| Cap�tulo 12 - Um Canto para Edgar |
| A rotina voltou ao normal na casa. Bem, quase. N�o se podia definir como normal a situa��o dos rapazes. Haviam aprendido a li��o e procuravam manter as apar�ncias diante das outras pessoas. Al�m disso, esfor�avam-se ao m�ximo para esconder de Olga o que se passava, em quaisquer circunst�ncias e onde quer que estivessem. Esse cuidado era constante, n�o podiam se distrair em nenhum minuto, numa dilig�ncia cont�nua e cansativa. Como era previs�vel, o desgaste emocional fez-se presente. Com a expuls�o de Alfredo, Mario foi obrigado a retornar ao seu aposento, n�o havia como justificar a perman�ncia no quarto de Edgar. Portanto, o �nico momento que tinham de privacidade era durante o hor�rio comercial na loja, isso quando n�o havia clientes � espreita. Quanto �s viagens, deixaram de suceder por ora, uma vez que a primeira e �nica, para Catanduva, tinha resultado em pleno sucesso e o estoque encontrava-se abarrotado. Certa tarde, Mario surpreendeu Edgar feliz da vida: - Quais s�o as novidades? - Veja esta garrafa - Edgar estendeu-lhe um objeto de vidro grosso, opaco. Tinha algumas inscri��es em relevo e o formato era completamente diferente de tudo o que havia visto at� ent�o. - � uma pe�a bonita, se quer uma opini�o. Onde a conseguiu? - Veio junto com a encomenda que fizemos no interior. N�o dei muito valor a princ�pio, deixando-a num canto qualquer. Leia o que est� escrito aqui - Edgar apontou-lhe para algumas letras ainda intelig�veis no gargalo, bem mais largo que o normal de outros frascos. - "BB"? O que significa? - Os nobres da �poca do imp�rio mandavam importar cerveja da Inglaterra e um lote veio nesse tipo de vasilhame. "BB" quer dizer "Beer from Britain". Isso aconteceu apenas uma �nica vez. Depois, esse tipo de recipiente nunca mais foi usado, quem sabe por ser uma embalagem cara demais, creio. - Como sabe de tudo isso? - H� dias esteve aqui um colecionador procurando por esse tipo de objeto e eu afirmei n�o possuir. Me contou a tal hist�ria e disse que, como sua cole��o mais importante era relacionada com tudo o que se referia a produ��o e embalagem de cerveja, desde sua inven��o, desejava complet�-la com a referida pe�a. Pediu-me para ficar prevenido no caso de encontr�-la em algum lugar. Se pusesse as m�os em algo parecido era para telefonar sem perda de tempo para ele. - Deve ser uma raridade, ent�o. Onde a adquiriu? - J� estava em nosso poder h� tempos. Ao fazer a limpeza nos fundos, me deparei com o material que consideramos sem valor e encaixotamos no dep�sito. N�o sei por que cargas d'�gua, resolvi mexer em tudo e acabei por ach�-la. - Tem id�ia do valor que poder�amos alcan�ar? - Andei investigando e descobri que existe apenas uma, em poder de um milion�rio exc�ntrico no Rio de Janeiro e, mesmo assim, em p�ssimas condi��es. - Veja como este exemplar est� perfeito! - Edgar mostrava-se entusiasmado. - Vamos, quanto ela vale? - � uma verdadeira rel�quia. Estamos com uma pequena fortuna nas m�os! Agora teremos que ter o m�ximo cuidado para avaliar o montante exato. Edgar n�o perdeu tempo. Apelando para seus conhecidos, especialista em tudo o que havia de antig�idade no mercado, negociou a pe�a com o colecionador. O resultado financeiro engordou consideravelmente sua conta banc�ria, principalmente porque Olga reconheceu que o dinheiro era fruto exclusivo de seu trabalho. N�o aceitou a divis�o de lucros. Para comemorar, Edgar sentiu-se encorajado ir at� um bar da moda, localizado