Cap�tulo 06 - No Ramo de Antiguidades
No dia seguinte, esperou propositadamente que Mario sa�sse e depois se levantou. Foi direto conversar com Olga, encontrando-a bem. Perguntou se precisava de algo, ela pediu-lhe algumas frutas e ele desceu. Depois de atend�-la, comentou a respeito do quarto de despejo, o qual ele chamava de oficina de consertos.
- Ah, aquele c�modo tem a hist�ria de minha inteira exist�ncia l� dentro, lembran�as de minha av� e muita gente da fam�lia. Tem muitas pe�as de decora��o, m�veis antigos os quais n�o achei um lugar apropriado para colocar e objetos que, por quest�es sentimentais, n�o tive coragem de me desfazer. Sempre tive uma inclina��o por coisas que pertenceram a parentes antigos. Por isso, todas as vezes que viajava para o interior, acabava sendo presenteada com algo. Em certa ocasi�o, cheguei at� comprar tanta quinquilharia que me deu um trabalho enorme para arranjar um lugar onde pudesse guardar tudo.
- Mas, se a senhora deixa da maneira como est�, tudo abandonado e cheio de poeira, vai acabar tendo que jogar fora porque fatalmente vai se estragar.
- J� n�o tenho mais idade para me preocupar com essas coisas, esta casa me toma todo o tempo dispon�vel - ap�s breve hesita��o, continuou - Tenho uma id�ia. Por que n�o cuida disso para mim?
Era exatamente a frase que Edgar desejava ouvir. Chegara a conclus�o que n�o havia muito o que fazer e a ociosidade fazia o tempo andar mais devagar. Pelo menos, serviria de distra��o at� sua partida. Al�m disso, todas as vezes que contornava o galp�o, morria de curiosidade em saber o que havia guardado ali. Nutria uma velha paix�o por antig�idades e, desde o dia que passara os olhos em tudo, encheu-se de certeza que encontraria objetos interessantes no meio da bagun�a. N�o se furtava a imaginar se, com pequenos consertos e uma boa limpeza, muita coisa seria recuperada, deixando de significar apenas lixo.
T�o logo Olga o liberou, Edgar foi at� seu aposento, vestiu uma roupa de briga e depois p�s-se a planejar a arruma��o da tal oficina de consertos. A desordem era total. Quinquilharia imprest�vel, caixotes de madeira abarrotados, poltronas pu�das, abajures com c�pulas rasgadas e arm�rios cujas portas n�o podiam ser abertas, sob o risco de tudo cair a sua frente. Ao levantar os olhos para o teto, observou o material que Olga atribuiu um valor maior que os outros e preocupou-se em preservar com mais zelo. Estava pendurado na arma��o de madeira do telhado, entre teias de aranha e poeira a olhos vistos. Era poss�vel que um tesouro escondia-se no meio daquilo tudo, algo facilmente transformado em dinheiro. Satisfeito, imaginou que talvez n�o sa�sse de m�os abanando daquela casa, de maneira a compensar o desgaste criado a partir do relacionamento com Mario.
Todavia, diante do infinito volume de miudezas, n�o lhe ocorreu nem sequer como come�ar a limpeza. N�o lhe era poss�vel chegar ao fundo do galp�o, tal a quantidade de objetos que lhe obstru�a a passagem. Havia muita coisa para se fazer, o que levou-o a concluir que se tratava de tarefa para mais de uma pessoa. Desnorteado, come�ou a perder o entusiasmo, pois o esfor�o despendido pareceu-lhe maior do que o tolerado. Al�m do mais, caso n�o encontrasse nada de compensador, o resultado de tanto esfor�o seria nulo. Por fim, n�o seria uma ou duas semanas o suficiente para restaurar o lote inteiro. E o dia de sua partida se aproximava.
Edgar voltou para a cozinha, serviu-se de uma x�cara com caf� e leite, passou manteiga numa fatia de p�o de centeio e sentou-se para comer, pensativo. N�o tinha id�ia por onde come�ar. Talvez n�o houvesse outra alternativa sen�o deixar o plano de lado, apesar de um poss�vel resultado positivo. Nesse momento, ouviu a porta da frente se abrir. Era Mario. Aproximou-se cabisbaixo, disse bom dia rapidamente e cuidou de fazer um sandu�che, afirmando ter sa�do sem tomar caf� de manh�. Sentou-se � mesa e, depois da primeira mordida, perguntou:
- Foi boa a farra ontem � noite?
