| uma manh� de 2003 |
| Acordou com fome. Fome de comida n�o, de cozinhar. Cozinhar alimento n�o, cozinhar sentimentos. Em sua caderneta colecionava poucas receitas, que ao tentar colocar em pr�tica: desastre. Depois que um certo rapaz sugeriu que ela fizesse amor recheado de vazio ao molho de ci�me com pitadas de desilus�o, ela havia desistido dessa id�ia de cozinhar. N�o que a receita tenha dado errado. Muito pelo contr�rio. Mas para ela n�o servia. Causava uma enorme indigest�o, apesar de muitas pessoas com as quais convivia estarem se alimentando freq�entemente deste tipo de prato. Ela queria manter dist�ncia de costumes que julgava ultrapassados. Mas mudava de opini�o, em alguns momentos, quando o mundo lhe dava li��es da �poca de vov�. A mulher realmente tem que esquentar a barriga no fog�o? E aquele papo de mais espa�o ... resolvido com o aumento da �rea de servi�o? Ironicamente, o homem esconde um verdadeiro pensamento. Sem essa onda de guerra dos sexos, por favor, disse a consci�ncia para Fel�cia, mo�a de costumes gastron�micos estranhos como �curtir� biscoito de chocolate recheado com mussarela derretida. Tirou a colcha que estava cobrindo o corpo ainda quente pelo sonho estranho que havia tido. Vestia uma camisola de seda vermelha, cor de sangue seco, n�o vivo. Sobre a camisola um robe de seda preto, sujo de tinta, esmalte, cola e outros materiais. Ela o lavava, mas as manchas ficavam l�, escrevendo, para sempre, em sua roupa mais usual, algumas desventuras art�sticas. No criado da direita: som quebrado, CD's arranhados. No criado da esquerda: TV, incenso de rosa, jasmim, cravo e canela, isqueiro, esmaltes, tesoura, lamparina, livro-revista-jornal (velhos), uma tomada n�o identificada, telefone, badulaques. Fome. Fome de fome, pensou. Gargalhou em sil�ncio. Apanhou um caderno velho, pois h� muito n�o comprava telas novas para seus desenhos. Ainda sonolenta, bocejou, |
| Fa minto |
| esticou os bra�os para o alto e esfregou os olhos. Lembrou-se do sonho: um bando de colegas carregando um moribundo, amigo, distante, descendo a Afonso Pena, procurando um hospital para o sujeito morrer. Que estranho isso! Fel�cia era naturalmente impaciente. Demorar horas ou dias realizando uma receita seria absolutamente improv�vel. Um sandu�che, requentar comida ou bolo, biscoito ou capuccino n�o saciariam a vontade da mo�a de cozinhar. Comida n�o, sentimentos, j� disse. Para organizar melhor como realizaria o prato, decidiu fazer um balan�o do que estava dispon�vel para utilizar: pregui�a e impaci�ncia serviriam em algum momento?, indagou. Del�rio acumulado, indiferen�a sutil, incompreens�o com prazo de validade vencido, insist�ncia inconveniente de bobo alegre da modernidade, irrita��o pela insist�ncia, sorriso acumulado no canto do l�bio cultivado por s�bio, corpo cansado, mente gripada querendo tomar sorvete de creme. Lembran�as. Trufas-fermento e p�o-tormento: recentes. No interm�dio temporal: cereja-saudade-irremedi�vel e ameixa-tristeza-aindacur�vel. Distante: pimenta-trauma-constante. Fel�cia, ao contabilizar os �ingredientes� dispon�veis, percebeu que seria imposs�vel distinguir todos eles. Durante 15 minutos separando os sentimentos, sentiu dois ou tr�s indo embora e cinco chegando. |