| Cap�tulo 09 - Motivo para Comemora��o |
| A viagem foi coroada de �xito. Olga n�o cabia em si de contentamento ao ver a quantidade de objetos negociados. Eram caixas e mais caixas que completaram um estoque maior do que o previsto. O tempo gasto em Catanduva tinha sido muito bem aproveitado, elogiou. Portanto, n�o havia nada que os impedisse de inaugurar a loja, pois o aluguel do espa�o fora providenciado na aus�ncia dos rapazes. Com o in�cio da nova atividade, a exist�ncia de Edgar sofreu uma altera��o significativa. Dedicava-se com um entusiasmo incomum, adorava fitar a loja cheia de clientes e revelou-se um excelente comerciante. Entretanto, detestava dar satisfa��es a respeito de suas escapadas noturnas. Uma vez encerrado o expediente, entretinha-se com Arnaldo no bares at� altas horas da madrugada e voltava invariavelmente embriagado para casa. Como encontrasse sempre Olga e Mario dormindo, passava despercebido, contornando a casa pelo corredor lateral e evitando incomod�-los. Nas manh�s, sempre se apresentava disposto e pontualmente no hor�rio. Trabalhava como nunca e dormia pouco. Passaram-se meses sem que desse not�cias para a m�e e sem se importar com mais nada, a n�o ser a loja e as divers�es sem compromisso. Por�m deixou de se preocupar com a vestimenta e outras necessidades do dia a dia. As refei��es eram de responsabilidade de Olga e, muitas vezes, at� pasta de dentes ele pegava emprestado. Seu sal�rio se destinava aos prazeres da noite e, na medida em que era aconselhado a economizar um pouco, sempre afirmava que dinheiro guardado criava mofo. Quando chegava os fins-de-semana, Edgar dedicava-se a um intermin�vel jogo de cartas, sempre tendo Arnaldo como parceiro, o companheiro insepar�vel. Nas oportunidades de folga, Mario se juntava a eles. Jamais voltaram a abordar, nas conversas, o mesmo assunto que haviam discutido na viagem ao interior. O tema homossexualismo intimidava, nenhum dos dois ousava admitir quaisquer inten��es nesse sentido. Na verdade, n�o existia nenhum prop�sito em suas mentes, negavam-se a encarar o fato de que caminhavam implacavelmente para a identifica��o de suas sexualidades. E n�o havia hip�tese prov�vel de que acompanhariam a tend�ncia convencional. Por hora, os vest�gios da indecis�o teimavam em aflorar e tornava-se dif�cil dissimular. Optavam pela zombaria, camuflando a realidade com gracejos. �s vezes, durante as partidas, n�o resistiam a uma insinua��o maliciosa de relance. Contudo, instantaneamente, a transformavam em frivolidades que n�o comprometiam, sempre em tom de brincadeira. Arnaldo n�o entendia o que se passava e tudo acabava em risadas. Edgar n�o tinha consci�ncia de que ele e Mario se encontravam a um passo de uma intimidade maior. Procurava acreditar que estivessem atravessando uma fase passageira, que rapidamente caminhava para o final. Portanto, n�o havia sentido em queimar seus neur�nios � procura de solu��o para um problema fadado a desaparecer. Era poss�vel que, por essa raz�o, n�o levasse a s�rio a satisfa��o que experimentava com a presen�a de Mario, nem o aborrecimento causado com sua aus�ncia. Mas, at� quando continuariam impunes � provoca��o que ambos se sujeitavam? Habituaram-se a deixar o som ligado durante as disputas e n�o se furtavam a cruzar os olhares enquanto ouviam alguma can��o com letras sugestivas. Em virtude da indefini��o: "Seu olhar � simplesmente lindo, mas tamb�m n�o diz mais nada". Um pouco atrevido: "Quero a liberdade, quero o vinho e o p�o; quero ser a amizade, quero o amor, prazer". Ou mais perigoso: "Eu fa�o tudo o que voc� quiser, menos aquilo que voc� mais quer". �s vezes definitivamente avesso a qualquer tr�gua: "Eu te quero e n�o queres como sou, n�o te quero e n�o queres