| Cap�tulo 14 - Uma Fria em Campos do Jord�o |
| Era um come�o de um outono chuvoso em S�o Paulo e isso ocorria pelo segundo ano consecutivo. Isso atrapalhava o com�rcio e as v�rias regi�es alagadas impediam viagens importantes para suprir certos produtos estrat�gicos. Na maioria das vezes, os fregueses entravam na loja atra�dos por uma pe�a sem grande valor exposta na vitrine, e sa�am com algo a mais debaixo do bra�o. E esse tipo de objeto, o chamariz, come�ava a rarear. Edgar se encontrava atarefado com a chegada das poucas encomendas que conquistara com extenuante esfor�o no instante em que, para sua surpresa, Arnaldo entrou. A simples imagem dele naquele momento causou-lhe apreens�o. "Ainda bem que estou sozinho", pensou. Mas, mesmo correndo de um canto para outro, desfazendo embalagens e levando as pe�as para as prateleiras, ele n�o conseguiu esconder o temor que sua presen�a provocava, notado pelo amigo: - N�o vim aqui para discutir com voc� novamente. Aquele assunto est� encerrado para mim, tudo bem? Edgar for�ou um sorriso, perguntou como passava e apressou-se tamb�m em dar a entender que estava muito ocupado. - Bem, eu n�o quero tomar o seu tempo. Vim aqui apenas para trazer um recado de D�bora. Ela planejou uma viagem com a turma inteira para Campos do Jord�o e gostaria que voc� fosse tamb�m. Al�m disso, quer conhecer o Mario. - Sabe que eu tenho compromisso com a loja. Como posso largar tudo? - � no feriado da P�scoa, o com�rcio inteiro fecha suas portas, sem exce��o. N�o deveria perder essa oportunidade, os pais de D�bora t�m um chal� que compensa visitar. E todos est�o impacientes em rev�-lo, faz tempo que n�o aparece. "Nem em sonhos", Edgar pensou. "Ser� que ele est� pensando que nasci ontem? Completo vinte e tr�s anos dentro de um m�s e n�o sou nenhum matuto." Era mais do que certo que, nessas alturas dos acontecimentos, o boato a seu respeito chegara aos ouvidos do grupo. Ele que n�o seria besta de se expor daquela maneira. Um passeio descompromissado corria o risco de se transformar num pesadelo, sabia perfeitamente onde poderiam chegar. Seriam capazes de submet�-lo a uma tremenda humilha��o. - Sinto muito, Arnaldo. Dessa vez n�o vai dar. Diga a eles que mudei para o Rio. - Tarde demais, j� dei com a l�ngua nos dentes. Pe�o desculpas. - Se � assim, diga que n�o posso ir e est� acabado. - Puxa, mas voc� � mesmo um osso duro de roer. Estou me esfor�ando ao m�ximo para manter nossa amizade e voc� quer destruir qualquer tentativa da minha parte. N�o leva nada em considera��o? - Estamos trilhando caminhos diferentes, voc� e eu - respondeu secamente, sem se preocupar com o que poderia ser interpretado daquela afirmativa. - Um dia precisar� de um ombro amigo e onde vai procurar? Sempre afirmou que para o bom e para o pior, estar�amos unidos. Agora vive exclusivamente em fun��o do Mario, nada mais importa. - N�o � nada disso, est� enganado - voltou atr�s, tentando disfar�ar. - N�o existe outra justificativa, Edgar. - Olha aqui, tenho coisa mais s�ria para fazer do que ficar passeando com um monte de gente que n�o tem o m�nimo de preocupa��o a n�o ser vestir-se na �ltima moda ou inventar viagens para o exterior. Sou adulto agora, tenho meu pr�prio neg�cio e coisas mais importantes para me ocupar. - Muito bem, ent�o. Se � assim que pensa a respeito do grupo, e eu fa�o parte dele, considero essas palavras dirigidas a mim tamb�m. Vou embora, mas um dia vai se arrepender. - N�o, espere - n�o era a inten��o de Edgar encerrar assim uma amizade de tantos anos - vou falar com o Mario. Se ele concordar em ir, tudo bem. Edgar precisava apenas de mais tempo para achar uma desculpa mais plaus�vel. O que ele n�o contava era com a atitude de Arnaldo: - Est� bem, ent�o. Vamos falar com ele. - Pode deixar. � noite, eu o encontro e depois te telefono. - J� est� quase na hora do com�rcio fechar. Se importa se eu te acompanhar? Estou sem fazer nada mesmo. Sem outra alternativa, Edgar foi obrigado a concordar e, no momento em que chegaram em casa, Mario foi apanhado de surpresa. Arnaldo encarregou-se de falar com toda a vivacidade: - Vai ser uma �tima ocasi�o para conhecer um pessoal muito legal. E tem bastante coisa para se fazer na cidade, n�o ter� tempo de se aborrecer. - O problema � o estudo, tem muito compromisso no col�gio, n�o �, Mario? - Edgar tentou passar-lhe uma desculpa para que desse uma recusa. - N�o, Edgar. O in�cio do ano letivo raramente atrapalha. Essa viagem � uma boa id�ia, estou curioso para conhecer o resto de seus amigos. Quem sabe n�o me far� bem um pouco de ar puro? - Tem lugar sobrando no carro de Pedro - Arnaldo apressou-se em completar - Poderemos ir todos juntos e voc� n�o ter� o que se preocupar. D�bora cuidar� de dos arranjos para a nossa perman�ncia. Tenho certeza que vai ser um fim-de-semana muito especial. O carro deslizava suave pelo asfalto. Os vest�gios da cidade estavam sendo deixados para tr�s e a natureza come�ava a se revelar em todo seu esplendor. O panorama, sem nenhuma ponta de exagero, era digna dos romances de Alexandre Dumas, nas plan�cies da Fran�a. Duas horas depois, tinha in�cio a subida da serra. Ainda que a estrada fosse estreita e com curvas acentuadas, Pedro era ex�mio no volante. A qualquer momento estariam se aproximando de Campos do Jord�o. Edgar conversava animadamente com Arnaldo, sentado ao lado de uma das janelas. Por uma fra��o de segundos passou em sua cabe�a que o casal no banco de tr�s poderia estranhar Mario, que dormia a sono solto com a cabe�a apoiada em seu ombro. Em todas as viagens que faziam juntos, o costume era o mesmo. Os movimentos do