Cap�tulo 11 - Quem Era Alfredo Afinal
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No dia seguinte, o visitante n�o assumiu nenhum compromisso, aparentemente n�o tendo o que fazer na cidade grande. Foi o �nico que ficou em casa. Edgar dirigiu-se � loja, Mario ao col�gio e Olga marcara algumas visitas de neg�cios com algumas amigas. A bem da verdade, era ela quem tomava as r�deas no com�rcio de antig�idades, tinha uma queda natural para as vendas. Ao chegarem no comecinho da noite, de forma inesperada, todos se depararam com a mesa posta e o jantar pronto. Alfredo resolvera demonstrar seus dotes culin�rios e foi muito elogiado. A comida era suculenta e um molho especial lhe emprestava um sabor peculiar. Mario at� comentou que lhe dava a impress�o de ter sido feita em fog�o a lenha.
Durante o resto da semana, passaram a se encontrar somente a noite. Alfredo sa�a o dia inteiro, alegando ora compromissos com antigos conhecidos, ora neg�cios casuais. Outro fim-de-semana chegou, novos passeios foram sugeridos, outra semana entrou. Nada de Alfredo dizer que precisava ir embora. Edgar comentou com Mario, sem que Olga ouvisse, que achava dif�cil de entender uma mudan�a t�o dr�stica no prazo da viagem. Afinal, o que era para ser dois dias j� estava se transformando em quinze.
- Creio que n�o seja da nossa conta, naturalmente ele deve saber muito bem se pode ou n�o ficar tanto tempo afastado de suas atividades em Bauru - Mario n�o demonstrou preocupa��o.
- Tudo bem que ele tenha as raz�es dele, mas n�o deixa de ser esquisito.
- Para mim � excelente que ele esteja em casa. Temos o nosso ref�gio e n�o somos incomodados gra�as a ele. Se partir, terei que retornar ao meu quarto novamente.
- Agora est� sendo ego�sta. Pense no quanto sua m�e ficar� decepcionada se Alfredo n�o for o que demonstra ser.
- Do que suspeita? - perguntou com um ar de surpresa.
- Aproveitadores costumam se comportar assim. Chegam de mansinho, com um aspecto de cordeirinhos, mas n�o tardam a mostrar sua verdadeira pele.
- N�o acredito que possa fazer uma imagem t�o infame do Alfredo, tem sido  gentil com voc� o tempo todo...
- Estou apenas levantando uma hip�tese. Preferia estar errado, por�m acho mais seguro esclarecer minhas d�vidas. N�o s� causa estranheza essa perman�ncia exagerada dele na sua casa como tem algo a mais me incomodando.
- O que?
- J� reparou em sua rea��o ao fazermos alguma pergunta a respeito de sua vida particular? Age de modo estranho, como se n�o estivesse gostando de se expor. D� a impress�o de que quer esconder algo da gente.
- Ora, est� delirando. Tudo quanto � coisa que queremos saber ele responde de bom grado.
- Mas tem algo que me deixa encafifado...
- Bom, se � que est� t�o preocupado, vou averiguar.
Edgar colocara em quest�o o car�ter de uma pessoa aparentemente sem m�cula, assim mesmo Mario julgou conveniente se certificar. Afinal, o sujeito se hospedava em sua casa e cativara a m�e com seu jeito de ser. De todo modo, evitaria um confronto direto a fim de n�o criar atrito. Bastava fazer-lhe algumas perguntas pertinentes e, dependendo da maneira como respondesse, seriam capazes de tirar uma conclus�o elucidativa. Edgar recomendou:
- Use de todo o tato poss�vel, seja bastante sutil. Existe a possibilidade, ainda que remota, de que eu esteja equivocado.
- E l�gico. Enquanto mam�e estiver ocupada na cozinha, hoje a noite, vou aproveitar para ter uma palavra com Alfredo. Se voc� estiver perto, te dou um toque discretamente, quero ficar a s�s com ele.

Conforme o combinado, Mario esperou pela ocasi�o prop�cia e, sentados na sala, como quem n�o queria nada, perguntou casualmente:
- Est� gostando da viagem?
- Demais.
- Espero que minha m�e esteja cuidando bem da sua estadia.
- Olga � uma excelente anfitri�. Foi muito am�vel. At� a roupa que tenho suja est� lavando, apesar dos meus protestos.
