Cap�tulo 08 - Aproxima��o em Catanduva
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Edgar e Olga come�aram a procurar um ponto comercial que fosse adequado para a abertura de uma loja de antig�idades. Depois de alguns dias e muito caminhar, colocaram os p�s num lugar que vinha de encontro �s suas expectativas. N�o se tratava de instala��es excepcionais, mas, para o que se propunham de in�cio, era o ideal. Se localizava numa art�ria de movimento razo�vel e o valor do aluguel era razo�vel. Antes que abrissem as portas, entretanto, Olga julgou arrazoado cuidar da variedade do estoque, aumentando o n�mero de pe�as a ser comercializadas. Denotava aparentemente um otimismo exagerado, pois tinha-se a impress�o de estar desejando garantir-se para um eventual fen�meno nas vendas. Na realidade, seu tino comercial lhe fazia crer que, acima de tudo, o mais importante era iniciar um neg�cio que atra�sse os clientes atrav�s de um grande leque de op��es de compra. A fim de cobrir as despesas, poderia empatar uma parte de suas economias e, no fim, seria recompensada.
Como era do seu conhecimento, muitos armaz�ns nas cidades do interior eram dotados de uma enorme quantia de artefatos antigos que se encontravam encostados, sem uso. A possibilidade de que a maioria casasse com suas expectativas era igualmente grande e, por conseguinte, era necess�rio alcan��-los de alguma forma. Assim, estabeleceu que seu s�cio na empreitada deveria colocar o p� na estrada e investigar se seus pensamentos eram corretos. Com essa finalidade, planejou um roteiro para que ele cobrisse no prazo de uma semana. Em caso de �xito, seu objetivo era pesquisar as pe�as mais atraentes, descobrir as melhores ofertas e conduzir a mercadoria para S�o Paulo. Recomendou que tudo fosse acondicionado da forma mais cuidadosa poss�vel, evitando assim ter preju�zo antes do aceno do lucro.
A primeira cidade escolhida foi Catanduva, devido a uma reportagem que certa vez lera no jornal. Olga ainda alertou Edgar para que n�o acumulasse grandes esperan�as, afinal seus planos baseavam-se apenas em suposi��es. Todavia, a aventura em si j� merecia uma estimulante disposi��o e ele imediatamente consultou os hor�rios. Decidiu embarcar no primeiro trem programado para dia seguinte. Na �ltima hora, Mario surgiu com algo inesperado. Sugestion�vel como sempre fora, aproveitou o clima de empolga��o e sentiu-se encorajado a acompanh�-lo na viagem.

�s cinco horas da madrugada, os dois prepararam-se para deixar S�o Paulo pelo comboio que cobria o oeste do Estado. Encontraram a Esta��o da Luz apinhada de passageiros que sa�am e chegavam, um movimento maior do que o normal devido �s f�rias escolares. Tinham pela frente um longo percurso e a segunda classe do trem era desconfort�vel, pois a primeira j� encontrava-se lotada. Para piorar, o vag�o encontrava-se repleto de turistas carolas que voltavam de uma excurs�o � Aparecida, e n�o paravam de falar, num tom estridente, a respeito do assunto. A locomotiva a diesel avan�ava vagarosamente. Pr�ximo do meio-dia, o calor j� era sufocante e a maioria das janelas fechadas permitiam que um cheiro forte e desagrad�vel pairasse no ar. O mau humor era causado em sua maior parte pela gritaria das crian�as e eles pouco conversaram entre si. Mario concentrou sua aten��o na paisagem, campos preparados para a agricultura e que, nessa �poca do ano, as sementes j� brotavam verdejantes. Pequenos riachos despejavam suas �guas num rio caudaloso, que ora era avistado � esquerda, ora � direita do trem. As cidades se sucediam umas �s outras. O pobre Edgar, na poltrona ao lado do corredor, mal controlava a c�lera com os passantes que constantemente esbarravam em seu ombro, vindos de um canto e do outro do trem. A madame sentada uma carreira ap�s � sua berrava sem parar com os quatro filhos que insistiam em n�o permanecer no lugar. O sujeito gordo de meia idade roncava ao lado, com a cabe�a recostada numa das janelas e parecendo pouco se importar com o tumulto. O grupo de homens que jogava baralho no final do vag�o revelava as nuances da partida atrav�s de improp�rios aud�veis em toda a extens�o do compartimento. O espet�culo era desanimador. Definitivamente, n�o havia como considerar tal desordem generalizada como um passeio prazeroso.
