| Cap�tulo 15 - Percal�o Inesperado |
| Edgar viu � sua volta que tinha muito o que fazer. Uma pilha de pedidos ao lado do telefone e a loja abarrotada com encomendas chegadas dos diversos fornecedores que negociara no interior. Al�m disso, havia uma grande quantidade de pe�as comercializadas que deveriam ser despachadas. Durante o dia ele debateu-se na �rdua tarefa de colocar tudo em ordem. Foi tal a concentra��o no trabalho que s� deu conta da aus�ncia de Mario no final da tarde, no instante em que este ligou: - O que houve? - Cheguei do col�gio com muita dor de cabe�a, tomei um analg�sico e dormi a tarde inteira. Acordei s� agora. Edgar informou-lhe que o servi�o estava no fim e que logo mais estariam juntos. Ao desligar o telefone, apressou-se em terminar apenas o necess�rio e colocou no dep�sito o restante da mercadoria. No fim, foi ao banheiro e lavou-se, jogando bastante �gua no rosto. Isso ajudaria a recuper�-lo do cansa�o. Por fim, fechou a loja e saiu. Ao chegar em casa, encontrou Olga desgostosa, seus olhos vermelhos indicavam que havia chorado. Parecia aflita e foi logo tratando de falar: - O Mario perdeu os sentidos depois que falou com voc� pelo telefone. Tentei reanim�-lo com am�nia e, t�o logo recobrou a consci�ncia, chamei o m�dico. Afinal, uma pessoa com a idade dele n�o sofre um desmaio sem alguma raz�o s�ria. - � verdade - Edgar procurou esconder sua inquieta��o - E o que ele disse? - Foi reticente, de poucas palavras, apesar da minha afli��o. N�o explicou ao certo qual teria sido a causa do desmaio, disse apenas que foi uma prov�vel queda de press�o ou um abatimento repentino, sem muita seguran�a. Edgar insistiu, colocando de lado a discri��o que lhe era peculiar: - N�o podemos ficar assim, sem uma explica��o mais detalhada. O m�dico n�o disse nada al�m disso? - N�o sei se fiquei muito abalada e imaginando coisas, mas ele me pareceu apreensivo. N�o tenho id�ia do que possa estar ocorrendo... - Ele n�o deu nenhuma instru��o? - perguntou, impaciente. Olga esfregou uma m�o na outra, num evidente nervosismo, e redarg�iu, com a voz tr�mula: - Afirmou apenas que n�o poderia fazer um diagn�stico mais preciso sem o resultado de exames preliminares. Relacionou alguns testes de laborat�rio, deu uma receita e mais nada. Acho bom providenciar tudo o quanto antes. O comportamento do m�dico n�o deixava margem para d�vidas. Estava claro que algo de grave poderia estar ocorrendo e a d�vida deveria ser esclarecida o mais depressa poss�vel. Sem tempo a perder, Edgar subiu �s pressas at� o quarto do companheiro. Encontrou-o estirado na cama, p�lido. - Ainda bem que chegou, n�o ag�entava mais de afli��o. - Por que n�o mandou sua m�e me avisar em seguida? - N�o queria incomod�-lo por causa de um simples desmaio. Foi apenas um mal s�bito, pode acontecer com qualquer um. Mas � bom que esteja aqui, agora - Mario sorriu. - Creio que n�o seja motivo de alarde, mas � bom fazer uma revis�o completa. Se voc� desmaiou, de algum modo a maquininha falhou. - L�gico. Por�m m�dico � uma ra�a gozada, j� mandou que ficasse em repouso. - Precisamos verificar direitinho como vai sua sa�de. Principalmente para deixar sua m�e mais tranq�ila - Edgar usava Olga como pretexto, mas na realidade era ele que mal controlava a apreens�o. - O m�dico quase n�o conversou comigo, preferindo passar um temp�o falando com minha m�e. Perguntei a ela e n�o obtive resposta. N�o vejo raz�o para estar t�o nervosa... - Concordo com voc�. O m�dico n�o vai se posicionar enquanto n�o forem providenciados os exames que pediu. E, com certeza, o diagn�stico n�o ser� ruim. Voc� tem uma sa�de de ferro - Edgar procurou ser cauteloso, tentando se convencer de suas pr�prias palavras. - Estou sentindo o corpo dolorido... - Quem sabe n�o seja um resfriado mais forte que o normal? Edgar mantinha-se imperturb�vel. Mas como podia acalmar o companheiro com uma desculpa qualquer se mal conseguia dominar os pr�prios receios? Era ineg�vel que o desmaio e a aus�ncia de mais informa��es por parte do