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Ressalta, nesse esfor�o anal�tico, a constru��o categorial das subtr�ades que articulam os impactos dos INTERESSES DA CREDIBILIDADE, GOVERNABILIDADE e RACIONALIDADE da forma��o de pol�ticas, no ambiente inclusivo dos Campos de Estrutura��o do Saber, da� se derivando uma Divis�o Funcional dos Estudos Pol�ticos.
[A] No ENFOQUE DA CULTURA POL�TICA:
O impacto do INTERESSE DA RACIONALIDADE no DOM�NIO DE T�OS, Identifica o locus epistemol�gico da Teoria Democr�tica, assim considerada a fundamenta��o em n�vel mais abstrato e valorativo - mais propriamente filos�fico - da ci�ncia pol�tica. Corresponde aqui a Teoria Pol�tica, a uma abordagem intentione recta - ou seja, na perspectiva do agir comunicativo - da subtr�ade que integra o Interesse da Racionalidade no Processo de Forma��o de Pol�ticas. Sua correspond�ncia, no modelo paradigm�tico da epistemologia de s�ntese, � a Semi�tica Transcendental e, numa abordagem mais tradicional dos estudos pol�ticos, de alguma forma resgata as preocupa��es normativas do enfoque jurisdicista da Teoria Geral do Estado.
Na perspectiva do fazer comunicativo - intentione obliqua - o impacto do INTERESSE DA RACIONALIDADE no DOM�NIO DE N�MOS, explicita o locus paradigm�tico do que, propriamente, vimos elaborando ao longo deste texto, qual seja, uma Epistemologia da Ci�ncia Pol�tica. A correspond�ncia estrita com a estrutura conceitual da Epistemologia de S�ntese, mant�m o paralelismo dessa abordagem especial da ci�ncia pol�tica no contexto gen�rico do paradigma sint�tico.
[B] No ENFOQUE DO COMPORTAMENTO POL�TICO:
O impacto do INTERESSE DA CREDIBILIDADE no DOM�NIO DE T�OS - no lugar ocupado pela �tica, no modelo sint�tico - identifica o locus do Afrontamento Pol�tico nessa abordagem de epistemologia especial.
E o impacto do INTERESSE DA CREDIBILIDADE no DOM�NIO DE PHYSIS - no lugar ocupado pela Pol�tica, no modelo sint�tico - identifica o locus da Interven��o Social na epistemologia da ci�ncia pol�tica.
[C] No ENFOQUE DA SOLU��O DE PROBLEMAS:
O impacto do INTERESSE DA GOVERNABILIDADE sobre o DOM�NIO DE N�MOS identifica o locus da Teoria Comparada, como um arcabou�o te�rico para a cr�tica hermen�utica dos regimes pol�ticos, que corresponde no estudo de forma��o de pol�ticas ao papel desempenhado pela HERMEN�UTICA no modelo sint�tico da epistemologia geral.
E o impacto do INTERESSE DA GOVERNABILIDADE sobre o dom�nio de PHYSIS identifica o locus da L�gica da A��o Coletiva, como a disciplina cogente dos processos decis�rios individuais e coletivos, correspondem sistematicamente, no estudo da forma��o de pol�ticas, �s fun��es desempenhadas no modelo sint�tico pela Heur�stica.
Uma observa��o se torna necess�ria nesse ponto. Trata-se da justificativa para essa aparente invers�o de posi��es, que nos leva a colocar a pol�tica-a��o no espa�o gen�rico da �tica, e o que explicitamos como opera��o do sistema geral de incentivos no lugar pr�prio da Pol�tica. De fato, a ci�ncia pol�tica como "afrontamento", focaliza o momento pr�tico da tomada de consci�ncia - da forma��o de atitudes sociais, onde a constru��o e a avalia��o de cen�rios da vida futura constitui uma ferramenta indispens�vel � an�lise para o posicionamento normativo do cidad�o - ou do ator coletivo. Nesse momento, a ci�ncia pol�tica � caudat�ria da �tica - n�o sendo aceit�vel a sua desconformidade com as regras do bem viver - o animal pol�tico, aqui, � antes de tudo e sobretudo um vir bonus. J� no momento da sua "interven��o" na sociedade, as regras do bem viver e as inclina��es do vir bonus necessitam adequar-se aos constrangimentos da intera��o pol�tica, conhecendo e conformando-se �s condi��es estrat�gicas da intera��o social, aos crit�rios de viabilidade e efic�cia, sempre, entretanto, em estreita correla��o e numa rela��o instrumental ao afrontamento pol�tico.