ve�culo pareciam ter um efeito narcotizante em seu organismo, sobretudo numa regi�o t�o acidentada. A casa de D�bora, escondida num bosque de pinheiros, era de uma incompar�vel beleza. Em toda a sua volta, hort�nsias ainda em flor faziam as vezes de cerca-viva e uma quantidade enorme de plantas oriundas de regi�es temperadas enfeitavam canteiros muito bem cuidados. Podia-se apreciar caminhos em pedra levando a �reas de churrasco e um pequeno est�bulo que acolhia os cavalos de ra�a da fam�lia. Edgar acordou Mario no instante em que o carro parou, enquanto o pessoal que havia chegado na frente acenava em dire��o a eles. Ajudaram a retirar as bagagens do porta-malas e entraram. Na sala, o fogo ardia na lareira, j� escurecia e o frio era intenso. Apesar da imensid�o da casa, a maior curiosidade naquele momento residia em saber como todos seriam acomodados. O grupo era numeroso, cerca de quinze jovens, Edgar calculou. Logicamente, n�o poderia haver instala��es individuais para cada um, mas a divis�o n�o seria complicada. Existiam os solteiros que poderiam ser separados por sexo e os casais que namoravam apenas mas queriam ficar juntos. De maneira imprevista, entretanto, D�bora resolveu aguardar que todos estivessem reunidos para informar que ela e Maria Leticia haviam organizado previamente a divis�o dos quartos. Era de se estranhar a disciplina exagerada imposta pela anfitri� e o ritual a que ela submetia o grupo, mas ningu�m comentou nada. E assim, um a um, todos iam sendo orientados para seus respectivos locais de pernoite. Ao chegar a vez de Edgar e Mario, novo sobressalto. Iriam ficar sozinhos num aposento. "Tudo bem, se n�o fosse eu, seria o Arnaldo escolhido para ficar com Mario, pois somos seus �nicos conhecidos no meio do pessoal" - Edgar pensou. Pegaram suas malas e seguiram pelo corredor em dire��o ao quarto indicado. Ao abrir a porta, estacaram no batente, incr�dulos. A decora��o era de bom gosto, num estilo suave que lembrava os lares suecos filmados por Ingmar Bergman. Por�m, havia apenas uma cama de casal para ser repartida entre eles. - Vai ver que n�o tinha outro lugar para instalar a gente - Mario apressou-se em falar, ao ver o semblante desencorajador de Edgar. - Ser� que est�o querendo pregar uma pe�a na gente? Talvez Arnaldo tenha comentado com D�bora a respeito de sua suspeita em rela��o a n�s. - N�o acredito. Est� apenas preocupado demais. Vamos, relaxe. - Se isso realmente sucedeu, teremos de nos preparar para o que pode vir por a�. Depois eu acerto as contas com o Arnaldo. - Voc� acha que ele seria capaz de uma coisa semelhante? - Mario reclinou-se na beirada da cama, esfregando as m�os para espantar o frio. - N�o sei, ao certo. O fato e que est�o olhando a gente de uma forma diferente, notou? - Deixe estar - Mario consolou o amigo - A gente vai tirar de letra o que quer que estejam planejando. Vamos descer? - Tem certeza de que n�o necessita de um repouso agora? Estou achando voc� um pouco p�lido. - � a altitude, logo me recomponho. Regressando � sala de estar, depararam-se com um ambiente alegre e descontra�do, pr�prio de gente que est� disposta apenas a se entreter. Alguns dan�avam ao som de David Bowie no est�reo e outros serviam-se de bebidas num bem equipado bar no canto da sala. N�o era poss�vel que estivessem tramando alguma maldade, n�o tinham a apar�ncia de pessoas decididas a causar preju�zo a dois tipos t�o cordiais e indefesos, Mario pensou. D�bora conversava com Arnaldo ao lado da lareira, enquanto cuidava para que o fogo n�o apagasse. Edgar reparou que havia uma pessoa nova no grupo. Depois veio a saber que ela se chamava Olivia e tinha problema de paralisia em ambas as pernas. Som de vozes tamb�m podiam ser ouvidos vindo da cozinha, preparavam algo para um pequeno lanche. Ao ver a tranq�ilidade em que se encontravam os presentes na sala, que ningu�m lhe dirigia olhares estranhos, Edgar concluiu que se exagerara na dose de preocupa��o. Puxou Mario para o bar. Queria uma bebida forte para espairecer. Em breve juntaram-se a eles Renato e Lenita, iniciando um papo longo e colocando as novidades em dia. Naquela noite eles n�o dormiram tarde. A viagem fora cansativa, muitos pegaram a estrada direto do trabalho e o dia seguinte prometia ser interessante. De fato, na manh� gelada, D�bora organizou um passeio a cavalo pelos lados do horto florestal e, pela primeira vez, Mario viu um cardume de trutas no rio ao longo do caminho. Por volta do meio-dia, o tempo virou. Uma forte neblina se abateu sobre eles e decidiram ent�o retornar ao chal�. Todos seguiram o cavalo de D�bora. N�o se enxergava um passo adiante do nariz e ela era a �nica que podia conduzi-los sem que se perdessem. De repente, a bela mans�o estava diante deles. A certa altura, Edgar notou a figura simp�tica de um anci�o no jardim. Ele acenou sorridente para D�bora e depois sumiu por entre os arbustos. Ap�s um farto almo�o, preparado com esmero pelos criados, o grupo se dispersou. Teve gente que quis aproveitar para fazer compras e outros acharam melhor refugiar-se do tempo feio em cima de uma cama acolhedora. Foram poucos os que resolveram permanecer na sala de estar, entre eles, Mario e Edgar, al�m de Pedro e Renato. A conversa que se seguiu foi surpreendente. Pedro perguntou de supet�o: - � verdade o que est�o dizendo de voc�s? - A respeito do que? - Edgar fez um ar de curioso. - Que s�o homossexuais. Edgar respirou fundo. Ent�o suas suspeitas tinham fundamento. Procurou responder dentro da maior displic�ncia: - Que forma educada de se abordar o assunto... - N�o brinque, Edgar. Estou falando s�rio. - E se f�ssemos, haveria