| Cap�tulo 03 - Desaven�a com Arnaldo | |||||||||
| A semana se arrastou lentamente e sem grande novidades para Edgar. Procurou incentivo no trabalho, mas de que forma? Pilhas de papeladas para o arquivo, outras a serem despachadas, colegas em constante mau humor. Tudo era t�o insignificante em sua vida, nada de valor podia ser recolhido numa rotina enfadonha e sem raz�o de ser. Na sexta-feira, quase no final do expediente, atendeu uma liga��o. Era Arnaldo, um dos raros amigos e a quem dedicava fidelidade constante, apesar da intermin�vel fase de depress�o pela qual passava. - Edgar? Tudo bem? Estou ligando porque hoje � noite tem uma festa na casa da D�bora e ela pediu para te convidar. Prepare-se para os comes e bebes. Mais essa agora! A �ltima coisa que desejava naquele momento eram encontros sociais. Sobretudo defrontar-se com gente da escola, de seu dia a dia, dispostos a todo tipo de cobran�as, a maioria mesquinharias. Era uma necessidade extenuante e sem fim de dar satisfa��es. Decidiu inventar uma desculpa qualquer: - N�o vai dar Arnaldo, j� tenho compromisso. - Voc� ter� de dar um jeito. Lembra que ela viaja amanh� para os Estados Unidos e conseguiu autoriza��o dos pais para oferecer a festa de bota-fora? Se n�o for, vai me colocar em maus len��is, ela me pediu para te avisar desde a semana passada e eu esqueci. - Ent�o o problema � seu. Agora n�o d� para desfazer o meu compromisso. - � t�o importante assim? Do que se trata? - Eu... Vou ajudar um conhecido que est� de mudan�a. N�o posso deix�-lo na m�o, conta com a minha ajuda. Arnaldo conhecia muito bem Edgar. Sabia que ele mentia. De uns tempos para c� n�o era capaz de decifrar o enigma em que se transformara o velho companheiro de todas as horas. Tornaram-se amigos insepar�veis desde o primeiro ano de col�gio, jamais um aparecia em qualquer lugar sem a presen�a do outro. Gradualmente ele come�ou a mudar, ficando cada vez mais esquivo e sem nenhum motivo aparente. Em in�meras ocasi�es o procurara para sair e ele se desvencilhava. Algo inadmiss�vel, uma tremenda falta de considera��o. Refletindo que j� passava dos limites, chegou � conclus�o que era necess�rio dar-lhe um ultimato: - Assim tamb�m j� � demais, Edgar. Quero que fique sabendo que n�o vou telefonar mais, n�o vou mais � sua casa, n�o me apare�a na minha frente pedindo ajuda na pr�xima vez que estiver encrencado. - Espere a�! Est� levando muito a s�rio uma simples festa. - N�o � por causa da festa. A gente se conhece desde que voc� veio morar no bairro, nem sei h� quanto tempo. Sempre fomos unidos e eu perdi a conta do n�mero de vezes em que te ajudei. Agora voc� d� mostras claramente de querer se conservar alheio a tudo. J� que esta � sua decis�o, muito bem. Cada um segue seu caminho e pouco me importa. Arnaldo estava coberto de raz�o. A camaradagem nascera desde a inf�ncia, um sempre fora aliado do outro e a coincid�ncia em morar pr�ximos conservou est�vel a amizade por anos a fio. Somava-se a isso o fato de serem da mesma idade, com gostos semelhantes e n�veis culturais id�nticos. Haviam at� adquirido o costume de dar escapadas depois da aula, ocasi�o em que programavam passeios longe das vistas dos pais ou passavam tardes indolentes vadiando no campinho de futebol. Tinha ocasi�es em que discutiam, brigavam e suas opini�es freq�entemente divergiam. Mas um jamais largava o outro, eram vistos constantemente juntos. Uma caracter�stica interessante dessa conviv�ncia era o protecionismo estabelecido por ambos. Jamais, em hip�tese alguma, algu�m podia falar mal de um na aus�ncia do outro sem que este fosse ferozmente defendido. E o mais engra�ado era que essa esp�cie de alian�a, o amparo m�tuo, nasceu naturalmente, sem que eles tivessem previamente combinado entre si. Eram unidos para o bem e contra o mal. N�o existia uma circunst�ncias t�o inadequada a ponto de interferir no relacionamento de ambos e isso Edgar foi obrigado