Diácono Belzebu na Web
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Autor: César Medeiros (*)
Dizem que o homem é o único animal que pensa. Mas ele não é o que pensa que é. Assoberbado, pretensioso, hipócrita e cheio de razão, quer sempre impor seu ponto-de-vista sobre os demais. Mas não gosta de ouvir o do outro. Resolvi escrever o meu, depois de longos anos de silêncio e o "saco cheio" de tanto ser incomodado por quem se diz religioso mas não consegue respeitar quem está ao seu lado. Meu objetivo é, primeiramente, mostrar que o homem comum também pensa. Segundo, que é possível um homem comum pensar diferente da maioria. Terceiro, que o cristão é, acima de tudo, intolerante com quem ele diz ser seu próximo.Como sou humano, também gosto de tentar mostrar que estou com a razão e que minhas idéias são melhores que as dos outros. Não acho que este seja o maior defeito da humanidade. Todos tentam fazer isso. O problema é que ninguém admite. Só enxergam o defeito nos outros. Aliás, apontar defeitos nos outros, é uma das principais características do cristão, que sempre fala para não julgar o próximo, julga-o assim mesmo, mas detesta ser julgado por quem quer que seja. Este artigo, em forma de perguntas e respostas, foi escrito antes de "PORQUE NÃO SOU CRISTÃO", também de minha autoria, que serviu de "isca" para levar os cristãos ao debate. Não deu outra: vários deles caíram na armadilha. Por esse motivo, agora explico, detalhadamente, as afirmações que lá se encontram, tomando por base a Bíblia cristã.O material a seguir foi extraído de conversas na Internet, em salas de "chat", no Brasil e no exterior, onde o assunto predominante era Religião, como também de artigos que foram escritos com o objetivo de refutarem minhas idéias. Na realidade tudo que aqui está faz parte de um dos capítulos do livro que estou escrevendo sobre Deus e o Cristianismo. As considerações que faço representam, única e exclusivamente, o meu ponto-de-vista sobre o assunto, e não pretendem ser definitivas, nem entendidas como verdade absoluta, pois emergiram do cérebro de um leigo, igual a milhões de outros leigos que se dizem cristãos. Por ser uma opinião pessoal, tanto pode estar certa como errada. Ficarei bastante agradecido se algum teólogo, filósofo ou religioso me provar o contrário de tudo que aqui afirmei.Coloco-me também à disposição do Deus cristão, para uma possível conversão, apesar de achar que Ele, se realmente existir, não está nem um pouquinho interessado na minha pessoa.
O que é Religião? De acordo com o Aurélio, é um sistema de pensamento que tenta transcender o mundo natural, através da crença em um possível deus sobrenatural, buscando conforto nas idéias de salvação e de "vida" após a morte. Ela se baseia na fé e tem uma grande utilidade para o controle das pessoas que vivem em sociedade. A fabricação da crença cria fantasias úteis, que geram uma sensação de realidade no mundo objetivo. Ao final, tudo se resume na promessa de coisas boas no amanhã, em troca do conformismo com o sofrimento do hoje. O problema é que o amanhã esperado só chega após a morte(?). O que é a fé? Citando ainda o Aurélio, é um conjunto de dogmas de uma doutrina. Um dogma é uma declaração que é aceita sem discussão. Logo, a fé não pode ser racional, pois seus dogmas dispensam comprovação. Diz-se, por exemplo, que a fé no Deus cristão é apriorística, já que a sua aceitação não depende da experiência.Deus existe? Faltam evidências. A crença não se apoia na razão nem é comprovada pelos fatos. Uma minoria de cristãos afirma ter tido uma experiência pessoal com Deus. Mas não pode comprová-la. Os demais, não tiveram experiência nenhuma. Apenas afirmam que se converteram. É a conversão "da boca pra fora", como diz a linguagem popular. Não têm provas nem estão preocupados com isso. O importante é confessar que crêem em Deus, pois isto lhes garantirá a aceitação pela sociedade e um relativo padrão de conforto para suas mentes. Mas a lógica cristã não é boa o suficiente para resolver o problema da evidência? Não é. A lógica da maioria dos cristãos é distorcida. Vejamos como alguns deles raciocinam. O exemplo a seguir mostra a tentativa de provar, por dedução, a partir de duas premissas escolhidas sem critério, algo