| Cap�tulo 07 - Aristides |
| Dias movimentados tiveram in�cio. Antes de mais nada, Olga exp�s a necessidade de aprofundar o conhecimento no ramo de antig�idades, sem o qual corriam o risco de cometer enganos desnecess�rios. O ideal era que Edgar tivesse uma no��o do valor das pe�as no estado em que elas se encontravam e at� onde seria vantajoso perder tempo em restaura��es. A capacidade de avalia��o tornava-se fundamental no neg�cio. Dependendo da reforma que se fizesse, o material perderia a autenticidade e, portanto, o valor. At� que ponto n�o seria mais seguro partir para uma limpeza, pura e simples, algo que n�o alterasse o aspecto original? Essa era a grande d�vida. Al�m disso, qual produto a ser utilizado? �gua e sab�o? Detergente? Alguma subst�ncia qu�mica? Edgar afirmou que a orienta��o b�sica poderia obter com seu conhecido na pequena loja da qual era cliente. Mas n�o era tudo. Olga lembrou-se tamb�m de um conhecido, especialista na �rea, que possivelmente viria ao encontro de seus anseios. Decidiu telefonar para ele no momento oportuno e combinar um encontro. Edgar deteve-se de s�bito. A men��o do telefone trouxe-lhe a lembran�a a urg�ncia em dar uma satisfa��o a Arnaldo sobre a mudan�a de planos. N�o desejava ser acusado novamente de negligente. - Tenho tamb�m uma liga��o para fazer, Dona Olga - Edgar interrompeu - Preciso avisar um amigo sobre o cancelamento da viagem. - E sua fam�lia? N�o merece explica��es? - No momento oportuno, darei not�cias. - N�o me acho no direito de interferir em certas particularidades - Olga fez uma pausa - Mas, n�o posso me conter: por que d� mais import�ncia ao amigo do que a eles? - A verdade � que n�o me relaciono bem com minha m�e, se intromete demais em tudo o que fa�o. Quanto menos souber a meu respeito, melhor. - Rela��es familiares sempre s�o problem�ticas - Olga observou com leve consterna��o, pois vivia o mesmo dilema - Foi essa a raz�o que levou-o a abandonar o lar? - Exato. - No meu ponto de vista, tomou uma decis�o dr�stica. Provavelmente padecem com sua aus�ncia, o sentimento materno � muito forte. - N�o acha que ela deveria ter levado isso em considera��o, antes que eu agisse assim? A situa��o dentro de casa estava insustent�vel, n�o dava mais para continuar ali. Se isso serve de consolo, garanto que minha m�e sofre menos do que eu, enquanto vivia ao lado dela. - E esse seu amigo? Qual o seu nome? - Arnaldo. Como � vizinho, ele serve de elo de liga��o entre mim e minha fam�lia. Por enquanto, prefiro que continuem pensando que estou longe. Morando pr�ximo, ele me manter� informado da necessidade ou n�o de aparecer. - Fico mais tranq�ila. Falando assim, mostra que tem senso de responsabilidade e, no fundo, se preocupa com eles. - Vou avis�-lo agora. E bom que j� fique sabendo onde estou - Edgar dirigiu-se ao aparelho telef�nico. - Por que n�o o convida para jantar aqui em casa? Amanh�, quem sabe? Preparo uma comida especial. Olga aceitou as pondera��es de Edgar. Afinal, n�o havia muito o que fazer. Estava feliz com o arranjo estabelecido, ainda mais depois que soube que Mario prop�s-se a tomar parte na tarefa, ao lado deles, demonstrando senso de coopera��o. Os primeiros frutos come�avam a aparecer. Ao telefone, Edgar enfrentava uma disputa de palavras. Arnaldo aceitou com restri��es a novidade, insistindo que o mais correto seria ele voltar para casa. Em todo caso, n�o achava m� a id�ia do jantar, curioso em conhecer os estranhos que modificaram o rumo da vida do amigo. Olga entrou em contato com o sujeito a que se referira, na esperan�a de que ele prestasse algum aux�lio. Chamava-se Aristides e tinha uma loja de antig�idades na Rua das Palmeiras. Ficou satisfeita ao ser informada que estaria dispon�vel para ajudar no que fosse necess�rio, desde que combinassem ap�s um compromisso j� assumido. Marcara uma viagem de neg�cios e n�o via possibilidade de ser cancelada. Edgar n�o quis perder tempo e resolveu dar in�cio � penosa miss�o de atacar a limpeza do galp�o. Olga arranjou-lhe o material necess�rio, enquanto ele vestiu um shorts e uma camiseta, trajes adequados para a peleja a ser