na rua Augusta, e convidou Mario. Tinha uma id�ia em mente e desejava discutir o assunto com o amigo. Ao chegarem, escolheram uma mesa afastada do movimento e sentaram-se. - Pensei muito durante a noite e cheguei � conclus�o de que n�o se justifica mais minha perman�ncia em sua casa. Deduzi que o mais correto seria alugar um apartamento. - E n�s? - Continua tudo na mesma, voc� vai me visitar uma vez ou outra. - Essa conversa est� me soando estranha... - N�o vejo porqu�. Estaremos mais � vontade num espa�o s� nosso, sem ter que dar satisfa��es a ningu�m. Desejo manter nossa privacidade a qualquer custo. - Minha m�e n�o ver� com bons olhos essa id�ia. Vai achar que � ingratid�o de sua parte. - N�o tenho inten��o de abandon�-la. Tudo continuar� como est�. - N�o sei... Mario n�o aprovara o plano, mas n�o tinha import�ncia. Quanto mais distante os familiares ficassem, Edgar julgava que melhor seria para a rela��o. J� aprendera a li��o com Alfredo, outras experi�ncias inoportunas poderiam suceder e era bom se prevenir. O tempo acabaria demonstrando que tinha raz�o, o apartamento era a op��o mais aconselh�vel naquele momento. Resolveu mudar de assunto e sugeriu que experimentassem um vinho branco, uma dessas marcas novas que estavam surgindo no mercado. No instante em que o gar�om trouxe a garrafa e serviu-os, Mario, como de costume, fez um brinde: - Ao bom neg�cio que conseguiu fechar! - E que o dinheiro venha para a nossa felicidade! Edgar sorriu alegremente, enternecido com o receio que Mario demonstrava. Achava divertido que pudesse passar pela mente do rapaz a possibilidade de existir alguma raz�o no mundo capaz de separ�-los. Estava completamente equivocado se pensasse algo nesse sentido. Tudo girava em torno de Mario, nada interessava a n�o ser ele. N�o havia motivo para alarde. Assim mesmo, n�o resistiu � tenta��o de provoc�-lo: - Acha que estou criando um pretexto para me ver livre de voc�? - � o que est� dando a entender - resmungou. - Falando francamente, esse epis�dio do Alfredo me incomodou profundamente. N�o acho correto a gente continuar com essa brincadeira. - Eu, pelo menos, n�o estou brincando! - Mario alterou-se, levantando a voz - Ent�o, entre n�s dois, voc� � o �nico que n�o est� levando a s�rio. Tudo o que conversamos n�o passou de besteira para voc�? Foi tudo mentira as palavras que ouvi de sua boca? Voc� � um patife e eu ca� feito um cachorrinho! Nunca deveria ter confiado em voc�. Vi logo, desde o in�cio e acabei caindo na sua l�bia. Como sou idiota! - Calma, � brincadeira - Edgar sorriu. - N�o � brincadeira cois�ssima nenhuma! N�o faria pouco caso do sentimento dos outros, assim como est� fazendo comigo agora! - Estou querendo dizer que � brincadeira o que acabei de dizer. N�o tenho inten��o nenhuma de ficar longe de voc�. Nem por um minuto. Mario ficou est�tico, sem saber como se expressar. Em seguida, falou um palavr�o. Depois, ambos acabaram dando risada. Edgar chamou o gar�om e pediu alguns petiscos. Qual n�o foi sua surpresa, ao passar os olhos pelo ambiente, fixou-os em uma criatura sentada num dos bancos junto ao balc�o. Era Arnaldo. Tinha um copo nas m�os e mantinha o olhar em sua dire��o. Edgar acenou para ele, gesticulando para que se aproximasse da mesa onde estavam. - Ora, mas que coincid�ncia! - Edgar levantou-se para cumprimentar o amigo - H� quanto tempo est� aqui? Arnaldo abra�ou Edgar e deu a m�o para Mario, que n�o se preocupou em sair do lugar. - Cheguei a quest�o de meia hora, mais ou