como �s". Os meses passavam e o impasse permanecia. A rejei��o � realidade estava sendo cruel com ambos. Afastavam-se um do outro inutilmente. Edgar refugiava-se na bebida, considerando-a uma distra��o, mas, no fundo, usando-a como vingan�a contra o causador de seu tumulto �ntimo. Sabia que nas longas madrugadas ausente, havia sempre � espera atrav�s de uma janela entreaberta, uma luz acesa no andar de cima do sobrado. Geralmente, Mario se comportava como se essas noitadas n�o o afetasse, mas era imposs�vel controlar a irrita��o. Isso acabava eventualmente resultando na troca de palavras �speras, muitas vezes doloridas. Por sua vez, ele mantinha-se longe de casa na maior parte do dia, muitas vezes permanecendo no col�gio sem necessidade. Uma pergunta curiosa de Edgar sobre suas atividades significava um triunfo sem compara��o. Era a revanche. Que estranho e angustiante jogo disputavam! Cada um mergulhado em seus pr�prios mundos de tormentas, afogando-se lentamente sem estenderem as m�os. E assim a vida prosseguia em sua rotina enfadonha. Aos olhos de Olga, tudo se desenrolava de forma espl�ndida. Simplesmente n�o havia motivo para preocupa��es. A loja fora inaugurada com sucesso, o movimento era satisfat�rio para um com�rcio que se iniciava. Contava com a coopera��o de Edgar e ele jamais a decepcionava. Sua conviv�ncia com Mario tamb�m n�o deixava nada a desejar, pelo menos aparentemente. N�o demonstravam nenhum atrito no relacionamento e mesmo a rivalidade inicial n�o existia mais. Devido � oportuna tranq�ilidade que perdurava, Olga sentiu-se encorajada a empreender uma viagem. Planejava visitar alguns parentes em Bauru, com a finalidade de tentar reatar a antiga camaradagem que existia entre eles. N�o que fosse de seu pr�prio desejo, mas olhava para o futuro do filho, na ocasi�o em que este se casasse e a necessidade que uma roda familiar mais ampla se tornasse evidente. A solu��o era voltar �s boas com Ana, irm� de sua m�e e muito influente nos destinos da fam�lia, cuja maioria residia no interior e girava em torno dela. No momento prop�cio, exp�s claramente suas inten��es aos dois rapazes, salientando que sua presen�a na loja n�o seria t�o importante antes que as f�rias escolares terminassem. Depois, com o aumento do movimento, j� estaria de volta. Preocupou-se em orient�-los a respeito das tarefas caseiras e em todos os detalhes que considerou indispens�veis durante sua aus�ncia, principalmente no que se referia � alimenta��o adequada e no hor�rio correto. O estoque de mantimentos era suficiente para durar o tempo em que estivesse fora, quanto a isso podiam ficar tranq�ilos. Quanto �s contas pendentes, deixava instru��es anexadas nos comprovantes de pagamento em cima da escrivaninha, era essencial que tanto Edgar como Mario conferissem diariamente os pap�is. Finalmente, garantiu que n�o permaneceria no interior por mais de quinze dias, quaisquer altera��es nos planos ela avisaria por telefone. Pronta para partir, ainda lembrou-se de uma s�rie de recomenda��es e despediu-se, confiante de que epis�dios desagrad�veis n�o ocorreriam. O filho encarregou-se de acompanh�-la at� a esta��o rodovi�ria. A maneira de Edgar e Mario portar-se realmente n�o poderia dar margem a contendas. Cada um cumpria sua obriga��o e, nos raros encontros, conversavam apenas o essencial. Os dias, sem sombra de d�vida, iriam transcorrer mon�tonos e indecifr�veis. Numa tarde de s�bado, Arnaldo deu o ar de sua gra�a, deixando transparecer uma vivacidade maior que a habitual e envergando um traje esporte bem alinhado. Muito falador, avisou que tinha em seu poder tr�s convites para a inaugura��o de uma casa noturna e fazia quest�o da companhia dos rapazes. Tratava-se de um misto de cabar� e