a reconhecer naquele momento. Realmente seria tolice contribuir para que uma contenda sem import�ncia nascesse entre eles. Diante da press�o, Edgar acabou cedendo e aceitou o convite. Arnaldo desligou o telefone, avisando que passaria em sua casa depois do servi�o e de l� seguiriam juntos. A noite pareceu ter sido feita sob medida para o evento. O c�u sem nuvens, muito estrelado e a temperatura amena, j� prenunciando o ver�o, eram um convite ao passeio. Embora ainda fosse cedo, encontraram a festa animada. A casa, espa�osa e confort�vel, comportava um n�mero de convidados bem maior do que haviam imaginado. Foram recebidos pelos familiares da anfitri� no hall de entrada, quando a m�e indicou o caminho para a �rea da piscina, local onde se concentravam todos os amigos. Af�vel e elegante, D�bora conversava alegremente quando se aproximaram. Depois dos cumprimentos, ela chamou um gar�om para que eles escolhessem algo para beber. Ele chegou com seu uniforme impec�vel e muito polidamente apresentou a bandeja reluzente com os copos contendo u�sque, rum ou gin, bastava escolher. Em seguida, os que desejavam gelo e refrigerantes foram atendidos pelo que vinha logo atr�s e procedeu da mesma maneira. O excesso de formalidade lhes pareceu um pouco despropositado, mas refletia as manias de D�bora, que apreciava uma certa dose de ostenta��o. � primeira vista, cuidara para que nada pudesse faltar naquela noite. O servi�o de buffet, encarregado da decora��o, tamb�m n�o deixou por menos: imponentes arranjos de flores foram distribu�dos em todos os cantos e faixas de cetim branco percorriam as instala��es, terminando em belos la�os nas pontas. De forma inteligente, delimitaram a �rea permitida aos participantes com pequenos biombos de vime e arranjos de plantas ornamentais. Ao fundo, um pequeno palco vazio com alguns instrumentos musicais sobre ele. Arnaldo quis saber porque a festa estava t�o silenciosa e Pedro, um loiro alto de aspecto rude, zombando do excesso de cerim�nia que se apresentava o panorama em torno de si, logo se adiantou: - Est�o preparando uma audi��o bem ao nosso gosto. Foi contratado um conjunto, mas, pelo jeito que demoram para se apresentar, ainda n�o receberam o cach� - seu pomo-de-ad�o muito saliente se movimentava � medida que falava. D�bora esbo�ou um sorriso, um tanto encabulada com a brincadeira. Ela se destacava entre as amigas, num atraente vestido de cores suaves e ostentando discretamente uma j�ia sobre a gola. Depois, virando-se para Edgar, comentou: - Faz tempo que a gente n�o se v�. Tem andado sumido... Constrangido por ver-se no centro das aten��es subitamente, ele tentou disfar�ar e respondeu casualmente: - � bom se resguardar um pouco. Atribuem mais import�ncia a voc�, depois. - Tenho certeza que deve haver um motivo menos filos�fico - insistiu com um sorriso. - Os tempos mudaram. Arranjei um servi�o, estou estudando � noite, quase n�o sobra tempo como antes - tomou um gole da bebida e continuou - e voc�, por quanto tempo ficar� longe de n�s? - Voc� sabe, ganhei essa bolsa de estudos do meu pai, creio que ser� uma �tima oportunidade para me especializar no estrangeiro. Mas estarei de volta em um ano, n�o ficarei longe por muito tempo. Sou da opini�o de que minha aus�ncia n�o � t�o prolongada a ponto de me esquecerem, concorda? - L�gico. Todos continuar�o aqui e v�o te receber de bra�os abertos - retribuiu o sorriso. Usaram os pronomes no plural. Essa era uma forma de tornar a conversa impessoal, mais distante. Entre eles existira uma paix�o de colegiais, que terminou de repente, sem uma explica��o aparente. Depois desse breve di�logo, D�bora afastou-se, preocupada em dar aten��o aos outros convidados que chegavam. Arnaldo, logicamente, n�o perderia a oportunidade para soltar uma piadinha: - Aposto que ela programou essa viagem para afogar as m�goas... Edgar quase fulminou o amigo com o olhar, mas n�o disse nada. Pedro logo