| Cap�tulo 13 - Carnaval na Fazenda |
| Semana vai, semana vem, a temporada chegou em S�o Paulo. Poucas pessoas entravam na loja e os clientes ass�duos haviam sumido, dada as f�rias escolares. Todo mundo viajava para a praia. O tr�nsito n�o era t�o tumultuado e a cidade ficava imersa num raro sossego. O caminho entre a loja e a casa, apesar de pequeno, tornou-se mais f�cil de ser percorrido. Edgar tornou-se mais consciente de suas responsabilidades e mudou at� a apar�ncia. Assumiu uma maturidade precoce, talvez pelo fato de estar cuidando sozinho dos neg�cios e tamb�m pela fase de estabilidade emocional que atravessava. E tornou-se mais vaidoso tamb�m. Preocupava-se com o que vestir todos os dias, cuidava do cabelo freq�entemente e passou a usar uma col�nia de aroma bem suave. Mario notou a transforma��o mas n�o comentou nada, satisfeito porque o esfor�o real�ava o que o companheiro tinha de atraente. N�o se preocupava tamb�m com as investidas de algumas mulheres mais atrevidas, que muitas vezes chegavam e n�o tinham pudor em se declarar abertamente. Eram vizinhas da loja, clientes e at� colegas de seu col�gio. N�o se importava, confiante de que Edgar pertencia s� a ele. Em contrapartida, Mario era dotado de uma capacidade de envolvimento t�o grande, que fazia Edgar nem perceber o que acontecia ao seu redor. E, dessa maneira, os �ltimos acontecimentos n�o serviram de li��o, tudo continuava como antes. Mario dividia-se entre a loja e o apartamento apenas. Um dia, ocupado em escolher algum livro para ler na estante da sala, o telefone tocou. Era sua m�e: - Alo, Mario? - Oi, m�e! Como vai? - Estou bem, embora preocupada. J� tentei varias vezes ligar para voc� e o telefone n�o atende. O que houve? Onde tem andado? O telefone! N�o havia extens�o nos fundos! E ele ficava a maior parte do tempo na companhia de Edgar! Precisava inventar uma desculpa: - O Edgar est� fechando a loja mais tarde. E eu tenho ficado l�, ajudando-o. - Mas ontem liguei �s onze horas da noite... - � que sa�mos para jantar fora. - Se o Edgar acha que a loja deve ficar aberta at� tarde � porque tem movimento e est� entrando um bom dinheiro... Era preciso pensar r�pido: - N�o � bem isso. O movimento est� fraco, na realidade. O Edgar tem motivo para supor que, ficando aberto at� depois do expediente, consegue atrair as pessoas que saem do servi�o. - Tem dado resultado? - N�o muito... - Ent�o diga para ele n�o se preocupar, o com�rcio nunca foi bom nessa �poca. - Est� bem. Quando a senhora regressa? - Pretendo ficar mais um tempo por aqui, por�m estou com saudades. O que acha de vir passar o carnaval com sua m�e? - Boa id�ia. - em hip�tese alguma deixaria transparecer seu aborrecimento com a id�ia de separar-se do companheiro, mesmo por poucos dias - O Edgar pode tomar conta de tudo. - N�o vejo necessidade disso. Ele pode fechar a loja nesse per�odo e acompanhar voc�. Tia Ana deseja aproveitar o carnaval e visitar a fazenda do Teodoro, irm�o dela. Afirmou que a propriedade � enorme e tem espa�o de sobra para todos. Edgar teve a impress�o que jamais iria encontrar Mario no meio daquele mar de gente. A rodovi�ria estava apinhada, todo mundo parecia abandonar a cidade ao mesmo tempo. Tinha certeza que o lugar marcado era aquele e, quase sufocado com o tumulto e a desordem, n�o conseguia avist�-lo. Foi uma ingenuidade pensar que o embarque seria mais tranq�ilo se escolhessem um hor�rio no per�odo da tarde. A cidade inteira devia ter conclu�do a mesma coisa. Em vista dessa decis�o, haviam se separado. Enquanto Mario cuidava da compra das passagens, Edgar permaneceria a maior parte do