travada. Come�ou por uma faxina geral, retirando do caminho tudo o que era poss�vel e transferindo para o quintal. Tinha como objetivo abrir espa�o para facilitar a sele��o dos objetos, cuja primeira medida seria retir�-los dos caixotes e distribui-los onde fosse poss�vel. Metade da tarefa tinha sido completada quando Mario chegou ao fim da tarde. - N�o consigo imaginar como mam�e juntou tanta coisa assim - Mario abanou a cabe�a, incr�dulo - Faz tanto tempo que n�o venho aqui que nem sabia dessa quantidade enorme de quinquilharias. - Ficar� surpreso quando come�armos a fazer dinheiro com esse material que est� desprezando tanto. - Espero que tenha raz�o, assim o esfor�o ser� recompensado. Mario n�o se dignou a ficar parado, tratando tamb�m de por m�os a obra. Come�ou a reunir o lixo que Edgar retirou do galp�o e que se encontrava num dos cantos do quintal. Nenhum dos dois demonstrou qualquer sinal de esmorecimento. Limpavam com afinco, n�o esquecendo o mais insignificante dos detalhes, e separavam os objetos nos lugares apropriados. Sabiam que nada era mais importante do que a organiza��o naquele momento, para n�o se queixar mais tarde. Ao notar uma velha bicicleta pendurada na parede, Mario resolveu retir�-la dali, pois aparentemente seria mais uma tralha a ser descartada. N�o estando na altura de suas m�os, subiu num dos caixotes de madeira, na esperan�a de alcan��-la. Mesmo assim, n�o atingiu seu objetivo. Pegou ent�o uma cadeira e, apoiando sobre o caixote, disp�s-se a subir em cima dela. Edgar, notando o perigo, aproximou-se e preveniu-o: - Cuidado para n�o cair! N�o foi preciso avisar uma segunda vez. Mario perdeu o equil�brio e acabou despencando da cadeira. N�o fosse Edgar, que praticamente amparou-o no ar, ele teria ido parar no ch�o. Tudo aconteceu numa fra��o de segundos. M�os firmes seguraram o corpo em queda, num abra�o que uniu-os com seguran�a e oferecendo prote��o contra o acidente quase inevit�vel. Um t�nue contato da pele, a respira��o contida, um cheiro imediato da proximidade de ambos evidenciou-se. Bastou a pequena manobra que levou-o ao ch�o suavemente para que se colocassem em alerta. N�o sorriram, como se faria numa ocasi�o assim. Silenciosamente voltaram a trabalhar. J� passava das sete horas da noite quando Arnaldo apareceu. Olga encontrava-se ocupada no preparo da comida e um aroma irresist�vel invadia a casa. Edgar, de banho tomado e bem disposto, havia se posicionado de plant�o na sala, aguardando por sua chegada. - Vai entrar ou ficar parado a� na porta? Arnaldo deu mostras de timidez ao se ver num meio estranho e austero. Cumprimentaram-se quase numa atitude formal, inibida. Ao admirar a pesada decora��o, fez um coment�rio que definia sua admira��o: - Puxa, que impon�ncia, nunca vi uma coisa assim... N�o � � toa que esse lugar te hipnotizou. Edgar levou-o at� a cozinha e apresentou-o a Olga. Muito sorridente, ela deu-lhe as boas vindas e disse que era um prazer receber os amigos de seu s�cio. O rapaz agradou-se com a gentil refer�ncia e sentiu uma leve ponta de orgulho. N�o demorou muito para que Mario descesse, sendo introduzido ao desconhecido. Apesar de am�vel, sua rea��o foi estranha, deixando pairar uma desconfort�vel sensa��o no ar. Notando o embara�o repentino, Olga sugeriu que eles tomassem um aperitivo antes do jantar ser servido. Sem esperar por uma resposta, abriu a geladeira e retirou uma cerveja, colocando-a em grandes copos de cristal. A cor dourada do l�quido brilhou atrav�s do vidro e uma atraente camada de espuma alva escorreu das bordas. Brindaram ao encontro alegremente, com Mario mostrando uma indisfar��vel disposi��o de se integrar ao grupo. Conversaram por uns instantes, Arnaldo elogiou a temperatura da bebida, ela estava no ponto! Olga aproveitou para fazer algumas perguntas discretamente, satisfazendo sua curiosidade. Depois, deixaram a cozinheira entretida com seus afazeres e foram para a sala. J� em clima descontra�do, acomodaram-se nas enormes poltronas de couro. Quem puxou a conversa desta vez foi Arnaldo: - Quer dizer ent�o que voc� � o famoso Mario! - Ent�o j� fui tema de conversa entre