Ao cair da noite, desembarcaram cansados e suados numa esta��o deserta pertencente � cidade de Catanduva. Ruas sossegadas, quase nenhum movimento. Os poucos pedestres que cruzavam seu caminho n�o causavam boa impress�o, numa demonstra��o evidente de que detestavam forasteiros. Com dificuldade, conseguiram informa��es sobre onde se hospedar e lhes indicaram o melhor hotel da cidade, bem pr�ximo ao centro. Entretanto, suas acomoda��es humildes levavam a presumir que haviam sido enganados. Seja como for, fatigados ao extremo, n�o se importaram com as instala��es.
Logo que deram entrada no quarto, Mario dirigiu-se ao banheiro, despiu-se e entrou no chuveiro. Ap�s um banho relaxante, s� restava-lhe jogar-se na cama e desfrutar de um tranq�ilo sono reparador. Antes, lembrou-se:
- Caso sintamos sede, o que fatalmente acontecer� depois dessa maratona, teremos que apelar para a torneira da pia. N�o tem outro rem�dio.
- N�o seja por isso. Darei uma corrida at� o bar na frente e comprarei uma garrafa de �gua mineral.
- �timo. Eu te acompanho.
- Em hip�tese alguma - determinou - N�o vai sair depois de ter vestido o pijama e entrar debaixo dos len��is. Ainda n�o me troquei, para mim n�o custa nada.
Depois que saiu, Mario p�s-se a pensar sobre Edgar e sua atitude prestativa. Apesar do conflito inicial, ele mostrava-se am�vel e disposto a estabelecer um bom relacionamento entre eles, com um excesso de gentilezas. Provava ser um aliado sincero, se � que precisava de algum. Mas, qual seria o alvo que tinha em mente? Por mais que se esfor�asse, n�o via muita coer�ncia em seus atos. Afirmara ser seu maior sonho a ida para o Rio de Janeiro em busca de aventura e agora colocava o plano de lado e aceitava uma proposta de trabalho s� por interesses financeiros? Mais ainda, sujeitou-se a morar nos fundos de sua casa quando poderia usufruir do conforto do pr�prio lar? N�o podia entender. De toda maneira, era dif�cil fazer uma id�ia do que se passava na cabe�a das pessoas. N�o possu�a amizades, Edgar era o primeiro rapaz de sua idade que passava a conviver de forma t�o pr�xima consigo. Mas havia diferen�as entre ele e seu amigo Arnaldo. O outro era distante, dotado de maneiras rudes, n�o possu�a tato como Edgar. Com todos seus predicados, assim mesmo ele n�o lhe inspirava confian�a. N�o passava de um estranho e certas barreiras precisavam ser eliminadas at� que se sentisse inteiramente � vontade para t�-lo como confidente. Essa dedu��o acabara de ser comprovada, pois, ao entrar no quarto, ambos foram dominados por um s�bito pudor em tirar a roupa, um na frente do outro. O desejo de ocultar o corpo era um sinal de que n�o estavam preparados para a troca de declara��es �ntimas, ainda tinham um longo caminho a percorrer.     Imerso em seus pensamentos, Mario n�o notou quando o trinco da porta se moveu e Edgar entrou.
- Demorei um pouco mais porque o bar na frente n�o vende �gua mineral. Tive que andar duas quadras at� achar outro - colocou a garrafa na mesinha localizada entre as duas camas.
- N�o precisava dar-se ao trabalho, a �gua da torneira quebraria o galho.
- N�o custou nada. Agora, se d� licen�a, vou tomar meu banho.
Depois, quando Edgar deitou-se e desligou a luz, Mario ajeitou o travesseiro e comentou:
- Mais um dia que se passa. E outro vir�.
- Um vai sucedendo ao outro, numa rea��o cont�nua - completou.
- Dentro de um viver cheio de futilidades.
- Acha mesmo? - surpreendeu-se com o pouco caso que a express�o continha.
- Voc� j� amou algu�m?
- Claro. Amo meus pais, apesar de dar uma impress�o oposta.
- N�o � esse tipo de amor que me refiro.
- Ah, entendi. Creio que n�o. Mas � necess�rio ter uma exata defini��o da palavra, para ter certeza absoluta - Edgar bocejou, com vontade de dormir.
- Amar � ter atra��o por algu�m, fazer sexo e pensar na pessoa continuamente. Sentir sua falta, quando est� longe.
- Nesse caso, nunca amei.
- J� foi para a cama com algu�m?
- Confesso que n�o - sorriu - voc� faz cada pergunta!
- Se � virgem, nunca amou.
- E voc�?
- Tamb�m n�o.
- Um dia, passaremos por essa experi�ncia. A gente tem uma vida inteira pela frente.
