Cap�tulo 16 - Aprendendo com a Doen�a
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Um dia, Pedro comunicou-se com Edgar pelo telefone e tomou conhecimento da situa��o. Revelou o desejo de, acompanhado de Renato, fazer uma visita a Mario. Combinaram o encontro e Edgar levou a not�cia ao amigo:
- Prepare-se porque hoje haver� um pouco de distra��o, para variar essa nossa rotina. Temos visitas chegando � noite.
- De quem est� falando?
- O Pedro e o Renato.
- Como souberam que estou doente?
- Pedro ligou para saber das novidades e eu contei. Fiz algum mal?
- De forma alguma. Mas n�o estou disposto, n�o acha melhor adiar para outro dia?
- Sinto muito desapont�-lo, mas isso � imposs�vel. Vamos fazer essa barba, escolher uma roupa que voc� gosta e dar um jeito nessa bagun�a.
- Se o quarto est� desarrumado, � por sua culpa. N�o mandei trazer tanta tranqueira para c�.
- Tudo para o seu conforto. Agora precisamos organizar melhor, dar um ar mais apropriado de gente que logo vai se recuperar.
- Apenas um disfarce, n�o �?
- N�o fale bobagens - Edgar lamentou ter ca�do em contradi��o - n�o fica bem receber visita sem se preocupar com a arruma��o. Ou prefere descer para a sala?
- N�o vou arredar o p� daqui - Mario deu mostras de irrita��o - Que momento mais impr�prio para receber visita! Na certa, v�o reparar na minha magreza, nas minhas olheiras...
- Nada que uma suave camada de maquiagem n�o resolva...
- Pare de brincadeira. Estou falando s�rio.
- Escute, Mario, voc� est� enfermo. � natural sua palidez e a perda de peso. Com todo mundo acontece isso, pelo menos uma vez na vida. E as visitas, tem que tolerar. � tradi��o na nossa sociedade esse tipo de procedimento.
- Como se n�s segu�ssemos a sociedade - sorriu.
- Pronto. J� est� com outra apar�ncia.
- Qualquer um acaba rindo com o que fala - ponderou, mantendo o bom humor. Depois, fez uma pausa e completou - Estou pedindo-lhe apenas para escolher um momento mais adequado, n�o tenho vontade de ver ningu�m agora.
- Por que insiste em se entregar dessa maneira? Me causa des�nimo - Edgar desafiou, esperando uma manifesta��o positiva.
- Est� bem, ent�o. S� por sua causa - disp�s-se a levantar.
- S�o nossos amigos, merecem considera��o. Foram leais com a gente em Campos do Jord�o, lembra-se? - apressou-se em ampar�-lo.
- Me d� raiva essa fraqueza. Quando sinto vontade de fazer qualquer coisa, logo desisto.
- � coisa passageira - Edgar engoliu a seco - Tudo voltar� ao normal em breve. Fa�a um pouco de esfor�o, anime-se.
- E esquecer que j� faz um m�s e tudo continua sem solu��o? Tenho a sensa��o que n�o vou resistir.
- Ora, quanta trag�dia! - dissimulou a voz - N�o se d� por vencido!
Mario fez um esfor�o para chegar ao banheiro e Edgar ajudou-o na higiene pessoal, cuidando durante o banho e o barbear-se.
- Que condi��es tenho de superar tudo isso? Acha que sou tolo a ponto de engolir essa de que tenho apenas uma infec��o?
- L� vem voc� de novo com a mesma hist�ria... - dissimulou a voz novamente.
- Est� na hora de termos uma conversa franca, n�o adianta ficar me iludindo. Seria melhor estar a par de tudo.
Edgar acompanhou-o de volta ao leito sentindo-se fortemente apreensivo. Tinha medo de trair-se. Enquanto escolhia as roupas no arm�rio, aconselhou, fingindo n�o dar import�ncia �s suas palavras::
- N�o fique colocando minhocas em sua cabe�a. N�o sofre de nada s�rio e ponto final. Esque�a esse assunto.
- Nada me convence de que n�o est� mentindo. Estou levemente desconfiado de minha m�e e de voc� tamb�m.
Na maior parte do tempo, Mario punha-se a imaginar a extens�o do mal que o afligia, remoendo sua mente. Come�ou realmente a achar que estavam escondendo a verdade, que a realidade era outra. Devia estar metido em graves complica��es, sen�o haveria alguma explica��o mais sensata para aqueles estranhos sintomas.
