esguio, ele/ela se concentra, mesmo que seja efemeramente. Pula para cima. Em geral não mergulham de cabeça. Chama a atenção o tórax e as pernas. É como se, no ponto mais alto do pulo, simulassem um peito de pombo, com o tórax estufado. Na subida, a partir da plataforma, é como se subissem e, por um instante, parassem no ar... Enquanto as pernas se contraem, e se encolhem... Ato contínuo, inicia-se a vertiginosa descida no vazio, em direção à água; de pernas. Pernas que se contraem então, e encolhem-se ao máximo, para atingir a água com a maior força... A calha central do rio, que não é larga -- do lado há mesmo pedras, e naturalmente eles nunca erram --, dizem ter seis metros de profundidade. O pulante cai vertiginosamente; e, da mesma forma, mergulha, e some, profundamente, na corrente do rio... Que o carrega por um termo, submerso, até que assoma à superfície, e, desencantado, nada vigorosamente em direção à margem que lhe interessa. Não raro, retornam, imediatamente, para a plataforma de salto, e reiniciam...

Prestes a sair de Ponte Alta, resolvi dar um mergulho no rio. Da margem mesmo... E fiquei por ali, mais para hipopótamo do que para peixe, deliciando-me na puríssima e fresca água do final da manhã. Perifericamente vi que uns meninos mergulharam, não da ponte, mas de uma árvore por trás da ponte. Logo havia um nadando na corrente, próximo. Viu-me, e orientou o seu nado-flutuação na minha direção. Era tão pequeno... Nove ou dez anos... Quando chegou perto, eu perguntei, Você é um menino ou é um peixe? ... Um peixe, respondeu sem titubear, enquanto ainda nadava... Ficou por ali, até que subiu para a margem, onde encontrou outros meninos. Pulavam dentro do rio, fazendo todo tipo de saltos e acrobacia. Era um dos mais ousados e peritos. Freqüentemente, no meio do salto, comentava em voz alta, do alto de seus nove ou dez anos...: Eu sou mestre !!! E era mesmo... Antes de sair vi-o aproximando-se da borda da ponte para pular. Fiquei observando... era muito pequeno para aquilo... Em particular para subir até a plataforma, no alto. Foi se esgueirando para o lado externo da ponte, até sentar em um cano que a atravessa longitudinalmente... cuidadosamente se dependurou... seguro apenas pelas mãos. Olhou para baixo, e soltou-se... Em breve será um mestre também de mergulho da ponte...

Houve ainda um outro, só ouvi o labafero, que ao pular da margem meteu a cabeça numa pedra. Nada grave, mas ralou bem a testa, e a ralada era grande, e o sangue era muito. Chorava desesperado com o irmão. Com outras pessoas, ajudei para que o levassem a um socorro, para onde foi na garupa de uma moto... Não era ainda um mestre, certamente...

 


GALOS DO JALAPÃO

 

João Cabral seguramente não entendia nada do Jalapão. Mas muito entendia de galos. E por isso entendia muito dos galos do Jalapão. E conhecia, assim, um de seus aspectos esteticamente fundamentais, logo à boquinha da manhã.

 

1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
 

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto. Tecendo a Manhã.

 

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[1] BEHR, .M.  JALAPÃO – SERTÃO DAS ÁGUAS, São Bernardo do Campo, Somos,.

[2] BEHR, . op.cit

* Creio, aliás, que enriqueceríamos a nossa concepção conhecendo o nome indígena da Jalapa e do Jalapão.

[3] Ver HELLER, Agnes SOCIOLOGIA DA VIDA COTIDIANA, ,Madrid, Taurus.

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