Silenciaram. O cansa�o falou mais alto e em instantes ambos mergulhavam num sono profundo. Na manh� seguinte, ap�s o caf�, eliminaram algumas d�vidas sobre as condi��es da cidade na recep��o e prepararam-se para sair. Com�rcio discreto, gente fechada, levemente arredia e hostil. Andaram a esmo durante horas, sem o menor resultado satisfat�rio. De nada adiantava perguntar aqui e ali sobre pessoas dispostas a vender mob�lia velha e quaisquer outros objetos de decora��o. Afirmavam desconhecer o assunto. Os dois rapazes logo chegaram � conclus�o que n�o se surpreenderiam se sa�ssem de l� decepcionados. Mas Edgar n�o iria desistir t�o facilmente. O fracasso n�o estava inclu�do em seus planos. Assim, ele decidiu que insistiriam at� o �ltimo momento. Acabaram correndo a cidade a p�, conferindo todos os poss�veis pontos que pudessem interessar. Finalmente, exaustos, voltaram ao anoitecer para o hotel, sem registrar um �nico �xito. Ao pedir as chaves, Mario recebeu uma mensagem deixada na portaria. Um tal de Sebasti�o informava num bilhete mal redigido o endere�o e pedia para que passassem por l� pela manh�.
- Opa! � capaz que tenha algo a oferecer - Mario concluiu, a caminho do aposento.
- Tudo bem, descobriremos isso depois. A �nica coisa que me interessa no momento � se refrescar debaixo de um bom chuveiro e sair para jantar.
- Tem raz�o, estou derretendo com este calor infernal.
Mesmo pelo mais otimista dos crit�rios, n�o se poderia considerar as acomoda��es como dentro dos padr�es de conforto ideais, conforme j� haviam observado. Duas camas e criados-mudos atrelados, uma mesa de f�rmica com uma cadeira e um guarda-roupa modesto dividiam o espa�o relativamente ex�guo. Num dos lados, a porta que conduzia ao min�sculo banheiro n�o oferecia grandes atrativos. Em compensa��o, a limpeza mostrava-se satisfat�ria, os len��is e as toalhas eram apresent�veis.
Estimulados pelo banho e com roupas leves em vista do calor intenso, decidiram dar uma volta na pra�a principal da cidade. Da mesma forma como no dia anterior, n�o havia quase movimento algum, embora a tradi��o determinasse que o povo de qualquer cidade no interior marcasse encontros em frente � igreja matriz. Desistiram do passeio, resolvendo que o mais certo seria forrar o est�mago e depois se recolher.
Entraram no restaurante que lhes havia sido indicado e escolheram uma mesa. O local estava �s moscas, as �nicas pessoas encontradas eram as mesmas que viajaram em  companhia deles no trem. Comiam em sil�ncio, cada qual em sua mesa, possivelmente preocupadas com seus neg�cios. O card�pio n�o apresentava muitas op��es. Um gar�om mal encarado apressou-se em trocar a toalha e arrumar a mesa escolhida. Colocou os pratos e os talheres, perguntando se j� haviam escolhido. Pouco depois de anotar o pedido, ele sumiu pela porta da cozinha. Enquanto aguardavam, Edgar comentou, apontando para um quadro pendurado na parede:
- Est� vendo aquele p�ster ali? � uma foto do Fidel Castro tirada na �poca em que ele assumiu o poder. Ganhei de presente de anivers�rio um id�ntico, mas n�o sei onde foi parar.
- Voc� fala como se ele fosse a criatura mais importante do mundo...
- Talvez n�o seja. N�o importa. Se voc� considerar que o regime autorit�rio deplora sua forma de governo, reverenci�-lo pode significar uma forma de protesto. A prop�sito, o Che Guevara segue a mesma linha.
- Vi outro dia no jornal um an�ncio enorme, de p�gina inteira, com a foto do Che Guevara como ilustra��o. Achei muito apelativo, baixo n�vel - Mario serviu-se da cerveja que o gar�om acabara de trazer.
- O Che Guevara sempre foi um revolucion�rio que lutou pelos pequenos pa�ses da Am�rica Latina. E morreu assassinado na Bol�via, como um m�rtir. Mas voc� n�o se simpatiza muito com ele, n�o �? - Edgar alfinetou.
- Na minha opini�o, ele foi uma esp�cie de mercen�rio, desses que hoje atuam na �frica. Ali�s, com a influ�ncia de Cuba. Que ideologia ele nos legou? Pelo menos aqui no Brasil, nada se sabe a esse respeito.