- Deu para divertir.
- Deve ter chegado num porre daqueles...
- O que importa? Sa� para bater papo com um amigo e aproveitamos para tomar umas cervejas. Nada mais do que isso - Edgar continuou a comer, n�o ligando para o que o rapaz insinuava.
- A bebida s� serve para tornar as criaturas desagrad�veis.
- Tem algumas que nem precisam dela... - Edgar n�o conseguiu evitar o coment�rio.
- N�o me ofende, se � o que tem em mente. Pode encher a cara, o quanto quiser, n�o � da minha conta.
- N�o cometi nenhum ato reprov�vel e muito menos cheguei cambaleando, se interessa saber.
- Levemente tocado, apenas? S� imagino o que minha m�e pensaria, ao v�-lo chegar daquela maneira. Tem avers�o por bebum.
- Ela � digna de todo respeito, mas n�o tem nada a ver com minha vida particular. Mesmo porque, quem est� fazendo um favor aqui sou eu.
- Vai dar uma de prepotente, por acaso? - Mario sentiu-se insultado.
- N�o. Mas � evidente que n�o tem consci�ncia disso. Ent�o, cheguei � conclus�o que se torna absolutamente indispens�vel ficar te lembrando o tempo inteiro.
- Tudo por causa de um simples coment�rio sobre sua embriaguez?
- Como disse, posso assegurar-lhe que n�o fiz nada para me envergonhar, tenho a consci�ncia tranq�ila. Agora, se n�o sai com os amigos e se diverte, algo est� errado com voc�. N�o � comigo que tem de se preocupar.
- N�o preciso de conselhos.
- Muito menos eu.
No momento em que a discuss�o chegou a um ponto insustent�vel, Mario afirmou:
- A pouco tempo que a gente se conhece, quase n�o conversamos. N�o sei quem voc� �, na realidade. Mas estamos entrando num conflito atr�s do outro. N�o faz muito sentido continuar nessa provoca��o in�til...
- Ent�o por que me pediu que ficasse? - Edgar interrompeu.
- Reconhe�o que preciso de voc� e creio que seja um bom sujeito. Apenas me preocupou esse lance de ontem � noite. As apar�ncias n�o enganam...
- Tamb�m acho que � excelente, excede na simpatia - Edgar ironizou - Mas est� se metendo onde n�o foi chamado. N�o tenho que dar satisfa��es da minha vida a ningu�m. Ou ser� que ainda n�o percebeu isso? Ali�s, n�o prometi uma disponibilidade integral, de vinte e quatro horas por dia. N�o vou renunciar aos meus momentos de folga. A prop�sito, por que raz�o me espreitava?
Mario acabou de mastigar o bocado que colocara na boca, engoliu depressa e retrucou:
- Foi por acaso. Sofro de ins�nia e, coincidentemente, me aproximei da janela no instante exato em que chegou. O que me chamou � aten��o foi sua dificuldade em achar o buraco da fechadura...
- N�o estou acostumado com a porta de entrada, foi a primeira vez que usei as chaves, sabe disso. Vai voltar ao assunto, novamente? Super Mario. N�o p�e uma gota de �lcool na boca, s� estuda, leciona e toma conta da casa. Merece ganhar um pr�mio por tanta integridade - Edgar ironizou novamente.
- Olha, estou precisando de voc� por mais alguns dias. Mas, se quiser, pode ir embora, desisto. Dou um jeito de arranjar algu�m que possa substitui-lo. A gente n�o consegue se entender, as coisas n�o se encaixam entre n�s - Mario levantou-se e lavou a x�cara na pia, continuando - pior, suas atitudes provocam disc�rdia entre eu e minha m�e.
- Do que est� falando, agora?
- Falou em perfei��o, mas ningu�m supera voc�. A forma de dirigir seus atos � impec�vel. N�o tem uma m�cula, s� a extrema habilidade para se fazer admirado. Numa compara��o, perco feio. E minha m�e n�o tem feito outra coisa. Ela preferia que eu fosse igual a voc�. Mas acontece que n�o sou, ningu�m pode mudar a natureza.
Certo que havia apenas uma �nica solu��o � vista, Edgar respirou fundo e respondeu:
- Enquanto o neg�cio era s� comigo, tudo bem. D� para tolerar suas esquisitices. Agora a coisa � diferente, n�o vou ser o piv� de briga entre m�e e filho. Estou caindo fora, vou arrumar minhas coisas - Edgar fez men��o de abandonar o local, por�m Mario impediu-o, segurando-o pelo bra�o.
