Cap�tulo 17 - Enfrentando a Dor
P�gina inicial
Pr�ximo Cap�tulo
Ao levar o caf� e os rem�dios para Mario na manh� seguinte, Edgar encontrou-o bem disposto e ficou feliz. N�o sairia preocupado, pois naquele dia tinha compromissos na loja e demoraria mais do que o costume. Olga encarregou-se de levar o filho para o banho de sol, apesar de seus protestos. Embora n�o ag�entasse mais permanecer na cama, achava que a m�e se esfor�aria demais ao servir-se de amparo. Todavia, para sua perplexidade, um vigor inesperado deu-lhe condi��es para descer as escadas sem problemas e sem precisar do apoio de Olga. Caminhou quase que normalmente e falava destitu�do da respira��o ofegante que costumava lhe atrapalhar toda vez que percorria o intermin�vel trajeto at� aos fundos da casa.
O jantar caprichado que fora servido a Mario no dia anterior n�o afetara de forma alguma seu organismo. N�o houve nenhuma rea��o negativa. Sua m�e, inclusive, temia por um desarranjo intestinal. Pelo contr�rio. Ele sentia-se forte e com �nimo, bem diferente daqueles meses todos passados praticamente a p�o e �gua.
Era essa a chave que desvendou todo o mist�rio. L�gico, Mario pensou. Houvera uma grande falha em controlar tanto sua dieta, a alimenta��o cheia de prote�nas e vitaminas seria a solu��o para seus problemas de sa�de. Ele sorriu feliz, imaginando pela primeira vez que lhe restava uma luz no fim do t�nel.
Regressando ao quarto, escolheu um livro para ler, pediu uma fruta, a qual Olga trouxe-lhe com satisfa��o, e tamb�m escolheu o card�pio do almo�o. Estava at� corado, principalmente por causa da demorada exposi��o ao sol.
� tarde, a s�s, remoeu seus pensamentos at� concluir que se encontrava a um passo da recupera��o total, pois a energia outrora distante come�ava a voltar gradativamente. Com a finalidade de fazer uma surpresa agrad�vel para Olga e Edgar, come�ou a procurar uma roupa no arm�rio. Tencionava vestir-se com esmero. Tirou o pijama, colocou uma cal�a azul-marinho e escolheu uma camisa estampada que ganhara da m�e pouco antes de cair de cama. Cal�ou com um pouco de dificuldade os sapatos que combinavam com o traje e n�o esqueceu-se do cinto. Penteou os cabelos e desceu com cuidado as escadas.
Da cozinha, vinham sons de pessoas conversando. Aproximou-se devagar, sem fazer barulho, imaginando como iriam ficar admirados com sua apar�ncia. Aos poucos as palavras come�aram a ficar claras e ele distinguiu perfeitamente o assunto:
- Ent�o ele raspou o prato tamb�m no almo�o? Mas isso � �timo!
- A gente n�o pode se iludir, Edgar. Temos que estar preparados. O m�dico afirmou que � natural per�odos de bem-estar, rea��o da dieta modificada.
- Espero que ele esteja errado, tenho f� em Deus que seu organismo deixar� cair por terra essas hip�teses negativas. Sabe, j� ouvi falar de muitos pacientes desenganados pelos m�dicos que conseguiram sobreviver. N�o posso acreditar que ele sofra de um mal incur�vel.
Mario, por incr�vel que pare�a, imaginou que estivessem falando de outra pessoa, uma hist�ria longe de ser a sua. Depois, acabou compreendendo que o moribundo ao qual se referiam s� podia ser ele pr�prio. Ficou t�o abalado com a not�cia que encostou-se na parede, a fim de n�o cair. Para certificar-se, continuou im�vel e escutou:
- J� n�o suporto mais tanto sofrimento. Que Deus tenha miseric�rdia e d� uma chance a meu filho. Tenho ido na Igreja de Santa Terezinha todos os dias, quem sabe ela ouve as minhas preces.