voc�s? Seu amigo falou bem ou mal a meu respeito? Edgar tratou de responder, apressado: - Comentei com Arnaldo que voc� � muito dedicado aos estudos, quase n�o tem tempo para se divertir. - Fa�o uma coisa que me agrada. N�o deixa de ser uma forma de divers�o. - Naturalmente. Foi o que disse - Edgar procurou n�o deixar transparecer a apreens�o, acrescentando - Al�m disso, um diploma garante o futuro. - Ele comentou tamb�m a respeito de sua postura estranha. Disse que voc�s j� brigaram um bom par de vezes. De bobeira, sem nenhuma raz�o aparente. - � verdade. Entramos em choque por minha culpa. Ele disse que sou de temperamento dif�cil, mas estou me esfor�ando para corrigir a falha - Mario deu um sorriso amarelo, tratando de levar o copo a boca. - Creio que n�o � hora apropriada para tocar nesse assunto - Edgar procurou desfazer o clima pesado que se criou - vamos falar dos novos planos, j� n�o tenciono mais ir para o Rio. - Na minha humilde opini�o, aqui entre n�s, comete uma grande tolice. Est� perdendo a oportunidade de conquistar o sucesso na cidade mais importante do pa�s. Lembre-se que foi capital at� recentemente e nada pode se comparar com a agita��o que se existe l� - Arnaldo comentou, sem um pingo de displic�ncia. - Aqui existe mais seguran�a - Edgar apressou-se em argumentar - n�o estou trocando o certo pelo incerto. A proposta de Dona Olga � excelente, n�o podia ser melhor... - Voc� considera tolice o fato de Edgar permanecer aqui na minha casa? - Mario perguntou casualmente. - Pelo amor de Deus, n�o me interprete mal - Arnaldo tentou corrigir o fora - O que estava querendo dizer � que ele deixa de realizar um sonho que sempre teve, n�o �, Edgar? - suplicou-lhe ajuda com o olhar. - Isso n�o vem ao caso. Mesmo porque, tenho muito tempo pela frente. - Seja como for, existe uma outra agravante. Acho imperdo�vel se afastar da fam�lia como est� fazendo. - Ele poder� sempre visit�-los, mora pr�ximo - Mario interferiu - Pior seria se estivesse no Rio. - A quest�o � que sua atitude � deliberada. Abandonou-os e se recusa a dar not�cias. Deu um ch� de sumi�o. - Desconhecia esse detalhe - Mario disse, surpreso. - J� me expliquei com sua m�e. Prefiro me manter afastado dos parentes porque me incomodam, me tiram a liberdade - Edgar justificou-se. - Ah, isso d� para entender bem. � o meu caso. - E o meu tamb�m. Todos padecemos do mesmo problema e n�o adotamos uma posi��o t�o radical. Est� sendo injusto. E posso afirmar isso com conhecimento de causa. Sou amigo do Edgar desde que tornou-se meu vizinho, n�s ainda �ramos crian�as. A m�e dele, inclusive, chegou a trabalhar no bazar com a minha, elas eram muito amigas. - Ah, �? E como era o Edgar nessa �poca? - Mario tentou levar o assunto para outro lado. - Me recordo muito bem que ele sonhava em ser bailarino, era t�o engra�ado ele ensaiar passos de bal�... - Arnaldo, � bom voc� parar por a�, est� caindo no rid�culo - Edgar interrompeu, sentindo o rubor nas faces. - N�o, por favor, continue - Mario insistiu. - Todas as vezes que havia alguma festinha, ele fazia uma apresenta��o. Era t�o gozado... Depois, de tanto apanhar da m�e, acabou desistindo - comentou com ar de deboche. - Estou fascinado com esse lado que eu n�o conhecia, Edgar - Mario desatou a rir - devia ficar uma gracinha com as sapatilhas... - N�o � nada disso, Arnaldo est� brincando - falou com irrita��o na voz - Gostava de dan�ar, apenas isso. Dan�a moderna, junto com um grupo de pessoas, e n�o sozinho. E tamb�m n�o tinha esse neg�cio de sapatilhas, muito menos col�. - Ora, Edgar, confessa que voc� tinha uma queda pelas apresenta��es no Municipal. Me lembro t�o bem disso... - Tamb�m aprecio m�sica erudita, confesso. Cheguei a ir a diversos concertos. Que mal h� nisso? - Est� bem, ent�o. Pode at� ser. Mas n�o tem condi��es de negar que em todas as vezes que passei pela academia, o encontrei fazendo gin�stica com o som ligado no �ltimo volume. - E da�? - indignou-se. - Ora, n�o venha me afirmar que aquilo era uma recrea��o viril. - N�o seja cretino! Trata-se de uma nova modalidade de educa��o f�sica, voc� sincroniza os movimentos da