| Cap�tulo 05 - Mudan�a Adiada | |||||||||
| Mario, ao dar explica��es a Olga sobre o arranjo destinado a facilitar o servi�o durante o per�odo de sua convalescen�a, inverteu os pap�is. Ao inv�s de dizer-lhe que a perman�ncia de Edgar na casa havia sido poss�vel gra�as a uma solicita��o sua, mentiu ao afirmar que partira dele a id�ia de prestar-lhes aux�lio. Tudo para n�o se ver em posi��o inferior. Acrescentou ainda, que diante de sua insist�ncia, e tamb�m pelo fato de que o pobre coitado n�o tinha onde cair morto, n�o houve outra sa�da sen�o consentir com seu pedido. A m�e que n�o se preocupasse, pois ele tinha um prazo de duas semanas at� encontrar outro lugar para morar. Como a mentira tem perna curta, a safadeza foi descoberta no mesmo dia em que Olga voltava do hospital, j� operada e em fase de recupera��o. Edgar, que se instalara no apartamento dos fundos e j� cuidara de tomar conhecimento, atrav�s de Mario, sobre quais eram suas prefer�ncias, recebeu-a de tal maneira que n�o tardou para que ela o elogiasse: - Voc� � muito prestativo, at� os len��is da minha cama foram mudados. Estou t�o bem acomodada que nem d� vontade de sair daqui. - Mas � onde a senhora dever� ficar at� se restabelecer completamente. Por isso mesmo j� est� tudo preparado para que n�o se preocupe com nada - Edgar tinha nas m�os uma bandeja com ch� e biscoitos, que ele deixou sobre a c�moda. Depois, ao conferir os rem�dios que deveriam ser ministrados em hor�rio definido na receita, ele separou-os de tal modo a n�o fazer confus�o. - Parece que foi um anjo que mandou voc� vir ajudar a gente. Voc� v�, o Mario nem tempo teve de ir me buscar no hospital, de t�o atarefado que anda ultimamente. - No que estiver ao meu alcance, estou � sua disposi��o. Quer o ch� agora? - Sim, obrigada. Como se costuma dizer, uma m�o lava a outra. Voc� n�o tinha lugar para morar e a gente precisava de algu�m que nos ajudasse. Edgar acomodou a bandeja em seu colo e depois desceu, alegando que tinha coisa para fazer. Era s� chamar, se fosse preciso. Depois, pensativo com o coment�rio de Olga, chegou � conclus�o que Mario distorcera as coisas. Como poderia afirmar que ele n�o tinha lugar para morar, a n�o ser que tivesse ouvido isso vindo de outra boca, ou seja, do filho? Era dif�cil compreender a posi��o que o rapaz adotara. Quase havia implorado por seu socorro e depois criava uma imagem diferente, como se o favor partisse de si pr�prio? Pairava no ar uma certa superioridade imbecil, uma postura desnecess�ria que Edgar somente veio a compreender depois de muito tempo. Naquele momento, entretanto, permanecia uma inc�gnita em sua cabe�a, sentia-se incomodado com a situa��o. Edgar encolheu os ombros. Enfim, n�o ficaria ali por toda a eternidade. O dia passou mais r�pido do que o esperado. A cozinha foi arrumada, o almo�o servido e, durante a tarde, Edgar bisbilhotava aqui e ali para ver se encontrava algo de �til para fazer. Subiu e desceu as escadas v�rias vezes, sempre atento no caso de Olga necessitar de seus pr�stimos. Ela quase n�o interferiu em nada, pois dormiu o tempo inteiro, ainda sob o efeito dos medicamentos. Anoitecia quando Mario chegou. Carregava alguns livros e notava-se em sua fisionomia tra�os de cansa�o. Encontrou Edgar absorto na leitura de uma revista, sentado no sof� da sala. Perguntou se tudo estava em ordem, se a m�e havia sido bem cuidada e coisas assim. Como resposta, recebeu praticamente um relat�rio minucioso dos acontecimentos do dia e depois ele subiu, indo ao encontro da m�e. Edgar apertou as m�os, num claro sinal de impaci�ncia. Se n�o tivesse sido sua inoportuna curiosidade, a