número 1, março-julho de 2002

 

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Dadarcaismos

Guerreiro, quero que você entenda o seguinte. Seus textos não são uma merda só porque foi você que os escreveu. Eles são irritantes também pelo fato, retomando um trecho de Sartre citado no Editorial, de que existe uma incompatibilidade extrema entre o que você quer dizer e a forma utilizada para exprimir seu pensamento. A inversão diabólica do estilo clássico (metáforas, parataxes, metonímias, aquilatadas ao uso de uma imagética desconcertante), teve sua lógica funcional e seu impacto estético, mas isso há cem anos: "Apenas invocara eu o almirante de mármore e este se voltou como um cavalo que se mantém nas patas traseiras diante da estrela polar e me designou no plano de seu bicônio uma região onde eu deveria passar minha vida" (Roger Vitrac) ou "O urso das cavernas e seu companheiro o homem burro, o empadão e seu criado o vento, o grande Chanceler com sua chancelaria, o espantalho de pardais e seu compadre o pardal, a proveta e sua filha a agulha, o carnívoro e seu irmão o carnaval, o varredor e seu monóculo, o Mississipi e seu cãozinho, o coral e seu pote de leite, o Milagre e seu bom Deus só têm de desaparecer da superfície do mar" (Max Morise), ambos citados por Breton, Manifesto Surrealista I. Esse estilo estava justificado inclusive sociologicamente: o movimento modernista mais radical, Dada, era formado por desertores da Primeira Guerra. O fim da civilização era um desejo claramente perceptível, uma afirmação voluntária da parte deles, e não uma fatalidade - porque realizava a derrocada não só ideológica como também física, material, daquela civilização. A plausibilidade dessa justificativa sociológica, embora insuficiente para explicar fenômenos de estilo e linguagem, serve para tomar certa distância, protege nosso modo de ser e de pensar do deles - modernistas de cem anos atrás. Um estilo que tenha por base a inversão sistemática da cultura clássica é apenas moderno e não pós-moderno. Moderno inverte os valores recebidos, pós-moderno ignora que existam tais valores. Afinal de contas, o papel da cultura clássica numa sociedade como a nossa (informada pela tecnologia, ou falta dela, e pelo marketing) é muito pequeno, para não dizer completamente inexistente. Inverter, estilística e formalmente, essa cultura clássica, livresca, que já não é a nossa, é uma perda de tempo, uma chatice incomensurável demais para que alguém, depois de um dia inteiro de tédio e cansaço, com o corpo varado por radiações, irritado pelo barulho interminável que vem de sua janela de classe média, com os pulmões pretos de cigarro e monóxido de carbono, se dê ao trabalho de sentar diante de um computador e gastar tempo de conexão lendo nossa revista, ao invés de se divertir com um pseudônimo homossexual num bate-papo pornô.

Lembro, com ternura, um dia em que Rafael Viegas, quando adolescente, carregando seu pequeno volume de Une Saison en Enfer debaixo do sovaco, deu de cara comigo na importante Mediateca da Maison de France. O ar-condicionado, europeu, não o fazia perceber que, dois passos para além do bunker, fazia um calor insuportável, que a temporada no inferno, no Brasil, era totalmente diferente. Mas isso era algo inadmissível, inargumentável. Em seu cérebro já pequeno-burguês era preciso imaginar-se reatualizando as estruturas mentais da França de 1870 para poder afirmar sua idéia de adolescente revolucionário. Foi assim que ele se tornou o que é hoje, um desajustado e, por que não?, um inconseqüente, tentando, em vão, recuperar o tempo perdido - agora como uma metáfora ambulante de Proust. Rimbaud? Proust? Faça-me o favor!

Guerreiro, eu não quero ver você assim. Eu não quero aplaudi-lo porque, mesmo sabendo dar valor a muitas de suas qualidades, o cheiro de passado que sinto emanar de suas mãos é nauseante e pútrido, por isso a metáfora do cocô não é das mais infelizes. Espero que você, Kant e o resto dos seus heróis aceitem uma passagem aérea para o olho do cu, de onde não deveriam ter saído.

Izesuq Kilistoq

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