- Espere. Ainda n�o terminei. J� que � t�o presun�oso, quero te dar um conselho. � bom ter cuidado com sua embriaguez, poder� arranhar sua primorosa imagem - Mario deu uma gargalhada.
Foi tudo muito r�pido. Edgar descontrolou-se e deu um murro na cara de Mario, acertando-lhe o maxilar. Embora n�o tivesse usado de tanta for�a, foi o suficiente para que o rapaz perdesse o equil�brio, batendo com o corpo no guarda-lou�as e fazendo um tremendo barulho. Imediatamente Olga desatou a chamar pelos nomes de ambos.
- Que sujeito estourado! Precisava se ofender a esse ponto? - Mario massageou o queixo - � melhor eu ver o que minha m�e quer. E seria bom que ela n�o soubesse desse incidente.
Subiram juntos a escada, um atr�s do outro. Apesar de considerar-se coberto de raz�o, Edgar pediu-lhe desculpas no trajeto. N�o escutou, entretanto, uma �nica palavra em troca. No quarto, Mario justificou o barulho dizendo para a m�e que derrubara uma panela no ch�o, sem querer. Ela olhou fixamente os dois, ainda meio incr�dula e desconfiando do que realmente acontecera. Afinal, tamb�m ouvira vozes alteradas. Diante da insist�ncia de que tudo estava em ordem, acabou convencendo-se.
Regressando � cozinha, Edgar voltou a se desculpar:
- Voc� me desacatou, mas acho que passei dos limites. Me perdoe.
- Eu devia revidar - Mario passou a m�o no queixo.
- Estou pronto - fechou os olhos, esperando de brincadeira pela pancada.
- N�o passa de um patife - sorriu.
- Concordo. Ficamos desperdi�ando tempo com mesquinharias e deu no que deu. A coisa ficou feia entre n�s.
- Se disser que est� tudo bem, voc� desiste da id�ia de ir embora?
Talvez tivesse que lavar os ouvidos, n�o era poss�vel compreender perfeitamente. Na primeira investida, queria que partisse, agora vinha novamente com aquela ladainha? Era melhor esclarecer muito bem as posi��es e Edgar determinou:
- Se ainda n�o pode abrir m�o da minha presen�a nesta casa, por que raz�o fica me provocando?
- J� falei, senti ci�mes. Me perdoe, n�o consegui controlar.
- Estou achando uma infantilidade sem tamanho e n�o sou obrigado a tolerar isso. Me sujeito a adiar uma viagem pela qual venho sonhando h� tempos s� para ser prestativo e n�o estou disposto a ficar mais nenhum minuto debaixo do mesmo teto se n�o ficar bem claro duas coisas:
- O que? - Mario perguntou num engasgo, um tanto vacilante com a imposi��o inesperada.
- Deixar que eu fa�a as tarefas a que me propus e n�o se intrometer em mais nada. At� chegar o dia da minha partida. Estamos combinados?
Mario aquiesceu e, por alguma raz�o que ele pr�prio desconhecia, Edgar acabou cedendo mais uma vez.
Os dias foram passando e a vida seguia seu rumo normal, com uma surpreendente paz reinante � sua volta. Apesar do clima tenso a partir da desaven�a, os �nimos se acalmaram e Edgar tirou proveito da ocasi�o, fazendo o que bem entendia em suas horas de folga. Olga, que jamais tomou conhecimento da sucess�o de conflitos entre os dois rapazes, restabeleceu-se plenamente. Pouco depois de tirar os pontos, sentia-se em perfeito estado de sa�de e com �tima disposi��o, n�o havendo mais raz�o para permanecer na cama. O projeto de limpeza do galp�o foi arquivado, de modo que Edgar passou a ter em vista sua viagem para o Rio. De acordo com o combinado, a miss�o estava cumprida e deixava de existir qualquer justificativa para sua perman�ncia na casa.
Quando ele trouxe o assunto � tona, foi apanhada de surpresa. Tinha em mente uma s�rie de planos que o inclu�am, mas se era assim que ele desejava, paci�ncia. Demonstrando uma preocupa��o de amiga, perguntou se tinha certeza de que iria dar-se bem no Rio.
- H� tempos decidi essa viagem e agora n�o quero voltar atr�s, significa muito para mim. A gente tem que tentar, mesmo que, no in�cio, enfrente dificuldades. Se n�o der certo, volto.