discoteca, com m�sica ao vivo e pista de dan�as. Em sua empolga��o, ele explicou que o local destinava ser o atrativo da moda naquela temporada e que, de forma alguma, poderiam perder a chance de conhec�-lo. Vangloriou-se de ser amigo dos propriet�rios e oferecera-se para ajudar na promo��o. Como recompensa, ganhara as entradas com direito a bebida gr�tis. Como n�o poderia deixar de ser, foi enf�tico ao afirmar que ocupava um lugar de destaque no evento e n�o poderia falhar. De forma alguma. Diante de uma exposi��o t�o persuasiva, Edgar aprovou a id�ia e foi � procura de Mario, pois n�o desejava deix�-lo a s�s numa noite que prometia ser divertida. Contudo, como ele era avesso a esse tipo de lugar, j� sabia de antem�o que seria dif�cil convenc�-lo. Existia tamb�m outra agravante, haviam marcado um compromisso para a manh� de domingo. Era de se supor que ele n�o estivesse inclinado a desperdi�ar horas de sono, indo para a cama tarde e depois tendo que se levantar cedo, de ressaca ainda por cima. Em vista disso, decidiu usar um sutil estratagema: - A que horas tenciona ir � exposi��o, amanh�? - Acredito que seria bom chegarmos antes das nove horas, assim conseguimos os melhores lugares. Al�m disso, vai haver uma apresenta��o de cavalos de ra�a e eu n�o gostaria de perder - Mario falava sem olhar em sua dire��o, preocupado em dobrar uma camisa. - Bem, ent�o n�o tenho condi��es de acompanh�-lo. Deixarei para outra ocasi�o. - Por que? - largou a camisa em cima da cama. - Arnaldo trouxe dois convites para uma discoteca. A gente pretende esticar at� de madrugada, de forma que ficar� muito puxado para mim. - Ora, quantas vezes por semana voc� chega tarde da rua e bem cedo j� est� pronto para abrir a loja? Nunca perde a hora. - Compromissos profissionais s�o diferentes, a gente tem que levar a s�rio. A prop�sito, como sabe que chego tarde? Acaso anda me espionando? - perguntou com ar de assombro, como se n�o estivesse cansado de saber o que acontecia. - Acho que n�o se d� conta do quanto fica distra�do quando bebe. E dif�cil n�o escutar o barulho que faz. - Serei mais cuidadoso da pr�xima vez. Espero que se divirta no torneio, amanh� - Edgar abriu a porta e fez men��o de sair. Claramente irritado com a vis�vel falta de considera��o, Mario retrucou com a voz alterada: - Fa�a um bom proveito tamb�m! - � exatamente o que tenho em mente. Por isso n�o terei o prazer de sua companhia no domingo. - Se realmente fosse a sua vontade, faria um esfor�o. Mas, como n�o passo de uma pessoa insignificante, n�o vale o sacrif�cio. E, com certeza, n�o iria adiantar nada pedir que adiasse esse passeio com o Arnaldo. Ainda por cima, nenhum dos dois se importa comigo, nem me inclu�ram nos planos. Constatando com satisfa��o que Mario reagia de acordo com o previsto, Edgar afirmou: - Se desejar, pode perfeitamente ir com a gente, dou um jeito de arranjar uma entrada extra. - Bem que gostaria de participar do passeio, mas n�o vou. Me colocou numa posi��o humilhante. Vai dar um jeito para o coitadinho n�o ficar abandonado? Al�m disso, jamais iria de oferecido. - Gostaria mesmo de ir? - Claro, mas n�o nessas circunst�ncias. Usando suas palavras, deixa para outra ocasi�o - Mario ironizou. - � brincadeira, seu bobo. Voc� tamb�m foi convidado. - Do que est� falando? - N�o falava s�rio. O Arnaldo trouxe tr�s convites, ele n�o te esqueceu. Como v�, foi injusto com ele. Mario fitou-o meio desconfiado e, depois de uma pausa, argumentou: - Ainda bem que me d�o algum valor, diga ao Arnaldo que fico grato. Seja como for, vai ser muito puxado para mim. Prefiro n�o acompanh�-los. - Est� bem, ent�o. N�o adiantou todo o meu esfor�o para armar esse jogo de faz-de-conta, cuja �nica finalidade era convenc�-lo a