Mario sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Era preciso recorrer a um milagre? Isso significava que a doen�a provava ser mais grave do que procuravam convenc�-lo. N�o haviam revelado a verdade. Agora estava tudo claro, sem sombra de d�vidas, presumiu. Para que sacrific�-lo com dietas austeras se o mal era incur�vel? Por que priv�-lo dos prazeres da culin�ria se j� estava desenganado? Que calamidade aquela que estava se abatendo em sua cabe�a! Como poderia ter sido t�o ing�nuo, todos aqueles anos de estudo n�o foram suficientes para alert�-lo de que uma infe��o n�o se prolongava por tanto tempo assim? Mario deu meia volta e dirigiu-se ao seu quarto novamente. Por que n�o haviam sido sinceros? Por que n�o abriram o jogo logo de uma vez? Ser� que em suas cabe�as achavam que ele estaria despreparado para enfrentar uma not�cia dessas? N�o havia necessidade de sobrecarreg�-lo ainda mais, j� bastava o que vinha sofrendo at� aquele momento, por certo. Edgar foi uma decep��o. Confiava cegamente nele. Ent�o ele iria morrer sem saber de nada? Chegaria do outro lado da vida tomado de imprevisto?
Tornava-se necess�rio ter certeza absoluta de seu estado sem que eles tomassem conhecimento. Pelo que falaram, estava chegando ao fim. Mas, por que? O que ele tinha, afinal? Em sua mente, giravam hip�teses apenas. Mario decidiu-se a esclarecer tudo de uma vez por todas. Deteve-se ao p� da escada e pensou por um instante. L�gico. Iria at� ao consult�rio do Dr. Hor�cio, arrancaria a verdade dele a tapa, se preciso fosse.
Agindo sem perda de tempo, ele passou pela sala, juntou o que havia de dinheiro numa gaveta e saiu silenciosamente, tomando o cuidado para n�o bater a porta atr�s de si. O fato de estar sentindo-se disposto durante o dia n�o sugeria, de modo algum, que fora curado do mal que o afligia, por�m suas for�as eram suficientes para resolver a quest�o crucial.
O t�xi parou em frente ao Hospital das Cl�nicas. O pr�dio era enorme, de cor cinza, deprimente. Era ali que ele estava sendo tratado, era ali que seu m�dico poderia ser encontrado. Engano. Na subdivis�o de atendimento a pacientes cadastrados fora informado que ele estava ausente. Mario olhou para o rel�gio, o dia chegava ao fim, pouco depois escureceria. Naquele setor, o expediente tamb�m estava se encerrando, apenas uma auxiliar atendeu-o e j� se aprontava para sair. O que fazer? N�o poderia tolerar uma derrota no primeiro "round", n�o voltaria para casa sem uma solu��o.
- Deseja mais alguma coisa? J� estamos fechando a reparti��o - A funcion�ria demonstrou certa impaci�ncia.
- Gostaria de saber onde posso encontrar o Dr. Hor�cio agora.
- Se � para consulta, volte amanh�. Agora ele foi para casa.
- Ent�o deixe-me ver a ficha de um paciente.
- Isso � confidencial. Ningu�m pode ter acesso ao arquivo sen�o o pr�prio m�dico. Diga-me qual e o seu problema, quem sabe posso ajud�-lo - ela percebeu que Mario estava tenso.
Num rasgo de imagina��o f�rtil, ele respondeu:
- Olha, estou numa sinuca e quem sabe voc� possa me ajudar. Um primo meu, doente, faz anivers�rio hoje e eu, mais alguns amigos, queremos oferecer-lhe uma festinha surpresa. Com bolo e champanha. Mas, se descobrirmos na hora que tem restri��o m�dica, ser� muito melanc�lico para ele. Por isso, precisava saber antes qual � seu estado de sa�de.
Com um olhar de ceticismo, desconfiada, ela sugeriu:
- Por que n�o pergunta para sua fam�lia?
- Ele � sozinho, n�o tem ningu�m aqui em S�o Paulo. Seus parentes est�o todos em Aracaju. Somos os �nicos a lhe dar aten��o, um pouco de alegria at� que se recupere.