gin�stica com determinados ritmos. � uma maneira mais estimulante de desenvolver os m�sculos. - Para mim, aquilo era bal�. Tinha-se a impress�o de que Edgar iria perder o humor com o rumo que a conversa tomava, e foi isso exatamente que Mario observou. Tratou de interferir novamente: - Eu tamb�m j� ouvi falar desse tipo de gin�stica, Arnaldo. Est� ficando na moda esse neg�cio de desenvolver a musculatura, e o pessoal est� bastante criativo nessa �rea. Tudo para vencer a concorr�ncia. Quem realmente acabou desfazendo a situa��o embara�osa foi Olga, surgindo na sala e dizendo que a refei��o estava pronta para ser servida. Para al�vio de Edgar, interromperam a conversa e se dirigiram � copa. As travessas sobre a mesa fumegavam e tinham uma apar�ncia tentadora. Todos comeram at� se fartar. Havia costeletas assadas com batatas, refogado de milho verde e uma salada de beterraba que foi motivo dos maiores elogios. Tudo acompanhado com um bom vinho tinto, selecionado a dedo pela dona da casa. Depois do jantar, os rapazes se encarregaram de lavar os pratos e Olga recolheu-se ao quarto, com a inten��o de coloc�-los � vontade. Arnaldo acabou saindo bem mais tarde do que o esperado, levemente tocado e n�o deixando de mencionar mais duas ou tr�s passagens em sua conviv�ncia com Edgar que este preferia esquecer. Como resultado, permitiu que ficasse diversas vezes acanhado e deslocado no meio do bate-papo. A raz�o desse procedimento era inexplic�vel, em nenhuma outra circunst�ncia ele fora capaz de ser t�o inconveniente assim. Edgar deu tudo de si, trabalhando com dedica��o e deixando as marcas de suor na camiseta. N�o parava nem por um minuto, seu entusiasmo era fenomenal, sua vontade em ver o resultado final fazia com que ele esquecesse do cansa�o, ocupando-se em sua miss�o at� avan�ando noite adentro. Foram necess�rios alguns dias at� que o galp�o estivesse em ordem, da maneira como ele desejava. Mario cooperou apenas no dia da limpeza, pois seus compromissos com os estudos ainda n�o haviam se encerrado. Pacientemente ele foi tentando analisar todas as coisas que ali se encontravam, o que possivelmente seria considerado �til para uma futura loja de antig�idades e o que podia ser descartado. Compreendeu que era necess�rio distribuir tudo o que estava guardado em lotes facilmente identific�veis, de maneira a poder localiz�-los com maior facilidade. As caixas de madeira continham uma infinidade de bugigangas, desde pequenos espelhos de cristal a porta-retratos em madrep�rola. Preocupou-se em limpar todos os arm�rios que havia no recinto, desfazendo-se de tudo que realmente poderia ser considerado lixo. Habilmente improvisou prateleiras com t�buas encostadas nos cantos, fixando-as nas paredes com bra�adeiras de ferro existentes nos restos de reforma. Encerrada essa etapa, aproveitou sobras de tintas para pintar o que aparecia deteriorado, usando o l�tex para cobrir as paredes sujas e esmalte para esconder o desgaste da madeira. Incans�vel, lixou a ferrugem, corrigiu falhas no teto e encostou os m�veis em lugares mais adequados, de maneira a facilitar a locomo��o. Como toque final, teve a brilhante id�ia de estender um tapete velho e sem uso no ch�o, a fim de disfar�ar os ladrilhos lascados. Ao admirar sua obra, surpreendeu-se com o colorido do ambiente, pois aproveitara restos de tintas de cores variadas. Depois de encerrada a tarefa, chamou Olga. Ela aprovou a mudan�a, n�o economizando elogios e afirmando que o lugar at� dava a impress�o de ser uma loja, com os objetos expostos nas prateleiras. Observou tudo com aten��o e deteve-se numa estatueta de marfim. Pegou-a na m�o, apreciando por alguns instantes o delicado trabalho e suspirou. Era evidente que aquilo lhe trazia recorda��es, mas ela evitou quaisquer coment�rios. Voltou a coloc�-la no lugar e acabou procedendo de maneira id�ntica com outras tr�s ou quatro pe�as. Sem d�vida, havia muita coisa de estima��o entre as velharias. Notando sua rea��o, Edgar come�ou a ficar em d�vida se ela iria realmente se desfazer de tudo, conforme prometera. S� reconheceu que suas suspeitas n�o tinham fundamento com a chegada