A ci�ncia pol�tica, no campo da interven��o social, descortina um vasto arsenal de recursos operacionais, que as sociedades t�m desenvolvido com vistas � compatibiliza��o das l�gicas, eventualmente contradit�rias, dos interesses individual e social. A isso denominamos "sistema geral de incentivos". A terminologia � emprestada ao conceito dos "incentivos paralelos" com que Mancur OLSON Jr. no seu estudo cl�ssico, The Logic of Collective Action, designa os elementos adicionais de barganha e convencimento que, sob a forma de remunera��o externa a uma dada situa��o de conflito de interesses, permitem fazer pender a balan�a do interesse individual na escolha de uma estrat�gia cooperativa, na implementa��o de um curso de a��o coletiva.
Nessa conceitua��o ampla, o sistema geral de incentivos � participa��o pol�tica, inclui toda a sorte de remunera��es que t�m provido aos detentores do munus p�blico as condi��es necess�rias para o adequado desempenho das suas fun��es. � nessa perspectiva que uma ci�ncia pol�tica contempor�nea haver� de tematizar a quest�o do acesso, da remunera��o, dos padr�es de desempenho, em cargos p�blicos, eletivos ou n�o, como um campo espec�fico de investiga��o - onde se incluem, diga-se de passagem, uma parte substancial dos temas de pol�tica p�blica abrangidos pelo conceito corrente da "Reforma do Estado" [Nota 15].
A Tabela 1, a seguir, explicita uma primeira taxionomia dos estudos pol�ticos, estabelecendo uma correla��o sistem�tica, das categorias da epistemologia de s�ntese, com os conceitos que integram a Divis�o Funcional do Saber em ci�ncia pol�tica.
Tabela 1- Configura��o tem�tica da Ci�ncia Pol�tica: na perspectiva do seu n�cleo s�gnico e dos enfoques propiciados pela tr�ade dos interesses epistemol�gicos.
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Empatia: ATOR SO- CIAL | ||
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CONSTRU��O DA SOBERANIA - Teorias das Formas de Governo; | |
ENGENHARIA DO CONSENSO - Teorias do Desenvolvimento Pol�tico; | |
PREVEN��O DA TIRANIA - Teorias das Institui��es Pol�ticas; | |
IMPLEMENTA��O DA ESCOLHA P�BLICA - An�lises de Pol�ticas P�blicas. |
Tabela 2 - Divis�o Estrutural do Saber na Epistemologia da Ci�ncia Pol�tica.
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Inobstante, uma advert�ncia se torna oportuna. Esta, como ali�s toda a nossa constru��o conceitual, n�o � uma proposta fechada. Elaboramos um modelo paradigm�tico, que responde a grandes coordenadas te�ricas e se formaliza em m�ltiplos espa�os de propriedades. A concep��o te�rica e morfol�gica que, assim, submetemos � an�lise, como um recursos heur�stico, nos orientou e conduziu ao preenchimento dos seus espa�os conceituais.
Navegamos no modelo paradigm�tico, da mesma forma como no processo de um outro desenvolvimento paradigm�tico - cuja analogia nos socorre - cientistas se deixaram conduzir �s experi�ncias e investiga��es que acabaram resultando no preenchimento da Tabela Peri�dica sobre a composi��o da mat�ria. Efetivamente, ao formular a proposta paradigm�tica do modelo sint�tico, n�o descortin�vamos todas as suas deriva��es. E, por duas raz�es, que se imp�e ressaltar, pelo dever da humildade diante da tarefa, ainda n�o descortinamos com a precis�o desej�vel e com a amplitude poss�vel de ser explorada no estado atual da arte:
porque os dom�nios do saber contempor�neo - de forma geral - e a amplitude dos estudos pol�ticos - de forma especial - j� constituem um volume de conhecimentos, que ultrapassa os limites de uma cultura enciclop�dica - que certamente n�o possu�mos; e, | |
porque o modelo da epistemologia de s�ntese � um sistema aberto - suscet�vel de m�ltiplas e infinitas deriva��es tri�dicas. |
Na identifica��o dos conceitos b�sicos e na sua axiomatiza��o, utilizamos os recursos te�ricos - l�gicos e infral�gicos - que nos foram sistem�tica ou intuitivamente acess�veis. Certamente, o resultado final poder� ser especificado, completado ou questionado, desde pontos e contextos de observa��o e an�lise diferenciados. Viabilizar e estimular esse debate � a principal e, assim tamb�m modesta, pretens�o da nossa "tese".