Para espanto de ambos, ouviram Mario bater a porta ao chegar. Estava furioso. N�o queria falar com ningu�m, pediu que o deixassem em paz, subindo com f�ria as escadas e refugiando-se em seu aposento. Ali, pelo menos, era dono do nariz e podia fazer o que lhe viesse � mente. Despiu-se e jogou-se na cama, s� de cuecas. Em seguida, num gesto brusco, alcan�ou o interruptor e desligou a l�mpada, na esperan�a de que um momento de sossego atenuasse um pouco sua amargura. N�o conseguia se conformar, a revolta dominava sua mente. Fora imprudente ao discutir com o professor na escola e viu-se v�tima de uma severa repreens�o, tudo injustamente no seu modo de ver. Contudo, o que motivou-lhe tanta c�lera foi a atitude descontrolada do superior ter ocorrido publicamente, na frente dos outros alunos. Havia sido repugnante, devastador para uma mentalidade fr�gil como a sua. Se fosse rebelde, como muitos, n�o se importaria pelo fato da classe inteira ter assistido a esfrega de camarote. N�o era esse seu caso, sempre fora um estudante exemplar, daqueles que s�o constantemente visados pelos colegas. Flagrado numa falha, por menor que seja, vira centro das aten��es e � ridicularizado. Ele tinha receio que isso realmente pudesse acontecer, de servir de pilh�ria a partir do momento que colocasse os p�s novamente na institui��o. Pior, caso demonstrasse qualquer fraqueza diante da turma, o tumulto n�o iria ter mais fim. Era certo de que seria motivo de chacota ao longo de toda a temporada. N�o queria transformar-se em saco de pancadas, a menos que um esc�ndalo maior surgisse e outro fosse escolhido para Cristo.
Mario tinha motivos de sobra para encontrar-se num estado emocional tremendamente abalado. Apenas n�o tinha o direito de trazer o aborrecimento para dentro de casa, numa furiosa invas�o e sem dar satisfa��es do que acontecera. Edgar pensava que era com ele. Olga pensava que era com ela. Ambos n�o tinham no��o da realidade.
Chegou a hora do almo�o. Imposs�vel ter apetite. Um clima pesado tomara conta do ambiente. Foi nessas circunst�ncias que Edgar decidiu falar sobre sua partida com Mario. Subiu as escadas e bateu na porta de seu quarto.
- O que �?
- Sou eu, Mario, gostaria de falar-lhe por um minuto.
- N�o quero conversa com ningu�m agora.
- Bem, eu s� queria me despedir, estou de malas prontas.
Mario pulou da cama e abriu a porta, com os olhos arregalados.
- Vai embora? Por que essa decis�o, t�o repentina?
- N�o hav�amos combinado que eu permaneceria por apenas duas semanas? O prazo j� encerrou. Al�m do mais, sua m�e j� est� boa de novo. N�o depende mais de mim.
Mario puxou-o para dentro do aposento e encostou a porta.
- � uma pena que tenha tomado essa decis�o. A gente j� estava se acostumando com a sua companhia.
- N�o � o que demonstra.
- Meu aborrecimento � por causa da escola, n�o tem nada a ver com voc�. Fui v�tima de uma injusti�a sem tamanho.
- Podia ter dado alguma satisfa��o. Sua m�e e eu pensamos ser os culpados por uma raz�o desconhecida.
- Me perdoe, sou atrapalhado assim mesmo.
- Enfim, tenho que seguir viagem, n�o h� o que adiar agora.
- Por que n�o permanece por mais uns tempos? Poder�amos sair, tomar um porre juntos. O que acha? - seu semblante j� n�o denotava a consterna��o anterior.
- L� vem voc� de novo com essa hist�ria. N�o sou alco�latra, ponha isso na cabe�a.
- Nunca abandona a posi��o de defesa. Calma. Tinha em mente apenas sugerir uma oportunidade para que a gente se conhecesse melhor. Todo esse mal entendido, faltou muita coisa para esclarecer. N�o sou t�o mau assim como imagina.
- Fique tranq�ilo. N�o sairei com uma impress�o errada a seu respeito - Edgar tomou o cuidado de n�o entrar em detalhes, acrescentando - S� n�o faz sentido continuar aqui, quando meu prop�sito � outro. Esqueceu de que estava de passagem para o Rio ao aparecer h� duas semanas?