menos. - E n�o viu a gente aqui? - Estava esperando que voc� olhasse primeiro, mas pareciam t�o entretidos na conversa... Edgar, embara�ado, redarg�iu em seguida: - Est�vamos brindando a um neg�cio que consegui fechar. Agora que voc� est� aqui, vamos brindar de novo, ora essa! Esta noite � por minha conta! Edgar exp�s tudo em detalhes, �s vezes pedindo que Mario confirmasse a hist�ria. Diante do entusiasmo do amigo, Arnaldo n�o deixou transparecer a decep��o que tivera com seu afastamento durante meses. Solicitaram outra garrafa na mesa e acabaram relembrando diversas passagens divertidas de suas vidas, tudo resultando em boas gargalhadas. A conversa poderia se estender pela noite afora n�o fosse o s�bito mal estar de Mario. Muito a contragosto, foi for�ado a admitir que precisava interromper o amistoso bate-papo, o efeito do vinho n�o fora dos melhores. No dia seguinte, na primeira oportunidade, Edgar revelou seus planos a Olga. Ela argumentou de modo veemente: - De jeito nenhum! N�o vou permitir que saia daqui. Qual � o motivo? N�o se sente bem entre n�s? O Mario tem voc� como um irm�o, seu quarto � independente, sai e entra a hora que quer, n�o interfiro em sua vida particular. Por acaso tenciona casar? - N�o � bem isso. �s vezes tenho a impress�o de estar incomodando... - Ora, Edgar, que bobagem! N�o ia falar disso agora, mas j� que estamos no assunto, vou deixar voc� saber: o espa�o cont�guo a seu aposento, que hoje � ocupado pelo galp�o, vou reformar. Ele est� vazio e perdeu sua finalidade. - O que tenciona fazer? - Mudarei tamb�m a �rea de servi�o para perto da cozinha, porque assim fica mais f�cil para mim. Sobrar� um espa�o grande, que permitir� ampliar seu aposento e fazer uma kitchenete. Dessa maneira, ter� um verdadeiro apartamento para seu conforto. - Vai gastar muito dinheiro com a obra. S� por minha causa? - J� consultei minhas finan�as, n�o vai haver problemas. E, para sua informa��o, fiz tamb�m o or�amento com um amigo, que tem uma construtora. Num instante ele manda o pessoal dele aqui e remodela tudo como estou planejando. - Bem, eu n�o sabia desse projeto... - Olhe bem, n�o quero for��-lo a nada. Mas, se julga necess�rio sair daqui por pensar que est� atrapalhando, engana-se redondamente. De outra forma, n�o estaria disposta a fazer essa reforma. O que voc� me diz? - Da maneira como a senhora prop�e, tenho de concordar. O que desejava era um espa�o maior, mais nada. - Muito bem, ent�o - Olga sorriu, satisfeita por t�-lo convencido - Quanto � decora��o, fica por sua conta e da maneira como achar mais apropriado, combinado? Mario gostou do resultado da conversa. Na semana seguinte come�aram as obras. Edgar encaixotou seus pertences e levou-os para o quarto de Mario, onde iria permanecer at� que tudo estivesse finalizado. Praticamente colocaram abaixo a constru��o antiga e levantaram outra, completamente remodelada. O que antes era apenas um c�modo com o banheiro separado, transformou-se numa su�te grande e arejada. E o antigo galp�o e lavanderia deu lugar a uma �rea com dois ambientes, separados por um pequeno balc�o. De um lado, a kitchenete e de outro, uma sala onde Edgar poderia exercitar seus dotes de decorador. Acoplada � su�te, e com janelas amplas, a obra terminada deu origem a um magn�fico apartamento, com acabamento de primeira qualidade. Ap�s quase dois meses, Edgar mudou-se para o novo espa�o. Depois de ver tudo terminado, agora com uma nova �rea de servi�o que aumentaria seu conforto, Olga decidiu