juntar-se a n�s. Depois n�o venha me acusar por n�o ter me empenhado em favor de nossa amizade. - Calma, n�o seja t�o radical assim - Mario reconsiderou. Nesse instante, ouviu-se a voz de Arnaldo: - Tem algu�m a� em cima? Vamos nos atrasar. - Decida-se logo - Edgar apressou-o. Pressionado, Mario acabou concordando. Em seguida, deram a resposta: - Estamos descendo! N�o podiam acreditar em seus olhos, era um verdadeiro pal�cio transformado em discoteca. O pr�dio, antiga matriz de um banco que se mudara para novas instala��es na avenida Paulista, foi reformado inteiramente, de modo a se ajustar � nova finalidade. N�o perdeu, entretanto, seu ar imponente. Pelo fato de localizar-se nas imedia��es do centro, onde as ruas eram estreitas em sua maioria, encontraram uma confus�o enorme na entrada. O tr�nsito congestionado contribu�a para aumentar a impress�o de que metade de S�o Paulo fora convidada para a inaugura��o. Quase n�o se podia andar, tal a aglomera��o de curiosos no port�o principal. Com seu jeito mais extrovertido, Arnaldo ia abrindo passagem dizendo ser funcion�rio da casa e trazendo consigo os dois amigos. Quando menos esperavam, se encontraram dentro do recinto. Tudo em torno era majestoso, onde predominava o luxo em cada canto para onde quer que olhassem. Haviam sido mantidos diversos detalhes da decora��o, em meio a uma enorme pista de dan�as e palco com avan�ado sistema de ilumina��o. De ambos os lados, separados por colunas com not�veis detalhes esculpidos, podiam observar as mesas em planos mais elevados. Caminharam at� o bar, isolado por vidros magnificamente desenhados e que impediam a passagem do som da pista. Sobre um material fosco, de cor negra, que cobria todas as paredes, destacavam-se ornamentos em dourado. No conjunto, o aspecto era fenomenal, nunca se vira nada igual na cidade. Arnaldo sumiu por um instante, reaparecendo pouco depois com dois copos na m�o. Entregou um para Edgar e foi falando, excitado: - Gente, voc�s n�o acreditam no que eu vi na outra ala! Dan�arinas de topless rebolando em cima do balc�o! E o pessoal colocando dinheiro nas ligas delas, uau! No instante em que a banda come�ou a tocar no palco, a anima��o tomou conta de todos. O pessoal se agitava de acordo com o ritmo da m�sica e os gar�ons faziam malabarismos para cruzar o sal�o, equilibrando bandejas cheias de copos. Foi nessa oportunidade que Mario tamb�m conseguiu se servir. A aglomera��o parecia ter um volume cada vez maior e, notando que muita gente conversava alegremente nas mesas, Edgar sugeriu arranjar um lugar para que eles sentassem. - Nem por todo o dinheiro do mundo! - Arnaldo indignou-se. - Est� maluco? No auge da anima��o vamos ficar sentados? - Mario acrescentou. A movimenta��o j� estava passando do limite suport�vel. Retornaram com dificuldade para pr�ximo a pista de dan�a, apreciando o desempenho surpreendente dos m�sicos. Havia um que parecia estar alucinado, pois se contorcia todo para extrair sons esquisitos da guitarra e depois dava alguns berros no microfone. Preocupado com o copo vazio, Edgar afastou-se dos amigos, avisando que iria at� ao bar. No caminho, esbarrou com uma garota que reparara antes, pois mostrava-se animad�ssima. Ela agarrou seu colarinho e deu-lhe um beijo na boca, sem a menor cerim�nia. Depois, sussurrou em seu ouvido: - N�o tirei os olhos de voc� desde o momento que chegou... Edgar fez que n�o ouviu e continuou em seu caminho, na dire��o do bar. Serviu-se de uma dose caprichada de u�sque, tomou um gole e apoiou o cotovelo no balc�o, aproveitando para observar o movimento. Notou que muita gente j� n�o perdia tempo, tal o n�mero de casais se beijando nos cantos. O tempo corria. Ele n�o encontrou disposi��o para repetir o mesmo caminho