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ENSAIOS
EXPERIMENTAIS AMBI-ENTE. O AMBIENTE SOMOS NÓS. Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo. Não se trata portanto da impossibilidade de
atingir uma realidade exterior aos nossos afetos, mas da impossibilidade de
distinguir duas ordens de realidade: subjetiva e objetiva, ideal e material, numênica e fenomênica. Trata-se da impossibilidade de
transcendência: o que quer que seja “o mundo”, o homem é parte integrante
dele, e não pode reivindicar a exterioridade que seria necessária
para instituir a si mesmo como sujeito e ao mundo como objeto. O
percurso que conduz do homem ao mundo não é uma relação entre sujeito e
objeto (...). A
evidência compreensiva, fenomenológico existencial, vivencial, de que somos indissociáveis do que
entendemos como ambiente, inextrincáveis, é, ontologicamente, acessível a qualquer ser humano. Esta evidência ontológica,
fenomenológico existencial, de nossa co-pertinência ao que chamamos de
ambiente se dá, ambiguamente, no modo de sermos da tensão alteritária da movimentação mutual,
e recíproca, de uma dialógica eu-tu. É
também próprio, não obstante, a este ser ambíguo que somos, ambi-entais,
uma ambigüidade natural de modos de ser. Ambigüidade esta que, além
da dialógica eu-tu, comporta modos eu-isso de sermos. Nos quais
a vivência fenomenológica em geral, e a vivência da
evidência desta condição de integridade ambiental, em particular, não se
dão na imediaticidade de nosso modo humanamente ontológico,
fenomenológico existencial dialógico. De modo que, assim, se cinde, se rompe, a dialógica ambiental, e nos constituímos e
apartamos nós próprios como sujeitos, ao tempo que ambiente, apartado, se constitui
como objeto. A
prevalência cultural desses modos não ontológicos de sermos induz-nos a uma dis-integração, e a uma des-integração,
da nossa condição, e modo, ontológico, dialógica e dinamicamente íntegro, de
sermos ambientais. E a uma dicotomização, na
qual constituímos cada vez mais o "ambiente" como objeto; e a nós a
próprios como sujeitos. Numa segregação progressiva, na qual o
"ambiente", como objeto -- e não como o tu de uma
vivência fenomenológico existencial dialógica --, é
percebido de uma forma cada vez mais estranha, alienígena, hostil, e fóbica, utilitária, pragmática, mobilizando contra ele o nosso
estranhamento, a nossa alienação, a nossa rejeição, o nosso malquerer, a
nossa hostilidade, a nossa destrutividade... No
modo ontológico de sermos ambientais, estamos integrados ao ambiente, na
dialógica compreensiva dos fluxos, ritmos, demandas e necessidades que nos
são dialogicamente comuns e pertinentes. FENOMENOLOGIA,
ONTOLOGIA E ONTO LOGOS AMBIENTAL A
Ontologia Fenomenológica, Fenomenologia Ontológica mostra-nos e enfatiza o modo
de sermos de nossa vivência ontológica, vivência de ser no mundo. Na
qual, contrariamente aos modos de nossa consciência coisificada,
não nos segregamos, não nos desmembramos, do que entendemos como meio ambiente, numa dicotomização sujeito-objeto. Originariamente,
em nossa vivência ontológica, fenomenológico existencial, vigora a evidência vivencial da condição de que somente existimos numa
correlação intrínseca, indissociável, inevitável, incontornável, com o mundo;
anteriormente a qualquer possibilidade de dissociação. O
que se chamou de intencionalidade, na Fenomenologia da tradição de
Franz Brentano, descreve a evidência de que nem sujeito nem objeto, nem
consciência, nem mundo, existem em si. O sujeito, e a sua consciência, não
existem em si, e só existem numa correlação intrínseca com a suposta
objetividade e independência do mundo. O sujeito só existe enquanto
direcionado (intentio) ao mundo, ao objeto.