algum problema? - N�o. De nossa parte, n�o. Queremos apenas preveni-los que poder� surgir alguma brincadeira de mau gosto. - Bem que pressenti algo fora do normal. Mas n�o faz mal, a gente vai contornar o problema. Est�o sendo bem camaradas, obrigado pelo aviso. - A gente � diferente deles, somos como voc�s. Edgar recordou-se do coment�rio de Arnaldo mas n�o quis mencionar nada a respeito. Ficou apenas interessado com o que se passava: - Se est�o no mesmo barco que a gente, por que continuam mantendo amizade com uma turma t�o preconceituosa? - A gente conseguiu convencer a turma de que est�vamos "curados". - E qual a finalidade de tanto sacrif�cio? Pelo visto, continuam a viver uma mentira no meio deles e isso deve ser tremendamente ma�ante. - N�o t�nhamos alternativa. O prop�sito �bvio deles era fazer um estardalha�o com a not�cia, iriam contar para os nossos pais, espalhar pelo bairro. Sabe o que isso poderia resultar? Seriamos expulsos de casa e n�o haveria ningu�m para acolher-nos. E tanto eu como o Renato estamos na faculdade, dependemos da fam�lia para sobreviver. Sem ela, nosso futuro iria por �gua abaixo. - E at� quando tencionam continuar com a farsa? - Estamos esperando apenas o t�rmino dos estudos. Falta pouco tempo e, at� l�, a gente se submete a essa chatea��o, procedendo do jeito que eles esperam que a gente proceda. Tudo pareceu triste a Mario, como se vivessem num mundo de alien�genas e eles fossem os �nicos humanos existentes. E ser aut�ntico era proibido, precisavam encenar o tempo inteiro. Viviam em guetos, foragidos, c�mplices entre si e felizes no momento em que encontravam outro igual. S� que o segredo era fundamental para continuarem existindo. N�o podiam demonstrar que eram humanos, precisavam mentir, num perverso jogo de faz-de-conta. Mas, no fundo, eram humanos e ningu�m poderia arrancar isso do cora��o deles. S� se os matassem. Um dos criados entrou na sala e Renato mudou rapidamente o assunto da conversa. Perguntados se queriam a lareira acesa, acenaram afirmativamente. Para disfar�ar, Mario come�ou a ajudar com a lenha e minutos depois come�avam a chegar os que haviam sa�do para as compras. - Fechem a porta, o calor vai embora! Exaustos, jogavam-se nas poltronas e pediam algo de beber para o empregado ocupado com a lareira. Prestativo, Mario ofereceu-se para cuidar do fogo enquanto o rapaz atendia os pedidos. Com o barulho, os que se encontravam nos quartos foram descendo um a um. Uma m�sica teve in�cio no volume m�ximo, ouvia-se risadas estridentes e mostrava-se o que se havia comprado na cidade. D�bora mandou oferecer chocolate quente acompanhado de p�ezinhos doces rec�m sa�dos do forno. Pronto. O mercado de peixes estava a todo o vapor. Como a casa recebia in�meros h�spedes, o jantar foi servido na copa, em sistema de self-service, com uma variedade de pratos � mostra num grande aparador, e cada um escolhendo o que bem lhe aprouvesse. De volta � sala, o grupo silenciou, muitos sussurravam pelos cantos. Em vista disso, surgiu um ponto de interroga��o na cabe�a de Edgar. Ter� chegado o momento de colocar-nos na berlinda? - pensou. Mas logo desfez-se a impress�o, pois Arnaldo veio puxar assunto e trouxe com ele Maria Let�cia. Novamente a m�sica agitava o ambiente e houve casais que se dispuseram a dan�ar. Para aproveitar o entusiasmo da mo�ada, sugeriu-se um jogo em que todos pudessem participar. Mais do que depressa, D�bora abaixou o volume da m�sica e pediu a aten��o dos presentes: - Pessoal, que tal fazer o jogo da verdade? Vendo que a unanimidade era total em torno da id�ia, continuou: - Podemos colocar o nome de cada um em pequenos pap�is e depois sortearemos. Quem for o escolhido ficar� sentado no centro de uma roda que ser� armada. - Cada um far� uma pergunta, que pode ser de qualquer natureza - Lenita falou - A pessoa dever� responder com a m�xima sinceridade poss�vel. - No fim, se julgarmos que ela foi realmente sincera, ganhar� um presente - agora era a vez de D�bora - Caso contr�rio, receber� um castigo a ser escolhido por n�s duas. - Qual vai ser o presente? - Arnaldo interrogou. D�bora abriu um arm�rio e tirou v�rios pacotes, devidamente embrulhados com papel de enfeite e envoltos numa fita colorida. Era um ind�cio de que o jogo fora premeditado, Mario deduziu rapidamente. Sof�s foram arrastados, cadeiras e bancos alinhados e estava formada a roda. Numa cesta arranjaram-se os pap�is com nomes escritos. D�bora escolheu um deles e leu em voz alta. Como n�o podia deixar de ser, o nome citado era o de Edgar, que imediatamente percebeu a arma��o. As cartas estavam marcadas. Ele foi intimado a sentar-se num banquinho, colocado estrategicamente no centro da roda. Sem hesitar, concordou com a determina��o, preparado para o que desse e viesse. E assim a brincadeira teve in�cio. Em primeiro lugar, quiseram saber sobre seu namoro com D�bora e porque tudo havia terminado. Ele respondeu satisfatoriamente, explicando que a decis�o da separa��o partira de ambas as partes e que agora eram bons amigos. Em seguida, foi colocado em discuss�o seu afastamento do grupo. Apesar dos argumentos apresentados, continuaram batendo na mesma tecla durante um certo tempo. Apesar do rod�zio, em que cada participante se pronunciava de acordo com suas opini�es separadas, mantinham o mesmo tema. Finalmente Edgar declarou que sua vida precisava tomar novos rumos, havia a necessidade de seu afastamento da fam�lia, todos tinham conhecimento do que ocorria dentro de sua casa. A pr�xima quest�o levantada foi a amizade com Mario. Insinuaram seu homossexualismo e Edgar negou sem pestanejar. Ele