de Mario, pois na conversa que se seguiu, Olga voltou a confirmar os planos j� acertados. Na quarta-feira bem cedo pela manh�, ap�s o combinado por telefone, Edgar compareceu � loja de Aristides. Atendeu um senhor bonach�o, simp�tico, que reservou a maior parte do dia para deix�-lo �ntimo dos segredos que o novo of�cio escondia. Fez parte do aprendizado a visita a outros pontos de vendas de objetos antigos, pequenas butiques de galerias, cujos donos eram amigos de Aristides. Edgar familiarizou-se com uma infinita quantidade de materiais apresentados, ocasi�o em que n�o se furtou em comparar com os existentes na casa de Olga. Se assemelhavam em quase tudo, exceto na idade das pe�as, a maioria do s�culo dezenove, algumas at� mais antigas. Verdadeiras rel�quias. Ao final da tarde, retornaram ao com�rcio na rua das Palmeiras e Aristides desfilou as literaturas que possu�a a respeito do assunto. Falava com prazer, demonstrando orgulho e satisfa��o por dominar uma profiss�o t�o disputada. No fim, ele demonstrou interesse em conhecer a cole��o de Olga. Edgar fez um telefonema e pronto, poderiam seguir naquele mesmo momento para sua casa. Ela recebeu-o muito bem e, cheia de alegria, levou-o ao compartimento reformado. O velho n�o conteve o entusiasmo: - Meus parab�ns. O local pode ser aberto ao p�blico da maneira como est� - Aristides pegava numa pe�a aqui e ali, olhando atentamente nas prateleiras - � um verdadeiro arsenal de objetos interessantes. Como conseguiu reuni-lo? - S�o pertences de minha fam�lia que foi sendo adquirido ao longo dos anos. Estavam guardados, esquecidos e empoeirados. At� que apareceu o Edgar e surgiu essa id�ia de abrir uma loja. Acho que � uma maneira de abrir m�o de tudo e garantir um lucro em troca. - Posso garantir que n�o se trata de um pequeno estoque. Voc� tem aqui um farto material e bem variado. N�o se importa que eu d� uma opini�o pessoal? - � l�gico que n�o. Dependo de sua avalia��o profissional para tomar uma decis�o. Sei muito bem o que � assumir um compromisso dessa natureza, a gente precisa evitar a todo custo uma atitude impensada, baseada apenas no entusiasmo. - Sou da mesma opini�o. Um ponto de com�rcio envolve o gasto com uma s�rie de impostos, contador, etc. E, sinto lhe decepcionar, mas seu acervo n�o comporta um investimento nesse n�vel. - Como assim, Aristides? - Olga franziu a sobrancelha. - A quantidade de objetos � grande, mas, analisando por cima, sinto dizer que a qualidade deixa a desejar. Um colecionador, uma criatura que tem conhecimento profundo nessa �rea, vai rejeitar a maioria que existe aqui. Este material se adapta melhor numa feira de domingo, como existe na Pra�a da Rep�blica. Um local que n�o exige grandes investimentos de instala��o e nem grandes somas a serem pagas em impostos. - N�o me diga! Minha ambi��o foi muito al�m disso! - Olga pareceu decepcionada. - Esta � a palavra de algu�m que entende do assunto. Posso estar sendo at� perverso em fazer-lhe tal depoimento, mas acho prefer�vel encarar a realidade agora a um razo�vel preju�zo financeiro depois. Passou por sua cabe�a que ter� de se debru�ar num empreendimento em car�ter permanente? Para compensar, deveria oferecer um produto cujo retorno fosse garantido. Lamento dizer-lhe, mas n�o � isso que estou vendo diante de meus olhos. Edgar ficou t�o surpreso com avalia��o que, desatento em seus movimentos, esbarrou num vaso de vidro azul e fez com que o objeto ficasse dan�ando sobre a mesa. S� n�o espatifou-se no ch�o porque Aristides, num gesto r�pido, agarrou-o a tempo e colocou-o delicadamente no lugar. Notadamente, o velho transpirava sem parar. - S� tenho que ficar agradecida por voc� ter sido sincero comigo. A gente se ilude t�o facilmente com as coisas... Que pena. Enfim, foi melhor ter prevenido a tempo. - Mas nem tudo est� perdido, acalme-se - o homem pegou um len�o do bolso e passou em suas t�mporas molhadas de suor - Posso dar seu endere�o a um grupo de donos de barracas nessas feiras que acontecem aos domingos. Me proponho a falar com todos e oferecer seu acervo. Cada um poderia comprar pequenas quantidades e, para o