- Sua hist�ria � muito estranha, nunca vi uma coisa mais absurda. Est� querendo ver a ficha de um paciente mas n�o me persuadiu de sua finalidade.
- Que outra raz�o poderia haver? J� imaginou chegar com champanha no apartamento dele e s� a gente ficar bebendo, com a maior cara de tacho do mundo?
- Sabia que posso ser demitida se contrariar os regulamentos?
Vendo que ela come�ava a ceder, Mario animou-se:
- Mas ningu�m precisara ficar sabendo! Jamais iria te prejudicar depois de me fazer uma gentileza dessas. Vamos, seja caridosa com um pobre coitado!
Vendo que n�o iria se livrar dele t�o facilmente, a enfermeira decidiu atender ao seu pedido. Afinal, tratava-se de uma informa��o que o pr�prio m�dico nunca se recusaria a fornecer. Em posse do nome completo, ela dirigiu-se at� um grande arquivo de a�o e puxou uma de suas gavetas. Em instantes a ficha encontrava-se em suas m�os. Mario conteve a respira��o e inquiriu:
- Como �, o que diz a�?
- Eu sinto muito, mas seu amigo est� com c�ncer no p�ncreas, j� em estado terminal. Qualquer bebida alc�olica apressaria sua morte.
Era o que bastava. Tudo estava explicado agora, fora colocado diante de Mario como uma �gua cristalina. Ainda que a not�cia lhe causasse impacto, ele controlou-se e, antes de sair, fez um �ltimo pedido:
- Voc� pode me arranjar uma ficha telef�nica?
Ao ser atendido, ele agradeceu polidamente e come�ou a andar em dire��o � porta de sa�da. C�ncer. A voz da enfermeira ecoou fortemente em seus ouvidos, ela tinha lido o relat�rio m�dico, n�o poderia errar. Mario tentou respirar fundo mas n�o conseguiu. O ar daquele ambiente parecia sufoc�-lo. Precisava urgente de ar fresco. Ao deixar o pr�dio, dirigiu-se � primeira cabine que avistara. Caminhava com dificuldade, sentindo os membros amortecidos. Queria falar com Edgar, era somente isso que tinha em mente. Sabia que o amigo, ao menos, iria tranquiliz�-lo, iria tir�-lo daquele entorpecimento em que mergulhara. Sua t�bua de salva��o, sua raz�o de viver, sua alegria em todos os momentos. Com ele, tinha certeza de estar livre do perigo.
Mario atravessou a avenida movimentada, desviando sem muito cuidado dos ve�culos que freneticamente apareciam na pista. Uma ambul�ncia passou em alta velocidade e contornou a primeira esquina. Um �nibus parou pr�ximo, para descer os passageiros em seu ponto final. Numa barraquinha de frutas, alguns descascavam laranjas e conversavam. O aparelho telef�nico ficava ao lado. Existiria algu�m em pior situa��o que a sua, naquele momento? N�o. Imposs�vel. Seus passos eram lentos e n�o demonstrava percep��o da realidade, como se o destino final fosse o cadafalso. Mario retirou o fone do gancho e discou com dificuldade, pois tinha os olhos marejados de l�grimas.
- Alo, Edgar?
- Mario? Onde voc� est�? Por que saiu de casa? - Desconhecendo seu paradeiro, mostrava-se em evidente afli��o.
Mario, aliviado por ouvir sua voz, emudeceu, sem saber o que falar.
- Alo, Mario! O que houve?!
- Estou sabendo de tudo. O c�ncer no p�ncreas... - desatou a solu�ar baixinho, suas l�grimas escorreram pelo rosto e ele sentiu o gosto salgado em sua boca.
- Calma. N�o seja precipitado. Onde voc� est�?
- Na frente das Cl�nicas.
- Estarei a� em poucos minutos.
