| Cap�tulo 10 - Um Disfarce Torna-se Rotina |
| Mario saiu da cama de mansinho, de maneira a n�o permitir que Edgar despertasse. Caminhou at� a janela e observou a extens�o de terra � sua frente. De relance, lembran�as de um passado alegre veio-lhe � mem�ria. Existia uma grande �rea verde nos fundos da casa, um lugar que sempre merecera uma aten��o especial de seu pai, enquanto vivo. Lembrou-se da dedica��o extrema que ele tinha pelas plantas e do quanto se orgulhava com os elogios. Dominando um raro conhecimento de bot�nica, preservara certas esp�cies de �rvores, tendo formado com suas pr�prias m�os um belo jardim ao redor. Amante da natureza, costumava reservar todo o tempo livre de que dispunha no embelezamento do local. Criara um extenso canteiro de rosas num lado e de cravos no outro, tinha especial predile��o por uma cole��o de samambaias e cuidava com afei��o de um viveiro de orqu�deas. A casa ficava em clima de festa na chegada da primavera, com flores enfeitando todos os cantos. Depois de sua morte, o lugar foi relegado ao completo esquecimento. Mario jamais ousou voltar a por os p�s ali, em virtude das recorda��es dolorosas que poderiam surgir, nem sequer se aproximando do port�o uma �nica vez. Quanto a Olga, vi�va com um filho para criar e atarefada com os deveres dom�sticos, n�o tinha condi��es de dar continuidade � jardinagem que a �rea rotineiramente recebia. Assim, pouca coisa restou da impon�ncia que ostentara no passado, quem avistasse ao longe pensaria ser apenas um terreno baldio. Mario pensou no pai, pela primeira vez ternamente, sem a dor que tanto lhe atormentara. Ausentava-se a tristeza de seu desaparecimento, apenas permanecia na mem�ria os doces momentos que passaram em fam�lia, juntos naquele recanto t�o apraz�vel na �poca. Aproximando-se do leito onde Edgar dormia, Mario despertou-o suavemente. J� era tarde, haviam perdido a hora e n�o tinham mais condi��es de visitar a exposi��o que planejaram no dia anterior. Depois do asseio pessoal, o rapaz muniu-se de coragem e resolveu levar Edgar para que conhecesse o que outrora fora um espl�ndido jardim. Depois de atravessar o port�o, puderam notar que o mato tomara conta de quase tudo. Restavam ainda algumas plantas ornamentais, as que tiveram for�a suficiente para resistir � a��o das ervas daninhas. As bem cuidadas trilhas entre os canteiros n�o existiam mais, nem havia sinal dos extensos pain�is em telas de arame utilizados para proteger as mudas dos passarinhos. O longo banco de madeira de lei, que seu pai fizera com as t�buas presenteadas por um amigo marceneiro, jazia num canto ao relento, corro�do por insetos. Notando a emo��o no olhar de Mario, Edgar comentou: - Ainda h� vest�gios deste local ter sido um belo jardim. - Caso o tivesse conhecido na �poca, ficaria impressionado com a habilidade de meu pai. Era ele quem cuidava pessoalmente, escolhendo as plantas ideais e o melhor espa�o onde coloc�-las. Depois de sua morte, somente agora consegui reunir coragem para invadir seu antigo espa�o. - Com sua ajuda, poderemos refazer tudo - Edgar sugeriu. - Talvez - relutou, com um forte suspiro. Em seguida, completou - Acho que ainda n�o estou preparado. Vamos voltar agora, pois meu est�mago vazio anda reclamando. Uma vez na cozinha, Edgar preparou um lanche refor�ado e Mario ajudou-o, arrumando a mesa. Sentaram-se e, depois de se fartar at� o limite, mergulharam numa conversa intermin�vel. Era tanta coisa que tinham a dizer um ao outro, tanto para desabafar. Pela primeira vez podiam trocar id�ias abertamente a respeito de um assunto que, em nenhuma circunst�ncia, foi considerado com quem quer que fosse, muito menos consigo mesmos. Pois, nem eles pr�prios admitiam a exist�ncia de um sentimento t�o forte e ao mesmo tempo t�o destitu�do de compreens�o pelas pessoas que o