Da mesma forma que o mundo, o objeto, só existem
enquanto remetidos ao sujeito, enquanto remetidos à constituição originária
de sua consciência enquanto ser no mundo. Anteriormente a
qualquer possibilidade de dissociação. Os
termos eco-logia, ecos-sistema, por
exemplo, são, a rigor, impróprios. Na medida em que remetem ao meio
ambiente como uma casa, na qual nos inseriríamos... A evidência
compreensiva, implicada, da vivência ontológica não é exatamente esta; não é
a de um meio ambiente, no qual, e do qual, subsistiríamos como em um lar.
Somos indissociável e necessariamente implicados com o ambiente. Na
verdade, o que assim nos é dado é o meio ambiente ao modo de sermos de
nossa experiência coisificada, ôntica,
eu-isso. Ao
modo de sermos de nossa originária vivência ontológica de ser no mundo,
fenomenológica, e existencial, a evidência vivencial
é a de que somos indissociáveis do que, de outro modo, aparece como um meio
ambiente, como uma casa que abrigaria os seres vivos. Ou
seja, ao modo de sermos de nossa originária vivência ontológica
de ser no mundo, nós mesmos, e o meio ambiente, perfazemos um ser único, múltiplo, e íntegro, o
ambi-ente. Que, como tal, é indissociável, está
aquém da dicotomização sujeito-objeto. Ontológicamente, em nossa apreensão, compreensão,
fenomenológico existencial não nos segregamos do meio ambiente, e com ele
perfazemos este ser íntegro. O ambi-ente.
No qual o que entendemos como "nós mesmos" e "o mundo
ambiente" nos damos na indissociabilidade de
uma dialógica ambiental, que se constitui como dualidade eu-tu de sermos no mundo, e que caracteristicamente
não permite a dicotomização sujeito-objeto. Dito
de outra forma, a vivência fenomenal de sermos no mundo se dá num modo de
sermos/num modo de ser o mundo que não comporta a dicotomia sujeito-objeto.
Mas que, ontologicamente, fenomenológico existencialmente, se dá na dialógica
tensamente alteritária, e poiética,
hermenêutica, da movimentação recíproca e mutual da
dualidade eu-tu. De
duas formas fundamentais e originárias se constitui a ambigüidade característica
do ambi-ente. (1)
Em sua propriedade, como vivência dialógica fenomenológico
existencial, o ambi-ente é,
específica e eminentemente, ambíguo. Nesse caso, a ambigüidade do ambi-ente se constitui como a movimentação alteritária, mutual e
recíproca, da dialógica eu-tu. Ou seja, como
a relação com um outro, com uma diferença e alteridade radicais, com
que dialógica e indissociavelmente somos vinculados. Enquanto
ambi-ente, vivemos,
assim, na vivência do modo ontológico, fenomenológico existencial, de sermos,
a dualidade da movimentação recíproca da relação com um tu. Com uma
alteridade radical, mutual e recíproca, que de nós
não se dissocia. E que, nem por isso, se reduz em sua alteridade, ou em sua radicalidade alteritária. Na
indissociável dualidade intrínseca ao modo de sermos da dialógica eu-tu, o ambiente é sempre incontornavelmente outro. E um
foco autônomo de produção de sentido. Ainda que se dê no âmbito da vivência fenomenológico existencial integrada, mutual
e recíproca, e que não comporta uma dicotomização
sujeito-objeto. Ambiguamente, ainda -- ainda que, no modo de sermos de nossa
vivência ontológica, fenomenológico existencial, o ambiente não se dissocie
de nós próprios, como objeto --, (2)
fora do modo de sermos de nossa vivência ontológica originária, em
nosso modo coisificado, e não-presente, não
atual, de sermos, eu-isso (Buber), ele, o ambiente, se constitui, sim, objetivamente,
se constitui como objeto, como meio ambiente, eco-lógico. Calculável,
manipulável, utilizável, realizado, coisa. Um isso, na não
dialógica de um relacionamento eu-isso. De
modo que -- dimensão de sua ambigüidade -- o ambiente, que ontológicamente: ao modo de sermos de nossa vivência ontológica fenomenológico existencial, não é coisa;