tempo poss�vel na loja, somente fechando-a no �ltimo minuto. E para piorar a situa��o, haviam sido surpreendidos com uma encomenda de Olga no dia anterior, ela fizera alguns pedidos de compras que foram efetuadas na parte da manh�. Finalmente se encontraram. Mario parecia n�o se importar com a grande quantidade de bagagem que carregava e falava sem parar. Com muito esfor�o se dirigiram ao port�o de embarque e embarcaram no �nibus. Minutos depois, o ve�culo dava a partida e se punha a caminho. Confortavelmente instalados, n�o tardou para que ambos adormecessem, embalados pelo suave balan�ar do Mercedes Benz. J� era noite no instante que desceram na rodovi�ria de Bauru. Olga aguardava-os ansiosa e j� acenava de longe. Ao beijar o filho, comentou, complacente: - Anda se esfor�ando demais? Est� com olheiras... - � a viagem muito longa, n�o dormi direito. Depois da retirada das malas, ela levou-os para o ponto de t�xi, mal conseguindo se conter para dar a not�cia: - Adivinhem que est� na primeira p�gina do notici�rio... - N�o tenho a m�nima id�ia, m�e. - Nem eu - Edgar completou. - O Alfredo. Olhem - Olga abriu a bolsa e retirou um recorte de jornal com sua foto. Mostrava-o da cintura para cima e a impress�o era bem n�tida. Notava-se facilmente sua barba por fazer, as roupas em desalinho e as algemas em seus pulsos. - A pol�cia conseguiu pegar o patife! - Exato. A reportagem conta tudo. Todos os golpes que aplicou, a fuga da pris�o e, pasmem, ele tem mulher e quatro filhos. O t�xi deixou-os na frente da casa de Ana que, ouvindo o barulho, veio logo atender a porta. Era uma senhora simp�tica, com v�rios quilos a mais atrapalhando sua silhueta e tinha o cabelo tingido de castanho claro, numa tentativa de disfar�ar a idade avan�ada. Envergava um vestido leve dado o calor e deu um abra�o apertado em Mario. Vira-o apenas uma �nica vez, quando pequeno. - Voc� ainda usava fraldas, era um pirralho. Olha s� o homem que virou! Mario sentiu as faces ruborizarem com o exagero do afeto. Tratou de ir logo apresentando Edgar e, em seguida, entraram. No dia seguinte, bem cedo, Jo�o Ot�vio, filho mais velho de Ana, chegou com uma perua Chevrolet e acomodou todos os que tinham como destino a fazenda de Teodoro. Logo atr�s, num autom�vel menor, vinha L�dia, sua esposa, e os filhos. Rapidamente os ve�culos avan�aram pelas ruas da cidade at� entrar numa rodovia de grande movimento. Alguns quil�metros ap�s, tomaram um atalho de terra que em poucos segundos foi o motivo para todos pagarem seus pecados. Aos solavancos, Jo�o Ot�vio procurava escolher os trechos mais transit�veis. Os passageiros faziam o poss�vel para se acomodar da melhor forma e se seguravam, para n�o irem uns em cima dos outros. O carro da esposa ficou bem atr�s, evitando assim a poeira que se formava. Apesar do desconforto, o cen�rio que se descortinava da janela do carro era deslumbrante. Extensas pastagens de um lado, grande �reas de cultivo do outro. Transpuseram uma ponte sobre um rio cujas �guas tranq�ilas corriam sobre pedras e onde os animais descansavam em suas margens. Apesar da paisagem campestre, de extraordin�ria beleza, a estrada era um verdadeiro sacrif�cio e a viagem parecia intermin�vel. Sobretudo na medida em que cruzavam com outro ve�culo vindo em dire��o oposta, quando a poeira invadia todos os cantos do carro. Olga perguntou duas vezes se n�o estavam chegando e sempre recebia como resposta: falta mais um pouquinho. Mario j� imaginava se todo aquele esfor�o n�o teria sido em v�o ao avistar a porteira com o nome da fazenda numa tabuleta. Cobertos de p� e suor, foi com al�vio que os