m�dico significavam maus press�gios. Olga desviou-lhe os pensamentos ao entrar carregando uma bandeja. - Trouxe-lhe uma prato de sopa de legumes. - Agora estou sem apetite, deixe a� do lado. - Tem que fazer um esfor�o, n�o �, Edgar? - virou-se pedindo-lhe apoio com o olhar. - Sua m�e tem raz�o, Mario. - O que posso fazer se n�o sinto disposi��o para comer? - E inacredit�vel! N�o almo�ou porque chegou com dor de cabe�a da escola. N�o comeu um peda�o de p�o at� agora, nem sequer tocou no desjejum. N�o tem nada no est�mago! - Vamos, Mario. Est� parecendo crian�a pirracenta... De tanto insistirem, Mario acabou cedendo. Mas n�o conseguiu engolir mais do que quatro ou cinco colheradas, empurrando o prato para longe de si. Por fim, pediu que a luz fosse desligada, pois desejava dormir. Olga e Edgar desceram para a sala aborrecidos, sem saber o que fazer. Ligaram a televis�o, n�o havia nenhum programa interessante. Dificilmente conseguiriam arranjar algo que os distra�sse, suas mentes estavam voltadas unicamente para o que lhes poderia estar reservando o futuro. Edgar resolveu pegar um colchonete e roupas de cama, iria passar a noite ao lado do amigo. No dia seguinte, bem cedo, as amostras necess�rias para a bateria de exames foram colhidas e Edgar encarregou-se de levar para o laborat�rio. Iriam juntar-se ao sangue extra�do e, uma vez prontos os resultados, seriam entregues ao m�dico. No regresso, ele deparou-se com Olga na cozinha, irritada: - Edgar, me ajude, por favor. Veja se consegue fazer seu amigo mudar de id�ia. Est� l� no quarto trocando de roupa, dizendo que vai para o col�gio. Edgar subiu e encontrou Mario bem disposto: - N�o vejo raz�o para faltar as aulas. J� estou bom. Levantei, fui at� ao banheiro e desci para tomar caf�. N�o senti tontura, nem nada. - Vamos seguir as ordens do m�dico. Ele deu instru��es para permanecer na cama. Quem sabe � uma estafa por causa da viagem e necessita de repouso? - L� vem de novo com seus diagn�sticos... Sabe muito bem que iniciei a faculdade este ano, tenho muito que estudar. Por um breve momento a vista de Mario escureceu e ele foi obrigado, muito a contra gosto, a apoiar-se em Edgar. Acabou reconhecendo que n�o havia outra alternativa, o correto era aguardar mais um pouco. At� quando, era uma inc�gnita. Deitou-se e Edgar permaneceu a seu lado, decidindo de antem�o que a loja n�o seria aberta naquele dia. A conversa com o m�dico foi aguardada com uma angustiosa ansiedade. No dia marcado, Mario acompanhou a m�e at� a cl�nica, pois encontrava-se em condi��es de dispensar a visita domiciliar. Depois de um novo e minucioso exame, Mario foi dispensado pelo m�dico e procurou por Edgar na sala de espera. Sua m�e permaneceu no consult�rio. No momento em que os tr�s ficaram juntos novamente, ele foi o primeiro a perguntar: - Qual foi o diagn�stico? - N�o � nada grave. Ficou constatada apenas uma infe��o e, com o tratamento correto, a sa�de voltar� ao normal. - Est� vendo? N�o disse que n�o era nada s�rio? - Edgar mostrou-se confiante, at� mais aliviado que o pr�prio doente. - N�o sei por que essa do m�dico falar com a senhora em separado, longe de mim. Sou levado a crer firmemente de que ele esqueceu-se que sou maior de idade. - Sabe como � o Dr. Hor�cio. Sempre foi assim. N�o percebeu que voc� cresceu. Na rua, pegaram um t�xi e rumaram para casa. O interrogat�rio continuou: - Ele exp�s as causas da infe��o? - Seu organismo ficou debilitado. Logicamente, n�o poderia deixar de ser de outra maneira - Olga mostrava-se irritada - N�o se alimenta direito, dorme pouco, estuda at� tarde... Ela falava rapidamente e bastante segura de si. Amassou os envelopes dos testes para dentro da bolsa e entrou no ve�culo. Quanto a Edgar, ele sabia que tinha uma parcela de responsabilidade pela fraqueza do companheiro. Em todos os passeios que faziam n�o se preocupava muito com a alimenta��o. Sentiu o peso da consci�ncia mas permaneceu calado. Durante o percurso, Mario tocou no assunto que lhe era mais precioso naquele instante: - Quando poderei retornar � faculdade? - N�o enquanto estiver fazendo o tratamento. Pronto. Uma resposta seca e r�spida. Olga ensaiara as palavras antes de sair do consult�rio e sabia que teria de ser daquela maneira. Fez for�a para n�o desabar no meio da farsa e desfazer-se em l�grimas. - Quanto tempo pode durar o tratamento? - Cerca de dois ou tr�s meses. - Tudo isso?! Mas vou perder o ano! - A senhora tem algum motivo para supor que realmente seja necess�rio ele permanecer em casa todo esse tempo? - Edgar n�o conteve o espanto. - Voc� est� querendo colocar em d�vida as ordens do m�dico? Quem sabe mais sobre a enfermidade que meu filho enfrenta? Edgar fitou-a e nada respondeu, magoado com o tom exaltado de sua voz. O carro avan�ou no farol aberto e chegou rapidamente no endere�o indicado. Ele nunca fora tratado daquela maneira. Concluiu que Olga o considerava culpado pelo estado do filho. Ao entrarem na casa, Mario insistiu mais uma vez: - N�o estou t�o ruim assim, posso perfeitamente acompanhar as aulas! - Que inconveniente est� sendo, Mario. � melhor perder o ano do que ficar com um mal cr�nico pelo resto da vida. - Se for devagar, de carro, sem fazer esfor�o, � poss�vel que n�o seja prejudicado... No �ntimo, Mario sabia que n�o era bem assim. A ida ao m�dico trouxera de volta a dor de cabe�a e ele n�o se lamentou para evitar uma preocupa��o maior. Em casa, teve que apoiar-se em Edgar para subir as escadas que levavam ao seu aposento. Afirmou brincando que era um pretexto para tocar no amigo. Ele ajudou-o a colocar o pijama e acabou percebendo o qu�o fraco estava. Pediu-lhe um copo d'�gua. Ao regressar � cozinha, encontrou Olga debru�ada sobre a mesa com os pap�is dos exames espalhados. Lia tudo avidamente. Ao notar sua presen�a, ela tirou os �culos e virou-se em sua dire��o, dizendo: - Ele dormiu? - N�o, pediu apenas um copo d'�gua. - Desculpe minha resposta brusca no t�xi, mas foi a �nica sa�da para n�o deixar que Mario percebesse - falou sussurrando, num tom amargo. - N�o faz mal. O importante agora � que ele se recupere o mais depressa poss�vel. Espero que logo esteja em condi��es de me ajudar na loja. - N�o est� entendendo - Olga interrompeu - O estado de meu filho � grav�ssimo. N�o tem chances de cura. O que estaria querendo dizer? A princ�pio, achou que ouvira errado, mas ela continuou: - Deus queira que o m�dico esteja enganado, mas depois que ele me explicou a respeito do c�ncer no p�ncreas e a delicadeza da situa��o, me afundei na poltrona sem saber o que fazer. N�o estava preparada para uma not�cia semelhante. Edgar mal ousava crer no que ouvia. As palavras cru�is ecoaram fortemente pelo ambiente na penumbra. Foram como marteladas esmagando-lhe o c�rebro. Aturdido, ele quedou-se mudo na cadeira, como se o mundo estivesse caindo em sua cabe�a. De imediato, lembrou-se que, acima de tudo, precisava disfar�ar. Tinha que ser frio, desprovido de qualquer sentimentalismo naquele momento, lhe era vedado dar mostras de seu abalo. N�o podia manifestar sua dor, como a m�e o fazia. N�o tinha cabimento cair em prantos, embora fosse exatamente isso o que estava para ocorrer. Num esfor�o descomedido, conseguiu controlar-se, enquanto Olga n�o dava tr�gua: - Creio que passei uns quinze minutos tentando me recompor a fim de impedir que Mario notasse qualquer coisa. Pode imaginar seu filho, fruto da sua pr�pria carne, sendo tirado de voc�? - As l�grimas escorreram por sua face e ela desatou a solu�ar baixinho. Diante da cena, Edgar sentiu vontade de fugir � toda velocidade da presen�a de Olga e tamb�m ter condi��es de liberar suas emo��es. Entretanto, Mario aguardava pela �gua. Juntou as for�as que lhe restavam para falar: - A senhora precisa procurar outro m�dico, tentar uma segunda opini�o. Quem sabe n�o h� uma falha nos exames? Deve existir alguma esperan�a, n�o entregue os pontos assim t�o facilmente! Olga limpou os olhos e redarg�iu, serenamente: - Preciso muito de voc� a meu lado, Edgar. Vai me ajudar nessa luta, n�o vai? - Claro! Mas