também se constitui como coisa, como objeto. Ao modo de sermos de um
relacionamento -- ôntico, não ontológico -- eu-isso. Ainda que, propriamente, ontológicamente, ao modo da vivência ontológica
fenomenológico existencial de sermos, o ambiente só se dê na dialógica
do modo de sermos eu-tu. Na tensão dialógica alteritária, que não se dá como relação sujeito-objeto. Assim,
a ambigüidade ambi-ental
se dá, (1) na indissociável tensão e movimentação alteritária
da dialógica da relação eu-tu, intrinsecamente
mutual e recíproca. Na qual o ambiente não existe como
objeto, mas existe, alteritáriamente, como um tu,
é um outro, diferença ativa, autônoma e radical, um foco autônomo de produção
de sentido... Da
mesma forma, (2) a ambigüidade do ambi-ente
se dá no fato de que ele, o ambiente, ambígua e alternativamente, se
constitui, em consonância com os modos de sermos, ora como um tu, na
dialógica da relação eu-tu; ora como um isso,
como objeto, como coisa, uso e utilidade, característicos do modo de sermos
do relacionamento eu-isso. O
ambiente como coisa - no modo eu-isso,
ôntico, de sermos - não é um processo
fenomenológico existencial -- dialógico, ontológico --, de geração de sentido.
Não é dado como uma dinâmica de logos de integridade e implicação
originária, fenomenológicas, ação, atualização. Não é, em particular, fenômeno,
fenômeno-logos, não é existencial (eksistencial).
É o ambiente acontecido, coisificado, que, como
experiência, não comporta, em si, a potência, a possibilidade, e a ação,
a atualização. Não comporta o pres-ente e
a pres-ença, não comporta a atualidade. É
só passado. Não comporta a consciência, e, eventualmente, a motricidade, como
processos compreensivos, fenomenológico existenciais, de
desdobramento de sentido, e de ação. Não é o ambiente atual, e
presente. Em
nosso modo ontológico, eu-tu, de sermos e
devir, o ambiente, indissociável em termos de dicotomização
sujeito-objeto, é inteiramente presente e atual.
Ou seja, é pres-ente, no sentido de que não
é da ordem da coisidade. É pres-ente,
pré-coisa. Dá-se, não ao modo de sermos de coisa, mas ao modo
de sermos de pré-coisa, pres-ente, pré-ôntico. Ainda que, passada a momentaneidade da vivência ontológica, fenomenológico
existencial dialógica, converta-se, inevitavelmente, em coisa.
Possibilidade atualizada, realizada, um isso. O que é natural. Em
sua efetividade, o ambiente é, assim, especificamente atual, atualidade
e atualização (vivência fenomenológico
existencial atual). Na medida em que é inteiramente da ordem do
ato, da ação, da atualização. No sentido ontológico do
termo, no sentido da vivência ontológica, o ambiente só existe como ato,
como ação, como atualização. Ou seja, o ambiente só existe ontológicamente como possibilidade, como potência, como
possível que se desdobra em atualização, em ação, fenômeno lógica. Daí
que, similarmente a nós próprios, em nosso modo ontológico fenomenológico
existencial de sermos, o ambiente seja, essencial e eminentemente, hermenêutico, no sentido compreensivo da interpretação,
atualização, fenomenológico existencial, de possibilidades. Fora
de nosso modo de ser ontológico, e isto constitui o outro pólo desta dimensão
de sua ambigüidade -- fora de nosso modo de ser fenomenológico existencial,
dialógico --, no modo coisificado de sermos, o
ambiente se constitui como coisa, como fato, como acontecido, como dado, como
morto. Mormente quando este modo de sermos, coisificado, se instala e se torna hegemônico, enfraquecendo
a natural alternância dele como modo de sermos com o modo de sermos
ontológico, fenomenológico existencial, dialógico. Ao
seu nível próprio -- ao nível da propriedade de sua específica vivência
fenomenológico existencial --, o ambiente é vivo,
vividamente vivido, é estésico, e estético.