- � verdade, n�o posso atrapalhar seus planos ainda mais. Enfim, resta a gratid�o por ter auxiliado minha m�e e ter aturado meus acessos de c�lera. Queria que escrevesse, quem sabe um dia fa�o uma visita. Isto �, se for de sua vontade.
Edgar omitiu a resposta, limitando-se a afirmar que a quinzena passara rapidamente e que sentia-se feliz por ter sido de ajuda. Apenas n�o mencionou que abandonava tudo com grande al�vio, farto com as rea��es esquisitas de Mario. Uma conviv�ncia curta, mas bastante tumultuada, cheia de decep��es e desacertos. Entre eles, a barreira criada era bem maior do que se poderia supor. N�o havia condi��es de se admitir discuss�es como aquelas surgidas no decorrer de sua estada, como se compartilhassem de antiga intimidade, quando na realidade n�o passavam de simples desconhecidos um para o outro. O rapaz tomou a liberdade de ultraj�-lo quando n�o tinha o menor direito. Edgar, polidamente, acrescentou ainda que iria partir bem cedo no dia seguinte e se despediria antes de deitar, n�o esperava que se levantassem de madrugada para o �ltimo adeus. Sairia e jogaria a chave por debaixo da porta.
Edgar encontrou Olga no quintal e repetiu as mesmas explica��es que dera a Mario. Ocupada com algumas pe�as de roupa no varal, ela largou o servi�o e respondeu, numa forte tentativa de ser convincente:
- N�o tiro sua raz�o em desejar ardentemente realizar um sonho com essa viagem. Entretanto, ainda � jovem, tem todo o tempo do mundo. Vou fazer-lhe uma proposta e, quem sabe, tome a decis�o correta de adi�-la um pouco. E ineg�vel a voca��o que tem para as artes manuais, uma qualidade rara nas pessoas. Fiquei satisfeita com a porcelana que recuperou, ela ficou em �timo estado, como se jamais tivesse partido em muitos peda�os. Como viu naquele galp�o - apontou com o dedo indicador - existe uma enorme quantidade de objetos que, com seu talento e perseveran�a, poderiam ser restaurados e transformados em excelente meio de fazer dinheiro. Quer ser meu s�cio?
Edgar sorriu educadamente e retrucou:
- Dona Olga, meus planos s�o outros. J� era para estar no Rio h� muito tempo. Aguardava apenas sua recupera��o. Agora, nada me impede de seguir em frente.
- Seja sincero. Voc� surgiu com essa id�ia na semana passada.
- Engana-se. Tive que alterar meus planos em vista da situa��o do Mario, sobrecarregado de trabalho.
- Ora, ele me disse que partiu de voc� a sugest�o de ficar conosco, pois n�o tinha para onde ir...
Finalmente a verdade vinha � tona, Edgar pensou. E fez quest�o de salientar:
- Passei por aqui apenas para me despedir, quando ele exp�s o drama por n�o ter ningu�m que o ajudasse. N�o h� raz�o em mentir, mesmo porque meus pais vivem em S�o Paulo e, logicamente, n�o teria necessidade de outro teto para morar. Desde que a conheci, j� estava com o destino tra�ado - afirmou enfaticamente.
- Seja como for, isso n�o invalida minha proposta.
- Agrade�o a confian�a que deposita em mim, mas...
- Se comporta de forma infantil. Acha que chegar� numa cidade estranha e n�o enfrentar� nenhum imprevisto desagrad�vel? N�o creio que seja assim t�o ing�nuo. Ter� de recome�ar do zero, conhecer pessoas com costumes diferentes e se adaptar a eles. Lutar para ganhar a confian�a dessas pessoas, que fatalmente v�o trat�-lo como um forasteiro. N�o estar� entre os seus. Ilude-se em pensar que o sucesso o aguarda em cada esquina. Seja realista, as coisas n�o caem do c�u facilmente. Ponha a cabe�a no lugar e permane�a aqui com a gente. Ser� bem recompensado, garanto.
