Cap�tulo 04 - A Caminho do Rio
Dentro do �nibus, Edgar fazia planos para a viagem. Levava consigo o endere�o de um parente distante que morava no Rio, pediria orienta��o assim que chegasse na cidade. Ajeitou a mochila em seu colo, a mala ele colocara ao lado, no corredor. Deu gra�as a Deus pela pouca lota��o que havia, pois assim n�o atrapalhava ningu�m com a bagagem. O ve�culo fazia poucas paradas, o movimento de passageiros era pequeno �quela hora. Foi, entretanto, numa dessas raras ocasi�es em que ele viu algu�m saindo de um carro de pol�cia. Sua fisionomia familiar lembrava quem? Ora, isso mesmo. Era o filho de Olga! O que estaria ele fazendo a uma hora daquelas na rua? E que delito cometera para estar envolvido com os tiras? O �nibus retomou seu percurso normal e ele virou-se para tr�s, conseguindo ver pela janela que Mario parecia bastante transtornado e se afastava da radiopatrulha.
Que raios estaria sucedendo? Bem, isso era problema inteiramente de Mario. Pobre da m�e, pensou. Mas n�o tinha nada a ver com ambos. Eles que se entendessem. Agora estava a caminho de uma nova vida, o incidente na casa de Olga j� era coisa relegada ao passado.
Edgar desceu no ponto em frente � rodovi�ria e encaminhou-se ao guich� localizado no segundo andar, a fim de comprar a passagem. Havia uma pequena fila e algu�m discutia com o atendente. Concluiu que a pessoa n�o tinha dinheiro suficiente e insistia para conseguir embarcar com o que havia em seu bolso. Pouco depois, notou que o sujeito passou a puxar conversa com cada um que encostava no balc�o. Pedia um aux�lio para completar a viagem, o folgado. N�o era a primeira vez que testemunhava tal tolice. Na realidade, o estratagema n�o passava de um truque barato para arrancar dinheiro dos outros. N�o iria dar nada, pensou revoltado. Lembrou-se novamente de Mario. Era muito estranho n�o se importar com o rapaz, afinal ele n�o conseguira tirar o epis�dio da cabe�a durante quase todo o decorrer da semana. Chegara at� a considerar uma visita a eles, antes de viajar. Agora, aquela coincid�ncia. Estava incr�dulo, Mario n�o aparentava ser um malandro, algu�m que estivesse envolvido com a pol�cia. Intrigado com o assunto, passou-lhe despercebido que chegara sua vez no guich�. A recepcionista chamou-lhe � realidade e ele informou-lhe seu destino. Para sua decep��o, ficou sabendo que se enganara, n�o era ali o balc�o de passagens para o Rio de Janeiro. Devia se dirigir � ala oposta do pr�dio, depois das escadas rolantes.
Edgar saiu praguejando baixinho. Ele detestava perder tempo � toa. Com todo aquele entusiasmo pela viagem, era natural que cometesse esse pequeno deslize, pensou. Ou sua mente distra�ra-se com a vis�o que tivera a pouco? Achou mais sensato tomar um caf� bem quente para raciocinar melhor.
Aproximou-se de um bar num dos corredores e foi servido rapidamente, pois o movimento come�ava a aumentar na esta��o. Bebericou o l�quido dominado por intensa indecis�o, pensando na melhor alternativa. A casa de Olga n�o se distanciava muito da vizinhan�a. N�o seria melhor dar um pulo at� l�, para ver se ela n�o precisava de alguma ajuda? Era uma criatura t�o boa, prestativa, merecia um m�nimo de considera��o. Mario metera-se em alguma encrenca e, naturalmente as conseq��ncias afetariam a m�e. Caso fosse avisada sobre a deten��o do filho, sem d�vida iria em seu socorro e tentaria localiz�-lo na delegacia. N�o conseguia visualizar aquela pobre mulher entrando num meio s�rdido daqueles. Ela necessitava de algu�m a seu lado.