que o resto era com Edgar. N�o havia mais com o que se preocupar. Por conseguinte, estava livre de compromissos e poderia fazer o que bem quisesse. Resolveu fazer uma nova viagem. - De novo? - Mario interrogou, surpreso. - Como assim? J� se passaram seis meses desde minha �ltima visita a tia Ana. Depois de todo o sufoco com Alfredo, creio que a gente tem muito o que conversar. - Esse assunto ainda vai render muito pano para manga... - Mario retrucou, na brincadeira. - Deixa sua m�e viajar sossegada - Edgar interferiu - Estamos cuidando muito bem dos neg�cios. Certo, Dona Olga? - Claro. N�o existe raz�o para me preocupar. E Mario j� est� bem crescidinho, n�o precisa ficar grudado na minha saia. Olga telefonou para Bauru, para confirmar se a viagem era oportuna naquela ocasi�o e combinou o hor�rio da chegada. No dia da partida, despediu-se de ambos, recomendando: - Agora que voc� est� de f�rias, Mario, procure ficar na loja o m�ximo de tempo. E voc�, Edgar, quero ver esse apartamento bem decorado ao voltar. Isso nem era necess�rio ela ter falado. Em poucos dias os dois rapazes cuidaram para que o novo ambiente oferecesse todo o conforto poss�vel. N�o precisariam nem entrar no casar�o durante a aus�ncia de Olga. Tudo o que queriam tinha no apartamento. Como �ltima provid�ncia, Edgar encomendou a um artes�o uma tabuleta em madeira esculpida, com os seguintes dizeres: "Cabana do Edgar". Pregou-a acima da porta de entrada, para o lado de fora, e deu por inaugurada a nova moradia. Naquela manh� de s�bado, Edgar acordou com a chuva batendo na janela. Mario dormia a sono solto a seu lado e ele levantou-se com todo o cuidado, a fim de evitar que o companheiro despertasse. A correria da semana produzira uma grande fadiga e n�o havia necessidade de acord�-lo naquele momento. Olhou o rel�gio, eram nove horas. Espregui�ou-se despreocupadamente e pensou no mau tempo, que poderia estragar o fim-de-semana. Por sorte, durante os dias de movimenta��o com as compras, o sol brilhara intermitente. Passou as m�os no cabelo, lembrando-se que precisava de um corte urgente. "A vida n�o tem sido de todo ruim" - pensou, entrando no chuveiro - "como poderia imaginar que, ao recolher uma lata de lixo, mudaria todo o meu destino?" - ensaboou-se lentamente, aproveitando a �gua t�pida que ca�a em seu corpo. Ao sair do banho, enxugou-se, vestiu um shorts e foi para a cozinha. Acendeu o fogo para esquentar �gua, almejando por um caf�. "Quanta coisa pode passar pela vida e a gente nem d� conta do valor. Seria t�o bom que esse momento parasse no tempo..." - Experimentou o caf�, colocou mais uma colher de a��car e serviu-se. No fim, procurou pelos cigarros. Achou-os em cima do arm�rio da saleta e acendeu um. Com receio de que o barulho acordasse Mario, caminhou at� a porta do aposento, fechou-a e reclinou-se no sof�. N�o se cansava de admirar tudo o que havia conquistado. Reparou na pequena poltrona ao lado, a mesa de centro, o tapete felpudo. Absorto em seus pensamentos, n�o notou passos no corredor lateral e assustou-se com as batidas na porta. Era Arnaldo, numa visita inesperada. - Espero n�o ter derrubado voc� da cama... - Estou de p� faz tempo. Vamos, entre. Quer um caf�? - Aceito. Vim fazer a matr�cula na faculdade aqui perto e aproveitei para ver como voc� est�. Edgar serviu uma x�cara para Arnaldo, que sentara-se no sof�. - Levei um susto ao entrar no quintal. Pensei estar em casa errada... - Dona Olga fez uma reforma geral. - Que admira��o ela tem por