uma hora dessas estaria passeando pelo Rio de Janeiro. Que motivo havia para ter-se metido numa tolice daquelas? Qual era a vantagem que levava em cuidar de uma casa como se a inclina��o para servi�os dom�sticos fosse sua especialidade? Pior, que benef�cio podia advir de uma conviv�ncia com um sujeito como Mario, cujo tra�o de personalidade n�o deixava transparecer sen�o ego�smo? Com vis�vel mau humor, Edgar abandonou a sala e encaminhou-se para os fundos, refugiando-se em seu aposento. Lembrou-se da fam�lia, era necess�rio dar alguma satisfa��o de seu paradeiro, j� deveriam estar preocupados �quela altura dos acontecimentos. Depois, raciocinou que o ideal era que se acostumassem sem not�cias freq�entes. Afinal, libertara-se das amarras que o prendiam. Recolheu algumas pe�as de roupa da bagagem e colocou-as dobradas no arm�rio, evitando que se amarrotassem mais ainda. Pouco depois, algu�m batia � porta. Era Mario. Estava de banho tomado, envergava uma bermuda e camiseta. Parecia outra pessoa, ao comentar todo sorridente: - N�o � muito cedo para dormir? Edgar permitiu que entrasse e ele, sem cerim�nia, reclinou-se na cama, arrumando o travesseiro para apoiar o ombro. N�o aguardou por sua resposta, continuando: - Espero que esteja tudo bem com voc�. Minha m�e disse que foi muito bem tratada, n�o sei o que far�amos sem sua ajuda. - Fico contente em estar sendo �til - acrescentou, n�o sem uma ponta de ironia no tom da voz. - Folgo em saber - Mario n�o percebeu o sarcasmo, continuando - Vamos jogar uma partida de baralho depois do jantar? Tenho o resto da noite livre. Edgar bocejando, recusou. Afirmou estar cansado, iria acompanh�-lo na refei��o mas depois planejava se recolher cedo. Mario interpretou sua atitude como uma demonstra��o de afastamento proposital, mas nada comentou. Jantaram calados, discutiram somente as tarefas que deveriam desempenhar no dia seguinte e depois se separaram. Logo cedo pela manh�, Edgar encontrou a paciente bem disposta. Quis repetir uma x�cara de caf� com leite e devorou as torradas com manteiga. Depois, pediu que ele trouxesse uns biscoitos de polvilho, guardados num pote dentro do arm�rio da cozinha. Edgar desceu as escadas achando muito bom que uma pessoa em seu estado pudesse estar t�o faminta. Era um sinal de que a recupera��o estava a caminho. Ao tentar localizar o que desejava, deparou-se com um embrulho escondido na prateleira, atr�s das latas de mantimentos. Curioso, abriu o pacote e viu que se tratava apenas de alguns cacos de porcelana. Colocou-os de volta ao lugar e subiu para o quarto de Olga, levando-lhe os biscoitos. Mas n�o resistiu � curiosidade e indagou: - Por que a senhora guarda um pacote com peda�os de lou�a, no arm�rio da cozinha? Embora com receio de estar se intrometendo em detalhes que n�o lhe diziam respeito, achou que seria bom livrar-se do entulho, pois era mais uma coisa atrapalhando na cozinha. Olga franziu a testa, como se n�o entendesse o que ele queria dizer, e demorou alguns segundos antes de responder: - Ah, sim, agora me lembro. � um prato de porcelana que Mario derrubou no ch�o tempos atr�s e eu guardei os cacos. � muito antigo, faz parte de um jogo que ganhei no meu casamento. Ainda guardo a esperan�a de descobrir um meio de restaur�-lo. Tolice, n�o? - Deve ter um valor sentimental - Edgar compadeceu-se, imaginando a trag�dia que ocorreria se tivesse tomado a iniciativa de jog�-lo no lixo. - Nem imagina quanto. - N�o sou um profissional, a ponto de afirmar com toda a certeza, mas tenho uma vaga desconfian�a de que, com uma cola eficiente e uma boa dose de paci�ncia, consigo