Vivencialmente, estésica, e esteticamente vivido, e
avaliado. De
modo que, na vivência ambiental fenomenológico existencial, há a constituição
de um logos fenomenológico ambiental, que, como tal, ontológico,
fenomenológico existencial, vivido, é eminentemente estésico,
e estético. E que é, nietzscheanamente,
a raiz e o critério de uma ética ambiental, de uma ética da sustentabilidade. Esse
logos estético do ambiente, sintoma de saúde humana e ambiental, pode
se dar sempre em culturas que se permitem a prevalência de uma vivência
dialógica, fenomenológico existencial, do ambiente. Assim,
podemos sentir a presença essencial deste logos ambiental na
carta crítica do Cacique Seatle ao Presidente dos
Estados Unidos, que queria comprar as terras de sua tribo. O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas
compartilham o mesmo sopro: o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o
mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um
homem agonizante há vários dias, é insensível ao seu próprio mau cheiro.
(...) Vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se nos
decidirmos a aceitar, imporei uma condição: O homem branco deve tratar os animais
desta terra como seus irmãos. O que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de
espírito. Pois o que ocorre com os animais, logo também acontece com o homem.
Há uma lição em tudo. Tudo está ligado. Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza
de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida
com a vida de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas:
que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontece à
Terra, acontece também aos filhos da Terra. Se os homens cospem no solo,
estão cuspindo em si mesmos. Disto nós sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem é que
pertence à terra. Disto sabemos: todas as coisas
então ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. Tudo o que acontece à Terra acontece, também,
aos filhos da Terra. O homem não teceu a teia da vida: ele é simplesmente um de seus fios.
Tudo o que o homem fizer ao tecido, estará fazendo a si mesmo. Mesmo o homem
branco, cujo Deus caminha e fala como ele de amigo para amigo, não pode estar
isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo.
Veremos. De uma coisa estamos certos (e o homem branco poderá vir um dia a
descobrir): Deus é um só, qualquer que seja o nome que lhe dêem. Vocês podem
pensar que O possuem como desejam possuir a nossa terra. Mas não é possível.
Ele é o Deus do homem, e sua compaixão é igual para o homem branco e para o
homem vermelho. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar o seu Criador.
Os homens brancos também passarão; talvez mais cedo
do que todas as outras tribos. Sujem suas camas, e uma noite acordarão
sufocados pelos próprios dejetos. Ao desaparecerem, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força
do Deus que os trouxe a esta terra, e que, por alguma razão especial, lhes
deu o domínio sobre ela e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério
para nós, pois somos selvagens, mas não compreendemos que todos os búfalos
sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos
secretos das florestas densas impregnados do cheiro de muitos homens, e a
vista dos morros obstruída por fios que falam. Onde está o arvoredo?