passageiros desceram dos carros no terreiro da casa-sede. Num amplo terra�o, que circundava a constru��o, encontraram o resto da fam�lia. Todos se cumprimentaram, Edgar e Mario ficaram conhecendo Teodoro, a mulher, os filhos, mais dois ou tr�s casais e S�rgio. Esse �ltimo despertou-lhes a aten��o em especial. Seriam capazes de apostar que estavam diante de um rapaz com uma grave crise de identidade. Sua beleza era tal que fazia-o parecido a uma mo�a. Sua pele, muito suave e branca, dava a impress�o que nunca havia sido exposta ao sol. Tinha os gestos delicados e mostrou ser espantosamente t�mido. Enquanto todos riam e contavam novidades, ele permaneceu pr�ximo a uma mureta, olhando para o nada. Eugenia, mulher de Teodoro, j� aguardava os parentes e preparara as acomoda��es. Olga ficou num aposento com Ana. A Edgar e Mario foi indicado um outro com mais tr�s rapazes, um deles, S�rgio. A casa era enorme, contando com sete dormit�rios, mas a quantidade de gente parecia ultrapassar qualquer expectativa. Os quartos, todos localizados no segundo andar, proporcionavam um bela vista de suas janelas, que davam para a vastid�o dos pastos e das planta��es. Descendo as escadas, tinha-se acesso a um imenso sal�o dividido em dois ambientes, a sala de estar e a de jantar. De um lado havia ainda o escrit�rio e a porta que dava para o terra�o e, do outro, a cozinha e demais depend�ncias. Os visitantes rec�m-chegados em breve desapareceram nos quartos, �vidos por um banho. Horas mais tarde, alguns se encontraram no terra�o, j� recuperados da estafante viagem. Eugenia deu ordens para que as empregadas servissem um suco gelado acompanhado de petiscos e Mario foi o primeiro a ser atendido. Com a fome que estava, nem se preocupou em dar uma gulosa mordida no sandu�che que escolhera. Achou-o muito saboroso e perguntou do que se tratava, pois n�o conseguiu identificar pelo paladar. Tratava-se de queijo de cabra com rosbife, lhe disseram. O calor do final da tarde era atenuado por uma leve brisa que vinha das janelas abertas e Ana aproveitou para convidar Olga a acompanh�-la, puxando-a pelo bra�o. Desceram a escadinha lateral da casa, indo sentar-se num banco de concreto do jardim, e puseram-se a conversar. O lugar, muito apraz�vel, tinha um bem cuidado gramado em meio a �rvores frondosas que podiam proteger naturalmente do sol escaldante. Mario, vendo-se sozinho no meio de numerosas pessoas estranhas, pois Edgar ainda tirava um cochilo, foi ao encontro da m�e. - Estou atrapalhando o papo? - N�o, meu querido. Sente-se aqui - Ana afastou-se para dar-lhe lugar no banco. Mario percebeu que realmente havia interrompido algo s�rio pois, ap�s sua chegada, o assunto da conversa transformou-se em amenidades. Ana interrogou-lhe a respeito dos estudos, deu alguns conselhos caracter�sticos de quem j� tivera uma longa experi�ncia de vida, houve uma pausa e depois alterou radicalmente o rumo: - Estava dizendo � sua m�e, e espero que voc� n�o me considere indiscreta, que tem certas coisas que me desnorteiam totalmente. - O que �? - N�o sei se estou ficando velha, mas n�o me conformo com essa invers�o de valores. O Euz�bio, que foi apresentado a voc� e � seu primo em segundo grau, trouxe a esposa e mais os quatro filhos. Al�m deles, pasme, veio com a amante tamb�m. Armando fez um ar de curioso, meio incr�dulo. - A fulana est� aqui com ele, bem no seio sagrado da fam�lia. D� para acreditar? N�o sei como pode existir criaturas com tanto atrevimento assim. - Devo presumir que lhe falte um pouco de vergonha na cara - Olga completou. - E tem algum cabimento a desculpa que ele deu? Comentou