- Que acha dessa camisa? - Edgar tentou mudar o assunto.
- Est� �tima. Agora quero que seja sincero comigo. O que eu tenho, de verdade?
Edgar era capaz de avaliar o drama pelo qual Mario passava, mas concordava com Olga. Ter conhecimento de seu estado real n�o seria de nenhuma utilidade. Pelo contr�rio, entraria em profunda depress�o a troco de nada. Respondeu com veem�ncia:
- Meu Deus! O que h� de t�o ruim para se lamentar assim? Nosso organismo � um aparelho sujeito a falhas uma vez ou outra e a gente tem que se conformar com isso.
- N�o queria perder um ano de estudo, todo meu esfor�o foi em v�o. E voc� sabe como lutei para entrar na faculdade.
- Est� dando a impress�o que o col�gio � a coisa mais importante que possui. N�o est� se esquecendo de nada?
Mario entendeu a insinua��o e respondeu:
- Ora, essa. � claro que, sem voc�, nada teria gra�a.
Edgar ajudou-o a trocar-se, contente porque o pretexto usado havia conseguido afastar a conversa inoportuna. Depois, acomodou-o novamente na cama, ajeitando os travesseiros para que permanecesse em posi��o ereta. Por causa de seu desejo em conservar sempre as janelas fechadas, um cheiro forte impregnava o ar. Ao lado da cabeceira, Edgar notou os rem�dios receitados e desencorajou-se com a quantidade. Come�ou a perguntar a si mesmo de que maneira a enfermidade surgira, a tal ponto de abalar gravemente a sa�de de Mario. Rapidamente, arranjou um lugar mais apropriado para os vidros, colocando-os longe da vista.

Pedro e Renato chegaram pouco antes do anoitecer.
Edgar foi receb�-los no port�o. Preveniu-os sobre o estado de sa�de de Mario, a fim de evitar um poss�vel embara�o, e apresentou-os a Olga, explicando que eram grande amigos. Em seguida, levou-os ao quarto.
- Como �, meu camarada, vadiando muito nessa cama? - Pedro brincou.
- Durmo o dia inteiro, n�o d� para reclamar.
- Essa mordomia acaba em breve, vai ver s�.
- A gente tem que passar por esses atropelos, n�o �? - Mario falou num tom resignado.
Edgar arranjou cadeiras para que se sentassem e ele pr�prio acomodou-se na cama, ao lado de Mario. Mudando de assunto, Pedro acrescentou, complacente:
- Na primeira oportunidade, vamos programar outra viagem para Campos do Jord�o. S� n�s quatro. Da pr�xima vez n�o haver� ningu�m para incomodar.
- E por falar nisso, o que sucedeu quando abandonamos a casa da D�bora?
- Todos pensavam que voc�s tinham propositadamente se trancado no quarto. Esperaram que acordassem e, como demoravam muito, bateram na porta. Constatando que n�o atendiam, D�bora ficou apavorada que houvessem cometido alguma besteira e procurou por um c�pia da chave para abrir a fechadura. Decep��o! O aposento estava vazio.
- N�o imaginava que pudessem fazer aquilo com a gente...
- Nem n�s. N�o �, Pedro? - Renato comentou - Sab�amos que preparavam alguma brincadeira mas n�o t�nhamos no��o do que seria.
- Ainda bem que voc�s preveniram a gente. Sen�o, teria sido pior. Depois, como n�o dava para tolerar mais um minuto dentro daquela casa, fugimos pela janela - Mario falava pausadamente, mas sempre mantendo um sorriso no rosto.
- O pessoal foi impiedoso e n�o mediu as conseq��ncias da brincadeira. Mas n�o faz mal. � com trope��es que a gente aprende a andar - Edgar levantou-se e continuou - Estou sentindo aroma de caf�. Voc�s aceitam uma x�cara?
Diante das afirmativas, ele desceu para falar com Olga e ver se precisava de ajuda. Mas ela fez quest�o de servi-los pessoalmente. Estava tamb�m na hora dos rem�dios e ele acompanhou-a com a bandeja. Uma vez no aposento, foi tratando de falar:
- N�o acham que ele j� tem a fisionomia saud�vel? Olhem as bochechas, como est�o coradas...