Desapareceu. Onde está a água? Desapareceu. É o final da vida e o inicio da
luta para sobreviver. Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa
Idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar, e o brilho
da água, como é possível comprá-los. Cada pedaço de terra é sagrado nas tradições de meu povo. Cada ramo
brilhante de pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na
floresta densa, cada clareira, e inseto a zumbir, são sagrados na memória e
na experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega
consigo as lembranças do homem vermelho... Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água,
mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem se lembrar de que ela é
sagrada, e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada, e que cada
reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da
vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais. Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas
canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês
devem lembrar e ensinar para seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus
também. E que, portanto, vocês devem doar aos rios a bondade que dedicariam a
qualquer irmão. Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção
de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um
forasteiro que vem à noite e rouba da terra tudo de que necessita. A terra,
para ele, não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, extraindo
dela o que deseja, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus
antepassados e não se incomoda. Rouba da terra aquilo que seria de seus
filhos, e não se importa... Seu apetite devorará a terra, deixando somente um
deserto. Eu não sei... Os nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de
suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho
seja um selvagem e não compreenda. Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde
se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera, ou o bater de asas de um
inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído
das cidades parece somente insultar os ouvidos. E o que resta de um homem, se
não pode ouvir o choro solitário de uma ave, ou o debate dos sapos ao redor
de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho, e não compreendo. O índio
prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio
vento, limpado por uma chuva diurna, ou perfumado pelos pinheiros. DIALÓGICA
AMBIENTAL Como
o nosso corpo, o ambiente que perfazemos, solidariamente
implicados, em nossa vivência ontológica, fenomenológico existencial -- já
que é apenas ao modo de sermos desta vivência que o ambiente pode
propriamente se dar --, possui desconhecidas e fundamentais dimensões. Mais
do que desconhecidas, essas dimensões são dimensões específica e
eminentemente ativas, lógicas -- no sentido da harmonia - em sua
funcionalidade, e incontroláveis. Cíclicas, inovativas,
nutritivas, sustentam a vida. O
ambiente tem assim a sua dimensão irrevogavelmente desconhecida, misteriosa e
ativa. Que subsiste e atua segundo a alteridade radical de um tu. E
que gera, preserva e sustenta a vida humana, e de todos os seres. O verso do Tao
Te Ching apreende a particularidade destas
dimensões e dinâmicas ambientais, e tematiza sacralidade do ambiente, e a importância do cuidado ao lidarmos
com elas. Quereria alguém arrebatar o mundo e
dele fazer o que quisesse? O mundo é um canal sagrado, que não
deve ser indevidamente manipulado, nem agarrado. O
logos, o sentido da vivência ambiental, do ser ambiental
que somos, fenomenológico existencial dialógico, nos
é dado, assim, em nosso modo ontológico de sermos, fenomenológico existencial
dialógico. A compreensão, portanto, de nossa intrínseca ambientalidade
como seres, pressupõe assim a natural alternância entre o nosso modo de
vivência ontológica, e o nosso modo de vivência não ontológica, e a prevalência
ontológica daquele modo de sermos. Quando
é obstruída a natural alternância entre esses dois modos de sermos,
prejudicada, não nos é dada a vivência compreensiva
de que nós mesmos e o que entendemos como meio ambiente fazemos, na verdade,
parte de uma integridade ontológica, que é indissociável do ponto de vista da
vivência fenomenológico existencial. E que se dá numa dialógica sensível, estésica, e estética, que dura indefinidamente. A
prevalência da prejudicação da alternância entre os
nossos modos de vivência ontológica compreensiva, e o modo de nossa experiência
não ontológica objetivista, nos leva à ruptura da
apreensão compreensiva de nossa integridade e de nossa integração dialógica ambiental.