de volta, era por demais penoso enfrentar a multid�o de lun�ticos. Repetiu a bebida algumas vezes, distra�do com a empolga��o generalizada e nem percebeu a hora passar. O lugar mais garantido era pr�ximo ao bar, onde podia ser abastecido a todo momento. De repente, identificou a figura de Arnaldo no meio da turba, caminhando em sua dire��o. - Nossa, pensei que n�o fosse mais encontr�-lo, tem gente saindo at� pelo ladr�o - puxou pela manga da camisa o primeiro gar�om que avistou, pedindo-lhe bebida. - Onde est� o Mario? - Edgar denotou apreens�o. - Ele encontrou um amigo e deixei os dois l� na pista, conversando. Estavam t�o animados que aposto, nem devem ter percebido que sa�. Vamos conhecer o mezanino? Edgar acenou afirmativamente e disp�s-se a segui-lo, esfor�ando-se para n�o perd�-lo entre a massa de corpos. O ar condicionado n�o estava mais dando conta, tal o n�mero de criaturas que se acotovelavam, umas sobre as outras. Era in�til pedir passagem, todos os espa�os estavam ocupados. - Espero que tanta algazarra n�o seja motivo para a gente ficar muito tempo separado, um do outro. Vai dar problema na hora de ir embora - Edgar teve que gritar em seu ouvido. - N�o deve se preocupar com isso. Todos somos maiores e vacinados. N�o tem a chave da casa? - Claro. Mas, de uma certa forma, me sinto respons�vel por Mario. - S� porque o convidou? N�o tem sentido. O mais correto a se fazer neste momento � deixar a preocupa��o de lado e cair na farra. N�o foi para isso que veio? - Arnaldo virou-se - � melhor desistir, n�o conseguiremos avan�ar mais. - �timo. Vamos voltar para o bar. - Tem uma fartura impressionante de mulher daquele lado. Me acompanhe - Arnaldo n�o conseguia conter a anima��o. Entretanto, Edgar n�o deu-se por vencido. Colocara na cabe�a que sua obriga��o era manter Mario sob seu campo de vis�o e insistiu que o trio devia permanecer unido. Sem hesitar, dirigiu-se � pista, prometendo que retornaria ao bar t�o logo o encontrasse. Depois de muito esfor�o, alcan�ou o sal�o principal e, para seu al�vio, ali estava Mario. Encostado numa das pilastras, conversava animadamente com um sujeito cuja apar�ncia lhe causou uma avers�o instant�nea. De mau grado, aproximou-se e indagou-lhe ao ouvido, em parte porque o som estava muito alto e, por outra raz�o, n�o queria que o desconhecido escutasse: - Vamos nos reunir com o Arnaldo, l� no bar? Surpreso com a aproxima��o inesperada, Mario afirmou que preferia permanecer ali, pois conversava com um colega do col�gio. Edgar insistiu, numa evidente falta de tato. Contrafeito, Mario aquiesceu e, meio constrangido, despediu-se polidamente do rapaz e passou a acompanhar o amigo, em dire��o ao bar. Entretanto, o estranho agarrou-o pelo bra�o e falou-lhe rapidamente algo inaud�vel. Ele voltou-se e disse para Edgar: - Pode ir na frente, daqui a pouco encontro voc�s. Sem nada responder, Edgar voltou para o lado de Arnaldo, desta vez encontrando-o agarrado a uma garota que, pelo visto, acabara de conhecer. Com uma das m�os, acariciava seus cabelos e, com a outra, enla�ava-a pela cintura. Era bem vis�vel sua excita��o, pois sorria sem parar. Sem desejar incomod�-los, contornou-os discretamente e foi sentar-se no lado oposto do balc�o. No meio da intermin�vel algazarra, pediu outra bebida, com uma falta de entusiasmo angustiante. No primeiro gole, sentiu que ela fizera um efeito de grande utilidade. Mas, ainda assim, n�o obtivera sucesso total em afrouxar sua tens�o. Conferiu as horas, eram duas e trinta. O tempo se arrastava. Sentiu-se sozinho e isolado, apesar da multid�o ao seu redor. Ao longe, notou que Arnaldo continuava se divertindo com a garota, mas nem sinal de Mario na �rea. Avistou tamb�m a mo�a que lhe roubara um beijo. Estava