- Voc�, decididamente, n�o � liberal na forma de pensar. Os tempos s�o outros, precisa se adaptar.
- Qual � a vantagem? Sou mais realista. � tolice ficar apenas repetindo o que os outros falam, que nem papagaio - Mario aguardou que o jantar lhes fosse servido e se p�s a comer.
- Nossa gera��o recebeu de heran�a uma mentalidade conformista, que j� tinha sido moldada pelos nossos antepassados e se estabeleceu como base de nossa cultura. N�o � assim. A gente precisa contestar, acatar apenas e n�o colocar em discuss�o o que nos incomoda vai acabar transformando a todos em aut�matos. O que vai restar desta gera��o? As conseq��ncias podem ser graves.
- Como j� disse, considero este posicionamento uma forma de protesto. A comida est� boa, n�o?
- �tima, uma por��o generosa demais - respondeu e depois voltou ao assunto anterior - Veja nosso regime de governo, por exemplo. Estamos amarrados a ele sem liberdade de op��o. Somos proibidos de tudo.
- Discordo. Fa�o o que me vem � mente e nunca ningu�m me imp�s limites ou cerceou minha liberdade.
- N�o existe democracia - Edgar encheu novamente os copos.
- Obrigado. Isso � uma forma de governo para os pa�ses adiantados - Mario argumentou - Aqui, o mais importante � alimentar os famintos.
- Ora, voc� � muito acomodado com o sistema que est� a�. Se ningu�m te aborrece, excelente. Acredito que isso seja ego�smo.
- Para que contestar, combater o governo e coisas assim?  Vai me sobrar apenas uma bela dor de cabe�a e ningu�m para me pagar um rem�dio. Por favor, passa a travessa de arroz.
- Olha, essa conversa n�o vai nos levar a lugar algum. Creio que seria melhor terminarmos o jantar e regressarmos ao hotel.
Mal descansaram os talheres nos pratos e o gar�om surgiu, perguntando se desejavam mais alguma coisa. Pediram a conta. Edgar tinha o pressentimento de que Mario sempre estava � espreita, observando seus modos, suas opini�es, sua forma de pensar. E n�o raras vezes ele acabava colocando panos quentes nas discuss�es inflamadas, no exato momento em que as posi��es mostravam-se claramente antag�nicas. Invariavelmente elas tinham in�cio de maneira casual e depois corriam o risco de se transformar em verdadeiras batalhas verbais, n�o fosse a interfer�ncia no momento oportuno. Edgar achava esse comportamento extremamente divertido e n�o perdia uma oportunidade em provoc�-lo.
Bem cedo pela manh� eles foram acordados pelo funcion�rio de plant�o, conforme haviam solicitado. Rapidamente se arrumaram e desceram para o caf�, saindo em seguida � procura do tal Sebasti�o. Cidade pequena, rapidamente chegou aos seus ouvidos sobre a dupla e seus interesses. Atrav�s dele, conseguiram obter orienta��es que os levaram a in�meras pessoas �vidas em se desfazer de objetos antigos, sem aparente utilidade para elas.
Em poucos dias examinaram dezenas de artigos, adquiriram a maioria e providenciaram o transporte para o dep�sito da esta��o ferrovi�ria. Formou-se um tal volume dentro do galp�o, que praticamente n�o sobrou espa�o para outras mercadorias. Era de se imaginar o trabalho que iriam ter na chegada em S�o Paulo. Acabaram comprando mais do que o previsto, mas as ofertas eram irrecus�veis. Mario notou que Edgar era negociante perspicaz e usava de toda sua ast�cia no trato com as pessoas. A t�tica consistia em mostrar-se desprovido de interesse, estabelecendo pre�os insignificantes e assim for�ando valores bem abaixo dos estipulados inicialmente. Parecia ter um talento nato para o com�rcio.
No final de uma tarde agitada, retornaram suados e cansados ao hotel, dedicaram-se ao asseio t�o almejado e, em seguida, lan�aram-se exaustos aos respectivos leitos. Estavam excitados e felizes com o resultado compensador  da viagem. Depois de alguns minutos em sil�ncio, Edgar resolveu se pronunciar:
- Este � nosso �ltimo dia na cidade, amanh� estaremos de volta a S�o Paulo. N�o acha que o sucesso da viagem merece uma comemora��o?
- O que tem em mente?
- Que tal beber um vinho?
- Est� maluco se pensa que vou me levantar para sair atr�s disso agora. Sabe muito bem que esta espelunca n�o tem servi�o de copa.
- Tamb�m n�o tenho um pingo de vontade de sair daqui.