era muito mais astuto, mais �gil nas respostas, de forma a n�o sobrar tempo para que o seguinte raciocinasse em demasia. Mas sua estrat�gia acabou n�o dando resultado, pois, no final, D�bora conversou rapidamente com os tr�s integrantes de uma esp�cie de corpo de jurados que mais parecia o tribunal da inquisi��o e declarou: - Edgar, voc� fugiu das perguntas e n�o foi sincero. Por decis�o un�nime, merece o castigo - suas palavras, longe de cordiais, lembravam as de um juiz sentenciando o r�u � condena��o m�xima. N�o era � toa que estudava Direito. - Que castigo ser� o dele, pessoal? - Ter� que assistir ao resto da brincadeira vestido com roupa de mulher e batom nos l�bios! - algu�m sugeriu, imediatamente acatado por todos. Evidentemente, o esquema estava correndo de acordo com o planejamento pr�vio. Fazia parte da imensa encena��o. N�o adiantaram os protestos de Edgar, insistindo que fora verdadeiro em suas respostas. Ele havia aceitado os termos da brincadeira e agora n�o podia voltar atr�s. Com o resto dos competidores aconteceria o mesmo. Logo arranjaram um vestido velho escondido em algum canto da casa e um batom. Em poucos minutos, ele estava transformado. Com as faces rubras, e fazendo careta para os que mexiam com ele, voltou para sua cadeira e esperou pelo resto dos acontecimentos. Para confirmar ainda mais de que os dois companheiros estavam sendo submetidos a uma farsa planejada com anteced�ncia, o pr�ximo a cair na armadilha foi Mario. Chamado a sentar-se no centro da roda, ele olhou para o pobre Edgar vestido como um palha�o, ficou um tanto inibido mas obedeceu a intima��o. Sem alarde. Tudo por Edgar. Sabia que iriam fazer tro�a dele, assim como haviam se comportado com o amigo. Mas, aparentemente, era uma brincadeira sem conseq��ncias graves. As primeiras perguntas foram ing�nuas e Mario conseguiu se sair melhor do que o esperado. Mesmo as que abordavam intimidades n�o eram suficientemente audaciosas para causar-lhe nervosismo. Desembara�ado, n�o perdeu a tranq�ilidade em nenhum momento, mesmo porque n�o compartilhava da mesma amizade com os presentes, assim como sucedia com Edgar. E, como a rec�proca era verdadeira, no decorrer do interrogat�rio todos se mostravam indiferentes: - Qual sua filosofia de vida? - De que maneira gasta suas horas de folga? - Voc� contesta o movimento ecol�gico para proteger a Amaz�nia? - Tem alguma ideologia pol�tica? Edgar deu um suspiro de al�vio. Do modo como as coisas transcorriam, Mario n�o seria crucificado. Entretanto, de repente, como se combinado com anteced�ncia, as perguntas come�aram a ficar agressivas. E, � medida que eram respondidas, vinham outras piores. N�o iriam poup�-lo, como imaginara a princ�pio. Estavam sendo desleais e perversos. A ferida era aberta aos poucos: - Quais os tipos de amizade que tem atualmente? - Quantas namoradas j� teve? - Como � ser conquistado por uma garota? Ou gosta de conquistar? A partir da�, Mario passou a deter-se menos em cada r�plica, utilizando-se de evasivas e come�ando a dar sinais de que titubeava em suas palavras. Eram todos seus advers�rios e sentia no olhar de cada um que o que mais desejavam ali, naquele exato momento, era sua derrocada. No meio dos gracejos e risos abafados, procurava passar rapidamente para o seguinte e mentalmente contou quantos faltavam para se ver livre da acabrunhante experi�ncia. E tr�gua era uma coisa fora de quest�o: - Voc� sabe identificar os pontos er�ticos de uma mulher? - L�gico. - E os de um homem? - Claro que n�o! - Tem certeza? - Absoluta! - Ent�o voc� n�o � homem, pois n�o conhece seu pr�prio corpo! Todos ca�ram na gargalhada. Na sua �nsia desesperada em esconder a realidade, ca�ra em contradi��o. E a pergunta esperada e temida surgiu da boca de D�bora: - Qual o n�vel de amizade que voc� tem pelo Edgar? - Gosto de nivelar a amizade pelo grau de honestidade do indiv�duo. No caso do Edgar, ele excede a qualquer expectativa nesse sentido. Fugira da resposta e ela n�o se deu por vencida, insistindo: - O que realmente gostaria de saber � se esse seu relacionamento com Edgar n�o te leva a algum tipo de conflito. - E por que deveria? N�o havia raz�o para entregar o jogo. Mario manteve-se impass�vel. A pergunta seguinte foi feita por Maria Leticia, que fez quest�o de n�o mudar de assunto e mostrou-se ainda mais intransigente: - Que diferen�a existe entre amar uma mulher e ter esse tipo de amizade por Edgar? - Voc� n�o pode comparar uma coisa com a outra, s�o situa��es completamente distintas. Pela ordem, existe o envolvimento sentimental de um lado e a devo��o fraternal do outro. Enquanto n�o fosse dado nome aos bois, havia condi��es de salvar as apar�ncias. Mario raciocinou que poderia mandar tudo as favas, passaria a dizer o que seu cora��o determinasse, que ningu�m tinha nada a ver com sua vida. Mas, por outro lado, colocaria Edgar numa situa��o dif�cil, era praticamente o futuro de ambos que estava em jogo. E a pergunta seguinte surgiu sem compaix�o: - Um amigo pode substituir uma amante na cama? - Alberto sorriu ironicamente. - N�o tenho condi��es de responder essa pergunta porque nunca passei por esse tipo de experi�ncia. De qualquer modo, voc� poder� dar sua opini�o ao sentar-se aqui, em meu lugar. - Opa, cara! O que est� querendo insinuar? - Para ser direto e franco, o mesmo que voc�. Alberto levantou-se e logo ouviu-se um murm�rio correndo entre todos os participantes da brincadeira. Uns come�aram no "deixa pra l�" e o rapaz sentou-se novamente. D�bora interferiu: - Gente, n�o podemos deixar que o rapaz saia daqui com uma impress�o errada de n�s. O objetivo do jogo � saber