agora preciso subir para levar-lhe a �gua que pediu. - Cuidado para que ele n�o desconfie do que se passa. Edgar acenou afirmativamente, pegou um copo no arm�rio e colocou debaixo da torneira do filtro. Depois, mudou de id�ia, resoluto a preparar algo mais forte. Seus movimentos eram semelhantes aos de um aut�mato. Ouviu vozes que vinham do vizinho e reconheceu serem de crian�as. Vidas em forma��o. A fronteira entre a vida e a morte pareceu-lhe t�o t�nue, insignificante. Ao chegar no corredor, quase sufocou-se com o pr�prio pranto que subitamente aflorou. Chorou copiosamente, mas baixinho, sem fazer alarde. Enxugou as l�grimas com a palma da m�o, n�o tinha um maldito len�o que servisse de ajuda. Por fim, engoliu de volta um solu�o amargurado e prosseguiu, na esperan�a de que sua fisionomia n�o o denunciasse. Mario levantou-se e escolheu um livro na estante. Queria distrair-se com uma leitura leve, algo que ele pudesse se concentrar naquele momento. Desistiu. Voltou ofegante para a cama, a fraqueza nas articula��es dominava-o. Edgar demorava tanto com a �gua e aquela espera irritou-o. Afinal, o doente era ele. Por que tanta displic�ncia? Lembrou-se da faculdade, melanc�lico. Agora seria obrigado a ficar fechado entre aquelas quatro paredes n�o sabia por quanto tempo exatamente. Semelhante a um ladr�o que deve pagar por seus pecados na pris�o. N�o era justo. No momento em que Edgar entrou no quarto, encontrou-o tristonho. - Vamos, anime-se. Olha o que preparei - estendeu-lhe uma bandeja com suco de laranja e um sandu�che de rosbife. - Pedi a voc� apenas um copo d'�gua. N�o quero isso. - Trouxe coisa melhor e voc� recusa? Aproveita a mordomia. Mario aceitou apenas o suco e depois pegou o ma�o de cigarros na cabeceira. - O m�dico mandou suspender o fumo, ao menos por um tempo. - Mais essa agora? N�o bastava me proibir o estudo? Edgar ficou sem resposta e por um breve momento o aposento ficou envolto num penoso sil�ncio. Era dif�cil agir isento de preocupa��o. Num gesto de protesto, Mario acendeu um cigarro, deu uma forte baforada e comentou: - Veja que impasse. N�o posso ir �s aulas e fico tamb�m impedido de fazer as coisas que mais gosto. N�o posso nem descer para ouvir m�sica no seu apartamento? - Claro que pode. N�o � quest�o para ficar t�o alarmado, mas d� uma chance ao seu organismo. Permita pelo menos que o medicamento fa�a algum efeito. - Essa doen�a me assusta. Nunca senti tanto mal-estar assim antes. - Nenhuma enfermidade � apreci�vel - Edgar ponderou. - Tenho medo que seja mais s�rio do que parece. - N�o fique botando minhocas na cabe�a. Precisa reagir com otimismo, n�o deixar-se dominar por maus pensamentos. - N�o queria ser motivo de aborrecimento para voc�. - Fique tranq�ilo. Jamais conseguira me aborrecer - Edgar afagou-lhe a m�o - Basta ter paci�ncia e ser mais indulgente com voc� mesmo. Nem tudo na vida � um mar de rosas, existem pequenos contratempos tamb�m. - Que pena. Desejava que n�o fosse assim. Mas prometo que vou lutar com todas as minhas for�as para me recuperar. N�o quero v�-lo com essa cara de tristeza.. - Estou apenas apreensivo, s� isso - respondeu, de forma evasiva. - A m�quina que a gente tem aqui dentro - Mario apontou para o peito - � muito estranha. Poucos dias atr�s estava em boa forma. Fizemos aquele malabarismo para descer do chal� da D�bora, num frio miser�vel, e nem reclamei de nada. Agora, dois passos at� o banheiro s�o suficientes para ficar ofegante e necessitar de repouso. Mario fez uma pausa, amassou o cigarro quase inteiro no cinzeiro e emendou: - S� espero n�o ter que alterar demais meus projetos para o futuro, meus planos em sua companhia. Edgar nada respondeu, limitando-se apenas a acariciar suavemente suas m�os. Uma quinzena se passou e a sa�de de Mario se manteve est�vel. Com exce��o das fortes c�ibras que sentia, tudo permanecia sem altera��es. As drogas aliviavam as n�useas e fizeram cessar grande parte da dor. Edgar fazia-lhe massagem nas costas logo pela manh� e � noite, antes de