Mario desligou o telefone e n�o conseguiu controlar seu pranto, apoiando-se no pr�prio aparelho. Sentiu que as pernas tremiam, tendo em seguida a sensa��o de ir ao ch�o a qualquer momento. O mundo parecia girar, era necess�rio arranjar logo um lugar para sentar-se, sem perda de tempo. Precisava colocar em ordem seus pensamentos, talvez tudo aquilo fosse um pesadelo, tinha que despertar r�pido. A todo custo ele deu alguns passos at� uma �rvore e encostou-se em seu tronco. Uma forte crise de tosse desequilibrou-o, a impress�o de aniquilamento era persistente. Uma mulher veio polidamente em seu socorro mas ele afastou-a de maneira brusca. N�o desejava a ajuda de ningu�m naquele instante, apenas alimentava fortes esperan�as de que Edgar aparecesse o mais breve poss�vel. N�o podia mais esperar, precisava de prote��o urgente.

..........

N�o se acostumara ainda com o tr�nsito intenso, todos tinham muita pressa, confundiam sua cabe�a. No interior, a �nica obriga��o resumia-se em transportar o leite das fazendas para as f�bricas de processamento, tudo muito tranq�ilo, em estradas quase sem movimento algum, de terra, puro arei�o. At� que lhe apareceu essa oferta, o dinheiro falara mais alto e ele concluiu que era vantagem enfrentar o desafio. No entanto, a assustadora quantidade de ve�culos, os congestionamentos monstruosos, o barulho das buzinas e as placas de sinaliza��o confusas transformaram a aventura num pesadelo. Sua testa negra brilhava com o suor que brotava dos poros e suas m�os calejadas agarravam a dire��o como se fossem esmag�-la. Ele era grandalh�o, musculoso, mas naquele momento sentia-se como uma crian�a desprotegida. Puxou o len�o do bolso e passou no rosto molhado. Faltava pouco, imaginou. A mercadoria tinha sido entregue e agora restava apenas encontrar o caminho de volta para casa. O problema era localizar-se naquele emaranhado de ruas estranhas. Por duas vezes passara no mesmo lugar, tinha certeza. Parecia uma brincadeira de esconde-esconde. Sua impress�o era de que as ruas tornavam-se mais estreitas � medida que avan�ava e o velho caminh�o rangia nas curvas e ladeiras, sofrendo com ele. Chegou a assustar-se com um c�o que surgira n�o tinha no��o de onde e latia contra os pneus, na ing�nua tentativa de impedir sua passagem.
Recordou-se da mulher e o filho. Ela se entregara �s l�grimas na despedida e deveria estar aguardando ansiosa seu regresso. Viviam numa mis�ria de dar d� e o dinheiro obtido com o servi�o seria de grande utilidade, tornaria a rotina um pouco menos penosa. Quem sabe aceitasse novas encomendas? Isso, caso conseguisse se habituar aquele tr�nsito infernal.
Engrenou uma reduzida e acelerou. O motor cansado gemia, num esfor�o descomunal para sua idade. Mas, com todos os dem�nios, como descobrir a via de acesso que utilizara na chegada? O mapa jogado em cima do painel de nada servia, n�o havia jeito de decifr�-lo. N�o havia outro meio de localizar-se sen�o perguntando a algu�m, pensou. De repente, bem � frente, uma placa surgiu indicando novo percurso. Ele fez uma manobra r�pida e entrou � esquerda, de acordo com a orienta��o. Uma nova buzinada, berros de indigna��o - ele atrapalhara novamente algum outro ve�culo. Espreitou pelo espelho retrovisor e respirou aliviado, nada de grave acontecera. Tinha fortes esperan�as de terminar a viagem antes do anoitecer. Era a data de anivers�rio de seu filho, queria abra��-lo antes que fosse para a cama. Comprara at� uma pequena lembran�a, uma recorda��o de S�o Paulo. Mal teve tempo de ver o sinal vermelho logo a frente. Pisou no freio com toda a for�a e parou o caminh�o, mas atrapalhou os pedestres. Estava em cima da faixa.