Levando a uma relação de estranhamento, de alienação, problemática,
utilitária e hostil com um meio ambiente, constituído rigidamente como
objeto, como coisa, inevitavelmente a ser, abusivamente, manipulado,
espoliado, a ser explorado, hostilizado, e destruído. A
vivência do logos ambiental, da configuração de sentidos ambientais,
característicos de nossa vivencia ontológica fenomenológico
existencial dialógica, é, como toda a vivência dialógica, regeneradora
e transformadora de nossas condições existenciais. É vivência de múltiplo
que é diferente da soma de partes. Resgata-nos da determinação a que
somos inexoravelmente destinados na prevalência do modo eu-isso
de sermos, e propicia-nos o retorno à indeterminação da potência da
vivência de possibilidades. Possibilidades estas que se dão como atualização
fenomenológica dos os elementos ambientais vividos, e como potências para
atualizações em nossa existência. A vivência do logos ambiental
reitera nossa indissociável pertinência ao todo da natureza, a suas
inexoráveis dinâmicas de criação e finitude, a sua
intrínseca sabedoria. Como
vivência, o logos ambiental é eminente e especificamente estésico: corpo, vivido e
sentidos. Portador dos sentidos da perfeição e da beleza, como
vivência, o logos ambiental é eminentemente avaliativo. O privilégio de
sua vivência e modo avaliativo é o que chamamos de estética, uma ética
da estesia. Ou seja, o modo do procedimento
avaliativo que procede, como ação, atualização, da ontológica
vivência fenomenológico existencial dialógica de possibilidades. Devir e afirmação
de possibilidades da vivência do fenômeno lógica ambiental. De
modo que, mais do que nunca, a verdade e o valor não são teóricos. Mas,
específica e eminentemente, ontológicos,
fenomenológico existenciais dialógicos. Em
sendo assim, as condições de uma estética e de uma ética ambientais envolvem
o retornar - o re-voltar -, a partir do ambiente como coisa,
como um isso - objeto, objetivo, manipulável, conhecível, utilizável, pragmatizável --, o retornar para o ambiente como vivência
ontológica. Na verdade, o retornar à alternância natural entre o modo
pragmático de sermos, o modo eu-isso de
sermos, e o modo eu-tu de sermos.
Ontológico, fenomenológico existencial, dialógico. É
o retorno ao modo ontológico de sermos desta alternância que pode resgatar as
condições de apreciação e avaliação ontológicas do ambiente. Que pode
propiciar o resgate do respeito e da reverência pelo ambiente, na verdade a sacralidade do ambiente. Como uma monumental
alteridade radical, ativa e dinâmica, da qual somos partícipes. E da qual
podemos ser, propriamente, partícipes esteticamente ativos, e avaliativos. É
o retorno ao ambiente como vivência ontológica, fenomenológico
existencial dialógica, o ambiente como a alteridade radical de um tu,
que pode ser o fundamento de uma estética, especificamente ética,
ambiental. O fundamento de uma estética, especificamente
ética, da sustentabilidade, e da preservação ambientais. O
logos, o sentido da vivência ambiental, do ser ambiental
que somos, fenomenológico existencial dialógica, nos
é dado, assim, em nosso modo ontológico de sermos, fenomenológico existencial
dialógico. A compreensão, portanto, de nossa intrínseca ambientalidade
como seres, pressupõe assim a natural alternância entre o nosso modo de
vivência ontológica, e o nosso modo de vivência não ontológica. Quando
é obstruída a natural alternância entre esses dois modos de sermos,
prejudicada, não nos é dada a vivência compreensiva
de que nós mesmos e o que entendemos como meio ambiente fazemos, na verdade,
parte de uma integridade ontológica, que é indissociável, do ponto de vista
da vivência fenomenológico existencial. E que se dá numa dialógica sensível, estésica, e estética, que dura indefinidamente. A
prevalência da prejudicação da alternância entre os
nossos modos de vivência ontológica compreensiva, e o modo de nossa experiência
não ontológica objetivista, nos leva à ruptura da
apreensão compreensiva de nossa integridade e de nossa integração dialógica ambiental.
Levando a uma relação problemática, utilitária e hostil com um meio
ambiente constituído como objeto inevitavelmente a ser espoliado, a ser
explorado, hostilizado, e destruído. O
resgate da alternância entre os nossos modos fenomenológico
existencial, e o nosso modo não fenomenológico existencial propicia,
na vivência deste, a vivência propriamente dita do ambiente, que não é da
ordem das coisas. É o modo de sermos desta nossa vivência ontológica, fenomenológico existencial dialógica que permite a vivência
estésica (corpo, sentidos e vivido) do ambiente.
Vivência intrinsecamente avaliativa, de uma estética, que se constitui
como ética ambiental. Bibliografia. BUBER, Martin EU E TU. São Paulo,
Centauro, 2001. HEIDEGGER, Martin SER E TEMPO. Fondo de Cultura, 1985. NIETZSCHE, Frederich
GENEALOGIA DA MORAL. |