que tinha um trabalho urgente para ser entregue ap�s o carnaval e, para ajud�-lo, trouxe a secret�ria! N�o � muito desaforo? Todo mundo est� cansado de saber da rela��o dos dois. Quer fazer sem-vergonhice, que fa�a l� fora, n�o diante dos nossos narizes, ora essa! - Tia Ana, voc� tem certeza do que est� falando? - Mario mostrou-se apreensivo, apesar de n�o conhec�-la bem. - Tampam o sol com a peneira, acham que passam despercebidos, creio. Mas a �nica por fora dessa hist�ria � a v�tima, a pobre da esposa. Ela inspira compaix�o, uma mulher dedicada, que cuida da casa que nem uma escrava. E ainda tem os filhos. Ah, se n�o fosse as crian�as, eu interferia. Juro que contava-lhe tudo! Nesse instante, Eugenia juntou-se ao trio: - Gostaram da viagem? - Um pouco cansativa, mas � bonito o lugar - Olga redarg�iu. - Enquanto n�o asfaltarem essa estrada, vai continuar sendo uma aventura chegar aqui. Muitas vezes ficamos ilhados durante a �poca das chuvas. - Eugenia - Ana puxou-a pelo bra�o e indagou, em voz mais baixa - quem � aquela mulher que est� ao lado do Jo�o Ot�vio? - N�o se lembra dela, Ana? � a Adelaide, m�e da Rosa. - N�o me diga! - Ana levantou as m�os e exclamou, com ar de assombro - Como envelheceu... - Tamb�m, n�o era para menos... Pronto, a bisbilhotice j� vai come�ar, Mario pensou, sorrindo consigo. - Por que? - Olga inquiriu. Eugenia acomodou-se numa beirada do banco e contou a hist�ria: - A Rosa, sua filha, suicidou-se. Foi uma trag�dia para ela e o marido, que veio a falecer um ano depois. Ele proibira o casamento dela com um homem por quem a pobre mo�a se apaixonara apenas por que ele era preto. Um ti��o, a bem da verdade. O jovem casal tomou formicida, num pacto de amor. - Que horror! - Olga espantou-se com a hist�ria - Como algu�m pode julgar uma pessoa pela cor da pele? - Eu conhecia o rapaz - Ana comentou - n�o era t�o preto. A Eugenia est� exagerando. Mas era uma boa criatura. - Sabe esses negros de alma branca? - Eugenia arrematou, olhando para Olga - Era um amor de crioulo, sabia seu lugar. - Mas por que ser� que ele tinha que se enamorar justamente pela filha da Adelaide? Eu n�o sei n�o, mas n�o acham que abusou da confian�a do patr�o? - Ele trabalhava para o marido da Adelaide - Eugenia deu a conhecer - Fiquei sabendo que era um excelente funcion�rio. Muito asseado, lavava-se todos os dias. Mario fez um esfor�o para n�o rir. Diante do racismo velado, por um instante pensou estar no Alabama. Pouco depois, Edgar deu os ares de sua presen�a trajando uma camisa amarrotada e com os cabelos em desalinho. Tinha uma apar�ncia pouco refinada e os olhos inchados de tanto dormir. Eugenia mandou servir mais uma rodada de refrescos, afastando-se em seguida para dar aten��o a outro grupo que sentara-se nas cadeiras de vime. Era uma excelente anfitri�. A noite mostrava-se bastante apraz�vel, apesar do calor. O jantar foi impec�vel e n�o tardaram a distribuir-se em grupos. Uns ficaram jogando baralho, outros assistindo um filme na televis�o e, por �ltimo, havia aqueles que preferiram ir para o terra�o jogar conversa fora. De onde estava, Edgar pode notar que Ana, num papo com a sobrinha, apontou discretamente para a dire��o de S�rgio e comentou qualquer coisa que ele n�o conseguiu ouvir. Despertou-lhe a curiosidade, entretanto, quando algu�m insistiu com S�rgio para que pegasse uma dose de bebida e ele recusou energicamente. Do outro lado da sala, Teodoro manipulava as cartas de baralho e soltava altas gargalhadas que incomodavam visivelmente os que tentavam ouvir o filme. Al�m disso, o cheiro e a fuma�a de seu charuto contaminavam o ar em