MARÇO-JULHO 2002

Produção e Mediocridade
Editorial
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[André Rios]

pra casa

 

 

atualizada em

 3 de agosto de 2002

Rio de Janeiro - Brasil
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Editorial

 

 

 

Elaboramos este primeiro número como um sintoma. Quem melhor do que nós - que não temos poder nem fama nem dinheiro, que não podemos produzir nenhuma dessas coisas, seja por medo por incompetência ou por fatalidade histórica - para oferecer ao mundo um tema tão evidente quanto produção e mediocridade? No fim das contas, é isto que importa, a crise idiota do ensaio, a denúncia e o medo de sucumbir ao estranho mundo quotidiano e sem perspectivas. Meu Deus, o que isto quer dizer? Simplesmente, a velhice chegou - e não descobrimos a guitarra elétrica. Vamos morrer.

 

Não que o ensaio esteja realmente em crise - uma palavra surrada demais para significar exatamente o que temos na cabeça. «Há uma crise do ensaio», dizia Sartre. «A elegância e a clareza parecem exigir que utilizemos, neste gênero de obras, uma língua mais morta que o latim: aquela de Voltaire»1. Que se dane - nem é isso o que interessa.

 

A verdade é que não temos - ou não há - nenhuma obrigação moral, afirmam nossos editores. Vamos dizer que não existe nem mesmo um objetivo comum, nem uma necessidade pressuposta, ao descrevermos a monotonia da produção - tornando a própria descrição deste processo um objeto monótono na medida de seu reconhecimento, de sua reprodução. Autor, narrador, verdade, falsidade, clareza, evidência, são todos uns chatos, inóspitos, Eu tem horror! Nosso objetivo não é fazer com que os textos previstos aqui os aniquilem, mas discordar de tudo aquilo que, num universo paralelo muito próximo, seja posto categoricamente como obra. "Nosso objetivo", quer dizer, meu e de Izesuq Kilistoq. Viegas e Guerreiro, extremamente burros, discordam.

 

O processo de condução dos trabalhos que informam este primeiro número de Volume dá bem a dimensão do tema. Temos a obrigação de cagoetá-los. Nem lançamos nosso primeiro petardo revolucionário, as dissidências começam, as discussões infinitamente modorrentas infernizam os participantes, já temos vontade de cair fora e fundar outra revista, mais liberal, mais inteligente, mais necessária. É preciso perder um tempo precioso explicando o que não precisamos ser, nem financiados, nem chefiados, nem submetidos, nem admirados. Um nada inútil que repete o eco de nossas cabeças - caso isto sirva para ilustrar um pensamento próximo às raias da mediocridade. Afinal de contas, por que faríamos uma revista tão idiota senão para nos proteger da tolice? «Um livro que ninguém espera, que não responde a nenhuma questão formulada, que o autor não teria escrito se ele tivesse seguido o dever de casa à risca - eis finalmente a bizarrice que hoje eu me proponho ao leitor»2. A idiotia tornou-se, para nós, por alguma razão que desconhecemos, menos monótona que o conhecimento puro e abstrato.

 

Outros, como Bernardo Bolinha e Guerreiro, vêm até nós com a cara de culpa dos grandes católicos de nossa época. «Temos de observar o mercado», «temos de nos ater a pelo menos alguns pontos metodológicos e formais», «não podemos recusar dinheiro». Em outras palavras, «temos de sobreviver neste mundo selvagem e hostil». Amigos, não entreguemos os pontos ainda. Volume não pode ser revolucionária o tempo todo, as cristalizações virão, a monotonia, o tédio, a falta de inspiração e o medo de destruir o patrimônio conquistado - todos esses maravilhosos defeitos... são inevitáveis.

 

A pergunta que deveriam ter feito - referimo-nos especificamente a esses dois babacas - e que até agora não fizeram é: por que, afinal, somos medíocres? A explicação não é simples, é foda. Na verdade, exige que sejamos, no mínimo, inteligentes para responder - francamente, não é possível. Podemos rediscutir infinitamente, até surgir alguém com poder e dizer que esta questão não tem mais sentido há décadas - aí ganhando ou perdendo, tanto faz, o mundo mudou mesmo. Foda-se. Pronto. Acabou. Bum. êêêêêêêh!

 

Eu e Izesuq Kilistoq, assinamos.

 

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1. J.-P. Sartre. Un Nouveau Mystique, § 1.

2. G. Bataille. La Part Maudite. Avant-propos, § 5.

 

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