p�blico leigo, pode servir. Seus fregueses s�o na maioria gente de menor poder aquisitivo, com pouco conhecimento nessa �rea. Compram se � barato e lhes agrada o visual, n�o levando em considera��o o valor da pe�a como antig�idade. - N�o � bem esse o meu objetivo - Olga interrompeu, usando um tom decidido - Tudo o que v� em sua frente tem um enorme valor sentimental para mim. Bem maior do que se realmente fossem considerados verdadeiros tesouros, como na realidade hav�amos imaginado. A decis�o de me desfazer da cole��o, que levou tantos anos para ser reunida, foi somente tomada no momento em que me dei conta que, com o dinheiro obtido, poderia resolver s�rios problemas financeiros e iniciar o Edgar numa profiss�o que lhe desse futuro. Uma quantia irris�ria n�o vai compensar nem uma coisa, nem outra. - Mas isso n�o quer dizer que ele n�o possa ingressar nesse ramo. Assumo o compromisso de prestar-lhe uma assist�ncia constante, quem sabe at� encontrando uma coloca��o numa loja de algum amigo - Aristides demonstrava forte convic��o nas palavras, acompanhando Olga que abandonava o local e regressava � copa. - Excelente, fico grata se fizer este favor. N�o significa, entretanto, que terei de me desfazer da cole��o. Para falar a verdade, j� estava na d�vida depois de ver tudo t�o bem arrumado. N�o me conformava tamb�m em dar fim em muita coisa que foi presente de antepassados do meu finado marido. Aceita um caf�? - sem esperar pela resposta, colocou a �gua para ferver. - Logicamente, quero o melhor para voc�. Somos amigos de uma longa data - Aristides fez uma pausa e depois acrescentou - Pelo que pude observar, nada daquilo oferece alguma utilidade pr�tica. Ocupa um espa�o enorme, um lugar que poderia ser usado de forma mais racional, talvez uma oficina ou algo que lhe trouxesse uma vantagem palp�vel. � uma ingenuidade querer guardar tanta velharia. Al�m do mais, poder� alcan�ar uma soma nada desprez�vel. Vamos fazer o seguinte: eu arremato tudo de uma vez e depois me encarrego de distribuir a esse pessoal, meus conhecidos. Olga esbo�ou um sorriso, puxando uma cadeira para que ele sentasse e disse: - Nesse caso, as coisas podem mudar de figura. Imaginava um monte de estranhos invadindo minha casa e me oferecendo ninharias. N�o saberia como barganhar com essa gente. Com o seu tino comercial, e a disponibilidade que tem na loja, quem sabe pode ser tudo mais f�cil para voc�. - Pois � claro! - Aristides enxugou mais uma vez o suor que insistia em aparecer - E olhando tudo, assim por cima, calculo cerca de cinco mil d�lares pelo lote. O que acha? - Nossa, da maneira como se referiu antes, imaginava uma quantia irris�ria! - Olga mostrou-se fascinada. - �timo, ent�o. Virei amanh� com o dinheiro e em condi��es de retirar o lote todo. Assim voc� fica livre do problema definitivamente. Edgar assistiu tudo de camarote, apenas saboreando o caf� que lhe fora servido. N�o lhe solicitaram a opini�o, ficou fora da negocia��o. N�o que ele estivesse magoado por causa disso. Pareceu-lhe apenas que o homem apresentava solu��es muito rapidamente, com uma facilidade que n�o convencia. E Olga mostrava-se demasiadamente confiante para que ele emitisse qualquer opini�o em contr�rio. Aristides ainda permaneceu por mais algum tempo, bateu um longo papo sobre outros assuntos, aquele j� considerava por encerrado. Depois, saiu, prometendo que cuidaria da coloca��o de Edgar. - O que achou? - Olga logo perguntou-lhe, nem bem havia fechado a porta. N�o era sem tempo, Edgar pensou. Mas j� que havia perguntado, iria responder-lhe com a maior das sinceridade: - Dona Olga, na minha opini�o, seria aconselh�vel ter uma segunda avalia��o das pe�as. - Voc� est� suspeitando do Aristides? - De repente, ele pode estar procurando outras vantagens que a senhora desconhece. - Ah, Edgar, ele � um velho amigo de minha fam�lia. N�o passa por minha cabe�a que ele venha a tomar qualquer atitude em meu preju�zo. Edgar calou-se, mas mantinha-se convicto de algo suspeito pairava no ar. Mais tarde chegou Mario, e Olga relatou-lhe tudo sobre a desilus�o do material que estava em seu poder por tantos anos