Mario levantou-se e aproximou-se de uma garrafa de vinho sobre a mesa, servindo-se de uma dose. Aquele movimento foi proposital, para disfar�ar a perplexidade que a revela��o provocara. N�o deixava de ser um exagero incluir servi�o de lavanderia na hospedagem gratuita, um detalhe que a m�e evitou de mencionar. Concluindo rapidamente que as coisas seriam esclarecidas, mesmo correndo o risco de ofender Alfredo, afirmou serenamente:
- N�o me parece preocupado com seus compromissos em Bauru...
- Tudo est� sob controle. Contratei gente respons�vel encarregada de conduzir os neg�cios e me deixar a par de qualquer novidade.
- Quando pretende voltar?
Alfredo olhou fixamente na dire��o de Mario, fez uma pausa e depois perguntou com profunda seriedade:
- Est� me tocando de sua casa?
- N�o, absolutamente. Voc� tem sido simp�tico, estamos contentes com sua companhia.
- Essa enxurrada de perguntas quase me levou a acreditar que n�o era mais bem-vindo aqui. Ainda bem que n�o se trata disso - Alfredo levantou-se e, dando o assunto por encerrado, sugeriu - Vamos ver o que Olga est� preparando para o jantar?
- Ainda n�o terminei de falar. Sente-se mais um pouco.
Mario demonstrou firmeza nas palavras, objetivando por um fim definitivo nas d�vidas que rondavam sua mente. Apesar de se ver constrangido a encarar uma pessoa de mais idade, n�o havia sa�da que fosse mais branda. Consciente disso, procurou usar de diplomacia:
- N�o me leve a mal, mas para que a gente possa se planejar melhor � necess�rio que me diga quantos dias mais tem em mente permanecer aqui em casa.
- N�o creio que vou me demorar mais do que dois meses...
- Isto � imposs�vel! - n�o teve a inten��o de exclamar daquela maneira, as palavras sa�ram instintivamente.
Alfredo adotou uma fei��o sombria e perguntou, levemente abalado:
- Foi sua m�e que mandou voc� vir falar comigo?
- N�o, Tomei a decis�o sozinho, ela n�o est� a par.
- �timo. Certamente ficaria aborrecida ao saber que estou sendo obrigado a passar por este embara�o.
- Alfredo, vamos ser realistas - Mario endureceu - Sua perman�ncia demanda um custo, e quem tem de assumir isso somos n�s. Portanto, n�o acho que seja t�o ofensivo assim pedir-lhe uma posi��o mais definida, apenas para a nossa previs�o. 
Naqueles dias todos, Alfredo j� n�o se preocupava em trazer para casa nem um quilo de carne que fosse. Era not�rio que as despesas haviam ficado inteiramente por conta de Olga, que, a prop�sito, n�o fazia quest�o de economizar um �nico centavo se fosse para interferir no conforto do gentil visitante. Ele foi atencioso nos primeiros dias apenas. Depois, ao constatar que ganhara a simpatia dos membros da casa, fechou os bolsos. Assim mesmo, ousou usar de sarcasmo:
- Me surpreende que j� estejam passando necessidade. O antiqu�rio deve render uma f�bula de dinheiro.
- De onde tirou essa id�ia? - Mario espantou-se.
- Qualquer um sabe que esse tipo de neg�cio atrai milion�rios, meu caro. Pagam-se altas somas por bobagens. E o estoque da loja � de tirar o chap�u. Sua m�e � bem esperta. Devem estar montados na grana.
- Francamente, n�o me vejo na obriga��o de apresentar os relat�rios de lucros a voc� - respondeu fortemente indignado com a express�o grosseira que ouviu - Estamos te recebendo dentro de nossa casa com o m�ximo de educa��o e respeito. Acho que merecemos uma rec�proca.
- Bem - Alfredo levantou-se - O assunto se encerra por aqui. Sua m�e n�o precisa tomar conhecimento dessa nossa conversa.
- Devo insistir que acho um exagero transformar uma visita de dois dias em dois meses...
- Isso compete s� a mim decidir - Alfredo interrompeu secamente. Sumira a gentileza, a cordialidade dera lugar a um olhar cheio de c�lera.
Mario argumentou, procurando usar de serenidade, apesar das circunst�ncias:
- J� que sou parte envolvida nisso, por ser dono da casa, cabe tamb�m a mim decidir quanto tempo devemos ou queremos hosped�-lo.