voc�, hem? - Os neg�cios est�o indo bem. - Pelo jeito, arquivou os planos de ir para o Rio, certo? - Se tudo continuar correndo como est�, n�o vejo motivo para sair daqui. S� espero que minha fam�lia n�o tome conhecimento de nada. - Dei uma passada por l� outro dia. Sem novidades. Sempre perguntam se voc� me escreveu. Eu digo que n�o. - � melhor assim. Gostaria que me esquecessem. - Cada vez fica mais dif�cil te compreender. N�o quer mais saber da fam�lia, esqueceu as amizades, sobrou at� para mim. - N�o seja injusto. Temos estado juntos com freq��ncia. Nesse momento eles tiveram que interromper a conversa, pois Mario apareceu na sala e disse alo para Arnaldo, um tanto sonolento. Atr�s de si, a porta do quarto entreaberta. Edgar voltou-se para a janela, aliviando-se ao ver que a chuva j� passara. Depois, foi para a cozinha servir o caf� de Mario. A ampla cama de casal desarrumada, que podia se observar da sala, n�o traduziu preocupa��o alguma. Arnaldo perguntou: - Est� morando aqui tamb�m? - N�o. Minha m�e saiu em viagem e n�o gosto de ficar no casar�o sozinho - Mario serviu-se e cortou um peda�o de p�o. - Deseja comer alguma coisa? - ofereceu. - N�o, obrigado. Como procedia quando Edgar n�o vivia com voc�s? Mario, que ainda despertava, n�o percebeu a inten��o maliciosa da pergunta e, enquanto sorvia devagar o caf� quente, redarg�iu: - Minha m�e adquiriu essa mania de viajar de uns tempos para c�. Ela acha que a casa fica em ordem com o Edgar tomando conta. Arnaldo levantou-se, alcan�ou com a m�o uma pequena escultura de bronze que enfeitava a estante e, admirando a beleza do objeto, comentou, displicentemente: - Sabe de uma coisa? Acho que voc�, Edgar, n�o tem mais necessidade dos amigos, e nem da fam�lia, porque j� se completou nesta casa. Apesar da voz suave e pausada, o tom de ironia naquela observa��o poderia ser notado por qualquer um. Entretanto, Edgar manteve-se impass�vel e decidiu desafi�-lo: - � imposs�vel discordar de voc�, Arnaldo. A m�e dele chegou ao ponto de levantar esse confort�vel apartamento s� para mim, como est� vendo. N�o nego que essa seja uma excelente fase de minha vida e creio que devo desfrut�-la ao m�ximo, n�o acha? Quanto aos amigos, acabarei aparecendo qualquer dia. Arnaldo virou-se e interrogou-lhe: - E voc�, Mario, tamb�m est� numa fase boa da vida? - N�o h� do que reclamar... Por um instante pairou um sil�ncio embara�oso no ar. Arnaldo olhou para um, olhou para outro e depois levantou-se, afirmando: - Pois muito bem. Sei que n�o devo me intrometer em suas vidas, mas tem uma coisa que precisam saber: est� pegando mal essa de ficarem andando juntos o tempo inteiro. Outro dia, encontrei-os sentados que nem dois pombinhos l� no bar, fazendo brindes rom�nticos. Agora, chego aqui e constato que dormiram juntos. Qual � a de voc�s? Ah, n�o! - Mario pensou - de novo? Nem bem acabavam de se safar de uma tempestade e agora vem outra em seguida? Qual seria a f�rmula para colocar um paradeiro nessa press�o vinda de fora? O sil�ncio de alguns segundos pareceu durar uma eternidade. A sala, de repente, ficou enorme e vazia. - Pare com isso, Arnaldo. Est� botando minhocas na sua cabe�a... - Edgar n�o tinha no��o de como reagir, inibido com a constata��o acertada do amigo. - Sempre fui seu confidente e n�o h� raz�o para esconder algo de mim. O Pedro, depois que separou-se da Lenita, andou tendo qualquer coisa com o Renato. O homossexualismo pode acontecer de repente, � incontrol�vel. Ningu�m recriminou-os, os