Olga n�o mencionou, mas havia uma outra raz�o. Era seu filho. Naquele momento, via-se diante de dois jovens com temperamentos opostos, um genioso e outro disciplinado. Era imposs�vel n�o comparar, a diferen�a era gritante. E logo deduziu que o forte tem poder sobre o fraco. Ela contava com a ajuda do rapaz que mal conhecia mas deixava transparecer uma not�vel capacidade para induzi-lo ao caminho certo. Sabia que uma influ�ncia ben�fica era imprescind�vel e j� come�ava a dar resultado. Era ineg�vel que Mario se modificara sensivelmente, j� n�o se mostrava t�o arredio. Entretanto, ainda faltava um longo caminho a percorrer, principalmente ao tomar conhecimento de mais uma artimanha sua. Era um desvio de car�ter que tinha de ser corrigido a qualquer custo. E para isso, a solu��o possivelmente estava � m�o. Edgar tinha predicados que serviam de exemplo, n�o podia ser descartado. Restava conduzir habilmente a quest�o para n�o ver seu objetivo malsucedido. Continuou:
- N�o est� satisfeito com suas acomoda��es? Vi Mario escolhendo os melhores m�veis para colocar no quarto, preocupou-se com seu conforto. At� o colch�o, achando que poderia estranhar, substituiu-o por um de seu pr�prio uso. Pensamos at� na sua independ�ncia, por isso n�o o instalamos dentro da casa. Pode sair e chegar � hora que bem lhe aprouver. N�o nos metemos em sua vida.
Edgar ficou satisfeito e lisonjeado com a insist�ncia. Sentiu-se importante e reconheceu que se tratava de uma oferta longe de ser desprezada. N�o valia a pena trocar o certo pelo incerto, mesmo porque a independ�ncia almejada era uma realidade. Al�m disso, Mario deu mostras de interesse com seu bem estar e esse detalhe havia passado despercebido. Bem que se surpreendeu ao chegar com as bagagens da rodovi�ria e dar de cara com um aposento sem uso t�o bem arrumado. Olga aproveitou o aparente momento de indecis�o e prop�s:
- Vamos fazer o seguinte: Voc� permanece at� examinar todo o material que poder� ser aproveitado, prepara as pe�as que achar de mais f�cil comercializa��o e a gente parte para a venda. Ser� o primeiro passo. Se der certo, continuamos. Caso contr�rio, acertamos uma compensa��o pelo trabalho e estar� livre para fazer o que bem entender de sua vida. Que tal?
Edgar n�o precisou de muito tempo para a resposta. No fundo, tinha pena em abandonar a casa, se afei�oara aquele mundo diferente, que jamais fizera parte de sua exist�ncia antes. E sobretudo agora, diante de tanta sinceridade que Olga transmitia em suas palavras, sentiu-se mais inclinado a concordar com o ambicioso plano:
- Est� bem, ent�o. Vamos arriscar e ver no que vai dar.
- Ufa! At� que enfim consegui convenc�-lo. Com certeza, a nova atividade vai ser coroada de �xito, se conservar essa mania de certificar-se muito bem antes de tomar uma decis�o - Olga sorriu alegremente.


Edgar incumbiu-se pessoalmente de manter Mario informado sobre a mudan�a de planos. Em caso de qualquer suspeita de desaprova��o, voltaria atr�s e seguiria viagem. Encontrou-o preparando-se para sair e tratou de dar a not�cia sem hesitar:
- N�o vou mais embora.
- Essa n�o! Me surpreende ter mudado de opini�o, assim t�o de repente.
- N�o gostou?
- Pelo contr�rio, vem de acordo com minha vontade. Sabe disso. Aposto que foi minha m�e que conseguiu convenc�-lo.
- Exatamente. Ela acha que serei �til em ajudar a arranjar um destino para o material do galp�o.
- J� era hora de dar um fim naquele lixo.
- N�o � bem isso que tem em mente. Ela acredita que existe muita coisa que pode ser aproveitada.
- Tenho minhas d�vidas. Mas, falando francamente, jamais me preocupei em saber se havia algo de valor ali. E quanto a voc�, v� alguma vantagem na empreitada?
- Seremos s�cios. Devo restaurar o que for poss�vel, depois colocamos � venda e repartimos os lucros. Acha algum inconveniente?
- De forma alguma. Tem que tirar algum benef�cio para compensar o servi�o. Para mim, est� tudo bem.
- Fico contente - fez uma pausa e depois continuou - N�o tomaria qualquer iniciativa sem a sua aprova��o.
- J� estou atrasado para o col�gio - pegou seus livros e fez men��o de sair - A prop�sito, aceita um volunt�rio como ajudante?
- L�gico. Mas n�o vai atrapalhar seus deveres com o estudo?
- As provas chegam ao final na semana que vem. A�, acabam os compromissos com os alunos que t�m aulas comigo. Vou poder tirar uma folga. Em seguida, vem as f�rias.
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