que não foi dito (conclusão falsa). Eles chamam esta argumentação de"Exercício Bobo de Lógica" (acredito que a Metodologia das Ciências e a Filosofia devam incorporar tal modelo brevemente). Vamos ao exemplo: "Quem não é cristão usa a inteligência plenamente. Quem é cristão não usa. Logo, todo cristão é burro." Essa dedução foi atribuída à minha pessoa, apesar de jamais eu ter afirmado tal coisa. Mas o erro é facilmente percebido: não é possível deduzir, das premissas, tal ilação. Para chegar à conclusão desejada, as premissas teriam que ser outras: "Quem não usa a inteligência plenamente é burro. Todo cristão não usa a inteligência plenamente. Logo, todo cristão é burro." Falácias como essa são comuns entre alguns cristãos que não usam a inteligência plenamente. Obviamente que não concordo com nenhuma das duas conclusões. O mais grave, porém, não é o erro lógico. É acusar alguém de algo que não fez. A Santa Inquisição especializou-se nisso. Colocava mentiras na boca de quem eles resolviam mandar para a fogueira. A Lei de Deus condena este tipo de procedimento.E a prova do primeiro motor, do pagão Aristóteles? Essa prova já foi abandonada há muito tempo atrás, porque pode ser facilmente contestada. A principal premissa desse argumento, que diz que "Tudo tem uma causa", é refutada pela conclusão "Deus não tem uma causa". Não se pode afirmar as duas coisas ao mesmo tempo. Se tudo tem que ter uma causa, então, por definição, não pode haver uma primeira causa. A aceitação da primeira premissa ensejará a pergunta: "Se tudo tem uma causa, qual a causa de Deus?" Se é possível existir um deus incausado, então também é possível existir um Universo incausado. O princípio da contradição é válido também para Deus. Então por que as pessoas acreditam em Deus? Acreditam porque é conveniente, fácil e cômodo, apesar de pouco ou nada saberem sobre Ele. A crença em Deus é imposta aos cristãos desde a mais tenra idade. As pressões sociais, o medo e a ignorância fazem com que cada indivíduo assuma a religião do país onde nasceu. Não se conhece nenhum caso, por exemplo, de uma criança que nasceu numa família muçulmana, em Bagdá, e tenha espontaneamente resolvido ser cristã durante a infância. As pessoas só adotam o Cristianismo como religião se lhes disserem para assim o fazer. Uma criança nascida num país cristão, que passa a vida toda, desde o seu nascimento, ouvindo seu pai, sua mãe, seus irmãos, seus colegas e conhecidos, falarem que acreditam em Deus, repetirá a mesma coisa, tão logo aprenda a falar. De tanto repetir, vai acabar acreditando que é verdade. Essa é uma das maneiras de adquirir fé...Mas, e os pedidos que são feitos a Deus e são atendidos? As provas apontam o contrário. Vejamos alguns exemplos. Durante os jogos da Copa do Mundo de Futebol de 1998, milhões de brasileiros, unidos num só desejo, oraram a Deus pela vitória da seleção brasileira. Deus não atendeu. Tudo indica que Ele estava torcendo pela França. Milhões de pessoas oraram a Deus, pedindo pela saúde de Tancredo Neves, Leandro (da dupla Leandro & Leonardo), Frei Damião, irmã Dulce e Madre Tereza de Calcutá. As orações, ou foram rejeitadas, ou não chegaram ao endereço certo. Todos cinco morreram. Por que algumas preces são atendidas e outras não? O problema é que as coisas acontecem. São boas ou ruins. Quando se deseja algo, esse desejo pode se concretizar ou não. Se se concretizar, aquele que orou a Deus diz que foi atendido. Se não se concretizar, conforma-se, dizendo que foi a vontade Dele. Mas, de acordo com a Bíblia, toda oração deveria ser atendida: "Por isso vos digo que tudo o que pedirdes em oração, crede que recebestes, e será vosso." (Mc 11:24); "Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Pois onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles." (Mt 18:19-20). E não precisava nem tanta gente orar. Bastavam dois ou três. Moral da história: na prática, a teoria é outra... Os cristãos questionam a religião? Jamais. Questionar dá trabalho e é pecado. A religião não quer, não pode e não deve ser questionada. É apenas suficiente dizer: "Eu creio!" e tudo está resolvido. As pessoas não têm muito tempo para estudar religião e muito menos questioná-la. Apenas um pequeno número freqüenta algum tipo