recuperar a pe�a. - S�rio mesmo? - seu rosto iluminou-se - se tem essa capacidade, vai me dar uma grande alegria. - Pode deixar por minha conta. Reparei que a lou�a partiu-se em v�rios peda�os mas n�o esmigalhou-se, n�o existem lascas. Ela ficar� como antes, apenas n�o poder� ser utilizada nas refei��es novamente. Servir� como enfeite. - E o que voc� est� esperando? Vamos, des�a imediatamente e m�os � obra - Olga esbo�ou um sorriso p�lido. Edgar ficou apreensivo, com medo de ter exagerado e acabar alimentando falsas esperan�as. E se, no primeiro impacto, por mais leve que fosse, o prato se espatifasse novamente? De qualquer maneira, n�o custava nada tentar. Ele alcan�ou o pacote na prateleira, abriu e espalhou os cacos sobre a mesa da cozinha. N�o parecia complicado, precisava apenas de compenetra��o. Enquanto examinava atentamente peda�o por peda�o, observou que a fina camada de tinta que cobria os pequenos desenhos decorativos se esfarelara nas bordas. Como resultado, por mais preciso que fosse o encaixe, ainda ficaria vis�vel, como num remendo mal feito. Seria necess�rio consultar um especialista ou dificilmente a restaura��o ficaria perfeita. Mas confiava em seu talento, pois ocorreu-lhe que dedicara-se com grande satisfa��o ao artesanato, durante seu per�odo de gin�sio. Era craque em criar pe�as de decora��o com materiais dos mais variados, surpreendendo os professores com a facilidade que demonstrava com a manipula��o dos objetos. Em in�meras exposi��es que participara, sempre ganhava pr�mios e boas notas nos trabalhos. Naquela ocasi�o, costumava recorrer a uma pequena loja de artigos para artes�os, onde obtinha id�ias e orienta��es para seu trabalho. Seria uma boa id�ia voltar l�, quem sabe n�o encontraria uma solu��o ideal? Edgar juntou as partes como se fossem um quebra-cabe�a e, para seu al�vio, n�o deu pela falta de nenhuma, por menor que fosse. Sem d�vida, isso era muito importante. Depois, saiu no quintal e, contornando a lavanderia, chegou a um compartimento em que pareceu-lhe uma oficina de consertos, tal a quantidade de coisas in�teis espalhadas por todos os lados. Num dos cantos, havia uma mesa com caixas de ferramentas, latas e recipientes com sobras de reformas. Com certeza, iria encontrar alguma cola que servisse em sua tarefa. Esmiu�ou tudo pacientemente, abrindo as caixas e conferindo todas as embalagens que via na frente. Finalmente, achou um produto desconhecido mas, cujas indica��es no r�tulo coincidiam com sua necessidade. Notou tamb�m que existiam tintas de todos os tipos e tonalidades, al�m de farto material para trabalhos manuais. A etapa seguinte seria uma pequena escapada at� a loja. Antes, foi ter com Olga para saber se tudo se encontrava em ordem e avisou-a que voltaria logo. Em menor tempo do que o previsto, viu-se a caminho do local, tendo o precioso pacote embaixo do bra�o. Sem dificuldade, chegou ao endere�o que ainda guardava na mem�ria e, ap�s r�pidas explica��es ao encarregado no balc�o, foram-lhe fornecidos diversos detalhes de restaura��o que desconhecia. Com toda a certeza, sua aplica��o seria �til para a finalidade a qual se comprometera. De volta, ele debru�ou-se com afinco na meta final. Ao cair da tarde, tinha alcan�ado seu objetivo satisfatoriamente. Tal como ansiava, o trabalho ficou perfeito, com os peda�os da porcelana encaixados uns aos outros sem falhas. O prato voltou a ser como antes, com os filetes dourados na borda e o delicado desenho no centro revelando uma pe�a de grande valor art�stico. Exatamente como afirmara a Olga, com tanto conhecimento de causa. Edgar mal conseguia conter a satisfa��o. Finalmente