Falando sobre educação!

“Não tenho um caminho novo.
O que tenho de novo é o jeito de caminhar”
Thiago de Melo

 
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Voluntários na Educação: inimigos da escola 
Professora Dra. Maristela Angotti 
Depto. de Didática da FCL/UNESP - Araraquara


Ao longo de nossa história, o Brasil tem aprendido, e muito bem, a trabalhar com o discurso dissimulado, porém bem articulado, que carrega uma forte dose de marketing político. Desta maneira o povo tem sido sistematicamente enganado, esteja incluído em que classe sócio-econômica estiver, pelo gerenciamento de uma imagem de um governo que diz se preocupar e que diz estar dando atenção às necessidades, ou melhor, aos direitos de cidadania de seu povo. O discurso de nossos governantes e de seus aliados transmite mentiras que parecem verdades. Mentiras que precisam ser desvendadas, que exigem que olhemos para além do que nos circunda, ampliando e aprofundando nossas leituras atuais tão superficiais.Pois bem, vejamos um desses casos por meio de um projeto específico que tem tido ampla divulgação em uma das maiores, se não a maior rede de televisão do nosso país, o Projeto intitulado: Voluntários na Educação, Amigos da Escola, que se apresenta sob a forma de frases de efeito que buscam sensibilizar as pessoas à colaboração, tais como:

“Se você é um aposentado, você poderia se tornar um ótimo contador de histórias.
Se você é uma modelo , você poderia se tornar uma ótima recreacionista.
Se você é um arquiteto , você poderia se tornar um ótimo administrador.
Se você é um juiz , você poderia se tornar um ótimopintor....” 