Com exce��o desses incidentes insignificantes, tudo corria bem. N�o enfrentara policiamento e nem sofrera qualquer contratempo com o motor. O sem�foro abriu e ele colocou-se novamente em marcha, percebendo que o tr�fego era mais calmo na regi�o. Arriscou-se a aumentar um pouco mais a velocidade. Afinal, sua lentid�o atrapalhava todos � sua volta e impedia a passagem, raciocinou. Alguns metros al�m uma placa avisava "cuidado, hospital". Ele n�o percebeu. Inesperadamente, algu�m atravessou em seu caminho.
- Cuidado! Pare!
N�o adiantou berrar, n�o houve tempo para desviar. Numa dilig�ncia imediata, apertou o breque at� o fundo, mas n�o foi suficiente para estancar o ve�culo. Sentiu o baque surdo do corpo contra a velha lataria.

..........

O t�xi estacionou bem em frente ao bloco de consult�rios e Edgar desceu apressado, sem esperar pelo troco. Correu os olhos para todos os lados e, embora fosse aquele o lugar marcado, n�o havia sinal de Mario. Misturou-se numa aglomera��o na cal�ada, mas em v�o. Deveria estar ali, foi o que dissera pelo telefone. Deu-se conta de que algum acidente ocorrera, pois um caminh�o atrapalhava o tr�nsito, no meio da avenida. Como a portaria do pr�dio se encontrasse fechada, ele dirigiu-se ao hospital, quase n�o conseguindo controlar o afobamento. Era poss�vel que estivesse sentado na recep��o, a sa�de n�o lhe permitia prolongar muito sua perman�ncia em p�. Antes, descreveu-o para um guarda no caminho e ele em nada ajudou. N�o teve sucesso tampouco entre as criaturas na sala de espera. Aproximou-se de uma atendente atr�s do balc�o e indagou:
- Por favor, n�o notou  presen�a de um rapaz moreno, debilitado, andando sem rumo por aqui? N�o est� passando nada bem.
- O que mais se v� neste local � gente doente. Se tiver sido internado, forne�a o nome completo dele naquele guich�. Eles t�m condi��es de dar uma posi��o correta.
Enquanto falava, Edgar reparou nos pap�is espalhados em sua frente e, no meio deles, um documento de Mario. Reconheceu-o pela foto.
- � o dono desta identidade - apontou para o papel.
- Acaba de ser encaminhado para o pronto-socorro, estou preenchendo sua ficha. � o respons�vel?
- Sim, sou o respons�vel - frisou bem as palavras - Por acaso teve alguma crise?
A atendente exp�s com todo o cuidado que Mario fora v�tima de um atropelamento mas j� estava sob cuidados m�dicos. Visivelmente perturbado, Edgar pediu-lhe que informasse a dire��o do pronto-socorro. Sentiu os l�bios tremerem.
- Acalme-se - aconselhou, ao notar seu nervosismo - L� o acesso � proibido para familiares, mas vou tentar localizar seu paradeiro. Ele pode ter sido encaminhado ao ambulat�rio. Depende das condi��es f�sicas em que se encontra.
- Ser� que foi muito grave? - Edgar passou as m�os no cabelo.
- N�o posso dizer-lhe nada, desconhe�o seu estado. Muitas vezes um atropelado n�o mostras sinais externos mas a batida pode causar s�rios danos aos �rg�os vitais. Sente-se ali - apontou com o indicador para um banco - Assim que obter alguma informa��o, eu aviso.
A atendente, penalizada com sua rea��o, debru�ou-se no telefone � cata de algum dado sobre Mario. Mas Edgar n�o estava disposto a permanecer im�vel, pass�vel aos acontecimentos. Saiu �s pressas pelos corredores, decidido a encontrar por si pr�prio a ala de emerg�ncia.
Conseguiu driblar a vigil�ncia e avan�ou porta adentro. O hospital era enorme e cheio de labirintos. Pediu orienta��o a um enfermeiro cruzando seu caminho. N�o tinha o que errar, era s� descer um v�o de escadas, seguir pelo corredor � direita e em breve chegaria a seu destino.