- Ah, m�e, que inconveni�ncia... - Mario colocou os comprimidos na boca e tomou um gole do copo que ela colocara diante de si - Que suco esquisito � esse?
- Laranjada.
- N�o pode ser. Pensa que perdi o paladar?
- Misturei o outro rem�dio junto. N�o reclamava que era dif�cil de engolir?
- Bela id�ia - acrescentou, em tom sarc�stico - agora, em compensa��o, perde-se o sabor da laranja...
Olga calou-se, deixando-o sem resposta. Preocupou-se em recolher as x�caras sem dar mostras de seu aborrecimento. Nada estava satisfat�rio ultimamente, era intolerante com tudo. N�o suportava mais a dieta imposta pelo m�dico e implicava em cada ocasi�o que se via obrigado a ser medicado.
- Que tal um jogo de cartas? Estaria disposto? - Pedro sugeriu.
- Claro que sim! Desde que n�o tenha que queimar muito meus neur�nios...
- Pode deixar que eu pego o baralho - Edgar levantou-se e desceu para a sala, aproveitando para ajudar Olga com a bandeja. No caminho, ela reclamou:
- Notou como ele est� cada dia mais irritadi�o? Implica com tudo.
- Acho arrazoado pedir ao m�dico que receite um calmante. � tarde, comentou que desconfiava de seu estado de sa�de, achava que era grave e est�vamos escondendo a verdade. Insistiu muito para que fosse honesto com ele.
- E voc� n�o disse nada, n�o �? - ela arregalou os olhos.
- Claro que n�o. Mas a gente percebe claramente sua ansiedade.
- Vou falar com o m�dico - Olga afirmou, categ�rica.
Enquanto aguardavam, Renato interrogou:
- A quanto tempo o Edgar mora aqui com voc�s?
- Ah, j� faz mais de um ano. Tem sido muito prestativo. Comigo e minha m�e. Ele ajudou-a tamb�m a se restabelecer de uma cirurgia. Depois dessa, desconfio que deveria se formar em enfermagem.
Todos sorriram. Renato continuou:
- Gostar�amos muito de poder compartilhar da amizade de voc�s. Longe do grupo, � claro. Temos muito em comum, e o Edgar sempre foi leal. A gente se conhece desde o prim�rio.
- Sei disso. Seria muito bom que nos un�ssemos. E, se o pior acontecer, ele precisar� de apoio.
- Nem fale uma coisa dessa! - Pedro bateu tr�s vezes na madeira de uma c�moda perto de si - Afaste o mau agouro!
Edgar voltou com o baralho. Contente com a id�ia, perguntou o que jogariam. Pif-Paf? Mario n�o topou. Ent�o Pedro sugeriu um tipo diferente de jogo. Exp�s pacientemente as regras e todos se interessaram. Mas, depois que as cartas foram distribu�das, Mario sentiu um ligeiro mal-estar. Pediu para que Edgar o ajudasse a deitar-se novamente e Pedro achou melhor que se retirassem.

Gra�as a uma id�ia de Edgar, o quarto de Mario transformou-se por uma semana num local de peregrina��o de seus colegas estudantes e de professores. Era uma maneira de v�-lo reagindo de forma mais positiva � doen�a e o estratagema dera certo. Preocupado com sua apar�ncia, fazia quest�o de barbear-se e sempre escolhia alguma roupa que alegrasse um pouco. Entusiasmada com aquele sopro novo de vitalidade, Olga enfeitava o aposento com flores e sempre procurava afastar qualquer ind�cio vis�vel de que existia um doente que inspirava cuidados crescentes, arrumando tudo de maneira a deixar o ambiente o mais tolerante poss�vel. O tranq�ilizante receitado pelo m�dico estava sendo ministrado sem que ele tivesse conhecimento e auxiliava bastante em seu humor. Edgar jamais abandonava sua cabeceira, a n�o ser para fazer meio per�odo na loja. Permanecia l� apenas o estritamente necess�rio, muitas vezes fechando as portas antes do prazo a que se havia proposto. N�o se interessava em mais nada que n�o fosse relacionado diretamente com Mario.
O jardim dos fundos da casa, apesar de abandonado, passou a ser freq�entado com mais assiduidade. Consciente de que o sol da manh� lhe era ben�fico, Edgar carregava o amigo todos os dias para perto das plantas. Ele apreciava os cravos e as d�lias e come�ou a acompanhar o crescimento de suas flores.