- Ent�o? - Mario n�o esperava aquela resposta, pois imaginava que ele se encarregaria da incumb�ncia, da mesma forma como havia sido com a �gua mineral.
- Ningu�m precisar� dar-se a esse trabalho, meu amigo. Sou prevenido, trouxe uma garrafa na bagagem justamente para essa ocasi�o. � dos bons.
- Voc� arriscou. E se os neg�cios n�o tivessem dado certo?
- Beber�amos para esquecer o fracasso - sorriu.
- Cada dia me convence mais sobre esse v�cio incontrol�vel.
Edgar mais uma vez n�o conteve a risada e pulou da cama, com s�bita disposi��o. Enquanto abria o frasco e colocava a preciosa bebida nas ta�as que ele j� providenciara anteriormente, Mario voltou a bater na mesma tecla:
- Voc� � bem chegado no �lcool, n�o?
- Digamos que eu seja chegado nas boas coisas que a vida oferece. Mas sem exageros.
Brindaram alegremente e beberam. As janelas estavam escancaradas, devido ao calor, e Mario postou-se no parapeito, apreciando o movimento da rua. Quanto a Edgar, sentia-se feliz por fazer algo que era do seu apre�o e, principalmente, porque tudo corria bem. Subitamente, veio-lhe � mente que j� deveriam ter comunicado a Olga as novidades, relatando a respeito do �xito nas negocia��es.
- Ainda n�o o conhe�o perfeitamente, mas sou capaz de apostar que algo est� lhe causando preocupa��o - Mario deduziu, curioso ao v�-lo com o olhar distante.
- Precisamos telefonar para sua m�e.
- Deseja fazer o relat�rio completo das nossas atividades?
- Me sinto na obriga��o. Principalmente porque deve estar ansiosa em ter not�cias nossas.
- Tem se dando bem com ela, n�o? A princ�pio, fiquei um pouco enciumado. Depois, cheguei � conclus�o que, com voc� em casa, n�o sofro tanta press�o. As coisas melhoraram.
- Tudo muito conveniente, certo? Assim, pode se dedicar aos estudos da maneira como achar mais apropriada...
- Exato.
- N�o tira um momento para divers�o? Desde que passei a morar com voc�s, nunca ouvi falar em algo que n�o fosse relacionado com o col�gio...
- � o que gosto de fazer.
Edgar voltou-se bruscamente e desafiou, maliciosamente:
- Mais nada?
Mario acenou negativamente com a cabe�a. Evitou o assunto, contudo sabia ao que ele se referia. Levou a ta�a � boca e tomou mais um gole do vinho, degustando-o lentamente. Por fim, comentou:
- A bebida serve para relaxar os nervos. Gosto da sensa��o que ela provoca...
- Ajuda a dar coragem...
- Coragem para que?
- Para tudo. Por exemplo, falar coisas que a gente n�o quer quando est� s�brio - Edgar deu uma risada misteriosa - � mais f�cil de se decifrar as charadas no momento em que ficamos embalados...
- Foi por isso que trouxe o vinho? - sentiu-se acuado.
- De forma alguma, est� me interpretando mal. A vida tem tantos mist�rios que nem todo o �lcool do mundo seria suficiente para decifr�-los.
N�o passava de um jogo de palavras. Se o oponente avan�ava demais, era preciso recuar. Ou, semelhante a uma ca�ada, onde o animal precisa se sentir confiante para depois, inocentemente, cair na armadilha. Edgar tinha consci�ncia de que estava diante de uma oportunidade �nica. A chance de aproximar-se daquele sujeito meio amalucado, cuja personalidade se revelava t�o diferente dos adolescentes na mesma idade. Sua curiosidade, entretanto, n�o tinha motivo aparente. Era provoca��o pura e simples. Continuou:
- Muitas vezes temos um problema qualquer e sentimos vontade de desabafar. Pode ser uma discuss�o com o jornaleiro da esquina ou uma topada no ded�o. Coisas insignificantes. Mas a gente deseja falar, somos seres eminentemente sociais, n�o concorda?
- Claro! Mas n�o estou entendendo onde quer chegar - Mario alcan�ou a bebida, desta vez demonstrando receio em exagerar. Sua natureza vulner�vel come�ava a se manifestar.
- Quero dizer � que estamos vivendo juntos, voc� e eu. Temos idades semelhantes, sou apenas um pouco mais velho. Portanto, presume-se que tenhamos muito em comum, principalmente desafios que o dia-a-dia nos imp�e. O problema � que voc� sempre se mant�m isolado propositadamente, dando a impress�o que � auto-suficiente em todos os aspectos.