Mas n�o foi t�o f�cil como ele falara. Desesperado, interrogou novamente. Indagaram a seu respeito, o que fazia naquele local. N�o redarg�iu, partindo em outra dire��o. De repente, a divis�o de traumatologia. Nova secretaria, novas atendentes. Ao fornecer o nome de Mario, j� sabiam do caso, haviam recebido a informa��o por telefone. Edgar implorou por ajuda, desejava ao menos saber sobre seu estado. Uma enfermeira mais madura, com o uniforme impecavelmente branco, encarregou-se de dar o esclarecimento desejado:
- No momento, ele se encontra na sala de cirurgia. Sofreu uma contus�o no abdome, nada de grave. Caso suas condi��es f�sicas forem satisfat�rias, n�o h� motivo para alarme.
N�o era preciso dizer mais nada. Como seu organismo j� debilitado poderia resistir a mais essa investida?
Edgar calou-se de s�bito, e desatou a chorar. N�o fez o menor esfor�o para controlar-se e permitiu que as l�grimas descessem abundantes em seu rosto. Cansara-se de disfar�ar, estava no limite de suas emo��es.
A enfermeira pegou-o afetuosamente pelo bra�o e encaminhou-o a uma saleta. Disse-lhe que se sentasse e prometeu retornar assim que tivesse qualquer not�cia da sala de cirurgia. Antes de sair, deu-lhe para beber um l�quido amargo num pequeno copo de pl�stico.
Edgar sentiu um vazio na mente. Alguns passavam apressados pelo corredor ao lado, sem notar sua presen�a. Ele limpou o rosto molhado com um len�o. N�o mais se entregava �s l�grimas. O rel�gio da parede indicava sete horas. Era mais tarde do que pensava. Sentiu um forte cheiro de rem�dio, mas n�o perturbou-se. Limitou-se apenas em afundar as m�os na almofada da poltrona e depois lembrou-se de Deus. Come�ou a rezar uma Ave Maria e ap�s, um Padre Nosso. Iniciou um Salve Rainha mas interrompeu-o pela metade, pois esquecera-se das palavras. Ouviu passos, pensou ser a enfermeira, equivocou-se. Dirigiu o olhar para o rel�gio outra vez. Os ponteiros quase n�o se mexiam, a hora se arrastava. Ele resolveu aproximar-se da janela e tentar se distrair com a vista. N�o era grande coisa, em sua opini�o. O manto da noite j� cobria o p�tio do hospital, havia pouca ilumina��o. Tudo era muito calmo, mergulhados num sil�ncio penetrante. Sentiu algu�m tocar-lhe o ombro. Era a enfermeira.
- Ele j� foi levado para a enfermaria e daqui a pouco voltar� a si. Quer me acompanhar?
Edgar concordou prontamente e caminharam a passos r�pidos e impacientes pelo corredor, sem trocar palavra alguma. Entraram num dormit�rio onde diversas camas compunham o ambiente, separadas umas das outras por biombos pintados de azul claro. De repente, Mario. Parecia acordar lentamente da letargia que o dominara.
- Mario, sou eu - Edgar arrumou os cabelos que lhe ca�am na testa.
A enfermeira interferiu:
- Voc� pode esperar at� que ele desperte totalmente. Depois, ter� de sair. Estamos abrindo uma exce��o, o hor�rio de visitas terminou.
Ele agradeceu a gentileza e reclinou-se ao lado do leito. Mario, embora p�lido, n�o dava mostras de inquieta��o e nem parecia estar sendo afligido por dores.
- Ele ficar� bem, n�o se preocupe.
A enfermeira ajeitou o soro e depois conferiu a press�o, perguntando:
- � seu irm�o?
- Sim - mentiu.
- O destino reserva cada imprevisto de vez em quando...
- Sabe como foi a interven��o?
- Tudo correu bem.
Edgar permaneceu em sil�ncio, concentrando sua aten��o em Mario, � espera de que acordasse completamente. De repente, ele moveu os l�bios:
- Edgar... - tinha a voz tr�mula, quase um sussurro - o que houve?
- Eu � que devia perguntar isso. Devia ter mais cuidado ao atravessar a rua...
- Ah! Agora me recordo... Foi horr�vel.
- Est� tudo bem, n�o sucedeu nada de t�o grave.