Por fim, foi a vez dos parentes de Bauru. Quando Edgar chegou da loja certo dia, Olga tinha novidades:
- Ana est� a caminho de S�o Paulo. Teodoro e Eugenia decidiram traz�-la de carro.
- A senhora telefonou para eles?
- Tinha de avis�-los. Minhas esperan�as v�o �s alturas mas meus p�s est�o no ch�o, como por certo me compreende. Tenho consci�ncia do estado de meu filho e me senti na obriga��o de colocar a fam�lia a par do que est� acontecendo. Principalmente porque eles tem sido t�o atenciosos, n�o poderia deix�-los alheios a tudo. Evitei apenas de mencionar o teor da gravidade, um milagre sempre � poss�vel de ocorrer.
- A senhora tem raz�o. Quando chegam?
- Amanh� cedo.
A rotina da casa alterou-se por um par de dias. N�o que faltasse lugar para acomod�-los, mas visitas sempre exigem uma aten��o constante. Mario ficou contente em rev�-los e n�o reclamava das vezes em que permaneciam demasiadamente no quarto. Muito habilmente, Edgar lembrava sobre os hor�rios de repouso e a� davam-lhe o sossego necess�rio. Jamais permitiu uma situa��o desconcertante para os parentes e nem desconfort�vel para o doente.
Numa noite, sentados na sala, Ana fez um coment�rio elogioso sobre a dedica��o de Edgar para com seu sobrinho. Sem hesitar, Eugenia concordou com suas palavras, ele era realmente muito prestativo e �tima companhia para Mario. N�o era dif�cil de observar detalhes sobre os cuidados que dispensava ao enfermo. Tinha de cor as recomenda��es do m�dico, bem como as doses dos medicamentos e as no��es de higiene. Ele provavelmente seria decisivo para seu pronto restabelecimento, afirmaram com evidente satisfa��o. Olga sentiu-se levemente desconfort�vel e acrescentou:
- Edgar � meu bra�o direito. Agora, com a doen�a de Mario, presta um eficiente aux�lio. Se ele se recuperar, saberei recompensar tanto apoio.
- Depois que ele se recuperar. N�o �, Olga? - Eugenia corrigiu.
- Claro. N�o h� motivo para pessimismo - Ana completou.
- Est�o com raz�o. Tenho muita f� que meu filho voltar� a ter a mesma sa�de de antes - Olga retrucou.
Como voltassem a mencionar a atua��o exemplar de Edgar, ele come�ou a sentir-se embara�ado. Diziam estar agradavelmente surpresos por sua cortesia e maneiras educadas, oferecendo ajuda at� nos afazeres dom�sticos e sem jamais mostrar-se exausto. Realmente, excedia-se em sua obriga��o, se � que tinha alguma. Insistiram para que ele acompanhasse Olga em sua pr�xima viagem a Bauru, assim que Mario mostrasse em condi��es de pegar a estrada. O ar puro da fazenda seria ben�fico para seu restabelecimento.
Edgar n�o poderia ficar insens�vel a tantas palavras de incentivo. Uma demonstra��o lisonjeira de reconhecimento sincero ao seu trabalho, cheia de afeto. Por�m, era uma enorme ironia do destino. A fam�lia considerava imprescind�vel sua presen�a ao lado de Mario, mas apenas naquelas circunst�ncias. Al�m daquilo, jamais seria pensado ou admitido. Come�ou a se divertir imaginando a rea��o deles se anunciasse sua uni�o conjugal, que at� aquele momento era secreta:
"Eu e o Mario decidimos ser amantes, tem algum problema?"
"Ponha-se daqui para fora! Como se atreve?! Desavergonhado, infame, enganou a todos!"
No dia da volta para o interior, Olga achou por bem deix�-los a par da real situa��o de Mario. N�o era justo ench�-los de esperan�as para depois receberem m�s not�cias atrav�s de um simples telefonema. Foi uma cena muito emocionante, pois, enquanto relatava os �ltimos acontecimentos, l�grimas rolaram novamente de sua face.