sem valor o suficiente para abrir um antiqu�rio. Falou tamb�m da negocia��o e como Aristides soubera lhe dar a orienta��o correta. Era a sa�da mais adequada. Como n�o entendesse do assunto, e tamb�m tivesse o desejo de ver o quintal livre de tanta quinquilharia, Mario concordou. E a m�e deu o assunto por encerrado, nem sequer mencionando a hip�tese levantada por Edgar. Apesar de ter consci�ncia de estar contrariando a ambos, e que nem sequer poderia ter voz ativa, pois nada ali era de sua propriedade, Edgar resolveu por conta pr�pria fazer uma averigua��o mais profunda para confirmar a posi��o de Aristides. Desceu a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, entrou pelas ruelas do bairro do Bexiga e, aqui e ali, encontrava um ponto onde se observava objetos antigos � venda. Ele parava, examinava o acervo para constatar se havia alguma coisa semelhante com os encontrados na casa de Olga, e entrava para perguntar o pre�o e a idade aproximada. Passou o dia inteiro, gastou quase toda a sola de um sapato, mas acabou chegando a uma conclus�o que confirmava suas suspeitas: o homem em que Olga depositara sua maior confian�a mentia. Ele iria ganhar uma fortuna em cima de sua ingenuidade. Agora faltava apenas dar a not�cia em casa, e foi isso que ele fez, assim que chegou. Encontrou Mario conversando com Olga no quintal: - J� estava ficando preocupada com voc�, ficou sumido o dia todo... - Fui visitar alguns antiqu�rios. - Que entusiasmo com a nova profiss�o! - Mario comentou. - N�o se trata disso. Consultei o acervo deles para ver se existiam pe�as semelhantes �s de Dona Olga. - Logicamente, foi pura perda de tempo... - Est� enganado. A maioria dos objetos que tem aqui podem ser encontrados em poder dos melhores comerciantes - depois virou-se para Olga, continuando - Eu queria me certificar das afirma��es do seu amigo e constatei que eram todas falsas. Sabe aquela sopeira de porcelana, que a senhora decidiu incluir na venda porque estava atrapalhando l� na cozinha? - O que � que tem? - Encontrei uma semelhante cujo valor estava estipulado em cinco mil d�lares. E olha que era do mesmo fabricante, reconheci pelo bras�o da firma impresso no fundo. N�o tenho d�vida alguma de que ambos tenham o mesmo valor. - Meu Deus! - E tem mais: sabe aquele vaso de vidro azul que eu quase deixei cair no ch�o? Encontrei um id�ntico e me pediram oito mil d�lares por ele. � cristal da Bo�mia e data da �poca do Rei Frederico, da Pr�ssia. S�culo dezessete. - Que incr�vel! E o miser�vel do Aristides queria arrematar a cole��o inteira por bem menos do que isso! - O que mais me ati�ou a curiosidade e me fez chegar � conclus�o de que esse material � extremamente valioso, foi a reprodu��o de um mapa que a senhora tem guardado dentro de um canudo l� no galp�o. Um semelhante estava em exposi��o numa galeria, e no lugar de maior destaque. Constatei ser um atlas tamb�m do s�culo dezessete, mostrando o sistema de Nicolau Cop�rnico. Seria necess�rio que um especialista examinasse, mas se esse em seu poder for da mesma �poca, n�o me admiraria se valesse mais de cem mil d�lares. Olga deixou-se cair na primeira cadeira que viu, estupefata com a not�cia. Privara-se de tantas coisas, ao longo dos �ltimos anos, sem saber que havia uma verdadeira fortuna sob o seu nariz! E gra�as a Edgar, ela n�o se via desfalcada desse tesouro. E se n�o tivesse sido ele tamb�m, tudo estaria em outras m�os dentro de poucas horas. Mario revoltou-se. Queria de toda maneira armar a maior briga com Aristides, mas Olga n�o permitiu. Ao inv�s disso, ela consultou Edgar: - Levantou mais alguma informa��o? - Bem, encontrei mais uma dezena de pe�as com caracter�sticas semelhantes �s que est�o em poder da senhora. O valor, apesar de n�o ser nas mesmas propor��es, n�o d� para desprezar. Resta conferir alguns objetos que, pelos dados colhidos, me faz crer que sejam tamb�m raridades. Tem aquela cole��o de figuras em lou�a. N�o vi nada parecido em nenhum lugar. Nem as estatuetas em m�rmore cor-de-rosa, nem as bonecas de pano, nem os bras�es em estanho e muito menos os potes de cobre. - O que voc� quer dizer � que