da verdade acima de tudo, mas as inquiri��es devem ser feitas levando em conta o que sabemos da pessoa que est� no centro da brincadeira. Como o Mario � praticamente desconhecido da turma, n�o podemos sugerir, englobado numa pergunta, alguma peculiaridade de seu comportamento sem ter certeza do que estamos afirmando. Falei claro? D�bora foi calorosamente aplaudida, uns come�aram a assobiar e outros gritavam "ju�za gostosa!" Vendo que come�ava a reinar a balb�rdia, ela insistiu para que se calassem e o jogo recome�ou. O teor das palavras do seguinte, que era Arnaldo, foi impiedoso: - Vou desmembrar minha pergunta em tr�s partes. � poss�vel, D�bora? - V� em frente. - N�o estamos num tribunal, isso aqui � apenas uma brincadeira. Compete a voc� ser sincero ou n�o. Depois n�s julgaremos. Caso positivo, ser� recompensado. Caso negativo, receber� um castigo. Mas repito: tudo n�o passa de uma brincadeira, certo? - N�o tenho porque ser falso em qualquer afirmativa - Mario julgou que seria melhor manter-se sereno at� as �ltimas conseq��ncias. - Pois muito bem. Todos o consideram aqui um usurpador. Por favor, n�o me leve a mal. Voc� tirou de n�s um companheiro. O Edgar h� muito n�o convive no seu antigo c�rculo de amizades por sua causa. � por isso que estamos curiosos em saber que tipo de magnetismo voc� tem para faz�-lo mudar de lado assim dessa maneira. - S� posso interpretar o que diz como elogio. O Edgar d� prefer�ncia � minha companhia do que a dos presentes nesta sala, isto � um fato. Quanto � raz�o disso, s� ele poder� responder. Ou, quem sabe, voc� mesmo. Qual o motivo, ou motivos, que teria ele levado a se manter alheio em rela��o ao grupo? J� imaginou que algo de muito negativo pode existir, para que ele tenha tomado essa atitude? D�bora decidiu interferir, ao ver que seu argumento poderia alterar o rumo planejado: - Quem est� sentado no meio da roda n�o pode fazer perguntas, s� responder. Esse � o regulamento, queria apenas lembrar. Aliviado com a prote��o oferecida, Arnaldo sentiu-se fortalecido: - Pois bem, Mario. Para encerrar a minha parte, quero apenas saber porque vive provocando rea��es de ci�me em Edgar. Isso � proposital? De repente, surgiu uma voz destoante na multid�o. Era Olivia, que comentou, indignada: - N�o vejo raz�o para continuar batendo na mesma tecla. N�o v� que est� deixando o rapaz em maus len��is? Nem se sente familiarizado com a turma e j� descarregam esse monte de asneiras em cima dele... Com os olhos fuzilantes, Arnaldo redarg�iu: - � um problema que afeta a todos os presentes. Talvez n�o seja um problema, quem sabe at� possa ser uma solu��o, sei l�. Edgar achou por bem interferir: - Olha aqui, Arnaldo. Eu n�o trouxe o Mario aqui para ser importunado dessa maneira est�pida. Voc� est� encostando ele na parede sem necessidade alguma. - N�o se preocupe, Edgar. Esse roj�o posso ag�entar muito bem sozinho - Mario dava sinais de impaci�ncia. Arnaldo recuou diante da interfer�ncia de Edgar e passou a bola para Lenita, que botou mais lenha na fogueira: - Bem, ent�o, continuemos: todas as suas respostas est�o nos levando a crer que entre voc�s dois n�o existe nada de, digamos, comprometedor. Diante disso, eu pergunto por que um n�o desgruda do outro? - Ele vive na minha casa e cuida dos neg�cios de minha m�e, onde tamb�m estou presente. Somos amigos, temos os mesmos gostos, compartilhamos das mesmas opini�es. Existe algum mal nisso? - O Edgar abandonou seus amigos e voc� os seus. N�o acha isso suspeito? - N�o vou discutir a decis�o do Edgar. Quanto a mim, n�o deixei de conviver com as pessoas que conheci antes dele. - N�o est� dizendo a verdade. Por coincid�ncia, temos um conhecido em comum. Ele comentou que voc� sumiu de uns tempos para c�. Permanece no col�gio apenas durante as aulas e recusa qualquer convite que aparece. Mario fora conduzido habilmente a um beco sem sa�da. E, como um tiro de miseric�rdia, sem pestanejar, Alberto disparou: - Voc� est� apaixonado pelo seu amigo? Ficava dif�cil imaginar como pudera chegar a um semelhante n�vel de afronta. Arnaldo usara de um ardil bem planejado e com a cumplicidade de todos naquela sala. Seu objetivo era criar um clima de emo��o t�o descontrolada que Mario ver-se-ia disposto a declarar a verdade na frente deles. Embora fosse uma apela��o covarde, como recuar diante da evid�ncia que se cristalizara naquele momento? N�o havia mais como negar o que todos estavam cansados de saber. At� o mais ing�nuo j� teria percebido. A troca de olhares, o tom da voz, a rea��o existente apenas entre seres que se amam. - Mario, n�o podemos passar a noite inteira aguardando por sua resposta - D�bora, a l�der da brincadeira e anfitri�, foi a �nica a quebrar o sil�ncio que dominava a sala. Mas era poss�vel que ela fosse mais do que isso, a impiedosa autora do plano que visava desmascarar os dois amantes. Mario respirou fundo e escolheu cuidadosamente as palavras: - Realmente eu nutro um forte sentimento de amor pelo Edgar. E penso ser inteiramente correspondido - Mario dirigiu um olhar suplicante a Edgar, esperando sua aprova��o. Este retribuiu-lhe com um divertido sorriso de batom - Era isso que queriam ouvir? J� � o bastante? Mesmo sentindo-se apoiado, Mario permaneceu im�vel, devastado em seu �ntimo, exasperado e humilhado. Com exce��o dele e Edgar, o resto estava satisfeito. N�o havia d�vidas de que o plano surtira efeito, fora um �xito total. Mas, para que? Que resultado pr�tico poderiam tirar daquela confiss�o? Era deprimente. Esqueceram-se de que a Inquisi��o desaparecera com a Idade M�dia, os tempos eram outros. Enquanto o mal-estar e o sentimento