cercavam. Agora, tudo era diferente. A satisfa��o f�sica plena n�o era mais negada, sufocada. Mario confessou-lhe o terror que o dominava ao ver-se em desvantagem com os outros indiv�duos, que encaravam seu ato como perda da masculinidade. Era oprimente, motivo pelo qual desperdi�ara horas de sono, madrugadas inteiras remoendo-se entre as cobertas. Quanto a Edgar, reconheceu que as sa�das noturnas tamb�m se davam pelo mesmo motivo. E, no entanto, tudo n�o passava de uma apreens�o tola, cuja origem n�o tinha fundamento. Eram os outros que haviam estabelecido as regras, n�o eles. Tinham em seu poder a no��o exata da condi��o em que passavam a atravessar a partir daquele momento. Assim, n�o estavam se despedindo de suas posturas de homens. Apenas a forma de proceder na intimidade era diferente e, como seriam fatalmente rejeitados, conservariam o segredo guardado a sete chaves. O medo da repres�lia ocupava um lugar de destaque em suas mentes. Seriam c�mplices um do outro. Um s�lido pacto nascia, e atrav�s do qual poderiam viver em paz. Haviam conquistado a liberdade de ser quem realmente eram, pelo menos entre si. Os dias foram se sucedendo e o curso da vida seguiu seu ritmo habitual, com uma diferen�a singular. O relacionamento entre Edgar e Mario deixou de ser tumultuado, um passou a viver em fun��o do outro. Ajudavam-se mutuamente e, a partir de uma conviv�ncia sem culpas, suas virtudes ampliavam-se e seus defeitos eram corrigidos. A assiduidade com que se consultavam para qualquer assunto, mesmo o menos importante que pudesse parecer, acabou trazendo bons resultados. O passatempo preferido de Edgar n�o era outro sen�o a arruma��o do jardim. Como a �rea se descortinava da janela onde morava, ele resolveu cultivar as plantas novamente. Podou as roseiras que haviam resistido �s ervas daninhas, limpou os canteiros e os caminhos. � medida que lhe sobrava um tempo livre, era l� que podia ser encontrado. O espa�o recuperava aos poucos o vi�o de antes. Novamente ocupado com os estudos, pois o ano letivo tivera in�cio, Mario n�o deu-se conta da nova atividade de Edgar. Mas, na primeira ocasi�o, o rapaz mostrou-lhe os resultados de seu esfor�o, as pequenas mudas que come�avam a crescer e toda a �rea em ordem. - Fico contente por voc� se preocupar com o jardim. Significa muito, tanto para mim como para minha m�e tamb�m. - J� notei isso. Sabia que iria gostar. E mexer com a terra � muito gratificante, faz bem para a minha cabe�a, principalmente quando estou sozinho. Evito pensar em bobagens. - Do que est� falando? N�o vejo raz�o para mau agouro. - �s vezes passa pela minha cabe�a que minha vida est� certinha demais. Tudo como eu desejava, sem nenhum percal�o. D� a impress�o que, a qualquer momento, tudo pode mudar. - Credo! Bate na madeira! Me aborrece falando assim. - Tem toda a raz�o. Que besteira, a minha. Onde j� se viu? Deveria estar � mais agradecido. - Claro. Deve afastar as id�ias pessimistas e ter em mente somente coisas boas. Algo que, ali�s, teremos daqui por diante. Voc� e eu. Arranjaram um lugar para sentar e, com o sol brilhando timidamente, puseram-se a falar sobre o tema preferido: o sentimento forte que nascera entre ambos e a vontade de gritar aos quatro cantos do mundo o quanto eles estavam satisfeitos e realizados. N�o foi necess�rio contratar outro atendente para a loja, pois Mario passou a dedicar todo seu tempo de folga ao local. Tempo esse que agora era maior, pois seu procedimento mais racional com os estudos permitiu-lhe constatar que grande parte das horas gastas no col�gio haviam sido sem utilidade. Por outro lado, Edgar oferecia sua experi�ncia com os livros e passou a ser um fator fundamental para o bom desempenho do amigo nas aulas. Esse tratamento subitamente t�o diferenciado chamou a aten��o de Olga, que retornara de uma viagem