- Estou me sentindo confortavelmente no direito de n�o concordar com voc�. Como disse, seria bom deixar sua m�e de fora dessa quest�o, exatamente da mesma maneira que procedem com rela��o a um outro detalhe existente entre voc� e o Edgar.
- Isso est� me soando como uma amea�a - Mario surpreendeu-se com a insinua��o e, ao mesmo tempo, sentiu-se acuado.
- D� o nome que bem entender. Basta ficar de bico calado e viveremos pacificamente nesta casa. Eu com sua m�e e voc� com o Edgar. Fui claro?
- De forma alguma - revoltou-se - N�o vejo raz�o para me submeter a essa invers�o de pap�is. N�o vai ser voc� a determinar as regras embaixo deste teto.
- Estou vendo que n�o entendeu bem a que me refiro. Creio que esse � um problema heredit�rio, porque Olga tamb�m n�o se deu conta que dois pombinhos em nojento id�lio amoroso fazem o seu ninho bem debaixo de seu nariz.
- Acho que estou falando com um maluco - Mario tentou dissimular a tens�o nervosa.
- A quem pensa que pode ludibriar? Sua m�e ainda n�o descobriu porque n�o faz id�ia de que venha a existir tanta sem-vergonhice. Somente gra�as � sua ingenuidade passaram despercebidos. Mas eu n�o sou burro, felizmente. E muito menos cego.
- N�o sei do que est� falando... - decidiu negar.
- Tive um pressentimento desde o in�cio. Algo estranho acontecia entre os dois mas n�o consegui identificar com exatid�o do que se tratava. Com o passar dos dias, fui notando que a troca de gentilezas era muito exagerada, fora do comum. E os olhares, foi o que mais me chamou a aten��o. Decididamente, era evidente que mantinham um caso, mas n�o havia como provar. No s�bado � noite resolvi investigar. Pouco depois que foram deitar, levantei de mansinho e sa� no quintal, pr�ximo � janela do quarto de Edgar.
- Mentira! - interrompeu com veem�ncia, sentindo o suor escorrer na testa - Caso tivesse feito isso, minha m�e acordaria. E o que diria, ent�o?
- Muito simples. Inventaria que estava sem cigarros e iria pedir um emprestado a voc�s. De qualquer forma, ela n�o acordou. Esqueci de dizer-lhe que tenho o dom de andar em sil�ncio total e sem deixar pistas. Ningu�m percebe.
- S� os gatunos conseguem isso.
- Seja como for. O fato � que, de onde estava, pr�ximo ao aposento, pude ouvir tudo. O que conversavam e o resto. Foi espantoso. Jamais cheguei a supor que dois homens juntos seriam capazes de substituir uma mulher. Como podem ter a coragem de tamanha podrid�o? J� imaginou que perversidade est� fazendo com sua m�e?
- Ela n�o precisa saber de nada - Mario disse, conformado com o flagrante.
- Tamb�m concordo. Tanto esfor�o para ver terminado seus estudos, para que se forme, para que seja bem sucedido profissionalmente, para que se case, para que lhe d� um neto!
- Ora, cale-se! Isso � problema meu!
- N�o. Agora � nosso. Eu e sua m�e vamos encontrar uma solu��o adequada.
- N�o pensa que me intimida. Acha em condi��es de me dar li��o de moral se, ao mesmo tempo, vem com chantagem?
- Vamos combinar o seguinte: durante os dois meses da minha estadia aqui nesta casa voc� vai continuar me tratando com todas as gentilezas a que tenho direito. Me dando apoio e desfazendo qualquer mal-entendido que venha a surgir. E � bom avisar tamb�m o seu amiguinho. S�o s� dois meses que preciso, passa r�pido.
- Voc� � repugnante - resmungou, com a voz agastada.
- Poderia ser pior - Alfredo riu com desd�m - E se me casasse com a velha? Sabe muito bem que ela est� completamente ca�da por mim. N�o iria adiantar tentar preveni-la, nem o filho ela ouviria. Estou absolutamente convicto disso.
Mario virou-se e abandonou a sala, resignado. N�o havia mais o que discutir.
Reconheceu tristemente que Alfredo estava coberto de raz�o e detinha o controle absoluto da situa��o. Era certo que sua m�e apaixonara-se e agora s� restava um meio de evitar que ela sa�sse machucada desse epis�dio. A primeira provid�ncia foi colocar Edgar a par do confronto. Sua rea��o foi de revolta:
- Voc� n�o vai se sujeitar aos caprichos desse vadio. Tem que haver uma solu��o. Ele � interesseiro e j� est� exercendo uma influ�ncia perversa nesta casa. Deve ser expulso daqui.