Edgar sentou-se numa das poltronas do sagu�o principal e, como num lampejo, veio-lhe � mente a imagem do rapaz atormentado, sofrendo atr�s das grades. Concluiu que sua preocupa��o era maior com o que poderia estar acontecendo com Mario, Olga vinha em segundo plano. Ou seria apenas curiosidade, um m�rbido desejo de ter conhecimento a respeito da desgra�a alheia? A conclus�o foi que, fosse qual fosse a raz�o, n�o iria embarcar antes de descobrir o que se sucedera. Decidiu guardar sua bagagem no compartimento de aluguel e saiu, em dire��o � casa de Olga. Apesar da pressa, resolveu dispensar a condu��o, uma vez que a dist�ncia era curta. O dia j� havia clareado e n�o foi dif�cil para ele escolher qual o melhor trajeto a seguir. A passos largos, seguia pela rua ainda deserta, com os pensamentos fervilhando em sua cabe�a. Num dado momento, mudou de id�ia. Algo lhe dizia que tomara a decis�o errada, iria se arrepender. Mas j� era tarde demais. N�o demorou muito e viu-se diante do port�o. Ao fazer soar a campainha, surpreendeu-se com a figura de Mario abrindo a porta.
- O que voc� quer? - a pergunta foi seca, demonstrando estranheza e aborrecimento com sua presen�a. N�o deu-se nem ao trabalho de aproximar-se do port�o.
- Mario, me desculpe a inconveni�ncia da hora, mas poderia falar com Dona Olga?
- Ela est� doente, de cama. N�o pode atender ningu�m.
L�gico que ela deveria estar doente. Tamb�m, pudera! O filho saltando de uma radiopatrulha em sua frente era motivo de sobra para acabar com a sa�de de qualquer m�e. Safado! E ainda tem a coragem de fazer cara feia para mim? Bem que eu estava certo, Edgar imaginou.
- Quer me dar licen�a? Estou bastante ocupado agora - dessa vez, o rapaz realmente dava a impress�o de estar aflito - minha m�e precisa dos meus cuidados.
- N�o quero parecer obstinado, mas quem sabe eu poderia ser de alguma ajuda?
- De forma alguma. Um s� basta para prestar assist�ncia.
N�o restava a menor d�vida, o rapaz ocultava algo, usando uma reles desculpa para n�o ser importunado. Edgar, cada vez mais convencido de suas suspeitas, desejou intensamente por �s claras a real situa��o. Na certa, o clima dentro da casa deveria ser o pior poss�vel, por isso evitava a todo custo sua presen�a. Resolveu insistir:
- N�o posso, pelo menos, entrar para tomar um copo d'�gua?
- Quer que eu abra a porta s� para matar sua sede? Por que n�o vai at� um bar? Seria bem mais f�cil e n�o me incomodaria.
- Estou teimando com voc� porque preciso ver sua m�e, essa que � a verdade. Custa tanto assim perder alguns minutos comigo? Ou, por acaso, quer esconder algo?
- Onde foi arranjar essa id�ia maluca? Pode n�o acreditar, mas, conven�a-se: voc� � um chato persistente. Mas n�o vou perder mais tempo com voc�. Entre e feche a porta.
Edgar n�o se preocupou com as express�es pouco lisonjeiras, estava apenas interessado em saciar sua curiosidade. Ao passar pela entrada, deu de cara com um panorama sombrio e teve a mesma sensa��o da primeira vez, a opress�o e a austeridade no ar. O rapaz encaminhou-se para a escada e nem fez sinal para que ele o acompanhasse. O sil�ncio dominava, ouvindo-se apenas o estalar dos degraus de t�bua no meio da madrugada. N�o trocaram nenhuma palavra at� o quarto de Olga. Encontrou-a na cama, bastante p�lida mas completamente desperta. Sorriu ao identificar o visitante:
- Uma presen�a inesperada noite adentro! Veio numa ocasi�o n�o muito apropriada...
- Pois �. Bem que eu falei para ele - Mario resmungou.
- Mas n�o tem problema, sempre � bem-vindo nesta casa - Olga emendou logo em seguida, percebendo o embara�o do rapaz.
- O que houve? - Edgar balbuciou, tentando se recompor.
- A sa�de j� n�o � a mesma, problema da idade...
- Espero que n�o seja nada grave...
- Foi uma crise renal, tenho c�lculos, uma coisa horr�vel - falava com certo esfor�o - precisam ser extra�dos de qualquer maneira. N�o faz id�ia das dores que senti a noite inteira.