Mario ouviu os sinos da igreja repicar. Dali conseguia avist�-la, toda iluminada e surpreendentemente com grande movimento ao redor. Era poss�vel que algum casamento estivesse sendo realizado. Ele olhou fixamente para o jardim. Edgar interceptara um ponto obscuro, n�o havia como negar. A gente gosta de manter em segredo os sentimentos, na maioria das vezes. Falar de algo �ntimo pode expor nossa fragilidade. Sua intui��o lhe dizia que era melhor manter-se na defensiva:
- Cada ser humano reage de modo diferente. N�o vejo raz�o para correr a todo momento at� ach�-lo e ficar contando meus problemas. Isso � uma asneira. Quanto a voc�, tem o Arnaldo. J� notei que � raro o dia em que n�o se falam por telefone.
- Tudo bem. Estou me abrindo com voc�, algo raro em mim. Arnaldo e eu temos amizade desde crian�a, somos confidentes um do outro. � a �nica pessoa a quem revelo minhas insatisfa��es, meus receios. Serve de enorme apoio e me traz seguran�a.
- Se precisa de muletas, n�o � o meu caso. Vivo muito bem dessa maneira. Tenho capacidade de tomar as decis�es sozinho, sem ningu�m para interferir - sua voz soou levemente irritada. O assunto incomodava.
- � bom ter algu�m que se preocupa com nosso bem-estar e que seja de nossa inteira confian�a. E olha que n�o estou me referindo a familiares.
- Cuidado para n�o se decepcionar. As pessoas, �s vezes, t�m outros interesses escondidos por tr�s da apar�ncia inofensiva...
- Por acaso est� insinuando que Arnaldo usa de falsidade, n�o corresponde ao que espero dele?
- Ningu�m pode me garantir o contr�rio. � primeira vista, n�o agiu da maneira certa, no meu entender. Em casa, no jantar que lhe oferecemos, n�o fez quest�o nenhuma de distribuir gentilezas. Principalmente em sua dire��o.
- Concordo. At� agora tento encontrar uma explica��o, em v�o. Desconfio que entrou em choque comigo porque causei essa reviravolta na minha vida. Deve achar que estou desprezando nossa amizade, ciumeira � toa.
- N�o acha estranho um homem ter ci�me de outro?
- Tem diversos tipos de ci�me. Muitas vezes n�o temos ci�mes de objetos que nos pertencem?
- Mas n�o � propriedade dele.
- Ah, � dif�cil conduzir alguma discuss�o com voc�. N�o chegamos a nenhum entendimento - Edgar conformou-se.
- O problema � que fica abordando temas complicados para minha cabe�a. Como � poss�vel analisar rea��es e sentimentos que jamais aconteceram comigo? N�o tenho experi�ncia nesse campo.
- Tem toda raz�o. Vamos mudar de conversa. Afinal, n�o passamos um dia tumultuado para depois ficar filosofando que nem monges tibetanos. Confesso que sou meio idiota de vez em quando...
- Mas gosto de voc� assim mesmo - Mario sorriu.
- Agora concordou inteiramente com o que disse, n�o?
- Fez uma afirma��o baseada em fatos, acredito eu. Portanto, n�o havia do que colocar em d�vida.
- Sou um cretino! - deu uma risada for�ada.
- Como queira. � outro adjetivo - retrucou sem hesitar.
Edgar levantou-se, tomou mais um gole do vinho, fez uma pausa e depois constatou:
- Passei uma semana tumultuada, desde que sua m�e inventou esse neg�cio de antiqu�rio. Est� exigindo muito de mim, sempre levei uma vida pacata. Preciso de alguma distra��o para esfriar um pouco a cabe�a.
- Por que n�o pratica alguma modalidade de esporte?
- N�o � uma m� id�ia. Vou falar com Arnaldo. � s�cio do Palmeiras, mas nunca vi muito proveito nisso. Acho que chegou a hora.
- L� vem voc� tocando no nome dele de novo. H� pouco reconheceu n�o ter se comportado corretamente no jantar e agora quer pedir-lhe ajuda. Por que n�o desgruda um pouco dele?
- N�o tenho a quem recorrer - justificou-se.
- Nem sequer me perguntou se freq�ento algum clube. Como sabe se eu n�o poderia resolver a quest�o?
- S� ou�o voc� falar em escola, nada mais. Caso tivesse um outro tipo de atividade, j� teria descoberto.
- Acontece que foi um per�odo de fim de ano, apenas. N�o podia ficar pensando em outra coisa. Al�m do mais, est� em casa h� menos de dois meses...
- V� como nos conhecemos t�o pouco? Entendeu agora o ponto onde queria chegar?