de um sucesso vazio pairava no ar, D�bora levantou-se para escolher o presente entre as caixas enfeitadas. Ela parecia ser a �nica realmente satisfeita, cuja vingan�a havia sido completa. Ou quase. Ainda havia uma �ltima gota de veneno para ser destilada: - O Mario demonstrou coragem ao enfrentar est� corte marcial - todos sorriram com a express�o - Agora, como recompensa, eis aqui o seu presente. Como num dia de entrega de medalhas, ela aproximou-se altaneira e entregou-lhe o pacote. - Vamos, por favor, abra. Mario puxou a fita colorida pelo la�o e depois foi rasgando o papel. Um "baby-doll" cor-de-rosa surgiu diante dele. Todos viram. Todos sorriram. Grossas l�grimas de �dio foram inevit�veis e escorreram abruptamente por sua face antes que Edgar tivesse tempo de aproximar-se para escolt�-lo e tir�-lo dali o quanto antes. Arnaldo ainda puxou-o pela manga da camisa e acrescentou: - Foi apenas uma brincadeira. N�o devem levar t�o a s�rio. - Voc�s passaram dos limites. Deixe a gente em paz pelo menos agora. Foram palavras firmes e �speras, farto com tanta crueldade. Edgar arrancou o vestido de seu corpo, usou-o para limpar o batom em seus l�bios e, ao lado de Mario, subiram as escadas em sil�ncio, na dire��o do aposento. A viagem acabou redundando num ac�mulo de dissabores e desenganos. Tinham vontade de arrumar as malas e cair fora o quanto antes. Mario trancou a porta para que n�o fossem incomodados mais ainda e acrescentou, com ar de insatisfa��o: - N�o via outra alternativa, tive que abrir o jogo. Acha que agi errado? - Claro que n�o. No seu lugar, faria o mesmo. S� tenho receio de que nossa rotina possa mudar drasticamente. - Por que? - E se falarem para minha fam�lia? E se fornecerem at� o nosso endere�o? N�o teremos outro rem�dio sen�o assumir o nosso caso de uma vez. E, como n�o conto de forma alguma com a compreens�o de sua m�e, terei que arranjar outro lugar para morar e trabalhar. - Irei junto com voc�. - Por outro lado, estou torcendo para que reconhe�am que fomos humilhados demais. Talvez se arrependam da palha�ada e a gente siga o exemplo do Pedro e o Renato, que disfar�am dizendo que n�o existe mais nada entre eles. Assim, podemos manter as apar�ncias at� arranjar uma forma mais adequada de se ver livre desse pessoal de uma vez por todas. - Isso � que n�o. Eu n�o me sujeito mais a me envolver com gente t�o venenosa apenas para colocar panos quentes. Especialmente o Arnaldo. Ele foi um Judas Escariotes, um traidor da pior esp�cie. - Est� a� uma boa id�ia. Vamos sair daqui de uma tal forma que ningu�m nos veja e nunca mais falaremos com ningu�m. � uma demonstra��o aberta do quanto estamos ofendidos. - N�o podemos partir hoje. J� est� tarde e n�o tem mais �nibus - Mario ponderou. - N�o faz mal. A gente arranja um canto qualquer para passar a noite. N�o ag�ento ficar debaixo do mesmo teto que esses patetas nem por mais um minuto. - O problema que, pelo barulho, ainda continuam na sala. Est�o precisamente no caminho da sa�da e v�o tentar nos impedir. Vai ser mais chato ainda. - Poderemos pular a janela e permitir que eles pensem que ainda estamos aqui dentro. E foi o que fizeram. A empreitada n�o foi dif�cil, pois bem abaixo da janela do quarto localizava-se o telhado da varanda e eles tiveram condi��es de escorregar sem fazer barulho, de maneira a n�o serem ouvidos pelo grupo na sala. N�o sem surpresa, deram de cara no jardim com o velho que havia cumprimentado D�bora no regresso do passeio a cavalo. Ele apressou-se em falar: - Eu vi o que aconteceu com voc�s. Estava assistindo tudo daqui de fora. Onde v�o? - Sei l�. S� n�o queremos mais ficar aqui. - Ent�o vamos para minha casa. Est� muito frio para ficar andando por a�.o velho por entre os arbustos que separavam as propriedades e foram conduzidos a um pequeno chal� numa encosta da montanha. O velho mandou que sentassem num sof� da sala, ofereceu-lhe uma bebida e desatou a falar: - Deu para perceber que voc�s passaram maus momentos naquela casa. N�o quero que pensem que sou bisbilhoteiro. Fiquei � espreita apenas para saber qual era a divers�o dessa turma de jovens e nunca vi tanta maldade em toda minha vida. Que importa o que fa�am entre quatro paredes? Quem eles julgam ser para trat�-los dessa maneira, como criminosos? - Ent�o o senhor aceita nosso modo de ser? - Edgar tomou um gole da bebida, um vinho que lhe desceu suavemente pela garganta abaixo. - Ningu�m tem que se meter com a vida dos outros. Ningu�m � santo para exigir um determinado tipo de conduta que lhes seja mais aconselh�vel. Com toda a certeza a D�bora abusou de sua posi��o de dona da propriedade. N�o sei como justificar sua atitude, sempre me pareceu uma mo�a de boas qualidades. E quanto aquele rapaz que n�o deu tr�gua a voc�, n�o sei o nome dele... - Arnaldo. - Esse Arnaldo peca pela insensatez. N�o tem car�ter. - E olha que ele sempre foi um grande amigo meu - Edgar interveio. - N�o me diga! Estou certo de que demonstrou muita falta de humanidade. Foi impiedoso... - � muito dif�cil os seres humanos aceitarem um tipo de posi��o como a nossa, Sr.... - Ora, nem sequer fomos apresentados. Meu nome � Orlando. Apertaram-se as m�os cortesmente. Por fim, o velho continuou: - O homossexualismo sempre existiu, desde que a humanidade surgiu aqui na terra. Os judeus o mencionavam j� nos primeiros livros da B�blia e em duas grandes civiliza��es ele era aceito como um fato corriqueiro. Nos evangelhos n�o existe uma s� palavra de condena��o por parte de Jesus. O grande preconceito s� passou a existir nos prim�rdios do cristianismo, mas apenas depois da morte do messias. - Qual � sua