- Puxa, que inc�modo. E n�o havia ningu�m a seu lado? Numa hora dessas, � sempre bom uma assist�ncia constante - Edgar n�o tinha d�vidas que Mario chegara em casa logo depois de t�-lo visto com os policiais, ou seja, por volta das cinco horas da manh�.
- Logicamente, meu filho n�o saiu do meu lado. N�o sei o que faria sem ele. O coitado devia estar descansando e, no entanto, n�o dei-lhe um minuto de sossego. Na realidade, n�o precisava estar aborrecendo ningu�m com essas coisas, pois a cirurgia resolve tudo. Agora me sinto encorajada a tomar uma decis�o, vou entrar na faca depois de amanh�. J� combinei com o m�dico.
Edgar ficou sem rea��o diante do que ouvia. N�o podia ser, algo estranho estava acontecendo. Na certa, ela mentia cinicamente. Apenas para n�o expor o filho � cruel realidade. Naturalmente, sua dec�ncia a impedia de dar a conhecer a uma pessoa que mal conhecia sobre o drama de ter um marginal dentro de casa, com a pol�cia no seu encal�o. Edgar julgou arrazoado deixar o assunto morrer ali mesmo, conversaria um pouco mais e se retiraria. Era evidente a cumplicidade entre eles.
- A senhora quer mais um pouco de ch�? Lembre-se que � preciso beber bastante l�quido, o m�dico avisou.
- Est� bem, meu filho. Aproveita e traga uma x�cara para o nosso amigo. Voc� aceita, n�o �?
O rapaz manifestava uma inacredit�vel express�o de brandura no rosto. Nunca vira antes algu�m fazer uma cara de inocente com tanta compet�ncia. Era digno de trabalhar no cinema. Simplesmente revoltante o cinismo, seria capaz de convencer qualquer um de sua afetuosa dedica��o. Agora s� faltava ele dizer que se derramara em l�grimas ao ver o sofrimento da m�e. Atingiria o �pice da falsidade. Edgar esfor�ou-se para esconder o sorriso dos l�bios e respondeu de forma evasiva:
- Aceito sim, Dona Olga, mas quero descer e ajudar o Mario.
N�o passava de um intruso, n�o tinha o direito de se intrometer em assuntos que n�o lhe diziam respeito. Mas, mesmo assim, sentia uma curiosidade m�rbida em ir at� o fundo da quest�o. Mal podia controlar o desejo de ver o rapaz embara�ado, caindo numa contradi��o qualquer. Somente assim se consideraria satisfeito. Extremamente confiante em suas suposi��es, Edgar interpelou Mario sem a menor cerim�nia, logo que ambos encontraram-se a s�s na cozinha e longe dos ouvidos de Olga:
- N�o sei como conseguiu convencer sua m�e a encobrir seus atos...
O rapaz virou-se com ar de assombro, tendo ainda a chaleira na m�o:
- Do que est� falando?
- Ora, voc� n�o estava aqui quando Olga teve o problema.
- Est� completamente louco! - a surpresa transformou-se em indigna��o - Que raz�o ter�amos para mentir numa circunst�ncia dessa?
- � isso que estou me perguntando. Pois eu te vi no carro de pol�cia antes de clarear o dia, fazendo o que, ainda n�o consegui decifrar.
Parecia uma conclus�o l�gica que qualquer um envolvido em tal situa��o fatalmente estivesse enfrentando problemas com a pol�cia. Era o �nico motivo pelo qual se explicava a perman�ncia do rapaz na viatura. Por conseguinte, tratava-se de uma dedu��o �bvia, apesar de err�nea, e absolutamente pass�vel de perd�o. Mario divertiu-se com o equ�voco, esquivando-se, por�m, em dar qualquer satisfa��o ao visitante. Era uma palha�ada que n�o merecia aten��o. Apenas n�o conseguiu controlar o riso:
- Como voc� � est�pido! - continuou distante, sem dizer mais nada, preocupado em servir o ch�.
Apalermado com os maus modos do rapaz, Edgar insistiu:
- Vai negar que n�o foi detido?
Mario limitou-se a estender-lhe uma x�cara e, sorrindo, virou-lhe as costas, pouco se importando diante do impasse criado. Seguiu de volta ao aposento de Olga, com a bandeja nas m�os. Propositadamente, n�o deu-lhe nenhuma resposta sequer, em sinal de desprezo.