que aparentemente era a causa de uma forte altera��o em sua maneira de ser. Mudara de atitude, tornara-se mais vaidosa, passando a freq�entar o cabeleireiro e a vestir-se com mais crit�rio. Conversava horas seguidas a respeito do interior e os parentes que visitara. Ao mesmo tempo, observava com bons olhos a mudan�a dos dois rapazes. Sem jamais avaliar a real situa��o, sentia-se feliz com um entrosamento no qual ela imaginava que dificilmente pudesse acontecer. Edgar e Mario, mal sa�dos da fase adolescente, n�o tinham no��o da seriedade de um envolvimento amoroso, sobretudo em circunst�ncias t�o adversas. Era a paix�o fulminante, a necessidade de estar rigorosamente juntos a todo momento, o olhar, o contato indispens�vel, a afei��o constante. Como agravante, tinham a inc�moda sensa��o de isolamento do mundo externo, criando barreiras intranspon�veis. Seus amigos namoravam as meninas e suas amigas namoravam os meninos. N�o conheciam algum menino que estivesse apaixonado por outro menino. A lei da sociedade ditava as normas incontest�veis, os sexos opostos determinavam a �nica forma existente de amor, qualquer coisa fora desse padr�o sofria restri��es impiedosas. Como conseq��ncia, continuavam a mergulhar numa rotina de segredos e a depend�ncia de um para o outro avolumava-se a cada dia. Como ambos se completassem perfeitamente, sem necessidade de interfer�ncia externa, acharam por bem dispensar outras amizades. Arnaldo chegou a fazer diversos telefonemas para convidar Edgar a festas ou bares mas, reconhecendo que o amigo usava de respostas evasivas, aos poucos foi se distanciando at� n�o mais se verem. Quando os compromissos da rotina di�ria afastavam os dois rapazes do conv�vio lado a lado, era uma cat�strofe sem igual. A falta da companhia protetora adquiria contornos insuportavelmente angustiantes. Mario passou a detestar as aulas porque n�o tinha o companheiro ao lado e Edgar frustrava-se ao permanecer horas a fio sozinho na loja. Sentiam-se inseguros em tudo o que faziam separados e unicamente pr�ximos a afli��o dissipava-se. Uma vez ou outra tra�am-se perto de estranhos, muitas vezes com atitudes s� explic�veis entre casais de namorados. Mario faltava freq�entemente �s aulas apenas para permanecer mais tempo na loja e, na realidade, somente desligava-se de Edgar dentro do col�gio, pois este o acompanhava at� ao port�o todos os dias. Depois, voltava para peg�-lo na sa�da. Logicamente, tinham consci�ncia de que era preciso manter as apar�ncias, mas certas pessoas principiaram a notar que os dois eram vistos juntos com demasiada freq��ncia. Nada mais natural entre dois jovens amigos desvinculados de compromissos, mas n�o havia como justificar determinadas atitudes em p�blico. Descuidavam-se em pequenos gestos, tais como um r�pido afago no ombro ou um aperto de m�o excedendo os limites de tempo toler�veis. Algu�m que notasse um arrumando a mecha de cabelo do outro, que estivesse fora do lugar, tinha grandes possibilidades de maliciar. Na verdade, nada mais existia al�m de um para outro, a conjuga��o das duas vidas passou a ser permanente e n�o passava pela cabe�a de nenhum deles que tanta conviv�ncia lado a lado poderia levantar alguma suspeita. Um dia, ao chegar em casa depois do t�rmino do expediente na loja, os rapazes deparam-se com um estranho sentado na poltrona da sala de estar. Falava animadamente com Olga, que em seguida interrompeu a conversa e fez as apresenta��es. Tratava-se de um senhor corpulento, aparentando n�o mais do que cinq�enta anos, muito sorridente e bem vestido. Chamava-se Alfredo e vinha de Bauru, a cidade em que Olga mantinha la�os consang��neos e h� pouco visitara. Conheceram-se justamente na casa de sua tia Ana, onde ela se hospedara a maior parte do tempo. Muito prestativo e amigo da fam�lia, oferecera-se para fazer