profiss�o, Sr. Orlando? - Mario ficou curioso com a facilidade que o velho tinha com o idioma. - Sou historiador. Mas Campos do Jord�o para mim � uma esp�cie de retiro espiritual. Aqui junto as minhas for�as para continuar nas pesquisas. - Ao que me parece, a intelectualidade das criaturas leva-as a serem compreensivas no assunto da sexualidade. - N�o necessariamente. Tem gente modesta que encara tudo de uma forma muito inteligente, sem raz�o para tanta dramaticidade. No entanto, veja os seus amigos, uma classe privilegiada, com f�cil acesso aos estudos, e se derramam numa torrente de censuras. - O Sr. n�o acha que tamb�m tem a ver com a nossa latinidade? Os anglo-sax�os reagem de forma diferente... - Sou obrigado a discordar de voc� novamente. Os homossexuais do primeiro mundo souberam lutar com mais garra por seus direitos. Por isso, as leis deles s�o menos severas com rela��o � sua posi��o sexual. N�o � uma quest�o de usos e costumes, l� eles foram mais pr�ticos. Veja a Holanda, por exemplo. Um dos pa�ses mais liberais que existe e tamb�m com o maior problema de explos�o demogr�fica. Tudo � muito conveniente, pois os homossexuais n�o se reproduzem, certo? - Gostei de sua coloca��o... - Mario entusiasmou-se com Orlando. Era a primeira vez durante a viagem em que realmente sentia-se confort�vel. - Em contrapartida, sabiam que na comitiva de Dom Jo�o VI, em sua vinda para o Brasil no s�culo XIX, havia homossexuais? - Como conseguiu levantar essa informa��o? - Bem, ainda n�o est� confirmada a hist�ria, mas, ao que tudo indica, nela existem bases para ser comprovada sua veracidade. O fato � que, em 1807 aportava no Rio de Janeiro a esquadra que compunha a corte de Dom Jo�o VI, e, entre os milhares de fidalgos, vieram dois jovens. Maur�cio e Miguel, seus nomes de batismo. Nada se sabe a respeito de seus antecedentes e nem foi confirmada a homossexualidade deles... - Ent�o, como pode ser? - Bem, o que se pesquisa s�o os detalhes interessantes pelos quais se destacaram em sua perman�ncia no Brasil. A prop�sito, eles jamais retornaram a Portugal. E tamb�m n�o fixaram resid�ncia no Rio. Vieram direto para Pindamonhangaba, aqui no p� da serra, na �poca, uma pr�spera vila. Se estabeleceram numa gleba de terra enorme, construindo um grande casar�o onde passaram a morar e dedicaram-se ao com�rcio de secos e molhados, pois a regi�o estava no caminho dos grandes exploradores de ouro e desbravadores do sert�o mineiro. - Mas quais s�o os ind�cios que levou-o a crer que eram homossexuais? - Colhendo informa��es com os habitantes da �rea, e a� refiro-me principalmente a meu av�, vizinho da antiga propriedade dos dois portugueses, somente pod�amos chegar a essa conclus�o. Sen�o, vejamos: eles tinham muito dinheiro, compraram diversos escravos e transformaram a casa, um verdadeiro pal�cio escondido na mata, num centro das aten��es de Pindamonhangaba. Da�, sabe-se que a decora��o era de um luxo que dava inveja a qualquer mortal que ali pusesse os olhos. Pesados m�veis de jacarand�, cristais finos, casti�ais de prata, jarras de rica porcelana chinesa. E Maur�cio e Miguel, vivendo sozinhos nessa mans�o, eram de um asseio que levava �s raias do exagero. Possu�am um c�modo para banhos, raridade na �poca, com banheira de bronze e a utilizavam todos os dias. Vestiam-se tamb�m com esmero, abusando dos brocados, da seda importada e do veludo. E n�o dispensavam adere�os em ouro e pedras preciosas, grandes chap�us de abas largas enfeitados com penas de pav�o e sapatos � moda de Luiz XV. Para completar, nunca tiveram nem mulher ou filhos. - Mas, o Sr. tem motivo para supor que as apar�ncias s�o suficientes para decidir sobre sua sexualidade? - Calma. Ainda n�o terminei. O relatado at� agora foi obtido na incipiente literatura e hist�rias que s�o passadas de pai para filho entre as grandes fam�lias da �poca, que faziam parte do c�rculo de amizade dos dois portugueses. Entretanto, descendo a serra a cerca de quarenta anos atr�s, ocasi�o em que fazia minha p�s-gradua��o, travei conhecimento com numerosas pessoas que, por sua vez, me puseram em contato com filhos de escravos cujos senhores eram Maur�cio e Miguel. Muito simploriamente eles me disseram sobre a grande cama de casal que era usada, com dossel todo franjado; sobre as grandes brigas que eram travadas, sobretudo logo ap�s ao encerramento de alguma festa dada no casar�o; sobre as insistentes demonstra��es de afeto que tinham de um para com o outro; sobre o longo pranto derramado por Miguel sobre o t�mulo de Maur�cio, na ocasi�o em que este veio a falecer. - Realmente deram na vista - Edgar reconheceu. - E em que �poca, hem? - Mario completou. - Portanto, voc�s n�o s�o os �nicos e nem foram os primeiros. Da�, n�o precisam ficar se martirizando � toa. Esque�am o incidente de hoje, lembrem-se que t�m um amigo em Campos do Jord�o e v�o dormir sossegados. Amanh� os levarei at� � rodovi�ria. - Por favor, Sr. Orlando, gostaria que fosse bem cedo. Para n�o correr o risco de encontrar qualquer um daquela casa. Nem os empregados. Edgar e Mario acompanharam Orlando, que os conduziu a um aconchegante aposento do chal� e onde tiveram condi��es de dormir sossegados e abra�ados um ao outro. A temperatura ca�ra ainda mais. Na manh� seguinte, conseguiram sair sem que ningu�m da casa vizinha notasse e embarcaram no primeiro �nibus para S�o Paulo, n�o sem antes despedirem-se carinhosamente de Orlando e agradecerem a acolhida. A volta foi mais lenta do que o normal, a estrada na serra n�o permitia que o ve�culo desenvolvesse uma velocidade maior do que quarenta km por hora. Na sa�da, inclinaram as poltronas