Edgar deixou-se cair numa cadeira, demasiado confuso. Era um tipo de manifesta��o que jamais poderia esperar de algu�m flagrado em tamanho delito. Mas uma resposta min�scula estabelecia claramente um grande erro. Ser� que se enganara? N�o era poss�vel, o sujeito no carro de pol�cia s� podia ser Mario! N�o estava delirando, com certeza. Mas, �quela hora da noite, era poss�vel um equ�voco, pensou, com o olhar fixo no delicado desenho da porcelana � sua frente. Apesar de quente, entornou o l�quido pela garganta, em grandes goles. Depois, sem chegar a conclus�o nenhuma, mas com um enorme receio de ter dado um fora, subiu as escadas para despedir-se dos dois e encontrou-os no quarto. Se acaso foi precipitado em suas conclus�es, ver-se-ia compelido a partir discretamente, sem fazer alarde. Que p�ssimo resultado rendera sua decis�o de adiar o embarque: atrasou a viagem gra�as a uma frivolidade e sa�a daquela casa tal e qual um cachorro que fez alguma asneira, com o rabo entre as pernas.
- Dona Olga, preciso ir, espero que tudo corra bem com a cirurgia.
- Fique para o almo�o, j� estou descendo para a cozinha - ao falar, retirou as cobertas e levantou-se.
- Como? Sente-se t�o bem, a ponto de abandonar o leito?
- A dor foi muito forte e agora passou. Tenho horror s� de pensar numa eventual possibilidade de que apare�a novamente, mas n�o posso ficar sentada aguardando o pior. Como estou me sentindo com �tima disposi��o, vou � luta.
- Est� contando muito com a sorte. Ainda acho arriscado ficar se movimentando sem necessidade - Mario aconselhou.
- Qual nada. Conhe�o bem minha doen�a, ela recuou agora.
Olga arrumou as vestes e come�ou a escovar os cabelos. Virando-se para Edgar, acrescentou:
- � um verdadeiro pesadelo voc� estar desesperadamente precisando de algo para aliviar sua dor e encontrar o vidro vazio. Foi puro esquecimento meu. Tamb�m, fazia tanto tempo que essa crise n�o aparecia...
Mais essa ainda! Mario fora capaz de tamanha insensatez, bem que acertara ao desconfiar, Edgar pensou. Era de se supor o drama que a pobre da mulher enfrentou. Sozinha, sem ajuda e sem o medicamento para debelar o mal! E ele tinha no��o da extens�o da calamidade, pois ouvira falar que crise renal era pior do que dor de parto. Estava esclarecida a raz�o pela qual ficara sem resposta. O rapaz n�o tivera coragem de assumir uma falha t�o grave.
Edgar aproveitou o momento em que Olga dirigiu-se ao banheiro para comentar, sem esconder um ar de vit�ria:
- N�o tem remorso do que fez?
- Tudo ocorreu de acordo com o previsto - Mario conservou a posi��o enigm�tica.
- Me revolta saber que tem a coragem de agir assim, t�o friamente...
Edgar interrompeu o que ia dizer com a volta de Olga ao aposento, que pediu:
- Podem descer, agora. Quero trocar de roupa.
Na cozinha, Edgar continuou, cheio de indigna��o:
- � o c�mulo que fique t�o indiferente depois que afirmei t�-lo visto metido com os policiais. N�o tem nada a dizer ao seu favor?
- Se me viu, n�o tenho como negar. O que mais posso fazer? - Mario segurou-se para n�o rir. Desejava estender a farsa at� um momento oportuno.
- Como teve a ousadia de ficar julgando meus atos, quando apareci por aqui pela primeira vez, se n�o tem moral suficiente?
- Estou muito cansado para ficar escutando disparates. � melhor sair agora.
Era realmente detest�vel, Edgar concluiu. N�o via outra alternativa sen�o abandonar o recinto. Em sil�ncio, virou as costas e dirigiu-se � sa�da, mas foi interpelado por Olga, que descia as escadas:
- Aonde pensa que vai, assim sem se despedir?
- S� resta me retirar, Dona Olga. Pergunte a seu filho o motivo.