num dos cantos, entretendo-se com outro rapaz que teimava em agarr�-la. Ao notar o olhar de Edgar em sua dire��o, ela fez cara feia. Outra hora se passou. Pediu mais uma bebida forte, esvaziando o copo num s� gole e sem, desta vez, alcan�ar o resultado esperado. N�o conseguia compreender porque algu�m como ele, um f� incondicional da noite, n�o se soltava, permanecendo amuado no canto. Tendo a mente no vazio, concluiu que chegara o momento de abandonar o local. Mas sairia sem despedir-se de ningu�m, sorrateiramente. Afinal, divertiam-se sem fazer quest�o de sua presen�a, no embalo que a discoteca proporcionava. Passou pelo hall, procurou por Mario em v�o e saiu para a rua. Havia come�ado a chover. Como n�o conseguisse um t�xi, foi subindo a p� pela avenida, protegendo-se sob as marquises. Sentia-se incomodado. Em passos firmes e r�pidos, atravessou a pra�a deserta. Por que raz�o n�o tirara partido do ambiente, a bebida gr�tis e com tanta gente descontra�da ao redor? Era de se surpreender. No fundo, sabia que a falta de est�mulo era causada pela presen�a de Mario na multid�o, consciente de que o rapaz desprezara sua companhia e a trocara por outra. Mas porque dar tanta import�ncia ao caso? Deu-se conta de que era um desperd�cio de tempo concentrar seus pensamentos numa pessoa indigna de sua considera��o. Afinal, Mario nem sequer dirigiu-lhe a palavra uma �nica vez, n�o se cruzaram na maior parte do tempo. Sua indiferen�a perturbava fortemente. Edgar j� estava embaralhando os pensamentos, sentia a cabe�a rodar. Chegou em casa desanimado, despiu-se e colocou toda a roupa que usara para lavar, estavam fedendo a fuma�a de cigarro. At� a cal�a exalava um cheiro forte. Ao entrar no chuveiro, sentiu-se relaxado, a sensa��o da �gua quente caindo em sua pele trouxe-lhe a lucidez de volta e ele demorou-se no banho mais do que de costume. Logo que saiu, verificou se a janela de Mario estava iluminada. Negativo. Entrou no quarto, fechou a porta e jogou o roup�o sobre a cadeira. Por fim, desligou o abajur ao entrar debaixo das cobertas. O sono n�o vinha. Voltou a pensar o quanto a noite fora desperdi�ada e concluiu que, afinal de contas, as outras n�o tinham sido diferentes. Jogou o cobertor para o lado. Apesar da chuva, fazia calor. H� muito vinha inutilmente se distraindo com noitadas e bebidas que n�o levavam a nada, sem raz�o de ser. Precisava tomar ju�zo. No instante em que come�ava a ser dominado pelo cansa�o, ouviu batidas na porta. Pulou da cama num sobressalto, enrolou-se no len�ol e foi atender. Era Mario. - O que voc� quer? - Edgar ficou parado na porta, esperando por uma resposta. - Por que n�o me avisou que vinha para casa? - falava visivelmente cansado, com o suor escorrendo na testa. - N�o disse nada nem para voc�, nem para Arnaldo. Estavam se divertindo e n�o seria eu o estraga prazer. - Moramos juntos, n�o? Para mim, pelo menos, devia uma satisfa��o. Quem sabe eu tamb�m n�o iria querer voltar �quela hora? - sem esperar por qualquer convite, entrou e sentou-se na beirada da cama, recobrando o f�lego. - D� a impress�o de ter sa�do correndo pela rua afora... O que houve? - Edgar fechou a porta. - N�o gosto de andar de madrugada pelas ruas, vim o mais r�pido que pude. Voc� me deixou desnorteado. N�o devia ter-me convidado se era para me largar l�. - E seu amigo? N�o tinha carro? - Sa� antes dele. - E ele deixou? - Como assim? O que est� querendo dizer? Edgar alcan�ou o ma�o de cigarros sobre a c�moda e acendeu um. Fumava muito raramente e o nervosismo do momento propiciou a ocasi�o. Soltou uma baforada e resmungou: - Por que vivemos nesse p� de guerra? N�o acho natural o que sucede com a gente. Parecemos dois seres irracionais, estamos sempre � beira de uma