Para essa finalidade, e com o objetivo de completar a deriva��o sistem�tica de epistemologia da ci�ncia pol�tica, desde os postulados do paradigma sint�tico, agregam-se mais dois quadros anal�ticos, ao conte�do deste texto. O Quadro XIV comp�e um diagrama sint�tico da pir�mide do saber em Ci�ncia Pol�tica, guardando estrito paralelismo com a mesma figura��o sint�tica, que nos viabilizou a compreens�o do paradigma da Epistemologia de S�ntese [conforme explicitado no Cap�tulo 5.2, Quadro 15].
Quadro XIV - Diagrama sint�tico da Epistemologia da Ci�ncia Pol�tica, no espa�o tridimensional da Epistemologia de S�ntese.

Quadro XV: Categorias de AL�THEIA (PALAVRA-DEMOCR�TICA) e o paradigma emergente de uma CI�NCIA POL�TICA na epistemologia de s�ntese.

A ci�ncia pol�tica emergente e o axioma da indescartabilidade da democracia liberal
Ao concluirmos essa vis�o de conjunto, sobre o modelo paradigm�tico da ci�ncia pol�tica, aqui trabalhado, � necess�rio que se avancem algumas conclus�es e reflex�es que - embora paralelas ao nosso esfor�o de formaliza��o te�rica - s�o relevantes ao enquadramento contextual da quest�o democr�tica, que se pretendeu ressaltar neste texto.A quest�o que nos propomos enfrentar, ainda que especulativa e tangencialmente, resume-se no conte�do da seguinte interroga��o: na presente etapa do processo civilizat�rio, levando-se em conta o processo de globaliza��o do capitalismo, qual o progn�stico para a consolida��o e desenvolvimento de uma ci�ncia pol�tica, cujo paradigma enraizou nos prospectos da democracia-liberal?
Essa quest�o, por outro lado, fere, pela sua concretude e pelo desvelamento necess�rio das implica��es ideol�gicas do debate em torno da quest�o democr�tica. Exige um posicionamento sobre o sentido e o destino que se pretenda oferecer �s institui��es da democracia liberal; isso que n�o pode ser descartado, e muito menos pela mera justaposi��o de um receitu�rio imaginativo, algumas vezes demag�gico e noutras ing�nuo, amplamente disseminado sob o r�tulo da democracia participativa ou radical.
Nada contra a experimenta��o democr�tica que, postulada no ide�rio e adotada na pr�tica de partidos e movimentos pol�ticos, tem-nos obviado a necessidade de refletir sobre as dimens�es da mobiliza��o e da participa��o pol�ticas, no contexto de uma sociedade democr�tica. Tudo em contr�rio, no entanto, � pretens�o de que tais experimentos representem uma alternativa concreta aos axiomas fundamentais que sustentam a constru��o hegem�nica da democracia liberal. Tanto mais quanto, em boa medida, tais experimentos combinam axiomas cl�ssicos da cidadania - como o direito de voz e o direito do voto - com obst�culos tradicionais � efetiva consolida��o da sua promessa libert�ria.
N�o se pretende aprofundar esse tema, mas a quest�o democr�tica merece mais respeito em nosso meio, do que a sua redu��o � manipula��o do consentimento; a qual, se n�o � infensa ao funcionamento das institui��es tradicionais da democracia liberal - que no entanto lhe oferecem resist�ncia - ganha exuber�ncia, em claro desvio de uma efetiva institucionaliza��o do princ�pio da responsabilidade pol�tica, na democracia tutelada dos plebiscitos conduzidos pelo Poder Executivo, em cuja categoria se incluem tanto a consulta popular direta, de car�ter meramente legitimat�rio, quanto as pr�ticas mais complexas que reproduzem, na esfera das rela��es pol�tico-administrativas, os procedimentos de uma "administra��o por objetivos" [Nota 17].
