número 1, março-julho de 2002
Depressões pós-masturbatórias
Não quero acusar ninguém, isso que estão fazendo comigo em Volume é injusto. Eu nunca ofendi ninguém pessoalmente. Todas as minhas críticas têm fundamento, e só fiz uso de considerações pessoais na medida em que favoreciam a compreensão do leitor. Afinal, que mais poderia ser dito de intelectuais totalmente desconhecidos? Vocês esquecem que a máquina biográfica é um elemento importante na constituição de qualquer hermenêutica? Ninguém quer saber o que pensam intelectuais como vocês, irrevogavelmente falidos, pateticamente foscos. Volume nem mesmo possui um registro - só pode ser considerada um veículo de comunicação num sentido abstrato. Se os poucos leitores desta porcaria de revista têm do que se divertir, é de suas farsas, da descrição óbvia de seus fracassos amorosos, financeiros, de seus modos absolutamente deselegantes, da denúncia de seus trejeitos, todas essas coisas que são, em geral, purgadas da grande discussão crítica de qualquer assunto. Eu não acho, como Viegas tem defendido - inclusive off-line - que eu seja um elemento desagregador. Eu só estou pensando com todas as letras, incluindo meu conhecimento pessoal sobre ele e sobre os demais membros no quadro das estruturas hermenêuticas que disponho para pensar suas produções e seus mimetismos. Onde haveria divertimento senão nessa denúncia: que a idade pesa sobre as omoplatas e que ninguém dará crédito ao que dizem? Quantos anos tem você, Marlos? Trinta e cinco? E você, Viegas? Trinta e poucos? Já está tarde, o crepúsculo mostra que vocês começam a agonizar, lenta, lentamente. Que não conseguiram o lugar privilegiado na estrutura montada para recebê-los. Por que? É isto que deveriam estar discutindo neste momento - e não detonando minha sinceridade, que não posso descrever senão com a pureza e a honestidade do Ganges, onde poderiam estar se banhando. Afinal de contas, Marlos, não foi você que veio implorar emprego a Viegas há duas semanas atrás? Diz o tempo todo que não pode escrever para Volume porque precisa ganhar uns trocados pro ônibus. Nem dinheiro pro ônibus você tem? Esse é o intelectual que escreve (ou não) para esta revista. Antes de Marlos fornecer suas brilhantes elucubrações sobre o Universo, é necessário, primeiro, mostrar quem ele é, como funciona sua vida, de que modo ele se tornou esse irremediável fodido. Eu não acredito em vocês, por isso os denuncio - mas os denuncio porque os amo e me importo com seus destinos, com suas preocupações e neuroses. Ninguém pode me acusar de ser um canalha se estou apenas descrevendo a sinceridade que vocês deveriam ter em relação a si próprios e
Estou cansado. Preciso de tempo para saber se continuarei com vocês.
Izesuq Kilistoq
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