Edgar apertou a m�o de Mario e sentiu-a molhada de suor. Consultou a enfermeira e ela tranq�ilizou-o, era normal.
- Devia ter me contado da doen�a...
- N�o havia necessidade de ficar sabendo do que se passa. Mesmo porque existem chances de recupera��o - Edgar n�o mostrou-se abalado.
- Est� mentindo novamente...
- Quem lhe disse que n�o pode haver um erro m�dico? Nunca sabemos com toda a certeza o que se passa em nosso organismo...
Mario tentou se mexer, mas as ataduras o impediram. Observou ao seu redor, notou o frasco de soro, o biombo azul e um outro paciente no leito em frente.
- O que quer que tenha, na certa est� melhor do que eu... - murmurou resignadamente.
- Do que est� falando? - perguntou, sem entender direito.
- Da pessoa naquela cama - apontou debilmente com o olhar - Pode existir algu�m em pior situa��o que a minha? Duvido.
- N�o fale assim. Estou convencido de que vai superar tudo e essa maldita mol�stia ser� vencida - Edgar tinha a voz embargada pela emo��o.
- Quero �gua, tenho sede - falou devagar, denotando esfor�o.
Edgar serviu-o de uma jarra que se encontrava no criado-mudo, ao lado do leito, e sugeriu, com ar benevolente:
- Vamos pensar somente em coisas boas. No instante em que sair do hospital, depois de recuperado, voltaremos a falar nesse assunto.
- N�o queira me iludir, Edgar. Entrei para ficar.
- Por que se martirizar dessa maneira? Esquece que est� me magoando tamb�m? Vamos ter em mente as horas alegres que passamos juntos e que tudo voltar� a ser como antes. Ir� vencer, pense positivo.
Mario apenas deu um sorriso for�ado, sem vontade de retrucar. Edgar continuou:
- Considere o amor que temos um pelo outro, um privil�gio que poucos conseguem conquistar. � uma for�a misteriosa, uma d�diva que recebemos e n�o deve ser desprezada. Vai ajud�-lo a superar essa fase dif�cil.
Edgar levantou-se e beijou-lhe a testa ternamente. Permaneceram quietos por alguns minutos, esquecidos momentaneamente do perverso acidente de percurso. Depois, Mario apertou-lhe a m�o, interrompendo o sil�ncio:
- Quando poderei voltar para casa?
- Para casa?! Meu Deus!
- O que houve?
- Esqueci de avisar sua m�e! Deve estar aflita numa hora dessas!
Avisando que retornaria em seguida, Edgar levantou-se, atravessou o dormit�rio e apressadamente seguiu pelo corredor, � procura de um telefone. Encontrou um aparelho p�blico pr�ximo aos elevadores. No primeiro toque, Olga atendeu. Explicou-lhe o que acontecera e convenceu-a de que ele se encontrava bem naquele momento. Mesmo assim, ela desejava ver o filho sem demora. N�o adiantou argumentar que estava encerrado o hor�rio de visitas, a ansiedade tomou conta de sua voz.
Regressando � enfermaria, uma cena assustou Edgar. Homens de branco, n�o sabia identificar se eram enfermeiros ou m�dicos, rodeavam o leito de Mario. Sucedera algo s�rio, pois ele mantinha os olhos fechados e demonstrava, pela fisionomia, estar sentindo dores. Assustado, pediu explica��es ao primeiro que abordou.
- Rea��o p�s-operat�ria. Est� sob controle mas ser� encaminhado para a UTI.
Rapidamente ele foi transferido para o outro setor. Da janela de vidro, o m�ximo que lhe permitiam aproximar, Edgar assistiu consternado a coloca��o de bal�o de oxig�nio, tubos e el�trodos. Algu�m empurrou uma aparelhagem de metal para perto da cama e em breve estudavam os indicadores que apareciam numa tela verde. O frasco de soro fora substitu�do, um outro medicamento lhe era ministrado e acabou restando apenas um membro da equipe que lhe prestava socorro. Aos poucos, ele deu mostras de estar  reagindo bem e, finalmente, tudo foi se acalmando.