- E a chantagem?
- Esque�a. Vamos tomar as medidas necess�rias para desmascar�-lo. O dif�cil ser� convencer Dona Olga, precisamos de evid�ncias concretas.
- Ele vai nos denunciar. Minha m�e ter� um infarto.
- Temos duas chances de sair bem dessa hist�ria: primeiro, entramos no jogo dele e deixamos que pense que ficamos intimidados. Como � patife e mal car�ter, logo acabar� deixando alguma pista para que Olga descubra a verdade a seu respeito. Ela mesma tomar� a iniciativa de resolver a quest�o.
- O safado � mais ardiloso do que pensa. J� aventou a hip�tese de minha m�e desconfiar do que est� se passando e determinou que n�s deveremos contornar qualquer problema nesse sentido, convencendo-a do contr�rio.
- Se Olga descobrir suas m�s inten��es, n�o vai adiantar o patife nos delatar. Negaremos qualquer acusa��o. Em quem pensa que ela vai acreditar?
- Esque�a. N�o posso correr esse risco. Uma simples d�vida em sua cabe�a ser� o suficiente para alterar nossa conviv�ncia. N�o teremos mais sossego. Al�m do mais, ela tem a sa�de fr�gil. N�o quero ser o respons�vel por uma trag�dia. Voltamos ao ponto de partida.
- Minha segunda alternativa seria permitir que ela tome conhecimento da verdade. Existe uma probabilidade de que nos aceite da maneira como somos.
- Fora de quest�o. Conhe�o bem minha m�e. N�o vai tolerar um filho que os outros chamam de pervertido.
- O que fazer, ent�o?
- Vamos aceitar as regras do jogo e esperemos para ver no que vai dar. Quem sabe, no fim do prazo estipulado, saia daqui e deixe a gente em paz.

Mario engoliu a chantagem e considerou que, se fosse apenas a estadia de dois meses, dar-se-ia por satisfeito. Entretanto, o clima ficou insustent�vel dentro da casa. Era penoso tolerar a falsidade e o cinismo, encarando com naturalidade a interpreta��o err�nea que Olga fazia do velhaco. Como medida de prote��o, passaram a se revezar, ele e Edgar, de tal maneira que a m�e jamais ficasse a s�s com Alfredo. E assim, os dias custavam a passar. Certa manh�, durante o caf�, ele puxou Mario para o lado e falou de forma arrogante:
- Estou precisando de uma grana e Olga est� inclinada a me emprestar. Se ela pedir sua opini�o, concorde. Sen�o, o dinheiro vai ter de aparecer de outra maneira.
Realmente, n�o tardou para que Olga aparecesse no quarto e desse a not�cia esperada. Tinha o prop�sito ing�nuo de beneficiar o amigo com um empr�stimo.
- Qual � a quantia?
- Cem mil cruzeiros.
Mario engoliu a seco. N�o tinha outra sa�da sen�o aprovar.
- Acha que tudo bem? V� algum inconveniente?
- N�o. Absolutamente. Ele me parece correto.
Mentiras. Um punhado delas acontecendo sem nada para impedir. Mario sentiu �dio de si mesmo por sua incapacidade. Estava faltando com a verdade mais uma vez. N�o passava de um avalista de um canalha, praticamente um c�mplice numa transa��o desonesta. Sabia que o dinheiro n�o voltaria mais. Era como pegar um aparelho de TV e jogar pela janela, n�o tinha diferen�a.
Assim que Olga entregou-lhe o dinheiro, Alfredo sumiu por dois dias. Ela ficou aflita, preocupada com algo de grave que pudesse ter ocorrido. Mario e Edgar, por�m, sentiram um grande al�vio. Apreensiva, chegou at� a aventar a hip�tese de sair � sua procura, mas os rapazes conseguiram convenc�-la de que seria in�til. Era melhor que aguardasse not�cias. O pilantra surgiu finalmente numa noite, com a roupa em desalinho, todo sujo e um ar de cansado. Afirmou que prestara assist�ncia a um amigo hospitalizado numa emerg�ncia e n�o quis sair de sua cabeceira at� que tivesse atravessado a fase mais cr�tica. Olga achou tocante tanta benevol�ncia e passou a admir�-lo ainda mais. Para Mario, no instante em que estavam sozinhos, disse que gastara o dinheiro com uma menininha de apenas dezesseis anos, uma farra e tanto. O rapaz teve um �mpeto de agarr�-lo pelo pesco�o, mas conteve-se. Limitou-se a preveni-lo de que as conseq��ncias por seu ato poderiam ser funestas. Alfredo deu uma gargalhada de deboche.