ao m�ximo e se acomodaram da melhor forma poss�vel. Tinham cerca de quatro horas de rodovia pela frente. Em compensa��o, a viagem seria tranq�ila. N�o havia muitos passageiros e o sol da manh� transmitia uma suave sensa��o de tranq�ilidade. Durante o percurso, seus raios invadiam o horizonte, os galhos dos pinheiros, as planta��es � beira da estrada, os barrancos. A cada curva ele estava de um lado. No asfalto, podia-se ainda observar o molhado do sereno da manh�. Mario percebeu que Edgar entregara-se ao sono. Ele n�o conseguia dormir. Estava desanimado. Espreitou o cen�rio que se descortinava de forma magn�fica novamente. Aqui e ali eram avistadas pequenas casas de pau-a-pique, comuns na regi�o. Juntamente com seus trabalhadores, suas mulheres, suas crian�as, eram deixadas rapidamente para tr�s. Tentou identificar a causa da repentina mudan�a de humor, mas sem sucesso. N�o conseguia compreender a raz�o de sua tristeza. O epis�dio ocorrido em Campos era insignificante, a amizade de Orlando chegara num momento prop�cio, a tempo de corrigir a situa��o. Sem ela, a viagem teria resultado numa cat�strofe sem tamanho. Ele tinha v�rios motivos para ser feliz, tudo corria �s mil maravilhas no col�gio e em casa; vivia com uma pessoa ao lado que lhe queria bem e j� dera provas disso. E o mais importante: conquistara a plena aceita��o de si mesmo. Agora sabia que n�o havia porque sufocar os sentimentos, ele n�o era culpado por seu homossexualismo. Ningu�m era. A palavra culpa desaparecera de sua exist�ncia. Obviamente, seu relacionamento n�o se encaixava no contexto estabelecido pela sociedade, e isso era amea�ador para os que o rodeavam. Embora seu caminho fosse solit�rio, era correto para si pr�prio, e nada mais importava al�m disso. O que os outros pensavam deveria ser relegado a um segundo plano, o mais importante era tirar o m�ximo proveito daquela fase de sua vida. Afinal, n�o se acha um algu�m para si em cada esquina todos os dias. Todavia, seus pensamentos eram conflitantes: em nome de seu amor iria afastar quem o considerasse obsceno, e isso inclu�a a m�e, os parentes, amigos, toda a sociedade. Mas a sociedade n�o poderia ser descartada assim t�o facilmente, o ser humano � essencialmente soci�vel. Seria uma maneira muito fr�vola de agir, caso almejasse tal ideal. Reconhecia que o condenavam a todos os fogos do inferno, mas n�o havia como separar-se do mundo. Tornar-se-ia um eremita? De forma alguma. Era preciso achar um rem�dio infal�vel que trouxesse al�vio imediato. - Falta muito para chegar? - Edgar acordara. - N�o chegamos nem na metade do caminho... - Gozado, pensei ter dormido uma eternidade... Por que essa cara t�o s�ria assim? Algo o preocupa? - Pensava em n�s dois. O que suceder� daqui para frente? - Uma coisa posso assegurar-lhe e espero que voc� concorde comigo: estamos juntos e nada poder� acontecer de t�o grave que possa separar-nos. - J� imaginou se nossa fam�lia descobrir? A press�o ser� muito forte... - Tem medo de n�o resistir? - N�o foi isso que eu disse. - Por que se aborrecer pensando nessas coisas? N�o ficou combinado ontem que, em �ltimo caso, seguiremos nossa rotina separados do resto? - E como vamos sobreviver? Pensa que ser� f�cil cair no mundo de um dia para o outro? N�o acho nada rom�ntico ir morar debaixo da ponte e pedir resto de comida de casa em casa para matar a fome... - Est� sendo dram�tico ao extremo. A prop�sito, n�o havia me revelado ainda esse seu lado covarde. - Eu?! Covarde?! - Mario indignou-se - Tive muito peito para assumir tudo na frente dos seus amigos, algo que voc� recuou. Inventou essa viagem, me colocou naquela fria e agora me chama de covarde?! - Falei s� para provocar. Queria que voc� desabafasse um pouco. Agora est� melhor? - Edgar esbo�ou um sorriso. - Quantos anos tem? - Vinte e quatro. Por que? - As vezes d� a impress�o que � insens�vel com o que est� ocorrendo em torno de n�s. � poss�vel que seja caracter�stico da idade. - Engana-se. � justamente por agir dessa maneira que talvez reste uma esperan�a de que tudo de certo. Se ningu�m abrir a boca as coisas continuar�o como est�o. - � exatamente o que esta me deixando apreensivo. - Vamos deixar para pensar nisso amanh� - Edgar abriu uma fresta na janela. A serra ficara para tr�s e o calor da plan�cie j� se fazia sentir. - Mesmo que ningu�m comente nada, minha m�e n�o � t�o boba assim. Com o tempo ela estranhar� a aus�ncia de namoradas, come�ar� a perguntar por que n�o me caso, reclamar� por netos e coisas assim. - Ela vai ter que aceitar um dia. - Caso tomasse conhecimento da realidade, seria muito triste para ela. Pior: expulsaria voc� de casa e eu seria obrigado a abandon�-la. - J� falei para n�o ficar martelando essas coisas na cabe�a. As barreiras sempre v�o existir e haveremos de resistir ao esquema. Pode crer. Depois do pequeno desabafo com Edgar, Mario reconheceu que era mesmo tolice se martirizar com suposi��es apenas. O companheiro transmitia uma energia imensa, capaz de fazer o drama pelo qual atravessava diminuir a intensidade. Mario sentia-se protegido, a presen�a de Edgar ao seu lado era motivo de enorme satisfa��o. Ele realmente era afortunado por encontrar algu�m que o completasse assim. Entretanto, o que mais o intrigava era o fato de n�o poder gritar isso para o mundo inteiro tomar conhecimento. At� aquele momento, a experi�ncia ensinava que o mais correto era ficar calado. O tempo inteiro. Quieto. Discreto. Com a boca amorda�ada e as m�os atadas, n�o importa o quanto isso lhe fosse penoso. Pensou nas conseq��ncias de um ato descuidado e concluiu que era bom n�o desdenhar do mundo. |