A maratona se foi
Eleonora de Lucena
Abro a passada e des�o, mas percebo que ser� um erro for�ar mais o ritmo. Tenho de aproveitar que, para baixo, o cora��o nem sente, mas n�o posso abusar da musculatura: as pernas ainda precisam me carregar por mais 24 encabritados quil�metros, confiar nesse morro abaixo � morte certa.
L� longe, vejo dois fulanos com uniforme alaranjado el�trico, parecem os caras de Durban, vou chegando perto, imagino que em mais um quil�metro vou passar deles.
Passo, mas n�o s�o os de Durban, s� o uniforme que � parecido. Paci�ncia, os caras se foram mesmo, disseram que iriam a 6 por km e cumpriram.                           Que nada! Uns tantos metros � frente l� est�o eles descendo o morro com cuidado. Largo um pouco a paci�ncia e me vou, emparelho quando d� e vou embora. Passo e nunca mais vejo os piadistas.
Nessa toada chego aos 38 sem ter recuperado terreno, mas tamb�m sem perder mais. Agora, a julgar pela altimetria publicada, vai ter de novo uma subida, depois uma descida at� a marca dos 42. Fico pensando em como estou me sentindo bem, quase a maratona e nem sinal de cansa�o.
Vejo de novo a Christine, agora ao lado dela vai um sujeito que conversou comigo l� atr�s, pelo km 10, contando que tinha parentes em S�o Paulo e na Su��a, mas era sul-africano, de nome que consegui entender com �Quaglio� ou algo parecido. S� fui compreender depois de ver, nas costas de sua camiseta, escrito Joe Coelho. Fiquei feliz de chegar perto deles, que n�o via h� quil�metros, mas a alegria n�o durou muito, porque meu ritmo n�o melhorava, e eles seguiam numa balada s�, comprovando que a sessentona (ou mais, n�o d� para saber) Christine era de f� mesmo.
No c�u, 56 k  desenhados com a fuma�a de um avi�o
Passei a maratona com 4h24, com a m�dia em queda livre, e o cerebrozinho coitado vai calculando: pouco mais de uma hora e meia para as 6h, faltam 14 km, o ritmo tem de ser em torno de 6min45/km, o que talvez d�, talvez n�o d�. Mais prov�vel que n�o d�, o calor aumenta, j� passa dos 25 graus, o trajeto nesta metade final � muito mais duro, sei l�, vou tentar acelerar um pouquinho.
Mas � abrir a passada e a freq��ncia, a essa altura em torno dos 160 bpm, sobe para os 170. Isso n�o vou permitir, me digo, porque sei que a� posso at� correr risco. N�o de n�o terminar, acredito, mas de me machucar ou de chegar mais cansado do que quero.
Afinal, n�o basta chegar. Tenho de chegar inteiro, vivo e forte para festejar com a Eleonora. Ainda temos uma tarde e uma noite inteira de �frica do Sul pela frente, o v�o de volta ser� s� na madrugada do dia seguinte.
Quando acelero, a panturrilha da perna esquerda d� sinal. Pode ser an�ncio de c�imbra, outro mal de que estou decidido a n�o sofrer. Nunca tive, nos meus quatro anos de corridas, e n�o vai ser agora. Come�o a pensar que talvez deva caminhar �s vezes, para correr mais solto.
N�o tenho de pensar muito, porque agora a estrada principal, por onde seguem os corredores, � cortada de vez em quando por outras. J� estamos nos sub�rbios da cidade, parece, com casas de campo, grandes bosques onde h� clubes de hipismo. Nos cruzamentos, guardas garantem que os carros nos esperem. Mas �s vezes somos os corredores que temos de parar.
Continua
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