Quanto a Edgar, n�o lhe restava mais nada sen�o assistir a tudo resignadamente, de m�os atadas e incapaz de uma provid�ncia adequada. Sofria ao ver a ang�stia de Mario e a alegria de Olga em vias de um final infeliz.
O prazo dos dois meses estava quase se esgotando na ocasi�o em que Alfredo apareceu com um envelope fechado na m�o e dirigiu-se a Mario, ordenando com autoridade:
- Quero que leve esta correspond�ncia no endere�o indicado. Entregue nas m�os do destinat�rio e n�o diga nada. Se perguntarem, meu nome � Paulo de Andrade Vieira e voc� � funcion�rio de um escrit�rio que mantenho aqui em S�o Paulo. Para todos os efeitos, fico a maior parte do tempo em minha fazenda no Mato Grosso e o endere�o � este impresso no envelope timbrado. N�o fale mais nada, est� entendendo?
- Qual a sua inten��o? Ainda n�o est� satisfeito e agora quer me envolver em algum neg�cio escuso?
- Fa�a o que estou mandando. Em breve estar� livre de mim para sempre.
Diante da confirma��o de uma not�cia t�o alvissareira, Mario obedeceu. Ao chegar no local indicado, viu tratar-se de uma grande firma. Procurou pela pessoa, uma secret�ria, que atendeu-o em quest�o de minutos. Ela realmente fez algumas perguntas das quais Mario j� estava orientado a responder, abriu o envelope e leu a carta diante dele. Depois, acrescentou:
- Diga ao Sr. Vieira que providenciaremos o cheque para o pagamento do primeiro lote o mais depressa poss�vel. Vou falar agora com a contabilidade.
Que cheque? Que lote? Do que ela estava falando? Mario teve uma id�ia e subitamente desatou a tossir, sem parar. A mo�a levantou-se da escrivaninha, procurou bater em suas costas e indagou:
- O que houve?
Com uma das m�os na cabe�a e inclinado para a frente, mal conseguiu responder:
- Creio que me engasguei, n�o sei. Por favor, me arranja um copo d'�gua.
No instante que a secret�ria saiu numa desabalada carreira para atender-lhe o pedido, Mario alcan�ou a carta e leu-a. Que malandro! Usara sua m�quina de escrever, mas o papel timbrado e o carimbo ele trouxera consigo. Dizia a respeito de toneladas de soja que eram de sua propriedade e que, atrav�s daquele documento, estava autorizando sua retirada pela firma compradora. Ele jamais mencionara planta��es de soja em Mato Grosso. Era claro que tudo n�o passava de uma vigarice de enormes propor��es.
Ao ver a mo�a com o copo diante de si, tomou avidamente o l�quido e agradeceu. Saiu em seguida, com o desejo de estar longe dali o mais r�pido poss�vel. No �nibus, concluiu que podia ter solucionado o enigma mas de nada adiantava. Quanto menos se envolvesse nas falcatruas do patife, melhor. S� lhe restava a esperan�a de se ver livre de sua nociva companhia o quanto antes. Ainda que tivesse a oportunidade de passar as noites ao lado de Edgar, era um pesadelo saber que o malandro se encontrava sozinho na casa com Olga. Fora at� impedido de trocar os lugares, ele recusara-se a mudar de quarto e isso causou uma apreens�o maior ainda. Teria ele ainda alguma outra finalidade, que desconheciam? Na incerteza, Edgar e Mario tamb�m se revezavam � noite, mantendo-se despertos e fazendo rondas em volta da casa. Olga n�o encontrava explica��es para a constante cara de sono dos dois, mas pouco se importou, na realidade. A pobre mulher se encantava dia a dia com Alfredo, passando quase a viver em fun��o dele. Que ningu�m se atrevesse a falar uma �nica palavra atravessada a seu respeito, ele ficava furiosa. Como j� se tornara um h�bito, procurava sempre fazer seus gostos e n�o se importava com o prolongamento da visita. Mas o dia da desilus�o chegou antes que os tr�s esperavam. Alfredo apareceu tarde da noite, em completo estado de embriaguez. Fazendo de conta que n�o notara, ela recebeu-o com a amabilidade de sempre e perguntou onde estivera. Para seu sobressalto, recebeu uma resposta grosseira:
- N�o � da sua conta. Estou cansado de dar satisfa��es.