- Tem raz�o - Mario deu-se por satisfeito e acrescentou - Gosto de voc�, consegue ser bastante persuasivo.
- Disse duas vezes que gosta de mim. N�o ser� uma quest�o de conveni�ncia?
- Tento entrar no seu jogo e me poda sem hesitar - Mario resmungou, enfastiado - Fico sem a��o. Quer que me jogue aos seus p�s e diga: pelo amor de Deus, n�o me abandone, voc� � a minha t�bua de salva��o?
- N�o � nada disso. Existe uma barreira entre a gente e, aos poucos, est� se desfazendo. Mas parece que voc� estuda muito bem as palavras que vai dizer. Preocupa-se demais com as apar�ncias.
Comprovava-se mais uma vez que ainda havia um �rduo caminho a ser percorrido, se � que ambos chegariam a um entendimento ideal algum dia.
- Estou me cansando dessa conversa - Mario arrumou o travesseiro, deitou-se na cama e pegou no criado-mudo um livro que trouxera para ler.
- Est� vendo? Era isso precisamente o que eu queria dizer. Foge do confronto.
N�o havia outra alternativa sen�o voltar atr�s e, reconhecendo que aquele n�o era um momento aconselh�vel para leitura, fechou o livro e colocou-o de volta no lugar. Depois, deu-se ao trabalho de justificar seu ato:
- Estou louco para ver o final da hist�ria, mas vou deixar para outra hora.
- Ainda bem, pensei que ia ficar falando sozinho.
Edgar concluiu que mais uma dose do vinho poderia embriag�-lo. Mesmo assim, alcan�ou a garrafa - o que est� lendo?
- Uma novela de fic��o, j� cheguei nas �ltimas p�ginas.
- Interessante?
- Bastante. Se quiser, depois te empresto.
- Leitura n�o faz muito o meu g�nero. N�o quer contar mais ou menos do que se trata?
- A enredo se desenrola num lugar in�spito, nas regi�es geladas do Canad�. Descreve a saga dos ca�adores de animais selvagens, a vida dura que eles enfrentam, as tempestades de neve e assim por diante. A hist�ria se concentra num deles e o drama tem lugar quando o personagem � surpreendido por uma nevasca. Sozinho no meio da floresta, se v� sem abrigo e dominado pelo desespero.
Mario levantou-se e serviu-se de outra ta�a de vinho, notando que o frasco chegava ao fim. Edgar acompanhou-o com o olhar, aparentemente esperando que ele continuasse:
- Diante do risco que corre, ele caminha com dificuldade � procura de algo que lhe oferecesse prote��o, sabendo que a morte o espreita a cada passo. Depois de uma s�rie de atropelos e quase sem esperan�as de sobreviv�ncia, o homem avista um fio de fuma�a subindo no horizonte. Constatando que aquilo significava um vest�gio de humanos na regi�o, ele re�ne todas as for�as que ainda lhe restam e ruma na dire��o desejada. Acaba alcan�ando o que vinha a ser a cabana de um outro ca�ador. Quase sem sentidos ele � recolhido e salvo. Acaba se recuperando junto ao calor de um fogareiro e o desconhecido lhe d� o que comer. A partir da�, tem in�cio um conflito de interesses.
- � uma aventura e tanto - Edgar interrompe - E da�? O que acontece?
- Bem, a tempestade continua impiedosa e os dias v�o se passando. O livro passa a relatar a conviv�ncia de dois estranhos, cujo objetivo comum � a sobreviv�ncia. Existem diverg�ncias de opini�es, os nervos que ficam a flor da pele por raz�es insignificantes, a ang�stia por se verem ilhados num cen�rio absolutamente hostil.
- Eles conseguem se salvar? - Edgar j� demonstrava impaci�ncia.
- � l�gico.
- N�o acontece mais nada?
- Por que n�o l� o livro? - Mario mostrou-se inquieto.
- J� disse que n�o gosto. Ainda mais uma hist�ria sem grandes emo��es. O cara se v� livre da trag�dia e ponto final?
- Antes disso suceder, muita coisa rola. N�o acaba assim, sem mais nem menos. N�o seria melhor a gente vestir uma roupa e sair para jantar? A fome j� est� me apertando.
- Tudo bem. Mas antes me diga o que tem a mais no enredo desse livro para atrair tanto sua aten��o. Me ati�ou a curiosidade.
- Bem - Mario come�ou, meio embara�ado - naqueles dias de pen�ria, acaba surgindo um envolvimento entre os dois. Ambos n�o conseguem evitar e procuram justificar o incidente culpando a solid�o e o pequeno espa�o que dividiam.