de culto. Sempre num horário que não tenham nada mais importante a fazer, como o Domingo à noite, por exemplo. Os que gostam de ver o "Fantástico", da Rede Globo de Televisão, evitam freqüentar cultos nesse horário.A Bíblia é a palavra de Deus e como tal é infalível? Pelo menos para os cristãos, sim. Glearson L. Archer Jr., cristão evangélico ortodoxo, autor de livros que explicam as chamadas Sagradas Escrituras, traduz o pensamento cristão sobre a Bíblia, dizendo que ela é de autoria do próprio Deus, escrita por intermédio de autores humanos, que registraram a verdade sob a infalível orientação divina, apesar de ter esquecido de dizer o que entende por "verdade". Não existe consenso sobre quais livros devem fazer parte da Bíblia. Só Evangelhos, foram escritos 315. Grande parte deles foi modificado, reescrito ou sofreu alterações. Foram adaptados à situação política e religiosa da época. No Concílio de Nicéia (325 D.C.), convocado por Constantino, que era pagão, foram reduzidos para 40, e destes foram sorteados os 4 que até hoje estão vigorando. Apesar de tudo isso, os cristãos continuam dizendo que a Bíblia é infalível. Se é assim, nenhum deles pode negar o que lá está. Têm que acreditar em tudo, ipsis litteris: que a serpente falou com Eva e que um peixe engoliu Jonas e ele sobreviveu, três dias e três noites, em sua barriga. Se, por acaso, for descoberto um outro manuscrito, contando que foi Jonas quem engoliu o peixe, o suplicante terá que acreditar do mesmo jeito. Só vai precisar ter o cuidado de verificar se o peixe sobreviveu ou não. No Antigo Testamento (AT) as coisas estão escritas em sentido figurado, apenas para facilitar a compreensão dos homens? Ninguém sabe. Não existe uma chave para a compreensão do AT nem da Bíblia como um todo. O que se observa é que os cristãos comuns têm a tendência de aceitar algumas coisas e rejeitar outras, como estratégia para fugir do que não convém. Se é um absurdo questionado, é sentido figurado; se é um absurdo aceito, então não é sentido figurado. Nem mesmo os estudiosos, religiosos e teólogos, parecem concordar entre si, quando o assunto é o AT. Por exemplo, os neo-ortodoxos consideram a estória de Adão e Eva como fábula ("supra-história"). Mas o Apóstolo Paulo aceita a narração do Gênesis literalmente (1Tm 2:13-14), assim como os autores do Novo Testamento. Nos dias de hoje, o AT parece ter sido abandonado, sendo seu valor, segundo alguns cristãos, meramente histórico. Afirmar que o que lá está é verdade absoluta, coloca o defensor em sérias dificuldades. Algumas perguntas estão sem respostas. Se o AT representa quase 80% da Bíblia, é justo reduzi-lo a um mero relato histórico? Dos mais de 60 livros da Bíblia, os históricos não são apenas 13, legalmente reconhecidos? Os ensinamentos de Deus, ali contidos, podem ser rebaixados a simples relato dos usos e costumes da época? Se Deus existir, o que deve estar pensando disto?É possível falar em Deus sem crer Nele? Segundo alguns cristãos, não. Falar "Deus não existe" é admitir que Ele existe(?), porque o seu nome foi usado. Baseado nesse fantástico raciocínio, um pai não pode também dizer, a seu filhinho, que Papai Noel não existe ou que o bicho-papão não existe, porque, se assim o fizer, a simples menção dos nomes seria a confissão da existência deles. É a prova da existência pela declaração do nome. Não sei se tal coisa existe na Metodologia das Ciências ou na Filosofia. Deus é humano? Parece. Suas reações imitam as dos homens. É normal Ele arrepender-se, como em Gn 6:7: "Destruirei de sobre a face da terra o homem que criei, (...) pois me arrependo de os haver feito." Dependendo da situação, pode aborrecer-se, ficar cansado e até mesmo sofrer, como em Is 1:14: "... as vossas solenidades, a minha alma as aborrece. Já me são pesadas; estou cansado de as sofrer". Nesse exemplo, o mais estranho é que o próprio Deus afirma que tem alma. Seria o caso intrigante de um espírito com alma, de difícil compreensão para os mortais comuns. Algumas vezes Ele cai em tentação e induz sua criatura ao erro, como em 1Rs 22:23: "Assim agora o Senhor pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas, e o Senhor falou o que é mau contra ti."Deus é temperamental? Com certeza, pois reage seguindo seus impulsos. Citaremos dois exemplos da Bíblia: "Se os pecadores te quiserem seduzir, não o consintas (...) embosquemo-nos para derramar sangue." (Pv 1:10-11); "Porque estendi a mão, e não houve quem desse atenção; (...) eu me rirei do dia da vossa desventura, e zombarei, vindo o vosso temor." (Pv 1:24-26). Deus é vingativo? Sem dúvida: "Pois dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas" (Lc 21:22); "Daí lugar à ira, pois está escrito: minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor."(Rm 12:19). Talvez a vingança seja necessária para provar alguma coisa. Se assim for, ela não é mais um defeito. Passa a ser qualidade, conforme os ensinamentos das Escrituras.Deus é contraditório? Sim. São dezenas de contradições que Deus permitiu fossem colocadas na Bíblia, talvez porque Ele mesmo disse que veio para confundir: "Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias." (1Co 1:27). Vejamos um exemplo. A favor da paz, manda transformar armas em implementos agrícolas: "Ele exercerá o seu juízo entre as nações, e repreenderá a muitos povos. Estes converterão as suas espadas em arados e as suas lanças em podadeiras. Não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerra." (Is 2:4). A favor da guerra, faz o contrário, mandando transformar implementos agrícolas em armas, como vemos em Jl 3:9-10: "Proclamai isto entre as nações: Santificai uma guerra! Suscitai os valentes! Cheguem-se, subam todos os homens de guerra. Forjai espadas das relhas dos vossos arados, e lanças das vossas podadeiras." Afinal, é guerra ou paz? Pelo menos aqui na Terra, os homens fazem da paz um pequeno intervalo entre duas guerras. Deus impõe sua doutrina pelo terror? Certamente. O terror está presente, o tempo todo, nos ensinamentos de Deus: "Espera-se a paz, e não há bem algum; o tempo da cura, mas só há terror"(Jr 8:15); "Pois assim diz o Senhor: Farei de ti um terror para ti mesmo, e para todos os teus amigos." (Jr 20:4); "Começarei hoje a espalhar terror e medo de ti no meio dos povos que estão debaixo de todo o céu."(Dt 2:25).Por que Deus permite a existência do próprio demônio? Só Ele deve saber. Em sua Onipotência, tendo sido capaz de criar o próprio Universo, poderia também eliminar o demônio e todo o mal que há sobre a Terra, fazendo tudo bom e dando à sua criatura a oportunidade de escolher apenas coisas boas, por exemplo. Mas preferiu, ao invés disso, criar o mal: "Eu formo a luz, e crio as trevas, eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas essas coisas." (Is 45:7). Como saber o que se passa na cabeça de Deus? A palavra de Deus vem carregada de discriminação e precoceito? Vejamos algumas citações interessantes. "Se uma mulher conceber e tiver um menino, será imunda sete dias (...) Mas se tiver uma menina, será imunda duas semanas." (Lv 12:2-5). Que norma de higiene é essa? A impureza da mulher após o parto depende do sexo do bebê a quem ela deu à luz? "O servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites. Mas o que não a soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites será castigado." (Lc 12:47-48). Se o escravo merece apanhar ou não, quem decide é o seu senhor. É importante notar que a Bíblia concorda com a escravidão e, o que é pior, com os açoites. Conclusão: Deus, com certeza, não gosta muito das mulheres... Nem dos escravos...Mas as mulheres não são criaturas de Deus, iguais aos homens? Parece que não. A Bíblia discrimina as mulheres desde o início. Vejamos alguns exemplos: "À mulher disse: Multiplicarei grandemente a dor da tua gestação; em dor darás à luz filhos. O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará." (Gn 3:16); "A mulher aprenda em silêncio com toda a sujeição. Não permito à mulher que ensine em público nem que tenha domínio sobre o homem, exercendo na Igreja uma autoridade sobre ele, mas esteja em silêncio." (1Tm 2:11); "Quero que saibas que Cristo é o cabeça de todo o homem, e o homem o cabeça da mulher... Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça... O homem não deve cobrir a cabeça, pois é a imagem e glória de Deus... Pois o homem não proveio da mulher, mas a mulher do homem. O homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem. Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade." (1Co 11:3-10). Não sei como as mulheres conseguem suportar tanta humilhação. Talvez apenas a submissão cega consiga fazê-las se sentirem inferiores aos homens. Se eu fosse mulher, jamais seria cristã. Deus é bom? Às vezes. Em alguns momentos, assim se declara: "O Senhor é bom para todos." (Sl 145:9); "Ele é justo e reto." (Dt 32:4). Noutros, Ele já não é tão bom, admitindo que entregou, aos homens, leis que não eram boas ou fáceis de serem cumpridas: "Também lhes dei estatutos que não eram bons, e juízos pelos quais não haviam de viver (...) a fim de que soubessem que Eu sou o Senhor." (Ez 20:25). Confessa, por outro lado, que forja o mal contra as criaturas: "Assim diz o Senhor: Olhai! Estou forjando mal contra vós, e projeto um plano contra vós." (Jr 18:11). Quem pensou que fazer o mal era exclusividade de Satanás, enganou-se redondamente. Deus também apronta...Os Cristãos devem temer a Deus? Claro! Deus só gosta de quem tem medo Dele: "Lhes é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo." (At 10:35). Se não bastassem os exemplos terríveis de punição aos que Ele não gostava, vez por outra mandava uma mensagem de reforço, para que suas criaturas lembrassem que teme-lo era importante: "Portanto, tu teme a Deus..."(Ec 5:7). "Aprendam a temer-me todo o tempo em que viverem na terra." (Dt 4:10). Os ensinamentos de Deus são um incitamento à violência? Com certeza. Tanto é que, até hoje, pessoas se matam em nome de Deus. Muçulmanos matam Muçulmanos, Judeus matam Palestinos e vice-versa, Católicos e Protestantes se matam, Muçulmanos matam Cristãos e são mortos por eles, e por aí vai. Sempre foi assim e sempre será. Toda religião é intolerante com as outras. Temos exemplos de violência, tortura e extermínio nas Cruzadas, na dita Santa Inquisição, nas Missões, na Irlanda atual (onde cristãos católicos praticam o terrorismo por motivos religiosos), etc. Pelo menos os que se matam, são coerentes com a Palavra, pois a Bíblia é um banho de sangue. Cidades inteiras são literalmente varridas do mapa, e seus habitantes, exterminados com requintes de crueldade. Vejamos apenas um exemplo: "Passai pela cidade após ele, e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres, até exterminá-los (...) começai pelo meu santuário. E começaram pelos homens mais velhos que estavam diante da casa. Então ele lhes disse: Contaminai a casa, e enchei os átrios de mortos. Ide! E foram, e puseram-se a ferir a cidade (...) Também quanto a mim, não poupará o meu olho nem me compadecerei." (Ez 9:5-10). Será que, mesmo levando em conta o contexto do AT, tais atos seriam justificados? Ou estariam ali apenas como ilustração? O que lá se escreveu, sob inspiração divina, é para ser lido de um jeito e entendido de outro? Um contexto faz um relato ser compreendido às avessas? Por que tanta morte, inclusive de mulheres e crianças? Deus não poderia aplicar um tipo de punição mais branda, que atingisse somente quem estava contra Ele, evitando o extermínio de inocentes?Mas não são os homens que matam? Matam em nome de Deus. E tanto faz matar como mandar matar. Nem sempre Deus matava "pessoalmente". Normalmente mandava executar seus desafetos. Só em casos excepcionais Ele fulminava alguém. Se hoje não se mata mais é para cumprir a lei dos homens, que todos parecem temer mais do que as leis de Deus. Mas se as leis dos homens forem abolidas, e o controle social, relegado a segundo plano, com certeza a matança recomeçará. A Bósnia é um bom exemplo. Ninguém consegue viver em sociedade tendo como lei os Dez Mandamentos ou as regras de conduta do Cristianismo. É preciso ser muito otimista para acreditar nisso. Ou então muito bobo. Mas tudo isso não está no Antigo Testamento? No Antigo e no Novo. É bem verdade que do AT para o NT houve uma mudança considerável nas atitudes de Deus, pois as leis dos homens começaram a ser mais rígidas. Ele mudou, para se adaptar. Mas também mata, no NT: "Ora, este adquiriu um campo com a recompensa da iniqüidade; e, precipitando-se, rompeu-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram." (At 1:18). O relato acima é uma das versões bíblicas da morte de Judas, que ninguém conhece. A outra, diz que ele se enforcou(?). "Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou" (At 