Alfredo foi direto para o frasco de vinho e entornou a bebida num copo, derrubando parte na toalha de linho da mesa. Olga abandonou a sala e foi procurar o filho, completamente espantada com a cena. Parecia que o telhado desabara sobre sua cabe�a. Tentou se recompor, ao encontr�-lo conversando com Edgar, no quarto:
- O que houve, m�e?
- O Alfredo chegou. Est� embriagado e foi malcriado comigo. D� para acreditar? - respondeu com a voz tr�mula.
Preocupado com o que poderia surgir numa discuss�o com um indiv�duo t�o perigoso e indiscreto, Mario redarg�iu, em tom determinante:
- A senhora vai para seu aposento, tranca a porta e n�o sai de l�. Deixa ele por minha conta.
- Por favor, n�o v� mand�-lo embora. A bebida deixa qualquer um assim. N�o sabemos o que sucedeu, de que maneira ele foi perder o controle desse jeito. Pode ter uma explica��o plaus�vel.
- Fique tranq�ila. Colocaremos ele na cama e dormiremos na sala, s� por precau��o. Est� bem assim?
- � a melhor coisa a fazer. Tenho certeza que amanh� esclareceremos tudo de forma satisfat�ria.
Olga voltou para a casa, subiu silenciosamente as escadas e entrou em seu aposento. Enquanto isso, os dois rapazes foram para a sala. Edgar apressou-se em ligar uma m�sica qualquer em altura consider�vel, mas ainda escutou:
- Que est�o os dois pederastas fazendo aqui na sala? Querem me ensinar pontos de croch� ou tric�? - Alfredo deu uma gargalhada. Tinha a voz pastosa e falava com dificuldade, enrolando as palavras.
- N�o acha que est� na hora de ir dormir? J� bebeu demais.
- De jeito nenhum - Alfredo entornou o resto da bebida que tinha no copo - quero beber at� cair!
- Voc� est� fazendo um esc�ndalo, vai despertar os vizinhos - Edgar interferiu.
- Ora, ora... Quero falar com voc�, seu bicha. Como pode ter a coragem de seduzir um pobre rapaz inocente como ele? - Alfredo apontou para Mario.
- Aqui ningu�m seduziu ningu�m.
- Por favor, Edgar. A gente n�o pode dar corda para um b�bado. Vamos esperar que ele caia desmaiado. A� ficamos sossegados.
- Seu viado! Estou procurando te proteger e voc� se vira contra mim?
O falat�rio era intermin�vel. Resolveram ag�entar calados por um bom tempo, at� que Alfredo cansasse e fosse para o quarto. No fim, exaustos, se estiraram no sof�, cada um de um lado, e ca�ram no sono.
De manh�, Mario explodiu em prantos, desabafando com Edgar. N�o podia mais ag�entar aquilo, n�o iria suportar aquele homem dentro de sua casa nem por mais um minuto.
- Acordei de madrugada, fiquei remoendo minha mente e surgiu uma id�ia - Edgar respondeu, enquanto acompanhava Mario atrav�s do quintal.
- O que?
- Ao que tudo indica, ele planeja aplicar um grande golpe nessa firma onde voc� foi outro dia entregar aquela carta. E se armou uma arapuca, deve ter armado outras. A gente poderia ir at� a pol�cia e tentar levantar uma folha corrida. � bem prov�vel que tenham um dossi� completo a seu respeito. Sabendo de seu passado, que deve estar mais sujo do que pau de galinheiro, poderemos reverter a chantagem.