emendou: - Enquanto outros afogam as m�goas na bebida... - Estou vendo que os dois se uniram para me atacar de uma vez - Edgar aproveitou a aproxima��o do gar�om para trocar o copo. - Edgar, pode se abrir, est� entre amigos - era Renato, o mais novo do grupo e, no entanto, quem mais bisbilhotava na vida alheia - ningu�m acaba com uma paix�o assim, sem mais nem menos... - A n�o ser que tenha encontrado outra mais forte ainda - Arnaldo completou. Nesse momento, as luzes foram diminuindo lentamente e a banda de rock deu in�cio a apresenta��o. O som de boa qualidade e os efeitos de ilumina��o entusiasmou a assist�ncia. O clima circunspecto que dominava a maioria dos presentes deu lugar � uma anima��o sem acanhamento. Alguns rapazes come�aram a puxar as garotas para a pista de dan�a e em pouco tempo o baile dava sinais de aprova��o un�nime. Edgar deu gra�as a Deus pelo conjunto ter colocado um ponto final na conversa inoportuna, pois os grupinhos dispersaram-se rapidamente. Notando o quanto agitavam-se com a m�sica e procuravam ansiosamente por quem se dispusesse a ser seu par dan�ante, ele arranjou um canto sossegado e reclinou-se numa grande poltrona. N�o se contagiara como os outros. Sentia-se um alien�gena no meio multid�o, odiando a si pr�prio por ter concordado em ir a festa. Seu modo de ser j� n�o combinava com eles, n�o via nada em comum, nada do que tinham a oferecer poderia atrai-lo. Era como for�ar a �gua a se misturar com o �leo. Imposs�vel. Totalmente desligado com o que acontecia ao seu redor, limitou-se a fixar a aten��o na apresenta��o da banda, cujo ritmo ca�a em seu agrado, e a saborear a bebida farta. Somente em virtude desses dois prazeres n�o considerou a noite totalmente perdida. No entanto, sua tranq�ilidade foi interrompida por Lenita, a amiga que morava na mesma rua e lhe dera um beijo esfuziante na chegada. Ela quase implorou para que fossem dan�ar juntos e ele, muito a contra gosto, aceitou. Da mesma forma s�bita que foi arrastado para a pista, Edgar voltou quase em seguida, permanecendo com Lenita apenas durante a sele��o de boleros. Ao ter in�cio o samba, afirmou desconhecer os passos e caiu fora. Tinha no��o de que n�o fora uma desculpa convincente e criara embara�o para a mo�a diante de todos, mas n�o estava disposto a tolerar algo detest�vel para si. De fato, n�o levava jeito para a dan�a, tinha dificuldades em soltar-se inteiramente. Um pouco mais tarde, quando ambos se cruzaram no lado da piscina, Lenita fez de conta que n�o notara sua presen�a. Edgar deu de ombros. Pouco se importava. Agarrava o copo como se fosse seu benfeitor e a sensa��o de leve embriaguez lhe era profundamente deleitoso. Altas horas da madrugada, quando a festa chegava ao fim, encontrou Arnaldo encostado num dos bancos do jardim. Assim como ele, bebera em demasia, mas o resultado havia sido desanimador. O amigo passava mal. - Por favor, me leva para casa - sua voz pastosa quase n�o permitia entender o que balbuciava. - Desconfio que se excedeu um pouco, caramba! - como poderia ajud�-lo, se n�o sabia nem como ele pr�prio encontraria o rumo de volta? - Edgar imaginou. - Bebi tudo o que tinha direito! Voc� tem alguma coisa a ver com isso? - cambaleante, ele recusou o apoio no bra�o que Edgar oferecia. - Todos n�s bebemos, n�o se preocupe. S� que uns s�o mais fracos que outros, e se voc� n�o se agarrar no meu ombro, vai dar vexame aqui dentro da casa da D�bora. Edgar e Arnaldo conseguiram despedir-se da fam�lia sem chamar muito a aten��o, gra�as a um esfor�o descomunal que faziam para equilibrar-se e n�o andar em ziguezague. Uma vez na cal�ada, respiraram fundo. O ar da noite iria ajud�-los a recuperar um pouco o controle, imaginaram. Ledo engano. O ar nada mas fez sen�o provocar um imenso mal estar. Vomitaram at� n�o poder mais. Assim que Edgar abriu o port�o de casa, notou que o c�u clareava, emitindo os primeiros raios da manh�. Uma ducha r�pida