O outono come�ava a despedir-se de S�o Paulo naquele ano. As �rvores pareciam ressentir-se mais com a mudan�a do clima e os p�ssaros deixaram de fazer revoadas pelos jardins. O metr� j� n�o era t�o abafado e os bares nas cal�adas atendiam poucos fregueses. Mario chegara ao fim de um tratamento e iniciara outro. Por duas ocasi�es diferentes teve que ser internado no hospital, em crises que o acometiam de maneira alarmante. Mas seu organismo resistia �s investidas da doen�a e ele voltava para casa. Entretanto, definhava a cada dia que passava, perdendo o �nimo e a coragem para lutar. Olga e Edgar redobravam os esfor�os para v�-lo novamente com alguma disposi��o, tudo em v�o.
Sofriam terrivelmente com a situa��o que se agravava e muitas vezes Edgar acordava aos sobressaltos no meio da noite, interrompendo incont�veis pesadelos com a testa molhada de suor. Sua estrutura emocional j� n�o comportava a fun��o de amparar Mario e consolar Olga ao mesmo tempo. N�o faltou ocasi�o em que teve �mpetos de chorar com ela, gemer, clamar aos c�us por miseric�rdia, berrar com todas as for�as de seus pulm�es para dar a conhecer ao mundo que era injusto o que sucedia.
O fato era que precisava de um amigo de verdade, algu�m que fosse seu confidente. O desabafo talvez fosse um rem�dio, ainda que parcial, para aquele sufoco. Mas ele n�o tinha ningu�m. Arnaldo abandonou-o, n�o sem antes decepcion�-lo com suas convic��es machistas e absolutamente sem sentido. N�o havia conseguido entender at� aquele momento como pudera ter sido t�o cruel, intolerante, ego�sta. Quantas vezes, durante toda a fase de sua adolesc�ncia, enfrentaram juntos in�meras disc�rdias sem nunca separarem a amizade. Quantos momentos dif�ceis atravessaram, sem jamais deixar de oferecer o ombro um ao outro. Restavam Pedro e Renato, mas era uma rela��o de amizade superficial, que n�o se permitia a essa forma de atua��o.

A fam�lia de Olga tinha a opini�o correta no tocante � devo��o de Edgar para com os membros daquela casa. Ele continuava a agir como um enfermeiro de tempo integral, auxiliando Mario em todos as necessidades b�sicas do dia a dia. Jamais se descuidava de sua higiene, o banho, a troca de roupa. Acabou aprendendo todas as rea��es da doen�a, suas solu��es paliativas, a medica��o correta e a alimenta��o apropriada. E ainda sobrava tempo para amparar a m�e e n�o esquecer totalmente da loja de antig�idades.
Um dia, ap�s uma daquelas crises que come�aram a ocorrer com maior freq��ncia, ele abalou-se profundamente e resolveu conversar com Olga. Convenceu-a a falar com o m�dico e instar com ele a respeito da dieta de Mario. J� estava farto de v�-lo padecer daquela maneira e ainda submeter-se � tortura de uma alimenta��o ins�pida. Tantas restri��es na hora da refei��o n�o traziam resultados alentadores e apenas sacrificavam ainda mais o doente.
Dr. Hor�cio, que voltara a cuidar do caso, compreendeu a situa��o. N�o tinha coragem de dizer a m�e que restava a seu filho pouco tempo de vida, ele j� estava desenganado. Mas deu a entender que, a partir daquele momento, todos naquela casa tinham a miss�o de tornar o resto de sua exist�ncia o mais confort�vel poss�vel. Determinou diversas modifica��es. N�o s� a mudan�a nos h�bitos alimentares como tamb�m formas de atividades recreativas para o seu bom desempenho mental. Tratava-se de uma atenuante e quem sabe at� uma forma de prolongar sua exist�ncia.
Edgar n�o coube em si de felicidade no instante em que Olga trouxe-lhe as novidades. Apressadamente discutiram o que escolher primeiro dentro dos limites que a nova dieta determinava. Praticamente Mario estava liberado para comer de tudo, apenas as por��es precisavam de controle. Mas isso era quase desnecess�rio, seu min�sculo apetite sempre gerou discuss�es com a m�e.
A cozinha da velha casa adquiriu vida novamente, com a aquisi��o dos mais variados produtos e a atividade devotada de Olga no fog�o. T�o logo a primeira refei��o foi preparada, Edgar fez quest�o de levar a bandeja. Equilibrando-a com uma das m�os, abriu a porta do aposento e chamou por Mario, que tirava o cochilo da tarde. Ao mesmo tempo que ele despertava, Edgar colocou a comida sobre a c�moda, abriu as venezianas para que o sol entrasse e come�ou a arrumar as cobertas espalhadas sobre a cama.