dormir. Entretanto, apesar dos dotes culin�rios de Olga, ele constantemente ficava sem apetite. Era uma festa ao afirmar que estava saboreando algo que ela preparara. Quanto ao m�dico, n�o seria exagero afirmar que, em cada encontro, travava-se uma discuss�o. N�o havia possibilidade de uma interven��o cir�rgica, a doen�a encontrava-se em est�gio muito avan�ado e provavelmente se alastrara, dando origem � met�stase. Os medicamentos come�avam a perder sua efic�cia e as dosagens eram ajustadas constantemente. Olga implorava por maiores esclarecimentos, ele n�o lhe revelava detalhes, omitia-se diversas vezes. Ela sugeriu uma junta m�dica, quem sabe a moderna terap�utica tivesse uma resposta alentadora que fosse de seu desconhecimento? N�o, seria in�til, ele afirmou. Mantinha-se suficientemente atualizado, nada havia fora do seu alcance. Olga julgou que seria melhor atender � insist�ncia de Edgar e apelou para uma segunda opini�o m�dica. Novos exames cl�nicos foram solicitados, outro laborat�rio, mais exig�ncias, diferentes chapas de raio-X, horas tenebrosas de espera, ansiedade. Numa manh� chuvosa, Olga compareceu sozinha ao consult�rio, n�o havia necessidade do paciente estar presente. Apesar da situa��o grave do filho, ela n�o dava sinais de esmorecer, jamais descuidando dos afazeres dom�sticos e dos demais compromissos com a loja. De todo modo, parecia definhar dia a dia, pois a carga de sofrimento era maior do que podia suportar. Nenhuma not�cia promissora foi dada, se a doen�a tivesse sido localizada em seu est�gio inicial, as hip�teses poderiam ser mais alentadoras. Agora, lamentavelmente o c�ncer havia se alastrado aos g�nglios linf�ticos e �rg�os vitais, numa extraordin�ria cadeia de acontecimentos infelizes. Doses maci�as de subst�ncias anticancer�genas poderiam ser empregadas, no m�ximo que o organismo pudesse tolerar, mas os resultados ben�ficos seriam muito superficiais, enquanto os efeitos colaterais dilaceravam outras �reas do organismo. A reincid�ncia do mal era indiscut�vel. Em resumo, o diagn�stico anterior foi confirmado. Lucrou-se somente com um esclarecimento maior da situa��o, coisa que Dr. Hor�cio, por um envolvimento sentimentalista com a fam�lia, vacilava em oferecer. Permanecia ainda uma d�vida angustiante: Mario deveria ser submetido a tratamentos dolorosos, que apenas iriam prolongar seu padecimento, sem lhe recuperar a sa�de? Outra quest�o importante se configurava: competia aos m�dicos a responsabilidade de tal decis�o? Ou � m�e, cujas conseq��ncias nefastas lhe seriam diretamente atribu�das? Por �ltimo, n�o era mais correto permitir que Mario tomasse conhecimento de seu estado cr�tico e do �nico tratamento dispon�vel e sem chances de cura? Essa hip�tese foi totalmente descartada por Olga. Tamb�m n�o foi emitida qualquer opini�o definitiva sobre o impasse. Simplesmente, n�o se sabia o que fazer. Para tranq�ilidade de Edgar, esse assunto n�o foi discutido com ele. Como resultado, apenas uma criatura estava alheia ao drama que se desenrolava: Mario. O racioc�nio tinha certa l�gica, n�o havia raz�o em se dar conhecimento ao enfermo sobre seu estado real. Iria causar-lhe uma dor insana sem nenhum benef�cio em troca. Olga entregava-se ao desespero, expressando sua revolta, amaldi�oando seu destino, batendo no peito e perguntando que mal fizera para merecer tal castigo. O papel de Edgar era fundamental, apaziguando sua ira, sua tribula��o desmedida e consolando-a atrav�s de uma resist�ncia her�ica. Quanto a si pr�prio, restava-lhe apenas o travesseiro para desabafar. Noites seguidas ensopara-o de l�grimas, tentando aliviar sua dor num choro incontido. De dia, a cada encontro seu com Mario, tinha que reunir uma energia descomunal para n�o ceder a uma simples emo��o, por menor que ela pudesse transparecer. Sua vontade maior era tom�-lo nos bra�os, acariciar seus cabelos e derramar-se em prantos. Confrontando-se com a realidade, sua atua��o impunha um controle absoluto, a luta era sem tr�guas para esconder a frustra��o avassaladora. |