as vezes de cicerone durante os passeios pela cidade. - Alfredo foi muito atencioso comigo e, em retribui��o a tanta camaradagem, convidei-o a passar uns dias conosco - Olga demonstrava incomum satisfa��o com o visitante e seu aspecto de menina de col�gio lhe emprestava um ar jovial. Al�m disso, um leve pudor em suas maneiras evidenciava que algo al�m de amizade teria se iniciado entre os dois. - Achei t�o boa a id�ia de vir a S�o Paulo que nem pensei duas vezes. Poder viajar um pouco, ter alguma distra��o nas circunst�ncias em que me encontro � importante... - Alfredo completou, quase se desculpando. - Voc� tem toda a raz�o - Olga interrompeu-o e, virando para Mario, explicou - tem menos de um ano que Alfredo enviuvou. - Ah, meus sentimentos - Mario nada disse, al�m da t�mida express�o de costume. Alguns embara�osos segundos de sil�ncio invadiram a sala at� que Olga levantou-se e foi para a cozinha, dizendo que iria passar um caf�. Alfredo perguntou como estavam os neg�cios e Edgar fez um apanhado geral sobre o que era o com�rcio de antig�idades. N�o tardou para que Olga voltasse com uma bandeja, estendendo as xicrinhas para cada um. Depois de bebericar o caf� com certa cerim�nia, Alfredo puxou um ma�o de cigarros do bolso, ofereceu-o sem que ningu�m aceitasse e depois acendeu um. Soltou algumas baforadas para o teto e deu prosseguimento � conversa: - Gostaria muito de fazer uma visita a um antigo conhecido que mora em Santo Amaro. Voc�s tem id�ia de como chegar at� l�? - A regi�o de Santo Amaro � bem grande. Voc� tem o endere�o? - Olga perguntou e ele tirou do bolso um peda�o de papel onde liam-se as palavras: "Rua S�o Sebasti�o". Olga fez uma cara de curiosidade e Mario intercedeu: - Fica pr�xima ao centro, n�o � dif�cil de localiz�-la. Depois lhe explico onde pegar a condu��o. Alfredo agradeceu e deu a conhecer que n�o ficaria mais de tr�s dias na capital, tempo suficiente rever os amigos e tamb�m para as compras habituais. Mais do que isso seria importunar demais. Depois dos inevit�veis protestos de Olga, insistiu dizendo que alterava toda a rotina da casa com sua presen�a. Enquanto falava, Edgar deu-se conta de que estava diante de um verdadeiro cavalheiro, com maneiras suaves e gestos elegantes. Muito a prop�sito, trajava um conjunto de palet� e cal�as em cores discretas e combinando entre si. Seus sapatos eram bem engraxados e, num dos dedos da m�o esquerda, trazia uma alian�a de ouro a qual ele dava a impress�o de desejar esconder na maior parte do tempo. Pouco depois, Edgar pediu licen�a e retirou-se da sala. Cansado do trabalho do dia, desejava tomar uma boa ducha para reanimar-se. Mal entrara no chuveiro e Mario apareceu, batendo na porta do banheiro: - Quero falar com voc�, vai demorar? - Entre, n�o est� trancado. Enquanto Edgar se ensaboava, Mario foi falando, com entusiasmo: - Voc� sabia que, como temos visita, ter� que hospedar uma pessoa no seu aposento? - N�o me diga que Dona Olga quer que eu reparta o quarto com o coroa? - Edgar respondeu, espantado. - N�o seja tonto! Sou eu quem vai ficar com voc�. Minha m�e quer acomodar o Alfredo sozinho no meu quarto, assim ele ficar� mais � vontade. Enquanto isso, terei que compartilhar da sua am�vel companhia, do seu ronco, do seu chul�... Mario sentiu sobre a pele os pingos d'�gua que Edgar atirara do chuveiro e saiu apressado. Iria buscar algumas pe�as de roupa e os livros de consulta freq�ente, a fim de n�o ficar importunando o visitante a todo momento. Inesperadamente, sofreu uma ligeira vertigem ao cruzar o corredor que ligava a casa e viu-se obrigado a interromper os passos. Apoiou-se no muro e colocou uma das m�os na testa, no instante em que um s�bito escurecimento da vista deu-lhe a sensa��o de estar perdendo os sentidos. Contudo, recuperou-se mais r�pido do que imaginava e