O que se pretende, simplesmente, postular, � que se torna cada vez mais necess�rio levar a s�rio o aprofundamento e a consolida��o das conquistas da democracia liberal. E que a ci�ncia pol�tica, ou assume paradigm�ticamente esse compromisso, ou abdica contemporaneamente da sua voca��o �tica e cr�tica.
Numa tentativa de escamotear esse desafio, t�m-se afirmado que os processos da hegemonia econ�mica em curso, nesta etapa de globaliza��o do sistema capitalista, ao contr�rio de disseminar e consolidar mundialmente o modelo pol�tico da democracia-liberal, convivem com a sua crise e estariam promovendo a sua dissolu��o.
Nesse sentido, convergem interpreta��es lineares e grosseiras das teorias da "constru��o simbi�tica" da democracia-liberal [concluindo pela insuscetibilidade de seu desenvolvimento fora do contexto de origem] com as conclus�es categ�ricas que denunciam a irrealiza��o da promessa democr�tica, como uma qualidade �nsita do aspecto formal e abstrato do seu construto paradigm�tico.
Para suportar a primeira dessas obje��es, seria necess�rio demonstrar, n�o apenas a idiossincrasia do modelo democr�tico-liberal - que lhe permitiu extraordin�ria ader�ncia ao processo do desenvolvimento capitalista na Revolu��o Industrial, mas tamb�m a sua inadaptabilidade no tempo e no espa�o contempor�neos. Ora, a evid�ncia emp�rica tem demonstrado, muito ao contr�rio, a enorme flexibilidade das institui��es democr�tico-liberais, para se implantarem e sobreviverem no solo n�o trabalhado de culturas pol�ticas totalmente adversas. Aquilo que, por um lado, poderia ser apontado como um "problema de legitima��o" - a sobreviv�ncia de atitudes e a eventual reicindiva de comportamentos autorit�rios, em pa�ses que se "democratizaram" tardiamente - no reverso da mesma moeda, revela tra�os de uma grande capacidade de implanta��o em solo agreste, por parte das institui��es democr�ticas.
Para suportar a segunda dessas obje��es, seria necess�rio, por sua vez, demonstrar, n�o apenas a inconcretude das conquistas libert�rias do paradigma democr�tico hegem�nico, como a sua insufici�ncia radical e insan�vel, para responder aos desafios propostos pela mundializa��o das rela��es de poder e pelo potencial democratizante da rede de comunica��es que conforma a aldeia global. Ora, a evid�ncia dos fatos tem demonstrado que, se por um lado, a democracia liberal tem se constitu�do, numa resposta ainda insuficiente aos prospectos do SABER POL�TICO articulado, como CONSTRU��O DA SOBERANIA, ENGENHARIA DO CONSENSO, PREVEN��O DA TIRANIA e IMPLEMENTA��O DA ESCOLHA P�BLICA; onde ela falece, esse d�fice ainda � maior.
De fato, entre a emerg�ncia do conceito democr�tico, no processo de seculariza��o da Gr�cia arcaica, e o limiar da consolida��o do modelo democr�tico-liberal hegem�nico, nesta transi��o que vivenciamos do projeto da modernidade, a base social da experi�ncia democr�tica foi radicalmente alterada por tr�s condi��es estruturais: a expans�o demogr�fica determinando a massifica��o das rela��es pol�ticas; a expans�o territorial da constitui��o pol�tica al�m das fronteiras da cidade, que passa a distinguir-se do Estado; e a complexifica��o do espa�o p�blico, que se reflete na emerg�ncia de intermedia��es cr�ticas (corpora��es, partidos, e meios de comunica��o) entre os processos de articula��o e agrega��o de interesses no �mbito da sociedade civil e a estrutura do governo.
Tensionada pelo desafio dessas constri��es, a teoria pol�tica engendrou, na experi�ncia hist�rica da democracia liberal, uma condi��o de resist�ncia capaz de assegurar patamares m�nimos de realiza��o ao conte�do emancipat�rio do projeto da modernidade.
Nesse campo, vale considerar que a democracia-liberal, permanentemente atacada pelos fundamentalismos sect�rios que medram nas �pocas de crise, tem sido reconhecida como um indispens�vel e concreto instrumento de luta pol�tica, e como alicerce indescart�vel das conquistas sociais das classes trabalhadoras, pelo pensamento de esquerda mais conseq�ente.