5:5); "Imediatamente ela caiu aos seus pés e expirou" (At 5:10); "No mesmo instante o anjo do Senhor feriu-o, porque não deu glória a Deus, e, comido de bichos, expirou." (At 12:23). O sangue continua a jorrar no Novo Testamento. É só ler e não fazer de conta que não viu.Mas o Deus cristão não é um Deus de Amor? Nem tanto. Se o Deus do AT é o mesmo do NT, então Ele não tem tanto amor assim pelas suas criaturas. Em momentos de grande cólera, pode até matar crianças inocentes, como aconteceu em 2Rs 2:23: "Então [Eliseu] subiu dali a Betel. Indo ele pelo seu caminho, uns rapazinhos pequenos saíram da cidade, e zombaram dele, dizendo: Sobe, calvo! Sobe, calvo! Virando-se para trás, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles rapazinhos." Lição: ninguém deve mexer com um careca. Pode ser que ele seja um profeta... A crueldade também se faz presente em 2Sm 12:15: "O Senhor feriu a criança, que a mulher de Urias dera à luz a Davi, e ela caiu gravemente enferma... Ao sétimo dia a criança morreu." O que será que esse menino fez para morrer? Pagou pelos pecados dos pais? Não foi circuncidado? Era pagão? É impossível, para a criatura, entender o que se passa na cabeça do Criador... E os valores cristãos de bondade, respeito e amor ao próximo? Na maioria da vezes não são postos em prática. Poucos cristãos realmente tentam. Alguns só conseguem com muito sacrifício e uma boa dose de hipocrisia. Na maioria das vezes, só com aqueles que são próximos demais: cônjuge, pai, mãe, filhos... É muito difícil alguém conseguir fazer isso com desconhecidos. No período natalino, por exemplo, é fácil perceber o enorme esforço que os cristãos fazem para suportar seus semelhantes. Testar esses valores é fácil. Basta um indivíduo declarar-se contrário ao Cristianismo. No mesmo instante, a bondade, o respeito e o amor cristãos são trocados por ódio, ressentimento e intolerância. Em situações como essa, o bicho homem surge sem máscara: colérico, preconceituoso e vingativo, como seu Deus, de quem ele diz ser a imagem e semelhança.Mas não seria possível tirar proveito dos bons ensinamentos da Biblia? Vejamos se é. Alguns cristãos afirmam que, ao ler a Bíblia, é necessário "garimpar, para lapidar o diamante da fé raciocinada". Apesar da fé não precisar ser raciocinada, pois já vimos que ela é apriorística, parece que o termo "garimpar" significa "ignorar as coisas que não forem convenientes". Ninguém pode levantar questão acerca de eventuais absurdos. Em outras palavras, é para olhar e fazer de conta que não vê. Se um indivíduo questiona o que lá está, é acusado de não ter lido. Se prova que leu, garantem que não entendeu. Mas, se demonstra que entendeu, e seu entendimento for diferente do da maioria, então é porque tem o coração duro, de tal maneira que nem mesmo Deus(?) pode penetrá-lo. Invariavelmente é rotulado de louco, desequilibrado, infeliz, revoltado, possuído pelo demônio, entre outras coisas. A regra para tirar proveito dos ensinamentos da Bíblia deve ser "engolir sem mastigar". Mas lendo-a criticamente, a coisa muda. Se ela é a palavra do Deus perfeito, não pode conter tantas imprecisões, ser tão contraditória e de difícil compreensão. O mínimo que se pode esperar é que Deus possa transmitir ensinamentos que comprovem essa perfeição, da maneira mais clara possível, para as criaturas a quem Ele diz amar. Para quem é Onipotente, isso não deve representar grandes problemas. É só querer. O que não é admissível é que uma pessoa adote a Bíblia como código de conduta e use seus ensinamentos para dar sentido à própria vida, pois nem tudo que o que ela ensina é moralmente aceitável. Nesse caso é melhor usar a Constituição e as leis humanas. Quem o fizer, com certeza terá menos problemas...
Das 36 citações da Bíblia que aparecem neste texto, 23 são do Antigo Testamento e 13, do Novo Testamento. (*) César Medeiros tem 45 anos, é jornalista, bancário e freqüentador assíduo das salas de Bate-Papo do "Bíblia World", no site do UOL, na Internet. Seus artigos "Contradições Bíblicas" e "Refutando o Cristianismo", serão publicados na sua homepage pessoal, atualmente em construção. Pode ser contactado pelo Email: [email protected] |
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