concluiu que precisava cuidar melhor de sua alimenta��o, o organismo fraco acaba dando rateadas espor�dicas. Dando pouca import�ncia ao fato, n�o achou oportuno comentar o incidente com ningu�m. Foi memor�vel o jantar naquela noite. Olga preparou um lombo de porco ao forno derretendo na boca de t�o saboroso e Alfredo trouxe de uma adega pr�xima duas garrafas de vinho argentino, uma raridade para a �poca. Por fim, ao se recolherem, ficou no ar a impress�o de que se conheciam h� tempos. O novo h�spede se portara de forma cativante. Os tr�s dias combinados passaram voando. Alfredo, que recebera orienta��es de Mario sobre como se locomover na cidade, sa�a bem cedo e voltava no final da tarde. Jamais aparecia de m�os vazias, ora com um buqu� de flores exuberantes, ora com pequenas caixas de chocolates finos. Fascinada com os galanteios, Olga insistiu para que ele prolongasse um pouco mais a estadia, n�o se justificava uma perman�ncia t�o curta. Alfredo cedeu ao pedido e aceitou de bom grado. A acolhida era por demais amistosa. N�o s� por Olga mas tamb�m pelos rapazes prestativos e atenciosos, que viam em sua pessoa um meio pela qual podiam desfrutar de uma intensa intimidade. Numa tarde em que Edgar e Mario se encontravam na loja, Olga surgiu, cheia de pacotes. Sa�ra para fazer compras e aproveitara para escolher uma lembran�a para cada um. Surpresos com a gentileza, desembrulharam os presentes. Edgar ganhara uma camisa esporte e Mario, uma caneta da moda. Ao agradecer a amabilidade, Edgar comentou: - Novos ares invadiram aquela casa. Parece que fez bem para a senhora... - Se voc� est� se referindo a Alfredo, meu caro, n�o d� para negar que ele seja de uma simpatia imensa, estou errada? - Olga redarg�iu, de forma sorridente. - Mam�e, aposto que aconteceu muita coisa no interior que a senhora deixou de contar para a gente. Olga perturbou-se levemente mas n�o deixou transparecer, respondendo casualmente: - Se houvesse ocorrido algo que considerasse importante, eu teria comentado. - Mas o Alfredo demonstra tanta empolga��o, parece at� que est�o escondendo algo... - N�o h� motivo para tirar conclus�es precipitadas. Se voc�s querem realmente saber, ele ainda n�o se declarou... - Olga gracejou. - Ah, eu estou torcendo para que o desenlace ocorra em breve... - Voc�s est�o enganados, n�o � essa a inten��o dele. Mesmo porque enviuvou h� muito pouco tempo. - Ora, mam�e, n�o queira nos tratar como dois debil�ides. O homem vem fazer uma visita poucos dias depois de t�-la conhecido, fica uma semana comprando presentes, � simp�tico com todos, cativante, charmoso. N�o acha que existe uma raz�o mais forte para tudo isso? - N�o somos crian�as, nem eu nem ele. N�o se fica falando de amor assim como dois adolescentes, sem pensar nas conseq��ncias. Esse assunto fica mais s�rio � medida em que se passa dos cinq�enta. Al�m disso, j� me acostumei com a cama inteirinha para mim - Olga desconversou. - Ningu�m se acostuma com a solid�o, se conforma apenas - Mario retrucou sem pestanejar, consciente do que lhe ocorria no �ntimo. - Quer dizer ent�o que o meu filho aprova uma eventual uni�o? - At� o presente momento, n�o vejo nada que me impe�a de confiar em Alfredo. Acredito que seja um partid�o e pode faz�-la feliz... Olga n�o quis abrir o jogo inteiramente, mas, na verdade, ela atravessava uma fase de paix�o intensa. E n�o era para menos. Uma mulher na meia idade, come�ando a perder o vi�o da juventude, h� um longo tempo solit�ria e sem ter com quem repartir seus segredos, torna-se presa f�cil para qualquer galanteador. E Alfredo ia muito al�m disso, era merecedor de sua absoluta confian�a. Afinal, conhecera-o no seio na fam�lia, que o aprovava inteiramente. Existiria algu�m mais certo para abonar uma criatura do que sua tia Ana? No domingo, Alfredo desceu para o caf� bastante