Psicologia Ambiental Textos

 

Ensaios Experimentais de Psicologia Ambiental
 Fenomenológico Existencial 5.

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AQUÍFERO GUARANÍ

PRESERVAÇÃO AMBIENTAL
E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.

 

 

Água, és o que nos traz vida.
És a fonte de nutrição, que nos dá força.
Rejubilamo-nos com a tua existência.
Te bebemos com alegria, como bebem os bebês o leite de suas mães.
E quando te tomamos, recebemos amor.
Leva embora todos os meus pecados, e as minhas falhas,
e tudo que tem sido ruim em minha vida.
Eu te busco hoje; mergulharei no seu molhado estado.
Afoga-me no esplendor.

Os Vedas.

 

 

 

O Aqüífero Guaraní é uma dessas abundantes dádivas da natureza. Mas uma mega dádiva. Um mar de água doce subterrâneo, em sua maior parte no subsolo do Centro-Oeste, do Centro-Sul e Sul do Brasil; abrangendo áreas significativas, também, do subsolo da Argentina, do Uruguay e do Paraguay.

Em alguns lugares as águas do Aqüífero Guarani afloram à superfície. Em outros ele pode ter até 1500m de profundidade, ou até mais. Assim, o Aqüífero Guarani se situa numa área subterrânea entre estados do Centro-Oeste e do Centro-Sul do Brasil, que, na superfície, abrange mais da metade da superfície do estado do Mato Grosso do Sul, mais ou menos um terço do estado de Goiás, toda a superfície do Triângulo Mineiro, mais da metade da superfície do Estado de São Paulo, mais da metade da superfície do Estado do Paraná, metade da superfície do Estado de Santa Catarina, metade da superfície do Estado do Rio Grande do Sul, algo do subsolo do Mato Grosso; e subsolo de milhares de quilômetros da superfície do Uruguay, da Argentina e do Paraguay.

O maior reservatório de água doce subterrânea do mundo. 850.000 km sob a superfície do Brasil, 225.000 km sob a superfície da Argentina, 70.000 km sob a superfície do Paraguay, e 40.000 km sob o território do Uruguay; num total de uma área de 1.190.000 km; com profundidades que variam desde os níveis da superfície, como dissemos, até mais de 1500 metros. Com um total de 37.000 km de reservas de água. Cada quilômetro correspondendo a 1.000.000.000.000 de litros de água !!! (minha calculadora não pôde calcular o total de reservas de água do Aqüífero... Quem quiser, é só multiplicar 37.000 km por 1.000.000.000.000 de litros, e terá o total de litros de Água armazenados no Aqüífero, sob os estados do Centro-Oeste e do Centro-Sul do Brasil, e do território da Argentina, Paraguay e Uruguay...).

 

O Aqüífero Guarani -- que recebeu este nome porque está situado no sub-solo da região geográfica onde se localizou a República sobrevivente dos Índios Guaranis, dizimados pela colonização --, se formou em tempos remotos da geogênese. É uma estrutura geológica dinâmica, que acumula imensidões de água pura; e que, ao mesmo tempo em que perde, inevitável e sazonalmente, as suas águas, através da tributação a cursos de água da superfície, e pelo consumo humano, é reabastecido sazonalmente, também, pelas recargas decorrentes dos ciclos geológico das águas. Existe assim um equilíbrio dinâmico de descarga e recarga sazonal das águas do Aqüífero.

Para isso, ele tem afloramentos na superfície, que são pontos específicos desta recarga. E, pontos igualmente de vulnerabilidade do aquífero, na medida em que esses pontos de recarga podem ser também pontos por onde a poluição, e a contaminação ambiental podem adentrar a sua pureza interior. Estes pontos de recarga são assim pontos de sua vulnerabilidade, porque através deles o aqüífero pode ser contaminado e/ou poluído.

O uso humano irracional de suas águas pode, também, alterar o equilíbrio de seus ciclos de exaustão e de recarga. Em particular, quando consideramos que na superfície de áreas de abrangência do Aqüífero Guarani se situam grandes centros urbanos, como os do interior de São Paulo, do Triângulo Mineiro, de Santa Catarina, do Paraná e do Rio Grande do Sul. Da mesma forma que se situam enormes plantações, como as plantações de cana de Ribeirão Preto, e as plantações de Soja, e outras. Que podem, pelo uso irracional, não sustentável, de águas para a irrigação, alterar a dinâmica dos ciclos de carga e descarga, e jogar agrotóxicos, inseticidas, fertilizantes, etc. para dentro do aqüífero, através de suas áreas de recarga.

O desconhecimento é o problema e risco maior para o Aqüífero Guarani. Na medida em que potencializa um uso irracional e predatório de suas águas. O desconhecimento impede uma compreensão pelas pessoas, e pela sociedade, da monumentalidade de sua importância, de seus riscos, e da necessidade da política de uma proteção ambiental, e de desenvolvimento sustentável. Podemos preservar por milênios o Aqüífero Guaraní, e desfrutar de suas águas por gerações e gerações, se não o poluirmos, e se compatibilizarmos a sua proteção com um desenvolvimento sustentável.