Mario achou boa a id�ia. Atrav�s do aux�lio de uma amiga que trabalhava dentro do departamento de pol�cia, atingiram seu objetivo. Pediram duas fichas, uma no nome que ele usara para se apresentar a Olga e a outra no nome de Paulo de Andrade Vieira. O quebra-cabe�as foi rapidamente montado. Como n�o era de se surpreender, em ambas veio a informa��o de que aqueles nomes eram fict�cios, usados para encobrir a verdadeira identidade de Jos� Aparecido de Souza, foragido da pol�cia. Seguiam-se a rela��o de crimes, processos e os relatos de golpes aplicados em diversas cidades do vale do Para�ba. Fals�rio, al�m de estelionat�rio, tinha fugido h� alguns meses da cadeia de Taubat�. Cumpria pena de doze anos e n�o completara nem sequer tr�s meses atr�s das grades.
Naturalmente, o investigador de plant�o quis saber a raz�o porque eles estavam obtendo dados de um foragido da pol�cia, e Mario contou a verdade, pelo menos em parte. Afirmou que o indiv�duo estivera em contato com eles, com a inten��o de aplicar algum golpe, e que provavelmente ele voltaria a aparecer. Caso isso acontecesse, dariam imediatamente conhecimento � justi�a. Com esse compromisso assumido, os rapazes abandonaram o pr�dio da Seguran�a P�blica e pararam para comemorar na cal�ada. Estavam exultantes e certos de que o drama se aproximava do fim. Encontraram Olga ocupada com algumas roupas na lavanderia e Mario inquiriu:
- Como a senhora conheceu o Alfredo, mam�e?
- J� contei isso, foi na casa de tia Ana.
- E como ela o conheceu?
- N�o me ocorreu fazer-lhe essa pergunta, mas acredito que devem ser amigos de inf�ncia, talvez.
- Como a senhora est� se sentindo em rela��o a ele?
- Ah, estou muito magoada. Apesar de voc�s ligarem o som alto, ontem a noite, pude ouvir os gritos dele. Isso n�o � coisa que se fa�a na casa dos outros. Foi uma imensa decep��o ver que uma criatura como ele, t�o cordial e af�vel, p�de ser capaz de se embriagar e dar um espet�culo daqueles. E n�o consigo esquecer que ele me maltratou.
Constatando que, afortunadamente, Olga n�o mais iludiria-se com o criminoso, Mario continuou:
- Onde ele est� agora?
- N�o sei, ao certo. Ele se levantou, veio at� a cozinha j� arrumado, me cumprimentou com a cara mais deslavada do mundo e saiu. Se comportou como se nada tivesse acontecido...
- Ent�o vamos aproveitar para ligar para Bauru. Fale com tia Ana e pergunte a respeito dele.
Olga concordou com a sugest�o, pois j� conclu�ra que a conduta daquele homem n�o se harmonizava com o que presenciara anteriormente. Enxugou as m�os no avental e encaminhou-se para a sala, seguida pelos rapazes. Ao completar a liga��o, o que se ouvia mais era oh!, ah!, que coisa! Depois que ela desligou o telefone, explicou:
- Esse Alfredo ela conheceu h� quest�o de meses, quando ele deu os ares de sua gra�a oferecendo-se para prestar esclarecimentos a respeito de umas a��es que ela comprara. Quem o indicara havia sido a pessoa com quem ela fizera a negocia��o. Como era muito am�vel, convidou-o outras vezes e rapidamente ele tornou-se um ass�duo freq�entador da casa. Mas tia Ana afirmou que ele sumiu h� um m�s e nem sequer um telefonema ela recebeu.
- L�gico, ele estava aqui. E nem sequer avisou-a que viria visitar a sobrinha!
- J� compreendi tudo - Edgar deduziu  - Naturalmente, ao fugir da pris�o no vale do Para�ba, escolheu um lugar bem longe para se esconder, mas n�o tanto que n�o desse condi��es para farejar novas chances de golpes. E Bauru � um lugar ideal, fazendeiros abastados, o dinheiro sobra na regi�o. Nesses meses todos deve ter ficado estudando a cidade e os cidad�os mais suscet�veis. Ao conhecer Dona Olga, e concluir que da casa dela poderia fazer conex�es com as grandes empresas de S�o Paulo, ele veio para c�. Protegido sob uma fachada de respeito, alcan�aria alguns coitados que fisgassem sua isca sem atrair o olhar da pol�cia.
- Esperem a�. Do que � que est�o falando? - Olga interrompeu Edgar que, sem pestanejar, mostrou-lhe o papel em suas m�os, explicando-lhe a descoberta.
- Ele � um tremendo de um pilantra, mam�e.
- Ent�o vamos denunci�-lo imediatamente � pol�cia!