O pr�prio MARX visualizou, como um dos grandes erros da classe oper�ria francesa, o combate indiscriminado ao Parlamento. Quando as baionetas s�o desembainhadas, a diferen�a entre a legitima��o estrat�gica e a oposi��o demag�gica �s institui��es democr�tico-liberais, pode representar a mesma dist�ncia que existe, entre a resist�ncia civil numa trincheira bem guarnecida, em guerra de posi��es, e o enfrentamento desarmado de fogo de canhoneira, numa guerra de movimentos. Em Fran�a de Lu�s Napole�o Bonaparte, a classe oper�ria, tendo queimado a bandeira da legalidade democr�tica, n�o apenas promoveu nisso o erro fatal do seu isolamento pol�tico, como resultou por isso mesmo desarmada de instrumentos concretos de luta, que lhe ocasionaram a derrota por absoluta falta de condi��es de enfrentamento pol�tico.
A hist�ria demonstra assim. como � t�nue a linha divis�ria e revers�vel a dire��o dos impactos que diferenciam o formal e o material, o abstrato e o concreto - da mesma forma como, no modelo paradigm�tico que vimos desenvolvendo, est�o imbricadas as dimens�es do agir e do fazer comunicativos, do proferimento que resulta da a��o e do interpretante que projeta a sua representa��o simb�lica. A aus�ncia desse referencial te�rico, por outro lado, permite que se esvane�am no ar, como pequenas bolhas de ilus�o, as tentativas de se afirmar posi��es que atentem, apenas, a uma ou outra destas polaridades circunstanciais; essas mesmas que, no seu esfor�o para desintegrarem-se uma a outra, oferecem o enredo para a narrativa �pica da modernidade e a representa��o tr�gica da sua transi��o.
No curso deste s�culo que se encerra, a democracia liberal enraizou-se na capacidade de resist�ncia civilizat�ria, para uma resposta, ainda que t�nue e incompleta, �s amea�as mais dr�sticas � liberdade, � igualdade e � fraternidade, representada pela mundializa��o da pol�tica, pela emerg�ncia da sociedade de massas e pelo crescimento das pot�ncias midi�ticas. Se as solu��es avan�adas pela democracia liberal, sob certo aspecto, foram incapazes de contrapor-se eficazmente �s tend�ncias de oligarquiza��o, manipula��o e massifica��o, dos processos pol�ticos; disso n�o decorre, necessariamente, a sua nega��o - muito ao contr�rio, abre-se aqui o espa�o para o reconhecimento, tamb�m, que n�o hav�amos amadurecido as condi��es materiais da sua supera��o.
Esse limiar, talvez, estejamos atingindo - exatamente hoje no fulcro do processo de globaliza��o capitalista - quando se introduz a no��o do espa�o p�blico como cyberespa�o e come�am a encarar-se os desafios de uma nova concep��o de cidadania, a qual, por falta de uma denomina��o pr�pria se tem chamado "cient�fico-tecnol�gica"... ou "digitalizada".
No curso da modernidade, o monop�lio da narrativa e a intermedia��o das informa��es t�m canalizado a articula��o e agrega��o dos interesses fragment�rios dos milh�es de seres humanos detentores origin�rios da soberania. Em conseq��ncia, os detentores imediatos da soberania tornaram-se dependentes para o seu auto-esclarecimento e mobiliza��o, dos processos centralizados e lineares de informa��o que, tendencialmente, substituem uma abordagem cr�tica dos fatos, pela sua vers�o afeita aos interesses que privilegiam. � quando tudo isso come�a se desintegrar via internet, nos rizomas de uma rede de possibilidades infinitas de comunica��o imediata e sin�rgica, que talvez comecem a abrir-se as condi��es de completa��o da promessa democr�tica, que o projeto da modernidade gestou no curso do desenvolvimento capitalista.
N�o se veja nessa constata��o, a ingenuidade de propor-se uma solu��o "t�cnica" para um problema "pol�tico". Mas, t�o simplesmente, o reconhecimento que: se, h� pouco tempo, as alternativas t�cnicas dispon�veis no campo da comunica��o constitu�am obst�culos concretos � radicaliza��o da pol�tica democr�tica; hoje, essa condi��o come�a a desfazer-se, pela acessibilidade das redes de informa��o e pelo seu potencial de interatividade.