fizera algo de �til naquela casa, pensou. Instantes depois, ouviu Olga cham�-lo. Cuidadosamente, ele pegou a bandeja que servia de apoio � porcelana e levou-a consigo para o andar superior. No aposento, ele mostrou seu trabalho, orgulhoso. - Est� primoroso! - Olga exclamou, visivelmente contente com o que via. - Agora s� precisamos deix�-lo secando. Amanh�, n�o haver� problema em toc�-lo. - Arranje um lugar bem seguro, talvez em cima da geladeira seja o ideal. Estou incr�dula, voc� n�o sabe o quanto me alegrou. Vou ficar em d�bito com voc�, muito obrigada - afirmou, com um largo sorriso estampado na face. - N�o tem o que agradecer. Edgar ia descendo as escadas quando ouviu a porta da sala se abrir. Era Mario. Encontraram-se no corredor. - Minha m�e j� jantou? - Mario perguntou, ao fitar a bandeja e o prato. - N�o viu que horas s�o? � muito cedo para o jantar. Estava ocupado com outra coisa. - Posso saber do que se trata, se n�o for lhe pedir muito? - o rapaz mostrou-se ressabiado com a arrog�ncia de Edgar. - Recuperei esta pe�a que estava quebrada e fui levar para que ela aprovasse. Que acha, n�o ficou bem acabada? Mario olhou, concordou com um gesto da cabe�a e depois subiu, sem dizer nenhuma palavra. Ao chegar ao quarto da m�e, encontrou-a sorridente e animada: - Viu s� que talento tem o Edgar? - perguntou antes de qualquer outra coisa, continuando - o prato que voc� quebrou agora est� novo em folha! Ele conseguiu uma restaura��o perfeita. Esse rapaz vale ouro, bendita a hora em que resolveu ficar aqui. Como poderia fazer sem ele me ajudando? E agora, louvado seja Deus, n�o vou ficar mais me lamentando com o aparelho de jantar faltando pe�a. Tudo volta a ser como antes. Gra�as a ele. - Como a senhora passou o dia? - Mario n�o parecia compartilhar do entusiasmo da m�e. - Passei otimamente. O Edgar � atencioso, cuida direitinho das minhas refei��es e sempre se lembra da hora de tomar os rem�dios. N�o poderia ser melhor. Ele merece uma recompensa por tudo o que est� fazendo. - Tenho uma novidade. Meus cinco alunos conseguiram passar na prova de biologia. Surpreenderam at� o professor. - Voc� sempre foi bom nessa mat�ria. Era natural que seria de ajuda para eles. Gostaria que me fizesse um favor agora. N�o quero de novo incomodar o Edgar. Ele fez um suco de frutas e colocou a jarra na geladeira. Traga mais um copo para mim. Mario abandonou o quarto visivelmente irritado, incapaz de controlar o ci�me. N�o foi dif�cil de meter na cabe�a que todas as aten��es naquele momento estavam concentradas em Edgar. Ele, que se esfor�ara tanto para que os colegas conseguissem sucesso nas provas, nem sequer recebeu um parab�ns pelo feito. No entanto, um reles prato colado era motivo de festa. - O que aconteceu? Est� com uma cara de quem acabou de sair de um vel�rio - Edgar espantou-se ao encontr�-lo na cozinha. - Onde est� o fant�stico suco que preparou? Mario n�o esperou pela resposta, cuidando de atender o pedido da m�e. Com a cara amarrada, pegou a jarra e despejou o conte�do num copo, saindo sem emitir mais nenhuma palavra. Edgar, n�o entendendo a estranha atua��o do rapaz, convencia-se cada vez mais que sua perman�ncia naquela casa n�o podia estender-se al�m do combinado. N�o era obrigado a ag�entar desaforos, principalmente sem causa aparente. Pobre Olga, que filho fora arranjar. Lembrou-se da fam�lia, muita coisa tolerava, mas existiam la�os de sangue, era diferente. Pensando melhor, Edgar reconheceu a necessidade de dar alguma satisfa��o de seu paradeiro, mas n�o era seu desejo pegar o telefone e ouvir a voz da m�e no outro lado da linha. Sabia que