 

 

O aqüífero se formou nos tempos geogênicos da terra. No tempo em que os continentes primitivos -- blocos unificados de todos os continentes do planeta -- se fragmentavam, no que mais ou menos veio a configurar os continentes atuais, com a separação final das regiões do que hoje são o litoral da África e o Litoral do Nordeste do Brasil.

Na região da superfície onde hoje está o aqüífero havia um imenso deserto, um deserto ainda maior do que o deserto do Saara. A atividade geogênica constituía intensa atividade vulcânica e cataclísmica. De modo que toda a região do deserto começou a ser subvertida, e suas areias foram progressivamentea afundando, para o que viria ser o subsolo, num período de 2.000.000 a 10.000.000 de anos, alternando aí a rocha bassáltica das larvas vulcânicas, e as imensas, geológicas, quantidades de areia, que vieram a se configurar como rocha arenítica, do tipo vermelho (arenito Botucatu), e do tipo esbranquiçado (pirambóia).

Essa rocha arenítica, decorrente de areia, é intensamente porosa, e permite uma enorme capacidade de armazenamento de água. Nas proporções geológicas que ela se formou no subsolo da região do aqüífero, constituiu o imenso reservatório de água doce, sazonalmente abastecido e reabastecido, por centenas de milênios, pelas águas de superfície, no subsolo das imensas regiões do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul; e regiões da Argentina, Uruguay e Paraguay...

Todo esse processo de formação ocorreu há cerca de 250.000.000 de anos. Constituído o aqüífero, ele manteve por todo esse tempo a dinâmica de descarga e recarga de seu equilíbrio monumental. Nos últimos, e parcos, 200 anos, acelerou-se o crescimento das grandes cidades, que começaram germinar nas regiões do aqüífero há mais ou menos 300 anos. No aceleramento do crescimento das cidades, em particular das grandes metrópoles, veio o aumento do consumo da água do aqüífero, a poluição, as plantações, e seus pesticidas e outros agrotóxicos. Começando a colocar em risco o equilíbrio de sua dinâmica de descarga e recarga, pela abertura indiscriminada de poços de abastecimento e de irrigação; e começando a colocar em risco a pureza de suas água, pela contaminação e poluição de seus pontos superficiais de recarga; arriscando comprometer o seu uso e desfrute por gerações sem fim, caso a sua preservação e desenvolvimento sustentável não consiga manter as condições de possibilidade de seu equilíbrio, e das purezas de suas águas...

No meio científico, e mesmo no meio estatal, já existe o despertar de uma consciência ambiental e ecológica com relação ao aqüífero. Já existe o desenvolvimento de um programa multinacional, entre Brasil, Argentina, Uruguay e Paraguay, de estudo e de preservação, e constituição das condições de seu desenvolvimento sustentável. Mas o desconhecimento da sociedade em geral é muito grande, e perigoso. A consciência ambiental crítica das sociedades pode garantir o desenvolvimento de políticas de estado, e produção cultural compatíveis com a preservação das condições de preservação ambiental e de uso racional e ecológico do Aqüífero Guraní.

Conhecer o Aqüífero Guarani, sua monumental realidade geo e ecológica é uma tarefa primordial da psicologia e da educação ambiental, e da produção cultural ecológica.

(Na região existe um outro aqüífero, o Aqüífero Botucatu, menor do que o Aqüífero Guarani, mas igualmente de grandes proporções).

Os principais riscos que corre o Aqüífero Guarani são:

·        O desconhecimento por parte do meio científico, dos órgãos do estado, das instituições da sociedade civil, e da sociedade em geral;

·        A falta, pelo desconhecimento, de uma consciência ambiental crítica, que possa determinar políticas de estado e produção cultural que façam frente aos riscos que corre o aqüífero, e aos desafios de sua proteção ambiental e desenvolvimento sustentável.

·        O risco de contaminação e poluição das águas do aqüífero, através de sua recarga, pela poluição superficial. Indicando a premente necessidade de proteção de seus pontos superficiais e de recarga.

·        A superexploração das águas do aqüífero, levando ao desequilíbrio de seus ciclos naturais, e a uma redução na disponibilidade de água, ou a um aumento no custo da exploração.

·        As dificuldades de articulação institucional internacional, uma vez que o aqüífero se estende quatro países.

 

Bibliografia consultada:

OLIVEIRA, Cecy Aqüífero Guraní in Com Ciência Ambiental, ano 1, 4, 2006 pp.50-61.

PROJETO DE PROTEÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO AQÜÍFERO GUARANI. www.sg-guarani.org/index/index.php. (em 16 de Março de 2007).

SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO. http://www.ambiente.sp.gov.br/aquifero/principal_aquifero.htm

 

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