
“Não
tenho um caminho novo.
O
que tenho de novo é o jeito de caminhar”
Thiago
de Melo
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Dicionário Tradutor Legislação Educação a Distância Revistas Educação Informática Indisciplina: Como lidar com ela? Não pense que oproblema é só seu. Escolas de todos osníveis sociais, no mundo inteiro, têm de enfrentar a questão da disciplina, sem recorrer a castigos e mantendo sempre vivo o interesse do aluno. Veja alguns modos de tornar isso possível.
Ana JoveO que fazer diante de uma classe repleta de baderneiros? Como botar ordem no caos? De quem é a culpa? Com certeza você já se deparou ao menos uma vez com essas perguntas. Realmente, conquistar a disciplina em sala de aula tornou-se um verdadeiro desafio para o ensino nos dias de hoje, tanto nas instituições públicas como privadas, e merece uma séria reflexão. Não trataremos aqui de atos de vandalismo contra escolas, nem de desajustes decorrentes do uso de drogas – por sua própria relevância e abrangência, tais temas merecem um artigo à parte.Vamos pensar no que acontece dentro da classe, quando o professor tenta desenvolver o conteúdo de sua disciplina para crianças ou adolescentes desinteressados, apáticos, bagunceiros, isto é, indisciplinados. Talvez alguns professores saudosistas (e até mesmo os progressistas), numa situação de desespero, sonhem em punir severamente, "à antiga", os baderneiros: expulsar da sala, tirar pontos da nota, ganhar "no berro", enfim, reprimir severa e exemplarmente os "maus elementos". Era desse jeito que a antiga escola procedia. Mas o seu modelo era apropriado a um quartel, onde prevalece a hierarquia. Tanto nas famílias como no ensino, a disciplina era obtida à custa de medo, subserviência e coação.Ora, se o ensino é um direito da criança e do adolescente e um dever do Estado, no intuito de promover pessoas livres, autônomas, capazes de exercer plenamente a cidadania, não nos interessa criar um exército amedrontado de pseudo-cidadãos, quer dizer, gente que vai para uma guerra desconhecida.
Vamos pensar juntos. Qualquer exército forma tropas para combater em algum tipo de guerra. Se você, educador, seguir a mesma orienta-ção dada às tropas, fica a pergunta: quem é o inimigo? Resumindo, queremos formar gente autônoma, emancipada, livre e consciente, ca-paz de fazer suas próprias escolhas.Para começar, vamos adotar o conceito atual de disciplina, que vem a ser o reconhecimento da atividade em grupo, harmonicamente supervisionada por uma autoridade externa (no caso, o professor). Esse reconhecimento pressupõe, da parte do aluno, valores éticos anteriores à escolarização: entendimento de regras comuns, partilha de responsabilidades, cooperação, reciprocidade, solidariedade etc. E, acima de tudo, reconhecimento dos direitos do outro, sem o que fica impossível a convivência em grupo.Fácil? Não, dificílimo, porque tais noções vêm da família (existem, mas são raríssimos, os alunos que as desenvolvem por conta pró-pria). E nem toda família tem con-dições de fornecer tais valores. Nessa hora, a convivência, a troca de idéias – caso a caso, aluno por aluno – é premente. As próprias famílias, aliás, costumam ser mais permeáveis do que a gente pensa: de um modo geral, aceitam as noções vindas da escola e tentam à sua maneira colocá-las em prática.Agora, quando a família está indisponível ao educador, o professor tem de assumir esse papel.Por uma nova disciplinaEm primeiro lugar, é preciso a-bandonar os clichês do tipo "o adolescente é rebelde e revoltado pela própria natureza", "as crianças são naturalmente egocentradas e indisciplinadas". Ninguém nasce rebelde ou disciplinado: trata-se de um comportamento construído. Se antigamente disciplina equivalia ao silêncio ab-soluto, a disciplina desejada hoje é a do interesse e da participação. É importante que o aluno fale, dê sua opinião, de modo que possamos acompanhar suas descobertas e sua aprendizagem. Aqui, a sua atuação é decisiva, pois uma coisa é verdade: com exceção de casos patoló- gicos, crianças e adolescentes são muito curiosos. Eles adoram aprender, desde que o conhecimento não lhes pareça impingido e, sobretudo, quando seu interesse e participação são estimulados.Mas eles também gostam de ser respeitados: valorizam a sincerida-de, o jogo aberto de um professor.Com todo o prazerSatisfazer uma curiosidade (no caso, despertada pelo professor em classe) e, a partir disso, construir um novo saber, é uma experiência ex-tremamente recompensadora. Ou seja, é trabalho e prazer ao mesmo tempo.Mas o fato de que o trabalho es-colar se constitua em prazer não significa que ele se transformou em lazer. Esse tipo de confusão é co-mum e acaba acarretando inúmeros problemas, sobretudo de disciplina.Daí a importância de se fazer uma negociação permanente. Como nem todo assunto vai interessar a todo mundo todos os dias, convém fazer um acordo, uma espécie de "contrato social" com a classe, estabelecendo as regras do jogo. Todos participarão da feitura das regras, mas, uma vez acatadas pela maioria, a turma se obriga a cumpri-las. Caso uma ou várias regras, com o tempo, não funcionem mais, pára-se tudo e discute-se com os alunos a criação de novas regras.Para ficar mais prático, divida a classe em grupos, cada qual destinado a estudar determinado conjunto de regras e apresentar propostas, que depois serão votadas por todos.Essa postura não pode passar a imagem do professor "bonzinho" (que sequer é respeitado pelos alunos), mas sim a do professor interessado na classe como um todo e em cada um de seus membros. Aqui também é fundamental dizer a verdade. Existe, sim, uma liberdade na organização da classe, mas ela se destina ao aprendizado. E, para que ele aconteça, é necessária a presença de uma autoridade representada pelo professor. Em outras palavras, o professor não é o "dono" do saber, mas aquela pessoa que orienta a classe para que ela construa seu jeito de aprender, cada vez mais e melhor.Pouco a pouco, a turma vai per-cebendo a legitimidade dessa auto-ridade. Mas vai percebendo na prá-tica, através daquilo que viveu e não porque alguém disse que é assim e pronto. Essa é a nova disciplina. Um imenso desafio e um enorme prazer para alunos e professores.
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