iria ouvir lamenta��es e na certa iria tentar convenc�-lo a desistir da absurda id�ia de abandon�-la. O ideal era que soubessem que tudo estava bem, mas sem sua interfer�ncia direta. Algu�m poderia simplesmente dar o recado. Sentiu-se encorajado a ligar para Arnaldo e pedir a ajuda do amigo. Na sala, pegou o aparelho e discou. - Alo, Arnaldo? - Edgar? - pela entona��o da voz que vinha do outro lado da linha percebeu que j� era tempo de dar sinal de vida - Onde tem andado? Fui procur�-lo em sua casa para conversar e me disseram que est� no Rio de Janeiro, � verdade? Da maneira como os planos mudaram de rumo, pelo menos temporariamente, era preciso encontr�-lo pessoalmente para explicar a situa��o: - D� para a gente se ver depois do expediente? Ainda estou aqui em S�o Paulo e preciso falar com voc�. - Tudo bem. Onde? - Arnaldo j� parecia mais aliviado. - Sabe aquela lanchonete na avenida Rio Branco, onde costum�vamos ir antes do cinema? - Claro! A que horas? Edgar combinou o hor�rio e depois foi para o aposento. Banhou-se, vestiu uma roupa confort�vel e foi ter com Mario. Encontrou-o ainda carrancudo, mas n�o perguntou o que o incomodava. Disse-lhe que ia dar uma sa�da e voltaria tarde, precisava das chaves da porta de entrada. Em poucos palavras Mario explicou-lhe onde havia uma c�pia e ele despediu-se, saindo em seguida. Quando chegou na lanchonete, Arnaldo j� o aguardava. - O que aconteceu? - Nada demais. Tinha planos de ir para o Rio mas tive que adiar a viagem por alguns dias para ajudar um amigo - se � que aquele sujeito podia ser chamado de amigo, Edgar pensou. - De quem se trata? - N�o conhece. O fato � que preciso que voc� v� at� em casa e d� um recado para minha m�e. Diga que telefonei e que est� tudo bem. - Ora, essa. Por que n�o fala voc� mesmo? - N�o quero que ela saiba que ainda estou em S�o Paulo, voc� por certo compreende. - Eu n�o entendo nada! Ali�s, estou cada vez entendendo menos. Que neg�cio e esse de abandonar tudo, sem ao menos me avisar? Resolve sumir e pronto? Que bela considera��o voc� tem! - Arnaldo encheu o copo com a cerveja que pedira e ofereceu-lhe. - Foi tudo muito repentino, de �ltima hora. Eu ia me comunicar com voc� mais tarde, assim como estou fazendo agora. Veja se n�o interrompe, vou explicar-lhe o que aconteceu. Edgar contou o plano da viagem, o motivo de sua decis�o e o incidente com Olga. Relatou tamb�m a situa��o complicada que teve in�cio a partir da conviv�ncia com seu filho. O relacionamento com Mario tornou-se quase insustent�vel, mas n�o havia outra sa�da. - Agora quero que me explique o motivo que o mant�m enfiado dentro de uma casa onde nunca esteve antes, ao lado de um sujeito que nem bem conhece e adiando seus planos que, como disse, estava determinado a coloc�-los em a��o sem perda de tempo. - Dona Olga est� precisando de cuidados, n�o � pelo filho que estou fazendo isso. - Deixe o impasse para que ele resolva! Acho que voc� n�o tem nada a ver com o problema. Era dif�cil algu�m compreender a raz�o daquela submiss�o. Tinha-se a impress�o de que quanto mais Edgar procurava se explicar, menos o assunto se esclarecia. Se abandonara o lar para se ver longe de compromissos familiares, era incoerente ficar preso a uma obriga��o sem nexo. Ele tomou um gole da bebida e continuou: - Simplesmente n�o tive coragem de lhe negar o favor, envolve uma pessoa de bom car�ter, muito hospitaleira e que agora, no leito, necessita de uma pequena assist�ncia. N�o � por toda a eternidade. - E esse cara, que n�o reconhece a t�bua de salva��o? Merece tal considera��o? - Ele � a �ltima coisa que importa. - Pelo contr�rio. Minhas