- Calma! - virou-se para Mario - O que fez dessa vez?
- Esse sujeito esta avariado, nada mais.
- Vai me decepcionar novamente? Fiquei t�o contente com seu procedimento... N�o sei o que seria de mim se n�o fosse a rapidez com que resolveu o problema.
- O que aconteceu? - Edgar n�o conseguiu controlar a curiosidade.
- O coitado do Mario teve que sair de madrugada, um frio de penetrar nos ossos, e achar alguma farm�cia de plant�o. Ainda bem que uns policiais o ajudaram, at� trouxeram-no de volta no carro. Voc� acredita, como foram prestativos?
Edgar fitou Mario, ele estava sorrindo. Sentindo-se o maior palerma da face da terra, continuou todo ouvidos, respondendo apenas por monoss�labos.
- Entende por que n�o consigo compreender esse conflito entre voc�s dois?
Edgar procurou despistar, enquanto Mario observava seu malabarismo com as palavras. N�o queria permitir que Olga soubesse que havia sido v�tima de tamanha tolice. Depois, explicando sobre a viagem e seus planos no Rio de Janeiro, afirmou j� estar atrasado para o embarque e, por isso, n�o iria aceitar seu convite para o almo�o. Despediu-se dela e, ao virar-se para dar adeus ao rapaz, este afirmou estar de sa�da tamb�m. Ambos desceriam juntos.  
- Ent�o a gente n�o vai se ver mais? - Mario abriu a porta e permitiu que Edgar passasse.
- � at� um al�vio, concorda? N�o creio que farei muita falta.
- Voc� � divertido com essas burradas que faz - Mario n�o respondeu � pergunta.
Continuaram pela mesma cal�ada at� a avenida principal, dali se separariam. Edgar n�o conseguia esconder o embara�o causado por Mario. Por que permitiu que a confus�o se estendesse daquela maneira, se sabia perfeitamente que ele estava dando uma de ing�nuo? O certo � que ca�ra numa armadilha mas n�o tinha o direito de reclamar. Era bom enterrar definitivamente o assunto.
- Para onde vai agora?
- Falta meia hora para o in�cio da aula. Se atrasar, eles trancam o port�o. Estou quase arrancando os cabelos, de tanto pensar, n�o sei o que fazer. Tenho uma prova acontecendo atr�s da outra, durante esses pr�ximos quinze dias. Al�m disso, fui escalado para participar de uma pesquisa com data marcada para a entrega, e o prazo � curt�ssimo. Como se n�o bastasse, n�o posso abandonar o compromisso com as aulas particulares, leciono biologia e qu�mica para cinco alunos da escola. E minha m�e, sendo operada, vai precisar da minha assist�ncia. D� para imaginar minha situa��o?
- Voc� arranja uma sa�da bem depressa, � t�o inteligente... - usou de sarcasmo.
- N�o brinque. Esse mal-entendido com a pol�cia at� serviu para descontrair um pouco, mas j� me arrependi por n�o ter esclarecido tudo na hora. Na situa��o em que me encontro, valeu uma boa risada.
Edgar detestava ser motivo de piada, entretanto ag�entou o coment�rio calado. Lembrou-se das goza��es que era v�tima na escola e o quanto sa�a magoado. Muitas vezes, perdia o �nimo para estudar em fun��o das pilh�rias. Era desanimador. N�o obstante o embara�o criado com a falta de tato em tratar de um assunto que n�o lhe dizia respeito, n�o aprendeu a li��o. Inadvertidamente, comentou:
- N�o seria melhor suspender as aulas particulares? Ou voc� est� muito curto de grana?
- N�o � pelo dinheiro. O pessoal para quem leciono est� muito atrasado em rela��o � classe, precisam de mim. E sobretudo agora, em fun��o das provas. Vou ter que me dividir em dois - disse, sorrindo.
- N�o existe ningu�m da fam�lia para vir em seu aux�lio?
- N�o sei. E tamb�m n�o interessa saber. N�o somos muito ligados aos parentes, ningu�m visita a gente, a gente n�o visita ningu�m. N�o vai ser agora que eu vou pedir ajuda. Mas, pode deixar, me viro de uma forma ou outra.