torno de si. N�o tardou para que uma chuva fina come�asse a cair e a brisa noturna refrescou o ambiente. Logo o aroma de mato molhado se espalhou e, pouco a pouco, os h�spedes foram se recolhendo aos quartos. Edgar deitou-se na beliche de baixo e Mario na de cima. Diante de olhares estranhos, foram amig�veis, fizeram brincadeiras, contaram piadas, de modo que ningu�m tivesse motivos para suspeitar de algo diferente entre eles. Comportaram-se da maneira mais convincente poss�vel. S�rgio, entretanto, continuou causando estranheza a ambos, e motivo n�o faltou. Mal conversou com os companheiros de quarto e esperou que as luzes se apagassem para despir-se e entrar debaixo das cobertas. Souberam apenas que era filho de Mariana, irm� de Eugenia, e ganhara uma bolsa de estudos da Faculdade de Sociologia no Rio de Janeiro. H� anos separara-se da fam�lia. Mario acordou com o sol penetrando pelas frestas da veneziana. Chamou Edgar, fez barulho, despertou todo mundo no aposento. A cama de S�rgio, no entanto, j� se encontrava vazia. Ao descerem, constataram que a maioria havia ido para a piscina. A refei��o matinal, na qual Edgar deliciou-se com queijos e compotas produzidos na pr�pria fazenda, foi servida na copa. Depois, acompanhados por outros que j� conheciam o caminho, juntaram-se ao grupo. O lugar, distante da casa cerca de uns quinhentos metros, era de estonteante beleza. Ali�s, como tudo na propriedade. Numerosas pessoas brincavam numa grande piscina de �gua muito verde e, ao lado, uma cachoeira entre duas rochas enormes. Tudo era circundado por um vasto gramado e uma s�rie de coqueiros. Edgar e Mario encontraram Olga tomando banho de sol numa espregui�adeira. Seu mai� deixava � mostra um corpo esbelto, que ainda conservava tra�os de beleza. Ana, sentada na beira da piscina, refrescava os p�s na �gua. Alguns banhavam-se na cachoeira e outros tomavam sucos e refrescos servidos por uma empregada uniformizada de branco. Embora n�o fosse ainda onze horas da manh�, aos mais ousados, ela servia batidas de lim�o, como aperitivo que antecedia o farto almo�o j� em preparo. - A senhora n�o podia ter me esperado? - Mario brincou. - Por acaso estava sozinho e abandonado? - N�o. Mas a senhora � minha m�e... - Escuta - Olga, puxou-o para que se aproximasse mais - Fiquei sabendo de mais uma fofoca. - Outra? Que fam�lia danada, hem? - Ora, Mario, essas coisas acontecem em todos os lugares. Aqui n�o � exce��o... - Vamos l�, Dona Olga, conta logo - Mario sentou-se a seu lado, no gramado. - Voc� sabe o Aguinaldo, primo da Adelaide? - Sim. - Pois �. Ele tem um filho j� no fim da adolesc�ncia. H� um ano, o rapaz engravidou a empregada que trabalhava na casa e o pai ficou sabendo de tudo. N�o � que o Aguinaldo, ao inv�s de dar a maior for�a para a mo�a e uns cascudos no filho, acabou despedindo a pobre coitada? S� que antes, ele cuidou de providenciar o aborto, pagando para que um m�dico a�ougueiro de Bauru fizesse o servi�o. - Esse mundo n�o � t�o bom como a gente imagina, n�o � verdade? Edgar e Mario notaram uma criatura andando na beira da piscina e depois trocaram os olhares, sem comentar nada para n�o chamar a aten��o de Olga. Parecia uma mo�a de costas, sem a parte superior do biqu�ni. Mas era S�rgio, caminhando como se estivesse no meio de um desfile, com o corpo ereto, imp�vido. Segundos depois, estava escondido sob um guarda-sol e besuntando �leo de bronzear no corpo magro e branquela. A empregada passou com a bandeja e ofereceu-lhe algo, que ele rejeitou educadamente. Por fim, ela aproximou-se do grupo de Edgar e aguardou que todos se servissem. Depois que se