sorridente e encontrando todos reunidos a mesa. Trajava uma cal�a de linho bege que lhe ca�a muito bem, e uma camisa social com as mangas cuidadosamente arrega�adas, dando um ar mais esportivo e apropriado para a manh� ensolarada. Sentou-se discretamente numa das cadeiras vazias, com gestos s�brios mas sem nenhuma finalidade em exibir-se. Notava-se facilmente que eram maneiras espont�neas, a chamada educa��o de ber�o. Olga serviu-lhe o leite quente que retirara do fog�o e sentou-se ao lado. Na conversa que se seguiu, Alfredo manifestou o desejo de conhecer o Museu do Ipiranga, que sempre ouvira falar desde a juventude e sem que nunca surgisse uma oportunidade para visit�-lo. Todos concordaram que seria um bom passeio, n�o era t�o longe e dispunha de condu��o farta e r�pida na porta. O programa do dia estava garantido. Nos jardins diante do pomposo edif�cio Edgar cutucou Mario e comentou sobre o olhar apaixonado que o casal trocava. Caminhavam na frente, conversando animadamente. A qualquer momento Alfredo poderia passar o bra�o em volta do ombro de Olga, num gesto de carinho, o in�cio de um romance. Para quem estivesse passando, nada mais natural. Na mente de Edgar surgiu-lhe a id�ia de andar de m�os dadas com o amigo. Seria prodigioso, n�o fosse o absurdo. Provavelmente, atirariam pedras de todos os lados. No interior do museu, repararam no interesse de Alfredo pela exposi��o de carruagens, dando uma particular aten��o para aquelas usadas no tempo do imp�rio. Parecia extasiado com o luxo que vivia a monarquia, seus requintes e exageros. Poder e dinheiro. N�o havia limites para quem detinha tais privil�gios, chegou a comentar, com os olhos brilhando. Ao t�rmino da visita, aproveitaram para almo�ar num restaurante recomendado por Edgar. Localizava-se no in�cio da via Anchieta e era o local preferido dos pais em �pocas passadas, quando desfrutavam de bom relacionamento. A casa era pequena, mas muito acolhedora. Escolheram uma mesa pr�xima a um jardim de inverno, sentaram-se e se puseram a ler o card�pio. Enquanto decidiam os pratos, o gar�om trouxe uma cerveja e a colocou nos copos. Mario n�o se conteve e exclamou: - Vamos fazer um brinde ao nosso novo amigo! Os copos tilintaram, todos sorriram e Edgar inquiriu: - Voc� � nascido em Bauru? Por uma fra��o de segundo, quem sabe at� menos do que isso, Alfredo perdeu o semblante sorridente, mas recuperou-o em seguida. - N�o. Estou apenas h� tr�s meses na cidade. Venho de Uberaba. Com a morte de minha esposa, coloquei a venda a casinha onde mor�vamos e fui tentar uma nova carreira em Bauru. Sabe, depois de tantos anos de casamento, a separa��o da maneira como ocorreu d�i muito. Tinha vontade de n�o ver nada em minha frente que trouxesse o passado � mem�ria. - D� para compreender - Mario ponderou. - E a que voc� tem se dedicado? - Edgar perguntou e, novamente, Alfredo pareceu mudar a fisionomia. Mas foi respondendo em seguida: - Estou fazendo uma an�lise geral do que a cidade tem para oferecer. O que mais me entusiasma s�o as grandes �reas de pastagens e o gado de corte da regi�o. Como voc� sabe, Bauru praticamente � a porta de entrada para o Oeste brasileiro e promete um futuro promissor com a agropecu�ria. � bem prov�vel que esse seja o caminho certo. - Ent�o o seu plano � a compra de terras, tornar-se um fazendeiro? Se algu�m estivesse prestando bastante aten��o, seria capaz de jurar que, pela terceira vez, Alfredo demonstrara rapidamente que n�o lhe agradava aquele tipo de interrogat�rio. Com a chegada do gar�om para recolher os pedidos, o assunto foi descartado e n�o voltaram a falar mais nele. A comida provou ser excelente, Edgar foi elogiado por ter tido a id�ia do restaurante e o grupo mostrou-se plenamente satisfeito ao fim da refei��o. Acabaram voltando para casa pouco antes do anoitecer. |