ajudou-lhe a recuperar a lucidez, e ele jogou-se na cama, entregue � fadiga causada pela bebida. Antes de dormir, veio em seus pensamentos a noite aborrecida, praticamente desperdi�ada. Obrigava-se a admitir que o grupo de jovens nada mais significava para ele. Sua miss�o agora era encontrar um outro mundo para viver. Havia amadurecido, j� tinha a no��o do peso da responsabilidade que era sustentar a si pr�prio, sem a ajuda dos pais. Queria ser diferente dos que n�o levavam nada a s�rio na vida, gente que preocupava-se apenas com o que divertir-se no dia seguinte. N�o, ele n�o poderia compartilhar mais de coisas insignificantes, uma nova etapa em sua exist�ncia se configurava. Finalmente o cansa�o dominou-lhe o corpo e a mente, fazendo com que adormecesse. Ele foi somente acordar com um aroma insuport�vel de comida invadindo o aposento, j� passava do meio-dia, o sol despontara com todo o seu vigor. Contudo, era sua folga, n�o tinha com o que se preocupar. Espregui�ou-se entre os len��is, sem muita disposi��o para sair da cama. Mas j� estava irremediavelmente desperto. Ao observar o mapa do Brasil pendurado na parede, come�ou a imaginar a variedade de regi�es que o pa�s oferecia e que era preciso percorrer. A aventura era motivo de grande atrativo e estava ali, ao seu alcance. Levantou-se com um gosto de cabo de guarda-chuva na boca, uma ressaca terr�vel, os olhos inchados e receoso de que dificilmente se recuperaria de tamanho mal-estar. Jogou �gua fria no rosto, escovou os dentes, trocou o pijama por um jeans surrado e uma camiseta. Chegara a hora decisiva, irrevog�vel. Mais do que nunca encorajado a abandonar tudo, Edgar admitiu que era necess�rio agir com cautela para sair de casa em bons termos com a fam�lia. Desceu as escadas em dire��o � cozinha, onde primeiro deveria enfrentar o pai. Diria que desejava viajar para lugares distantes, tentar a sorte numa outra cidade que n�o fosse t�o opressora como aquela. Como desculpa, alegaria uma dificuldade em se adaptar no servi�o, preso a uma rotina que n�o se identificava em nada com sua filosofia de vida. N�o se importava com o risco do fracasso e de um prov�vel regresso humilhante. Surpreendido com tanta determina��o, ele n�o se op�s. Ao falar com a m�e, ela relutou a princ�pio. Edgar insistiu, dizendo que precisava sumir por uns tempos, talvez uma mudan�a de ares lhe faria bem. - Voc� deve estar louco! Vai abandonar os estudos, depois de tanto esfor�o que fiz para v�-lo bem colocado na vida?! Edgar achou ir�nica aquela afirmativa e n�o se deixou influenciar. H� tempos trabalhava para o seu sustento e para pagar os estudos. Em nada dependia da fam�lia, pelo contr�rio, sempre exigiam de si mais do que podia oferecer. Como era de se esperar, a discuss�o foi bem acalorada, mas depois tentaram chegar a um acordo agindo de maneira civilizada. Primeiro, usou-se de suborno, oferecendo-lhe algumas regalias que ele recusou sem hesitar. Mesmo porque, sabia muito bem que eram promessas dif�ceis de ser cumpridas. Por �ltimo, a m�e queixou-se de sua ingratid�o, apelando para uma ligeira chantagem sentimental. Mas nenhum argumento conseguia demov�-lo de seu intento. Ela acabou chegando � conclus�o que n�o lhe restava mais nada sen�o permitir que ele partisse com sua ben��o. N�o havia como discordar de um filho t�o teimoso. No servi�o foi mais f�cil. Pediu as contas, foi indenizado de acordo com as leis trabalhistas e saiu com dinheiro suficiente para dar in�cio � aventura pretendida. Desde que bem programada, verdade seja dita. E esses planos n�o abandonavam seus pensamentos h� muito tempo. Pegaria o primeiro �nibus que partisse para o Rio de Janeiro na manh� seguinte, decidiu. Em casa, ele reuniu seus pertences, escolheu apenas o que era de absoluta necessidade para a viagem, colocou tudo distribu�do numa sacola e numa mochila que comprara tempos atr�s. N�o era a primeira vez que imaginava uma vida melhor