- Quer dizer que rola sexo entre eles?
- Exato.
- Estou achando esquisito...
- Acabam mergulhando numa paran�ia total. Pode imaginar o conceito que esses indiv�duos t�m da masculinidade? Num local onde impera a lei do mais forte, ser homem significa tudo. N�o tinham meios de administrar suas emo��es. Cometeram um deslize e se viram dominados pelo pavor de que aquele ato modificasse negativamente seus destinos. Resolvem, ent�o, fazer um pacto de sil�ncio...
- Quanta lealdade, meu Deus! - Edgar ironizou - Na minha opini�o, esse livro retrata simplesmente uma hist�ria homossexual. Um cen�rio diferente para um enredo t�o banal...
- Voc� acha? Por em risco sua fun��o de macho, v� como banalidade?
- N�o venha me dizer que considera um ato sexual n�o premeditado entre dois homens motivo suficiente para cair o mundo na cabe�a deles. Aconteceu, e da�? N�o passar�o a ser rotulados pejorativamente, de volta ao conv�vio da comunidade. Depende muito das circunst�ncias e do que vai em sua mente.
- N�o concordo. O desempenho sexual reflete perfeitamente o grau de sua masculinidade. S�o causa e efeito, n�o h� como negar - Mario indignou-se.
- Ah, �? E nas pris�es, internatos e demais lugares onde existe segrega��o de sexos? A promiscuidade sexual � enorme. No entanto, ao sair na rua e encontrar uma pessoa do sexo oposto, se comportam como se fossem o mais macho dos homens. Sem problemas.
- C� entre n�s, tenho minhas d�vidas. O que desperta entre dois indiv�duos uma atra��o f�sica � a tend�ncia homossexual j� predominante. � simplesmente imposs�vel tocar no corpo de outra pessoa igual a voc�, sentir sua pele, seu cheiro, tudo em nome de uma necessidade sexual. Vamos e venhamos, compartilhar o sexo com um homem � completamente diferente do que com uma mulher.
- Fala com conhecimento de causa - Edgar desconfiou.
- Estudei o assunto, tenho certeza do que estou afirmando. Mas ainda n�o coloquei em pr�tica - Mario deu um sorriso despretensioso.
- A verdade � que n�o podemos generalizar num tema desses. Eu, pelo menos, desconhe�o por completo essa �rea. A gente n�o pode determinar o que � certo e o que � errado. Nunca sabemos o que se passa na cabe�a das pessoas. � por isso que muitas teorias fracassam na pr�tica.
- Reconhe�o que tem raz�o. Mas exagerou ao classificar de banal uma experi�ncia assim. Duvido que um homem n�o pense duas vezes antes de ir para a cama com outro. N�o � t�o f�cil como parece. Um cara que d� um passo nessa dire��o sofre as conseq��ncias que a gente est� cansado de saber. Existe uma variedade imensa de aberra��es sexuais e todas s�o olhadas com descaso. Entretanto, a homossexualidade � violentamente reprimida na sociedade em que vivemos - Mario fitou a garrafa vazia e achou por bem mudar de assunto - Vamos descer para jantar?
- Estou entendendo seu ponto de vista. Por�m acredito que leva muito a s�rio a conduta do ser humano. N�o seria melhor deixar a vida fluir naturalmente, da maneira como ela se apresenta, sem condena��es?
Era um assunto para se pensar. Fecharam a janela, se arrumaram e desligaram as luzes, descendo em seguida. Por precau��o, passaram pela portaria sem deixar a chave, haviam cruzado com certos inquilinos que n�o inspiravam confian�a. Sem melhor op��o, retornaram ao mesmo restaurante e, ao inv�s de pedir os pratos, resolveram continuar bebendo. Era a �ltima noite deles em Catanduva, no fundo sentiam-se tristes porque a viagem chegava ao seu final. Para acompanhar a bebida, escolheram alguns petiscos sugeridos no card�pio. O gar�om trouxe ling�i�a frita em fatias, queijo cortado em cubos e p�o fresco. Tudo estava perfeito, n�o havia o que reclamar. Para n�o desfazer um clima t�o acolhedor, ambos chegaram � conclus�o que n�o valia � pena permitir que a conversa girasse em torno do mesmo tema. N�o queriam mais saber de discutir, muito menos filosofar a respeito da vida. Edgar, bastante comunicativo, fez um coment�rio divertido a respeito das pessoas presentes e Mario soltou uma gargalhada. Mostravam-se alegres e despreocupados, n�o se importando com o mundo em torno deles.
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