- N�o - Mario titubeou - seria melhor que ele sa�sse da mesma forma como chegou. A senhora vai querer se ver envolvida num esc�ndalo?
- Que importa! J� imaginou se todo mundo ficasse preocupado com isso? N�o haveria ladr�o na cadeia.
- Pode deixar que n�s falamos com ele, Dona Olga - Edgar insistiu - Como justificar a ida de Mario naquela firma? A pol�cia na certa vai acus�-lo de cumplicidade e at� explicar que focinho de porco n�o � tomada, passar� por uma situa��o desconcertante, principalmente na delegacia.
Diante de tal argumento, n�o havia outra sa�da. Por�m Olga n�o mais desejava ver a cara de Alfredo em sua frente. Foi para o aposento, arrumou-se e saiu, dizendo que permaneceria na casa de uma amiga at� que os rapazes o colocassem para fora. O mais importante de tudo, considerou, era manter Ana informada a respeito do ocorrido. Telefonaria imediatamente para Bauru.
Ao chegar, Alfredo deu de cara com Mario e Edgar na sala. Indagou, displicentemente:
- N�o foram trabalhar hoje?
- Chegamos � conclus�o que n�o d� para tolerar voc� aqui dentro desta casa nem mais um segundo. Queremos que caia fora e jamais volte aqui novamente - Mario mostrou-se determinado.
- Suponho que esteja sendo precipitado. Quer que eu refresque a sua mem�ria um pouco?
- Quem est� precisando disso � voc�, Sr. Jos� Aparecido de Souza.
- Ent�o descobriram meu verdadeiro nome? - Alfredo esbo�ou um sorriso amarelo.
- N�o apenas isso, como tamb�m o que fez e as contas que precisa prestar � justi�a.
- Se est� tentando me intimidar, meu caro, engana-se totalmente. Pensa que convencer� a anci� com essa hist�ria?
- Respeito ao referir-se a minha m�e!
- Como j� disse, ela est� totalmente caidinha por mim. Ser� a minha palavra contra a sua. Al�m disso, vai virar-lhe as costas no instante em que souber o que est�o fazendo. Voc�s n�o passam de dois pederastas.
- Acha, ent�o, que continua com a bola toda? N�o percebeu que foi desmascarado?
Alfredo permaneceu no mesmo lugar, sem se alterar, querendo transmitir a impress�o de estar dominando a situa��o da mesma maneira de antes.
- Precisam de tratamento, voc�s s�o doentes, me causam repulsa. Pensam que podem levar adiante essa pervers�o?
Edgar percebeu que Alfredo se agarrava ao �nico trunfo que tinha em m�os, mas a hist�ria chegava ao fim. Necessitava apenas conservar a calma e aplicar o golpe fatal:
- Voc� n�o vai sair ileso como pensa. Bastam apenas duas palavras ao telefone. Cumprir� uma bela temporada naquele fino balne�rio em Taubat�.
- Voc�s acham que s�o muito espertos, n�o �? - Alfredo pronunciou as palavras sem a mesma firmeza de antes, estava l�vido - Pretendem me denunciar?
- � o nosso dever de cidad�o! - Mario mostrou-se incisivo.
- N�o teriam coragem de se meter com a pol�cia. N�o t�m conhecimento do que fazem com depravados iguais a voc�s?
- Sabemos muito bem ao que voc� se refere - Edgar interferiu - Mas n�o temos outra sa�da. Ali�s, est� batendo muito na mesma tecla. O que ser� que aconteceu com voc�, quando esteve atr�s das grades? Caiu nas gra�as de algum colega de cela?
Alfredo deu uma gargalhada, demonstrando nervosismo diante da situa��o. Era um ind�cio de que Edgar atingira o alvo em cheio. Notando que sua observa��o fora acertada, ele insistiu:
- Temos informa��es a respeito de suas atividades criminosas e agora de certas particularidades bastante interessantes. Como v�, estamos no mesmo barco. O que voc� temia, aconteceu.
Al�m de mau car�ter, Alfredo jamais seria apanhado pela falta de ast�cia. Concluiu finalmente que a parada estava perdida e era hora levantar �ncoras. Trocou apenas mais algumas r�spidas palavras, disse um ou dois improp�rios, mas tratou rapidamente de ir arrumando seus pertences. Minutos depois encontrava-se fora da casa. N�o deixou, entretanto de fazer um gesto obsceno antes de desaparecer de vista.
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