tempos s�o outros. Hoje, est� tudo esquecido e nem cheguei a comentar o caso com voc�. Pois sim! - Edgar pensou - A dupla deve ter sido martirizada at� n�o ag�entar mais. E s� n�o chegou aos seus ouvidos porque andava evitando a companhia de Arnaldo e do resto da turma h� tempos. Decidido a levar a conversa para o lado do humor, como forma de se proteger, ele respondeu: - Est� bem, ent�o - de relance, percebeu que Mario arregalara os olhos - A gente se casou e Dona Olga deu esse local para a gente morar. Esse � o nosso ninho de amor. Que acha? Gostou do tom das cortinas ou prefere um cor-de-rosa? - Este � um assunto s�rio, n�o estou brincando. - N�o sei... - Edgar levou o dedo � boca, num gesto propositadamente afetado - Estive pensando em pintar a fachada de rosa choque. Fica mais acentuada a nossa prefer�ncia, n�o concorda? Posso assegurar-lhe que os vizinhos iriam adorar... - Posso pegar mais um pouco de caf�? - Claro! Arnaldo dirigiu-se a kitchenete e serviu-se da bebida que fora colocada na garrafa t�rmica. Ao voltar para a sala, procurou nos bolsos um ma�o de cigarros e acendeu um. Demonstrava nervosismo, assim como os outros dois. Entretanto, era diferente com Edgar e Mario. Ambos se encontravam em posi��o de acuados e desconheciam a sa�da. N�o lhes fora dado tempo suficiente para analisar as palavras de Arnaldo, n�o podiam afirmar com certeza se ele falava a verdade ou n�o. Estavam num impasse. Apesar de conhec�-lo t�o bem, jamais abordara um tema t�o delicado como o homossexualismo nas conversas. Era como estar pisando em ovos. Arnaldo insistiu: - N�o precisa ficar escondendo nada de mim, sou seu amigo, sempre serei, independente de suas prefer�ncias. N�o tenho direito em recrimin�-lo. Sempre fui leal e espero o mesmo de voc�, compreende? Caso estivesse mentindo, Edgar sabia muito bem do que ele era capaz e do risco que corria. Portanto, tornava-se imperativo evitar a todo custo que ele viesse a saber da verdade, concluiu. Tinha certeza das conseq��ncias, todos ficariam sabendo, a fam�lia, os amigos. Seria uma vergonha insustent�vel, destruiria sua exist�ncia e a de Mario. Portanto, resolveu continuar negando at� o fim: - Est� fazendo um julgamento precipitado. Somos sempre vistos juntos porque trabalhamos no mesmo ramo e moramos na mesma casa. O fato de estarmos dormindo na mesma cama tamb�m n�o significa nada. Quantas vezes, voc� e eu dormimos juntos, sem que ningu�m sugerisse algo assim? - Ora, eram em circunst�ncias diferentes, meu camarada. Mesmo que tiv�ssemos tido alguma coisa, e n�o tivemos, �ramos ainda adolescentes. Seria um fato at� considerado normal. Hoje voc� � um homem de vinte e um anos. Diante da afli��o em que se encontrava o companheiro, Mario decidiu ajud�-lo, aproveitando a pr�pria falha em proteger as apar�ncias e argumentando: - Se houvesse algo entre n�s, como est� afirmando, n�o acha que a gente iria evitar motivos para suspeita? Eu poderia ter pulado muito bem a janela do aposento e sair de mansinho, enquanto conversavam. E n�o teria dado na vista no bar, se nossa consci�ncia estivesse pesando. Como n�o havia o que esconder, n�o nos preocupamos. A obstina��o de ambos era imposs�vel de ser enfrentada, apesar de evid�ncias t�o claras. Arnaldo deu-se por vencido: - Est� bem, ent�o. Apesar da minha disposi��o em aceitar o que quer que esteja sucedendo e da minha solidariedade, continuam negando. - Arnaldo levantou-se e caminhou em dire��o a porta - J� tenho que sair, ainda nem passei na faculdade. |