N�o se veja nisso, por outro lado, um paradoxal decreto de morte da democracia liberal, como se esta fora um construto plasmado para uma resposta prec�ria da teoria pol�tica, restrita ao campo hist�rico da modernidade que se cumpre e destinada a ser substitu�da pela nova promessa de uma democracia virtual (direta). Desde o ponto de vista que temos firmado, que ressalta a imbrica��o necess�ria da teoria pol�tica na quest�o democr�tica, pode-se afirmar tamb�m, pela raz�o inversa, que as institui��es da democracia liberal enraizaram no solo f�rtil de uma tradi��o te�rica da ci�ncia pol�tica, que n�o se circunscreve ao enquadramento hist�rico do projeto da modernidade. Por isso mesmo, sua adequa��o aos desafios da transi��o p�s-moderna responder� �s exig�ncias de uma mudan�a paradigm�tica, capaz de abarcar todo o seu potencial emancipat�rio e potencializ�-lo. Mesmo n�o tendo ainda sedimentado uma solu��o efetiva para o disciplinamento �tico-pol�tico das pot�ncias midi�ticas e da domina��o que exerceram nas etapas que se cumprem do desenvolvimento capitalista, a democracia liberal representa uma condi��o necess�ria, como ponto de partida, para a formula��o de um modelo capaz de erigir o seu afrontamento sobre as novas condi��es sociais e tecnol�gicas no limiar do Terceiro Mil�nio.
Avan�amos, destarte, a clarifica��o do axioma que postula a indescartabilidade das institui��es democr�tico-liberais, na presente etapa da transi��o civilizat�ria. O conte�do emancipat�rio da democracia liberal foi gestado no projeto da modernidade; mas vem � luz no seu termo. Como um P�ssaro de Minerva, esse conte�do do Saber acumulado dos tempos, al�a o seu v�o ao cair da noite - quando j� est�o maduras as condi��es para o seu entendimento e a sua reflex�o sobre as pr�prias condi��es da sua emerg�ncia. Por isso que, a hist�ria democr�tica da transi��o p�s-moderna, ser� a hist�ria da domestica��o do capitalismo hegem�nico pela radicaliza��o do correspondente paradigma pol�tico.... ou, simplesmente, n�o ser�!
N�o se pretende, com essa linha de racioc�nio, desconhecer a extens�o dos desafios que o modelo democr�tico-liberal enfrenta nesse momento de sua consolida��o hegem�nica. N�o se pretende, tamb�m, descartar a import�ncia da experimenta��o democr�tica, na composi��o de f�rmulas, capazes de aprofundar a realiza��o dos ideais da identidade, autonomia, solidariedade e subjetividade, no mundo global. O que no entanto ocorre, � que este enfrentamento e esse aprofundamento da experi�ncia democr�tica implicam na hegemonia democr�tico-liberal e s�o inconceb�veis fora da sua esfera de oportunidades e de prote��o.
O grande risco que se corre, ao desconhecer-se essa premissa, � o que, metaforicamente, pode ser figurado pela imagem de se "jogar a crian�a fora com a �gua suja do banho." Diante dos obst�culos � sua dissemina��o e do desafio representado pelas novas formas do poder social, corre-se o risco de se descartar o modelo pol�tico da democracia-liberal, sem que, no entanto se tenha em m�os um substituto a altura da tarefa a ser empreendida. Risco que se magnifica, diante do s�ndrome regressivo, que os d�fices de realiza��o do projeto da modernidade projetam no campo pol�tico... isso que, na seq��ncia de nossa investiga��o, haveremos de detalhar.
A esse respeito: uma observa��o contundente e duas conclus�es inc�modas!
� que, no vazio dessa dupla nega��o - dos d�fices pol�ticos da modernidade e do paradigma democr�tico-liberal - n�o medra atualmente nenhuma proposta alternativa, que n�o pague tributo ao s�ndrome dos autoritarismos, corporativismos e fundamentalismos, que se articulam de forma end�mica, no cinismo da pol�tica de ocasi�o. Circunst�ncia, ali�s, que tem plantado em alguns arraiais acad�micos, com extensa repercuss�o na milit�ncia pol�tica, uma vers�o vulgar do irracionalismo hegeliano: a teoria do olho do furac�o. Enquanto a crise varre o mundo � nossa volta, dizem esses novos eleatas, nada se move, nada se percebe, pelo que n�o resta sen�o afirmar a pr�pria impossibilidade da mudan�a e do conhecimento - a nega��o sistem�tica de tudo que existe l� fora.