afastado da fam�lia. Chegou mesmo a escrever para um conhecido em Porto Alegre, pedindo-lhe hospedagem por um per�odo suficiente para poder se instalar na cidade. N�o recebeu resposta. N�o tinha id�ia se a carta havia chegado ou se ela se extraviara. N�o tentou novamente, ao se certificar do fato de que automaticamente a correspond�ncia voltaria ao remetente, em caso de n�o localiza��o do destinat�rio. Depois, o Rio. Tinha paix�o pelas praias, pela natureza t�o exuberante que conhecia atrav�s de revistas, pela hospitalidade do povo. S�o Paulo era uma cidade fria demais para o seu jeito de ser. Ou, propriamente, para o jeito que desejava ser. Eram quatro horas quando ele pulou da cama na manh� seguinte. Seu cora��o explodia de entusiasmo com a aventura. Cuidou de sua higiene pessoal e arrumou-se rapidamente. Ao descer as escadas, a fam�lia se encontrava j� reunida para a despedida. A m�e entre l�grimas, alegou que ele iria se arrepender e pediu para que voltasse atr�s com aquela loucura. O pai lhe desejou sorte e, de uma certa forma, estava contente com a coragem do filho. A irm� pediu-lhe que n�o deixasse de escrever. Edgar tomou apenas uma x�cara de caf� preto, em grandes goles para n�o perder mais tempo ainda, e abandonou o lar. Nem sequer clareara o dia, fazia um frio intenso e uma garoa fina insistia em cair. Ele enrolou o cachecol em volta do pesco�o e prosseguiu em passos apressados. Pegaria a primeira condu��o para a Pra�a J�lio Prestes, onde se localizava a rodovi�ria. Mario fora dormir muito cansado na noite anterior, desejava a todo custo ganhar o pr�mio de literatura que uma institui��o oferecia para quem apresentasse o melhor trabalho sobre Machado de Assis e isso demandava uma pesquisa extenuante. Apesar do sono profundo, ele acordou no meio da madrugada, sobressaltado. Estaria ele sonhando ou realmente ouvira gemidos? Conteve a respira��o e ficou por um instante sem se mexer. Dessa vez n�o teve d�vidas. Escutou o mesmo ru�do e, o mais importante, localizou sua origem. Vinha do quarto da m�e. Imediatamente ele correu em seu socorro. Encontrou Olga muito p�lida na cama, visivelmente passando mal. - M�e, o que houve? - Estou sentindo muita dor. S�o os rins, me alcan�a o rem�dio em cima da c�moda - ela mal conseguia falar, tal o estado em que se encontrava. Mario obedeceu sofregamente. Procurou o pequeno vidro com as gotas que ele j� conhecia, revirou tudo o que havia sobre o arm�rio, sem nada encontrar. Recordou-se da prateleira no banheiro, correu para l� e encontrou o que procurava. Decep��o, o vidro estava vazio. Voltou para o aposento, desesperado, sem saber o que fazer. A m�e implorava por uma provid�ncia, a dor era insuport�vel. Sem outra sa�da, o rapaz ministrou-lhe algumas gotas de um analg�sico que localizara, enquanto pedia para que se acalmasse, pois iria correndo at� a farm�cia mais pr�xima a fim de comprar o rem�dio correto. Mario trocou rapidamente de roupa e saiu. Enfiou as m�os nos bolsos, tiritando de frio e caminhando em passos largos. Nem sabia qual a dire��o a seguir. Come�ou a perguntar-se onde iria achar uma farm�cia aberta �quela hora da noite. Ningu�m nas ruas, um ou outro carro passando em disparada e sumindo entre a fina garoa da madrugada. Sentiu-se encorajado a tomar o rumo que o levaria at� uma avenida de com�rcio, sabia que l� existiam diversos estabelecimentos, um deles encontraria de plant�o. Avistou, para sua sorte, uma radiopatrulha parada numa esquina. Quem sabe os policiais saberiam dar alguma informa��o? Ao chegar at� eles, pediu ajuda. N�o tinham id�ia onde Mario poderia obter o rem�dio na regi�o deserta, mas dispuseram-se em prestar-lhe aux�lio. Mandaram que ele entrasse no carro e deram a partida. Iriam vasculhar o bairro � procura do que ele necessitava. Mario conferiu as horas, j� eram quatro e meia, o dia em breve estaria nascendo. |
|||||||||
| P�gina inicial | Pr�ximo Cap�tulo | ||||||||