afastou, Mario deu prosseguimento ao mesmo assunto: - E a coisa n�o fica por a�. Ontem a noite, no aposento, estavam comentando a boca pequena que o Artur ganhou uma concorr�ncia de uma obra na Santa Casa de Bauru com valor superfaturado. Nem que ele multiplicasse as despesas por cem iria conseguir chegar no montante. S� com essa jogada ser� poss�vel construir uma enorme mans�o que ele j� planejou, no melhor bairro da cidade. - Isso � um absurdo! - Olga protestou. - Agora vem o pior: sabe de que maneira ele persuadiu o prefeito a autorizar essa roubalheira? - Diga. - Simples. Fez vista grossa para o caso que a esposa dele e o pr�prio prefeito est�o tendo. - O gozado � que esses podres se sucedem e nada os inibe em freq�entar a fazenda - Olga retrucou - Agem como se nada houvesse para se envergonhar. Deve ser porque pensam que ningu�m est� sabendo. Coitados, iludem a si pr�prios. Mario lembrou-se que tamb�m tinha algo a esconder. Ser� que se incluiria naquele rol? Ser� que somente ele e Edgar se iludiam ao pensarem que o resto da fam�lia n�o cochichava nos cantos sobre sua intimidade? O primeiro dia passou e Edgar concluiu que os que se seguiriam durante aquele carnaval seriam id�nticos, ou seja, n�o havia muita alternativa sen�o gastar o tempo ao lado da piscina, comendo churrasco e bebendo um refresco qualquer. As noites, mais amenas, eram consumidas dentro da casa, num carteado que ia at� tarde ou em intermin�veis conversas no terra�o. Afora os mosquitos, tudo ia muito bem. Houve, por�m, um dia que foi diferente. Na ter�a-feira, v�spera de partida da maioria dos convidados, Eugenia mandou preparar um jantar especial. Como a noite estivesse estrelada e sem nuvens de chuva, foi montado um buffet � beira da piscina e para l� todos se dirigiram. Mesas e cadeiras foram distribu�das estrategicamente e um oportuno som de m�sica ambiente era poss�vel ouvir. Teodoro tamb�m providenciou um quiosque onde eram servidas diversas bebidas a base de frutas, sua especialidade. Fazia quest�o que cada um experimentasse um tipo de sua prefer�ncia, nem que fosse apenas um c�lice. Olga deixou-se levar pela alegria da ocasi�o e, junto com Ana, bebericavam um ou outro sabor, cobrindo de elogios seu autor. Edgar e Mario, com os copos na m�o, sentaram-se num dos bancos espalhados pelo gramado e assistiam a tudo, especialmente fascinados com a disposi��o dos mais velhos. Mais uma vez puderam notar que S�rgio recusava um copo, desta vez das m�os de Teodoro. Este insistiu e o rapaz, um tanto encabulado, acabou aceitando. Edgar comentou: - Se em poucos dias de conviv�ncia j� deu para notar que o cara � totalmente abst�mio, n�o entendo a raz�o de tanta insist�ncia. - Ele que tome pelo menos um gole e deixe o copo de lado depois. N�o percebe que � uma cortesia do dono da casa? A educa��o manda aceit�-la - Mario retrucou. Nesse instante, Olga, acompanhada de Ana, aproximou-se e perguntou: - V�o ficar a�, alheios ao resto do pessoal? Venham para perto da mesa, tem muita gente querendo bater papo com voc�s. Eles levantaram-se e foram se juntar a um grupinho dos mais simp�ticos. Pouco depois se entrosaram na conversa e perceberam que a bebida descontra�ra a maioria dos presentes. Tomados de imprevisto, avistaram S�rgio enchendo seu copo novamente. Depois, entornou o conte�do de uma s� vez pela goela adentro. Momentos depois, Eugenia avisava que o jantar estava � disposi��o de quem quisesse se servir. De um lado do buffet havia as saladas e de outro, os pratos quentes. Podia-se escolher entre carne assada, frango ensopado e uma atraente porpeta. Existia tamb�m uma variedade de