Numa vers�o ainda mais prec�ria, dessa mesma linha de atitudes, adota-se a teoria do buraco do avestruz: diante do perigo � frente, enfia-se a cabe�a numa toca, recusando-se ver e ouvir; deserta-se, dessarte, o compromisso do enfrentamento da tormenta, numa fixa��o imobilista, que acena para uma reitera��o sistem�tica de tudo que j� n�o subsistir� aqui dentro. Lastimavelmente, o discurso obitu�rio de segmentos consider�veis da milit�ncia pol�tica, que pretendem resolver os impasses da hora presente pela mera agita��o de uma consigna anti-neoliberal, incide nessa postura.
Uma primeira conclus�o: a promessa do modelo pol�tico democr�tico-liberal - que aponta � necess�ria globaliza��o das suas conquistas institucionais e sociais - integra o paradigma da ci�ncia pol�tica emergente. Essa � uma proposi��o de forte impacto nos meios acad�micos, eis que, implicitamente, afirma que o modelo pol�tico mais adequado � realiza��o dos valores democr�ticos na p�s-modernidade compreender� mudan�as e avan�os necessariamente agregativos ao paradigma da democracia liberal [Nota 18] - aponta caminhos para o seu aprofundamento e consolida��o.
Tomando por base, de outro lado, a teoria da "constru��o simbi�tica" - que identifica a inven��o do modelo democr�tico-liberal com o desenvolvimento origin�rio do sistema capitalista - uma proposi��o derivada, embora, talvez menos rigorosa, mas n�o menos contundente, reconhece que o aprofundamento e consolida��o do modelo pol�tico hegem�nico da democracia liberal, nas condi��es da transi��o p�s-moderna, haver� de ser tamb�m, necessariamente, compat�vel com os princ�pios do mercado, contrastando ao respectivo processo de acumula��o, mecanismos gestion�rios de produ��o, controle e distribui��o da riqueza, que a par de sua "domestica��o", haver�o de aprofundar e consolidar [e assim tamb�m modificar e regular] o capitalismo global.
Sob essa �tica, o quadro hist�rico contempor�neo, oferece bases para um progn�stico favor�vel � democracia liberal, como uma resposta conseq�ente � quest�o civilizat�ria que se projeta nos desafios da globaliza��o. Um progn�stico, diga-se de passagem, bem mais favor�vel, do que a condi��o prec�ria e sobrevivente, que confortou aos precursores da teoria democr�tico-liberal diante dos obst�culos materiais que a modernidade lhe ofereceu, como foram sinalizados pelo repto marxista.
Se isso pode servir de algum est�mulo, diante das dificuldades a serem ainda enfrentadas, na imbrica��o necess�ria da teoria pol�tica e da democracia, e da sua fun��o crucial na conforma��o ci�ncia pol�tica emergente, temos hoje mais raz�es para acreditar no sucesso desse empreendimento do que nossos antecessores. E, se a eles a hist�ria n�o recusou confirmar-lhes a intui��o, � l�cito esperar-se que nos conceda igual ou maior privil�gio.
A dificuldade corrente, entretanto, de se aceitarem essas premissas no debate acad�mico, ideol�gico ou partid�rio, corre por conta dos obst�culos epistemol�gicos que dificultam a emerg�ncia de um paradigma, capaz de satisfazer as exig�ncias da crise que atravessamos. � que, estabelecidas essas premissas, torna-se consequentemente impens�vel, no atual est�gio do processo civilizat�rio, uma solu��o paradigm�tica para a forma��o de pol�ticas p�blicas, que fuja aos par�metros da teoria democr�tica e da imbrica��o proativa no processo de globaliza��o do sistema capitalista mundial. E, para uma ci�ncia social, secularmente constru�da sob a influ�ncia e sobre a tradi��o do marxismo e do socialismo, e que sistematicamente tem alimentado uma milit�ncia partid�ria anti-liberal e anti-capitalista, essa � uma queda de bra�o dura de suportar.
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