- Est� na hora de voc� sair - era a enfermeira que o orientara.
- Por favor, deixe-me ficar mais um pouco. Ele teve uma reca�da!
- Sei disso. Agora apresenta um estado inalterado, j� pode ir descansado.
- J� impediram minha entrada na UTI. Aqui, n�o estou atrapalhando ningu�m...
- Tudo bem - mostrou-se compreensiva - Vou estar em maus len��is se algum m�dico reclamar...
Edgar exp�s com insist�ncia que ficaria apenas alguns instantes e ela afastou-se, apreensiva. Na verdade, n�o sairia dali nem amarrado, pensou. De repente, notou que Mario voltava � lucidez e procurava por algo. Ele bateu no vidro, para atrair-lhe o olhar. Um t�nue movimento labial indicava que ele clamava por sua presen�a.
Edgar sabia que aquela cena estaria gravada em sua mem�ria pelo tempo em que vivesse - o amigo, separado pelo vidro, pedindo-lhe uma ajuda que ele n�o era capaz de atender. Sentiu-se um in�til. Pouco depois avistou um enfermeiro aproximar-se do leito e aplicar-lhe uma inje��o.
N�o havia condi��es de interceder em nada. O tempo se arrastava e a ang�stia aumentava a cada momento. Edgar sentiu os nervos alquebrados e a garganta seca, n�o colocara nada na boca desde cedo. Fixava os olhos na janela de vidro, depois para o corredor frio e o banco onde recusava-se a sentar. Os minutos pareciam horas, a sensa��o de fragilidade diante da trag�dia aumentava gradativamente. Resolveu descer at� a lanchonete do hospital. Caminhou em passos r�pidos, n�o desejava ausentar-se dali por mais do que alguns minutos. Logo encontrou o local, no andar t�rreo. Estava vazio, exceto por um casal que conversava num canto. Mario enfrentava um drama ainda maior sem seu apoio, pensou. Resolveu pedir um caf� forte, na expectativa de que a bebida tivesse condi��es de anim�-lo. Ao olhar para o rel�gio nervosamente, constatou que j� eram quase dez horas da noite.
Na volta, Edgar encontrou Olga desfalecida e sendo socorrida por uma enfermeira na saleta lateral a entrada da UTI. A porta tinha sido deixada aberta. Ele, instintivamente, entrou. Avistou Mario im�vel e um atendente retirando-lhe a agulha do soro de seu bra�o. Avisaram-lhe que era proibida a entrada mas ele n�o deu ouvidos. Aproximou-se do leito e tocou o amigo. Compreendeu o que ocorrera, tudo estava acabado. Os aparelhos de apoio tinham sido afastados, assim como o tubo de oxig�nio. A princ�pio, recusou-se a acreditar. Chamou por ele baixinho, tentou reanim�-lo, gemeu angustiado. Em v�o. Ajoelhou-se a seu lado, no ch�o frio.
Por que fez isso, Mario? N�o tinha esse direito. Por que se foi e me deixou aqui? - sussurrou.
Agora sabia que o fim chegara e n�o havia mais nada o que fazer. Iniciou uma ora��o com sofreguid�o e interrompeu-a. Precisava chorar, colocar para fora sua ang�stia, mas n�o conseguia. A partir daquele momento tomou consci�ncia de que n�o iria mais ouvir sua voz, ele havia partido. Despediu-se assim mesmo, beijando-lhe a m�o inerte.
Os enfermeiros interromperam o del�rio, n�o havia condi��es de continuar ali, era necess�rio transferir o corpo. Edgar teimou em permanecer ao seu lado, a todo custo. Iria usar de for�a se preciso fosse, mostrava-se fora de si. N�o houve outra alternativa sen�o sair arrastado pelos seguran�as, que haviam sido destacados. N�o ligaram para sua dor, n�o se importaram com seu sofrimento. No meio do redemoinho, veio-lhe � mem�ria que Olga se encontrava na outra sala. Iria precisar de conforto.
Hosted by www.Geocities.ws

1