legumes refogados, al�m do tradicional arroz e feij�o. O aroma do tempero espalhou-se e foi aos poucos atraindo o pessoal. De repente, do outro lado da piscina, uma voz p�de ser ouvida, dizendo aos berros: - Eu � que n�o vou jantar com voc�s! S�rgio, apoiando-se num poste de ilumina��o e visivelmente embriagado, continuou: - J� estou farto de vir aqui e encontrar tanta hipocrisia! Euz�bio, todo mundo est� sabendo que voc� trouxe a amante junto com a esposa mas ningu�m te fala nada! Est� passando por tonto! Todos podiam ouvir claramente suas palavras. Aterrorizada, Mariana puxou Eugenia pela m�o e ambas sa�ram correndo, contornando a piscina para agarrar S�rgio, que n�o parava de gritar a plenos pulm�es: - E o tio Artur, � um corno consciente! Deixa a mulher transar com o prefeito em troca de favores financeiros! Nesse momento, Mariana agarrou o bra�o do filho e pediu que se calasse. - N�o! N�o posso ficar quieto com tudo o que est� acontecendo - S�rgio continuava a falar em altos berros - E o tio Aguinaldo, quanto pagou pelo aborto da empregada? Eugenia, com uma id�ia repentina na cabe�a, esvaziou o conte�do do copo de S�rgio na grama e encheu-o com �gua da piscina. Em seguida atirou-a em seu rosto. O rapaz quase engasgou-se, deu algumas tossidas, enquanto ouvia a m�e reclamar: - Como voc� pode ficar falando uma besteira dessa? Est� estragando a festa que sua tia preparou com tanto carinho! - Leve-me daqui - S�rgio passou a m�o pelos cabelos e, cambaleante, acompanhou a m�e em dire��o � casa. Eugenia mandou aumentar o volume do som e desatou a pedir repetidamente que esquecessem do epis�dio, era uma embriaguez, pura e simples. Demorou alguns minutos at� que os convidados se recompusessem e fosse dado continuidade ao jantar. Usando de certo sarcasmo, e quase murmurando para que os da casa n�o ouvissem, Mario comentou: - Com essa ningu�m esperava, mas ele fez bem. � preciso sacudir um pouco a hipocrisia do pessoal. Todos guardam para si, todos toleram certas coisas porque fazem parte ou sentem que far�o parte um dia. Quanto � nossa situa��o, meu camarada, duvido que eles fossem engolir. Era desanimador. Edgar sentiu a garganta seca, tomou o �ltimo gole que restava em seu copo e retrucou, serenamente: - N�o resta a menor d�vida. Seriamos cozidos em �leo ardente. Mas, no fundo, tenho pena desse S�rgio. Descontrolou-se. - Das vezes em que a gente bebe sempre acaba dizendo o que se encontra travado na garganta h� algum tempo ou mesmo guardado no subconsciente. Ele j� devia estar remoendo isso tudo por dentro. A prop�sito, que tal expressarmos nossa solidariedade e irmos ao seu encontro? - Tenho o pressentimento de que seria melhor a gente permanecer em nosso canto. Tanto a Mariana ficar� mais embara�ada ainda com nossa presen�a como o pessoal aqui interpretar� nossa sa�da como sinal de que estamos ao lado do S�rgio. O melhor, nesse caso, � manter a neutralidade. Mario concordou com aquele argumento. Deduziram que o mais sensato seria aproximar-se de Olga, completamente embara�ada com o incidente. Fazia de tudo para dissipar o mal estar do ambiente elogiando os pratos que vislumbrava em sua frente e se servindo de por��es generosas, fossem quais fossem. Pouco depois, ouviam o ronco de um carro que lentamente foi diminuindo na escurid�o. S�rgio foi levado por Mariana. O feriado pareceu ter se encerrado naquele instante. Na manh� seguinte, o caf�-da-manh� foi silencioso, salvo pelas vozes de despedida vindas dos convidados. Um a um, todos foram saindo, deixando um sorriso sem gra�a nos l�bios e sempre com uma palavra de carinho para com os anfitri�es. |