existe a chance de comercializar o lote inteiro com boas possibilidades de lucro? - Pelos conhecimentos que adquiri atrav�s do pr�prio Aristides, tudo me leva a crer que sim. - Gostaria de descobrir uma maneira de chegar a uma conta exata, ter no��o do valor real de tudo. - Ao menos tive condi��es de selecionar os objetos de custo muito elevado. Farei um levantamento minucioso do restante � medida que puder participar com maior freq��ncia das feiras de antig�idades. - Muito bem. E essas pe�as a que se refere, n�o chegou a nenhum tipo de avalia��o? - Consegui obter informa��es esta tarde que me permitem no m�ximo afirmar que valem aproximadamente entre cinq�enta e duzentos d�lares. Como v�, s�o c�lculos bem longe de uma exatid�o ideal. Existe material sem valor nenhum tamb�m. - Tem absoluta certeza? - Dona Olga, n�o sou um especialista no assunto. Fiz um levantamento para que tiv�ssemos uma base, cuja finalidade foi confirmar o que seu amigo disse. - N�o fale daquele sujeito como meu amigo. Ele � meu inimigo, isto sim. - Bem, o que posso garantir � que ali naquele galp�o - Edgar apontou com o indicador - existem objetos de grande valor. - Voc� � meu anjo protetor - disse, com um grande sorriso estampado na face. Depois, acrescentou - Agora, neste momento, estou interessada nos objetos sem valor. - Como assim? - o rapaz franziu a testa. - Temos que separar tudo o que for de pouco valor, de tal maneira que, reunidos, n�o cheguem nem de longe aos cinco mil d�lares. - Como afirmei, existem pe�as que n�o consegui uma avalia��o exata. - Essas tamb�m exclu�mos. Vamos examinar tudo atentamente. Sem perda de tempo, voltaram ao galp�o e debru�aram-se na �rdua tarefa a que se propuseram. Ao final da tarde haviam tirado do acervo todas as pe�as que Edgar considerou de valor, de tal maneira que acabou restando apenas objetos que, juntos, n�o somavam mil d�lares. Na manh� seguinte, ouviram um caminh�o encostar na cal�ada. Era Aristides. Olga recebeu-o como se nada tivesse acontecido, com um ar de suprema bondade. Em sua companhia vieram mais dois indiv�duos, com a miss�o de auxiliar na embalagem e preparo das pe�as para o transporte. Demonstrando um pouco de nervosismo, ele novamente procurou convenc�-la de que era um homem muito ocupado, precisava ser ligeiro com o planejado, pois tinha outros compromissos. Olga atendeu-o prontamente, conduzindo-os ao local onde reunira o material. Mas n�o conteve-se e perguntou, mantendo um ar de ingenuidade: - Trouxe o dinheiro? - Sim, acertaremos tudo conforme o combinado. Mostrava-se bastante confiante. Por�m, ao bater os olhos nos objetos, Aristides empalideceu: - Est� faltando muita coisa aqui - falou com um leve tremor nos l�bios. - Pois � - Olga afirmou com displic�ncia - Retirei algumas pe�as que achei por bem n�o me desfazer. O valor sentimental falou mais alto. Mas voc� pode fazer um c�lculo aproximado e deduzir do total que iria me pagar. Aristides puxou o len�o do bolso e passou na testa. Seu suor caracter�stico tinha aparecido novamente. Ele olhou para os estranhos que o acompanhava, apertou os dedos entre as m�os, deu uma volta entre o material que havia sobrado. Depois acrescentou, com ar desesperado: - Mas n�o est� nada aqui! - Como nada? O compartimento est� abarrotado at� o teto! - Olga afirmou, conservando sua fisionomia imperturb�vel. - Mas hav�amos combinado o lote inteiro... - O senhor est� se referindo � sopeira de porcelana inglesa, que custa cinco mil d�lares? Ou ao vaso de cristal, no valor de oito mil d�lares? - Mario interferiu, decidido a acabar com a farsa. - Ou ser� ainda o cavalo entalhado em madeira da �poca do imp�rio, avaliado em doze mil d�lares? - desta vez foi Edgar quem se fez ouvir. Olga pediu para que se calassem, aguardando pela rea��o de Aristides. Ele gaguejou, mal conseguindo balbuciar algumas palavras sem sentido. No fim, recuperou a compostura e afirmou desconhecer do que estavam falando. N�o havia necessidade de discuss�o. Olga sugeriu que ele se retirasse. Mas as coisas n�o correram t�o suavemente assim. Ao fechar o port�o, Mario gritou: - Ladr�o! Nunca mais volte aqui! |