Ao longo de nossa história, o Brasil tem aprendido, e muito bem, a trabalhar com o discurso dissimulado, porém bem articulado, que carrega uma forte dose de marketing político. Desta maneira o povo tem sido sistematicamente enganado, esteja incluído em que classe sócio-econômica estiver, pelo gerenciamento de uma imagem de um governo que diz se preocupar e que diz estar dando atenção às necessidades, ou melhor, aos direitos de cidadania de seu povo. O discurso de nossos governantes e de seus aliados transmite mentiras que parecem verdades. Mentiras que precisam ser desvendadas, que exigem que olhemos para além do que nos circunda, ampliando e aprofundando nossas leituras atuais tão superficiais.Pois bem, vejamos um desses casos por meio de um projeto específico que tem tido ampla divulgação em uma das maiores, se não a maior rede de televisão do nosso país, o Projeto intitulado: Voluntários na Educação, Amigos da Escola, que se apresenta sob a forma de frases de efeito que buscam sensibilizar as pessoas à colaboração, tais como:     “Se você é um aposentado, você poderia se tornar um ótimo contador de histórias.Se você é uma modelo , você poderia se tornar uma ótima recreacionista.Se você é um arquiteto , você poderia se tornar um ótimo administrador.Se você é um juiz , você poderia se tornar um ótimopintor....” 
Seja lá o que você for, não tendo nada melhor para fazer, venha passar umas horas agradáveis sendo útil para os que deveriam ser responsáveis pela escola, pela educação, mas que arrumam bons companheiros para tirar o direito do cidadão de ter de fato a garantia de um processo educacional de significado e qualidade. Há muitos anos sou professora, pedagoga, pesquisadora da área educacional, vi o profissional do magistério ser considerado um vocacionado, portanto, como um ser predestinado a ser professor, não precisaria de boa formação, nem tampouco de bons salários. Presenciei professores em seu direito legítimo de defesa de seu emprego, de sua dignidade , de seu salário ouvirem de governante que elas, - professoras-, não ganhavam pouco , mas que eram mal casadas. Como se tal fosse pouco, vimos a professora se transformar na tia , e como colocaria Paulo Freire , tia é grau de parentesco, não tem compromisso com a educação de seus sobrinhos e, como parente, não precisa ganhar pelo que faz. São muitos os absurdos que são intencionalmente introjetados, plantados em nossa sociedade e que tem um compromisso com a manutenção da formação de uma população de ignorantes, de analfabetos no sentido amplo do termo . Ou seja, de pessoas que apesar de saberem escrever seus nomes, não sabem ler interpretativamente uma única linha, tornando-se alvos fáceis de exploração e manipulação em prol de benefícios espúrios, não condicentes com o projeto de cidadania que gostaríamos de ver semeado entre nossos alunos. A escola vai tendo seu papel mascarado, descaracterizado pelos rótulos preconceituosos atribuídos aos seus profissionais, que acabam tendo sua auto-estima, sua formação, sua dignidade afetadas, pouco reconhecidas e ou valorizadas. Nós professores passamos a ser os vilões da qualidade duvidosa do ensino público da escola fundamental e média, sem que análises sejam realizadas de maneira a retratar para a população o real compromisso dos municípios, estados e nação com a formação do nossos profissionais e de nosso povo. Será que não podemos ou não devemos analisar com um pouco mais de criticidade, retirando as vendas impostas sobre os nossos olhos, o quanto temos sido lesados no nosso direito subjetivo a uma Educação escolar de qualidade? Vejamos o exemplo do citado projeto. Se aceitamos que qualquer pessoa, independente do que faz, possa entrar na escola e desenvolver atividades para a qual não tenham formação e preparo, atividades que não estejam atreladas ao projeto pedagógico da escola, realizadas por profissionais outros que não tenham formação pedagógica para entender o processo de ensino que prescinde de opções metodológicas claras, bem definidas para poder formar; que não tenham conhecimentos sociológicos, antropológicos para entender o seu aluno, -o Homem-, no contexto sócio-cultural-econômico no qual está inserido; que não tenham conhecimento sobre o como a criança aprende e se desenvolve nos seus aspectos conignitivo – afetivo- social - psicológico – motor , entre outros tantos conhecimentos necessários e previstos por exemplo nos cursos de Pedagogia que tem a docência como base da formação..., como podemos acreditar que de fato valorizamos a Educação ? A Educação é uma área que vem há muito desenvolvendo conhecimentos específicos para poder de fato formar pessoas para que possam desenvolver suas potencialidades, habilidades pessoais , bem como tornarem- se seres sociais, políticos que possam fazer a diferença na vivência de seus papéis de cidadãos participantes, produtores de cultura, transformadores de contextos reais dentro da sociedade. A escola pode e deve estar chamando a comunidade para participar dela sim, para discutir a formação de seus filhos , para desenvolverem coletivamente – intra e extra muros escolares - atividades vinculadas a projetos educativos , mas é preciso que se tenha claro os limites dos papéis a serem assumidos pelos membros dispostos a participarem, sem que se tenha a pretensão de achar que o fazer docente possa ser substituído por qualquer atividade a ser realizada por pessoas que, mesmo que bem intencionadas, não tenham formação , especificidade que os possa definir enquanto um profissional da educação. O atual Projeto da Rede Globo, em parceria com o Banco Itaú, a ong CENPEC (de estreito vínculo com o Banco Itaú) , o Projeto Brasil 500 anos e o Ministério da Educação e Cultura, deteriora ainda mais a realidade educacional brasileira ao descaracterizar o trabalho pedagógico a ser realizado pelas escolas e seus profissionais, ao promover o processo de desprofissionalização dos professores, ao permitir que a escola vire um território de ninguém , ou de alguém que, na falta de coisa melhor para fazer, utilize seu tempo de lazer fazendo um benefício voluntário para os que deveriam ter a responsabilidade de investir, valorizar, dignificar a instituição escola. A escola é a única instituição formal que tem por excelência a intenção, a finalidade de formar o cidadão por meio do processo de ensino que oferece acesso ao conhecimento socialmente construído e valorizado pela humanidade. Não podemos ficar alheios a tal problema , precisamos enxergar para além do que querem nos mostrar , relacionando inclusive tais projetos a tentativa clara de desqualificação dos profissionais da educação , pela formação reduzida , tecnicista ,empobrecida , pois desvinculada da pesquisa e da produção de conhecimentos, que querem oferecer nos Institutos Superiores de Educação criados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96. Para um país que diz investir em educação é muito contraditório observar a abertura para um trabalho voluntário nas escolas e nas universidade públicas , ao invés de promover o incentivo de seus profissionais a um processo de formação continuada; ao invés de definir investimentos para a ampliação e melhoria de seus quadros , bem como para a infra-estrutura de suas instituições; ao invés de expor seus funcionários e professores à valorização com um salário digno e justo , que permita a vida com condições de tranqüilidade e serenidade para o trabalho. Por que será que ao invés de se mexer de maneira nefasta nas escolas , as pessoas que estão tão preocupadas com o país e que tem “força” econômica e política , como é o caso dos promotores do Projeto Voluntários na Educação, Amigos da Escola, não investem em uma campanha de voluntariado para os que estão e querem estar políticos neste nosso Brasil. Pois esta classe política é que de fato não carece de especificidade profissional , é quem deveria começar a devolver o muito que nela já investimos com os nossos diversos e aviltantes impostos , que não tem sido revertidos nem para a Educação , nem para a saúde , nem tampouco para a infra-estrutura básica, muito menos para o desenvolvimento que possa gerar novos empregos. Estejamos atentos , pois o que fizermos hoje na Educação poderá ter conseqüências bastante difíceis de serem revertidas a médio e a longo prazo. O prejuízo poderá recair sobre várias gerações. Responsabilidades a quem de fato deva tê-las! Portanto, você que está bem intencionado em ser um voluntário na educação, cuidado, você pode estar sendo usado em prol de órgãos que querem se desvencilhar de suas responsabilidades, comprometendo a garantia dos direitos da população. Sua participação em projetos dessa natureza pode colocá-lo como contrário ao direito inalienável , subjetivo do cidadão de ser bem formado por bons profissionais da educação.

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