d�vidas caem exatamente nele. Por que n�o se comporta como manda o figurino? N�o vejo raz�o para voc� se sujeitar aos seus caprichos. - O Mario n�o passa de um frustrado, cheio de complexos. � digno de pena. - E ainda o defende? - Eu?! - Edgar surpreendeu-se. - Claro, quem mais seria? - Arnaldo deu uma r�pida olhada em volta - N�o tem mais ningu�m aqui com a gente. - Acabei de dizer que ele me perturba, que � um chato, n�o estou defendendo-o. Hoje, por exemplo, n�o tive muita paci�ncia e abandonei a casa, deixando-o com seu mau humor. Nem perguntei o que acontecera. - Se ele te aflige tanto, tira o rapaz da cabe�a. Esque�a-o. Cumpra o que assumiu, se � assim que deseja, e deixa o resto de lado. Esta dando ao caso uma import�ncia exagerada. - Algo est� errado com o cara, essa arrog�ncia n�o deixa de ser intrigante. Pode ser inseguran�a... - Vai me desculpar, Edgar - Arnaldo interrompeu - mas, de uns tempos para c�, voc� andou enfrentado um per�odo dif�cil. Lembra-se o quanto se lamentou comigo, a respeito da tal crise emocional? Vai me dizer que agora se acha em condi��es de analisar o que vai pela cabe�a dos outros e, ainda por cima, encontrar uma solu��o? � a �ltima pessoa indicada para isso. - A quest�o n�o � substituir um psic�logo. Tenho apenas curiosidade em saber o que se passa com uma criatura que se comporta de maneira t�o esquisita - Edgar pediu mais uma cerveja para o atendente - Primeiro me pede para ajud�-lo. Depois, desembesta a me provocar com o prop�sito, ao que tudo indica, de querer me ver longe o quanto antes. - E voc� insiste em ficar l�. Deve ter alguma tend�ncia ao masoquismo. - � apenas uma quest�o de dias e depois sigo para o destino planejado. Dona Olga se recupera mais rapidamente do que imaginava e estou com a consci�ncia tranq�ila de ter contribu�do para isso. Duvido que o filho ag�entaria a barra sozinho, � um in�til. - Existem pessoas que possuem uma estranha for�a magn�tica e outras que se atraem... Edgar mudou de assunto abruptamente, passando a fazer coment�rios da festa de D�bora. N�o se conformava com o inesperado ass�dio de Lenita. Deveria estar atravessando uma fase de grande car�ncia. Em contrapartida, Arnaldo fez algumas brincadeiras com o amigo, estranhando a recusa e colocando em d�vida sua masculinidade. Lembraram da bebedeira e de diversas outras que haviam experimentado anteriormente, ser� que estariam a um passo do alcoolismo? Besteira, concordaram mutuamente, era apenas uma fase passageira. Poucas amizades funcionavam em perfeita sincronia como aquela. Compartilhavam de inestim�vel camaradagem e quanto aos freq�entes problemas que apareciam, sempre enfrentavam juntos. A vida n�o � um mar de rosas cont�nuo, tem seus altos e baixos. Falavam alto e davam gargalhadas, pouco se importando com os outros freq�entadores do bar. Depois de algumas garrafas de cerveja vazias, conclu�ram que chegara a hora de seguir para casa. Edgar voltou a instrui-lo sobre o recado que deveria dar � m�e e ent�o separaram-se, cada um seguindo seu caminho. J� era tarde da noite, a �ltima sess�o dos cinemas chegara ao fim, muita gente nas cal�adas aguardando t�xi, restaurantes cheios. Edgar afastou-se rapidamente do movimento e seguiu a p� para a casa de Olga, pois n�o era t�o longe dali. Acabou chegando cerca de meia hora mais tarde. Colocou a chave com cuidado na porta, abrindo-a sem fazer barulho. Notou o quarto de Mario estava com a luz acesa. Achou estranho, pois sabia que ele acordava cedo. Ao passar pela cozinha, tomou um copo d'�gua e depois encaminhou-se para o aposento. |
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