- Como �? N�o vai acordar?
Mario espregui�ou-se e foi ajudado pelo amigo, que ajeitou os travesseiros para que ele sentasse-se na cama. Edgar fez uma pausa, antes de acrescentar em voz baixa: Veja como est� lindo o dia, pena que n�o demos o passeio no jardim hoje.
- Na realidade quem passeia � voc�. Vou que nem um rei, no seu colo.
- �. Mas as coisas v�o mudar. Est� havendo um excesso de zelo da minha parte. Voc� vai ter que se virar sozinho daqui em diante.
- Sozinho?!
- Bem, estarei a seu lado, l�gico.
- Ah, bom.
- Estava pensando que iria se livrar de mim assim, t�o facilmente? Olha s� o que sua m�e preparou para voc� - Edgar trouxe a bandeja e colocou-a cuidadosamente em seu colo.
- N�o pode ser! - Mario n�o acreditava em seus olhos - Bife � milanesa e creme de milho? Passaram por cima do meu regime!
- Pare de falar e coma. Aproveite porque o m�dico estava de bom humor e decidiu liberar tudo, mas em pequenas por��es. Sem exageros.
Mario cortou a carne devagar e levou um peda�o � boca. Deliciou-se. Sem pressa, ele saboreou cada garfada, contente porque aquele prato agradava seu paladar imensamente. Enquanto comia, Edgar desatou a falar com toda a vivacidade:
- Sabe, estive pensando se n�o seria aconselh�vel que mudasse de quarto. Se passasse para meu apartamento, l� nos fundos, teria a cama de casal para se espalhar, os discos para ouvir na hora em que bem entendesse e sem se preocupar com o volume. Ficaria mais � vontade. Facilitaria tamb�m porque o jardim est� mais pr�ximo e dispensaria Dona Olga da obriga��o de subir e descer as escadas o dia inteiro.
- Bem que gostaria, mas minha m�e n�o vai concordar. Ela quer estar pr�xima de mim durante a noite. Tem medo que algo aconte�a, sabe como �.
- J� falei com ela a esse respeito. Se � para acomod�-lo mais confortavelmente, n�o coloca obst�culo. E, de qualquer forma, posso cham�-la num minuto em caso de emerg�ncia.
- Vai pegar mal ela saber que estamos dormindo juntos.
- N�o seja bobo! Instalarei o colchonete ao lado da cama de casal.
- N�o sei...
- Est� bem. N�o se fala mais no assunto. J� percebi que n�o quer sair do seu canto.
- N�o � bem isso. Aquele espa�o � seu. J� me apoderei de voc�, agora tamb�m da sua privacidade? Estaria sendo ego�sta demais...
- Mais essa agora? Calculo que esteja com algum parafuso solto. Estou preocupado com seu bem estar e � o que interessa no momento. O resto a gente deixa para pensar na ocasi�o em que voc� se recuperar. Estava pensando tamb�m que l� no apartamento n�o h� a inconveni�ncia do barulho da rua, o sil�ncio � maior e poder� dormir mais tranq�ilamente. Tem tido o sono agitado ultimamente.
Mario terminou o prato e perguntou em seguida:
- Tem mais?
- Est� brincando? O m�dico for�ou voc� a uma dieta severa h� meses e agora est� querendo descontar de uma vez s�? Se exagerar, acaba morrendo de indigest�o.
- Falando francamente, a morte j� est� � espreita h� algum tempo. Apesar de n�o t�-la inclu�do em meus planos...
Edgar arrependeu-se por ter usado uma express�o t�o inoportuna. Foi uma maneira de falar habitual, saiu sem querer. Mario n�o lhe deu tempo para que retrucasse:
- A prop�sito, esse neg�cio do m�dico liberar meu regime n�o est� cheirando muito bem.
- Por que? Que mal pode haver nisso?
- � sinal que o meu caso n�o tem mais salva��o. J� sinto o p� na cova.
- Est� delirando!
- Deixa o pobre coitado comer o que quiser, ele vai morrer mesmo...
Edgar retirou a bandeja bruscamente e resmungou, em tom desaprovador:
- Detesto das vezes que fala assim. Que brincadeira de mau gosto! Me aborrece profundamente.
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