- T�m dinheiro para contratar uma enfermeira? Poder� ser bem �til, porque, al�m de tudo, far� companhia � Dona Olga.
- Minha m�e iria detestar. Vai pensar que estou usando de pretexto para n�o ficar a seu lado.
- Bem, s� me resta desejar-lhe boa sorte. Saber� arranjar uma sa�da.
Mario fez uma pausa, calou-se por um instante e, subitamente, olhou para Edgar e perguntou:
- N�o d� para voc� ficar uns dias com a gente?
- Eu?!
- L�gico. Minha m�e gosta de voc�, inspira confian�a. Seria a criatura ideal para me tirar do sufoco.
- Est� me pedindo o imposs�vel. N�o tenho voca��o para atividades dom�sticas, muito menos para enfermagem. Al�m do mais, sou p�ssimo no fog�o.
- N�o estou lhe pedindo para cozinhar, compramos a comida pronta. E para a limpeza, existe faxineira. Iria apenas administrar tudo isso e manter um olho em minha m�e, na eventualidade de necessitar de algo. No caso de uma emerg�ncia, o telefone est� � m�o.
- N�o posso. Tenho esse compromisso da viagem - respondeu, inabal�vel.
- Ah, � verdade. Havia me esquecido. N�o faz mal, deixa para l�. Vou perder o pr�mio que a institui��o oferece pela pesquisa, o ano letivo, porque essas provas s�o essenciais, al�m de cinco alunos que duvido se conseguir�o passar sem a minha ajuda. � tudo insignificante.
Edgar percebeu a ironia e arrependeu-se por ter-se metido onde n�o era de sua conta. Ainda que tarde, resolveu se omitir:
- N�o acredito que o quadro seja t�o tr�gico como est� pintando.
- � claro. Al�m do mais, por que n�o fico calado? � pura perda de tempo ficar falando dos meus problemas particulares com quem n�o tem nada a ver com isso -  deixou transparecer uma leve irrita��o na voz - Devo procurar a solu��o e ponto final. N�o se discute mais isso.
- J� levou em considera��o que somos praticamente estranhos, um para o outro?
- Confio no sexto sentido de minha m�e.
- Assim mesmo, nunca vi uma proposta mais esquisita.
- N�o precisa apelar para esse pretexto. E n�o ficarei implorando tamb�m. Tem mais � que se divertir nas praias cariocas, est� certo.
- N�o � bem isso - Edgar retrucou - vou come�ar uma nova atividade l�, tenho que procurar emprego, me adaptar � cidade, arranjar um lugar para morar...
- Por acaso vai perder um peda�o do corpo se adiar tudo isso por uma ou duas semanas? Voc� seria remunerado, n�o pense que estou pedindo para trabalhar de gra�a. E ficaria bem acomodado, existe um apartamento independente nos fundos.
Mario transmitia a impress�o de estar suplicando por seu aux�lio. E agora? Que bela enrascada fora se meter! E n�o havia como recusar. Tinha que dar com a l�ngua nos dentes, tinha que ser tagarela, por que foi dizer que ia come�ar uma nova vida? Significava que estava sem compromisso algum, n�o existia argumento que justificasse sua recusa. A verdade, por�m, � que se tratava de pessoas praticamente estranhas a ele, esta era a segunda vez que se encontravam. Se n�o existia a obriga��o devido a la�os familiares, muito menos por amizade. Da maneira como Mario fez o pedido, deu a impress�o que se conheciam h� muito tempo, nada mais natural do que ficar e ajudar na assist�ncia a Olga. O rapaz era muito mais astuto do que se podia imaginar. A conversa foi conduzida de tal maneira que Edgar se sentiu preso a um dever de amigo. E foi dessa maneira que ele reagiu. Inexplicavelmente submisso.
- Quanto tempo voc� tem para terminar as provas, a pesquisa e tudo mais?
- Duas semanas, no m�ximo. O grande problema est� no fato de que tudo coincidiu com esse contratempo. Eu n�o poderia pedir que minha m�e marcasse a opera��o durante as f�rias, n�o d� para adiar mais. A dor tem sido insuport�vel, seria judiar demais dela.
- Voc� tem duas semanas, ent�o. N�o mais do que isso. Depois, sigo o meu caminho para o Rio de Janeiro.
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