discuss�o. Sempre que tento uma aproxima��o, por mais boa vontade que tenha, voc� estraga tudo. - Eu?! Ora, fa�a me o favor! Diz na minha cara se isso � maneira de se comportar, me largando sozinho na discoteca - usou um tom de forte indigna��o. Edgar jogou-lhe uma toalha, para que enxugasse a transpira��o e justificou-se: - Fala como se existisse algum compromisso entre n�s. Pelo que me consta, n�o recebi nenhuma proposta. Por outro lado, n�o fui at� sua m�e para pedir-lhe a m�o - brincou. - Sempre vem com gracinhas quando comete um erro. Hav�amos combinado sair juntos amanh� cedo, de certo merecia uma comunica��o sobre sua escapada repentina. - Estou sendo acusado injustamente! - Edgar exclamou, encolerizado - n�o faz caso de mim, passa a maior parte do tempo com outro cara e depois vem me dar aula de como ser atencioso e gentil? - O cara a que se refere � um colega de escola. N�o mostrava-se disposto, assim como eu. Preferi, ent�o, ficar com ele para n�o atrapalhar voc� e o Arnaldo. Na certa, ca�ram na maior farra. - N�o venha com essa desculpa furada. Acha que sou ing�nuo? O sujeito debru�ava-se em cima de voc� e, ao que parece, estava apreciando. - Essa n�o! - Mario desatou a rir. Depois de se recompor, perguntou - est� com ci�me? - Por que deveria? - Faz uma id�ia completamente errada do que acontece � sua volta. N�o � capaz de discernir nada, � inacredit�vel! - Tudo bem. Fiz uma tremenda confus�o e me recrimina por causa da minha postura - reconheceu - Me desculpe. Mas voc� me desprezou, isso n�o consigo tirar da cabe�a. - Gozado. Afirma n�o termos compromisso mas age como se tivesse. - N�o se deve desprezar ningu�m, isso � humilhante. - Que tal uma tr�gua? - Mario mostrou-se definitivamente disposto a levantar a bandeira da paz - Estou cansado de tantos equ�vocos, tantos atritos. Queria que f�ssemos amigos de verdade, para que ficar lutando contra a mar�? Edgar n�o se manifestou. Caminhou at� a janela e abriu-a, para permitir que a fuma�a do cigarro sa�sse. O dia j� come�ava a clarear, notava-se a vermelhid�o do c�u no horizonte. Ele apoiou-se no parapeito, jogando as cinzas no jardim abaixo. Na madrugada morna abateu-se um sil�ncio cheio de expectativas. Mario aproximou-se, tocou com a m�o em seu ombro nu e respondeu, complacente: - Precisamos ser amigos, n�o precisamos? O prazo esgotara-se. N�o podiam continuar enganando a si pr�prios por mais tempo. Era in�til opor-se ao que j� estava reservado para eles. Edgar tomou sua m�o e apertou-a entre as dele, sem resist�ncia. Depois, trouxe-a para perto do seu peito, numa atitude de resigna��o. N�o havia mais nada o que falar, tudo j� fora dito. Mario encostou a cabe�a em seu ombro e suavemente levantou-a, beijando de leve seu pesco�o. Depois, seus l�bios se aproximaram e se uniram, num beijo terno, ansiado. Edgar acariciou seus cabelos, sentindo o cora��o batendo forte no peito. Desabotoou-lhe a camisa e apertou-o contra si, fazendo emergir uma paix�o avassaladora. O sangue percorreu-lhes todo o corpo, fervendo. Tudo deixava de existir em torno deles, o mundo tinha parado de girar, a �gua interrompera seu curso natural e a pr�pria vida estava suspensa no ar. Nada mais existia a n�o ser a �nsia incontida, a febre da paix�o. N�o perceberam no momento em que os sinos da igreja come�aram a repicar, chamando os fi�is para a primeira missa do domingo. Deitados, um ao lado do outro, sonhavam acordados. N�o dormiram nem por um instante, pois tinham medo de que aquele momento n�o fosse verdadeiro. Quantas brigas infind�veis, quanto tempo desperdi�ado. Parecia que agora desejavam desesperadamente descontar tudo. No fim, quando o sono afinal se manifestou, fecharam os olhos lentamente e dormiram, um nos bra�os do outro. |