Cap�tulo 02 - Frente a Frente com Mario
Ele notou a fileira de quadros antigos pendurados nas paredes do corredor. Seriam antepassados? N�o iria se atrever a perguntar, seu desejo agora era sumir daquele lugar. Bem em sua frente um rel�gio com p�ndulos compridos e marcadores em algarismos romanos come�ou a dar badaladas. Atravessou a sala em passos largos, com a mulher atr�s de si. Em seguida, ela tomou-lhe a dianteira, a fim de destrancar a porta que dava para fora. Qual n�o foi sua surpresa ao deparar-se com um rapaz com uma chave na m�o, fazendo men��o de entrar.
- Meu filho! J� estava preocupada. Por que se atrasou?
- A senhora n�o sabe como fica o tr�nsito quando chove?
De repente, o embara�o. Os tr�s ali, de p� diante da porta, por um momento emudeceram. A presen�a de um estranho merecia explica��es, o que a mulher passou a fazer sem perda de tempo:
- Esse rapaz me ajudou com a limpeza na cal�ada. O seu nome, at� esqueci de perguntar, qual � mesmo?
- Edgar, senhora.
- Muito prazer - ela estendeu a m�o, ainda que um pouco fora de hora - eu sou Olga e esse � meu filho, Mario.
O rapaz n�o emitiu um �nico som, limitando-se a um cumprimento frio. Mesmo depois de feitas as apresenta��es a sensa��o de mal estar n�o se desfez. Tamb�m, pudera, a situa��o de Edgar era absolutamente constrangedora. Desconhecido de ambos, com a roupa naquele estado e com um argumento n�o muito convincente para justificar sua presen�a na casa. Subitamente, deu-se conta de que as inten��es da mulher eram completamente diferentes do que imaginara, pois com a chegada iminente do filho, era l�gico que seria fora de prop�sito quaisquer intimidades. Diante da conclus�o de haver cometido um terr�vel engano, sentiu-se coberto de inibi��o por sua ingenuidade e por ter-se comportado de uma forma t�o arredia. Mostrou-se r�spido e indiferente com algu�m que somente visara o seu conforto, que injusti�a fora capaz de cometer! Meio desnorteado, sem saber como agir, ele tentou disfar�ar a atitude imbecil com um sorriso e falou timidamente:
- Muito obrigado pelo conhaque, Dona Olga. Da pr�xima vez que passar pela vizinhan�a vou tomar a liberdade de tocar a campainha.
- Venha sim, terei prazer em receb�-lo...
- N�o ser� conveniente - Mario interrompeu - Minha m�e, n�o fica bem perder tempo em conversas com estranhos no port�o de casa.
- Que modos s�o esses, meu filho? O que est� querendo insinuar?
- A senhora sabe muito bem que os vizinhos podem come�ar a falar...
- N�o acredito que algu�m veja qualquer maldade... - Edgar intercedeu.
- Este assunto diz respeito somente a mim e minha m�e - Mario n�o permitiu que completasse a frase.
- Espere a�. Estou envolvido nesta hist�ria tamb�m. Se, como afirma, tenho minha parcela de culpa, sinto-me no direito de me defender.
- Olha aqui, j� ser� de grande ajuda se cair fora agora.
- N�o acredito que esteja destratando o meu convidado, Mario! - Olga intercedeu.
- Pode deixar, senhora. J� estava de sa�da, mesmo.
- � bom que seja assim - Mario respondeu, deixando transparecer forte dose de rancor na voz - E vamos deixar bem claro: minha m�e n�o tem prefer�ncia nenhuma por indiv�duos mais jovens.
Mas veja s�! - Edgar pensou com seus bot�es - Cometera um equ�voco ao pensar que a mulher estivesse com inten��es nada lisonjeiras e agora quem se via acusado do mesmo pecado era ele mesmo. Mas n�o foi preciso indignar-se, Olga tomou as dores e respondeu energicamente:
- Mario, que falta de respeito! O mo�o nada mais fez al�m de me ajudar. Quer fazer o favor de entrar e ir cuidar de seu jantar? O prato est� no forno - virou-se para Edgar, em atitude apaziguadora e acrescentou - vou lev�-lo at� o port�o.
- Se a senhora n�o se incomodar, aceitaria mais uma dose de conhaque antes de sair - Edgar surpreendeu-se com suas pr�prias palavras. Era uma n�tida atitude de afronta e ele sabia muito bem o que estava fazendo, s� n�o entendia a raz�o. Num lance de extrema inconveni�ncia, atrevia-se a desafiar a pretensa autoridade do filho sobre a m�e. O clima que passou a reinar naquela instante n�o poderia ter sido mais indesejado. Mario resmungou qualquer coisa inaud�vel e retirou-se, em dire��o � cozinha. Olga argumentou, meio sem jeito:
- N�o me leve a mal, mas ele � muito ciumento - ao referir-se ao filho, ela estava quase sussurrando - desde que o pai faleceu, tenho sido o �nico ponto de apoio que ele tem. Fique aqui, vou buscar a bebida para voc�.
Por que Edgar usou de ousadia e decidiu for�ar a situa��o daquela maneira? Ele pr�prio n�o sabia explicar. Talvez o rapaz merecesse uma li��o, n�o podia ficar tirando conclus�es precipitadas sobre o car�ter dos outros. Quem ele pensava que era? Contudo, percebeu o evidente embara�o da mulher que, por sua culpa, tornara-se ainda maior. Alguns minutos se passaram at� que ela, n�o escondendo o  receio com o confronto, trouxesse o c�lice cheio. Mario apareceu em seguida e, visivelmente alterado e cheio de repulsa, gritou:
- Veja se toma sua bebida e vai acabar de encher a cara em outro lugar!
Edgar n�o respondeu ao que considerou uma provoca��o est�pida, n�o merecia ouvir tamanha insensatez. Bebeu o conhaque de uma s� golada e afirmou serenamente:
- Voc� n�o me conhece, nunca me viu mais gordo, que direito tem de me tratar assim? S� porque estou dentro de sua propriedade? N�o se preocupe, doutor, vou embora j�. Mas sou da opini�o de que n�o deveria humilhar os outros dessa maneira.
- Quer me dar uma li��o de moral, agora? N�o entendo qual � seu objetivo em estender essa discuss�o sem sentido.
- Foi voc� quem come�ou.
J� arrependida por permitir a entrada de algu�m t�o persistente e cabe�udo, Olga estava longe de entender a raz�o da pirra�a, sentindo-se colocada num segundo plano pelos dois e sem condi��es de interferir. Parecia estar no meio de uma batalha, entre dois fogos cruzados, pois quando tentou usar de tato, Mario fez com que se calasse e repudiou uma vez mais a invas�o:
- Deixa a gente em paz e tudo fica resolvido.
- N�o vou sair daqui at� ver esse assunto completamente esclarecido - Edgar tirou partido da situa��o.
- Como ele � insistente... - Mario dirigiu-se para a m�e - est� vendo como a gente n�o deve permitir que estranhos tenham acesso � nossa intimidade?
- Estou sendo enxotado sem direito a uma reles explica��o sequer. Tem motivo para supor que faltei com o respeito diante de sua m�e mas est� redondamente enganado. N�o insulta a mim somente. A ela tamb�m.
Mario raciocinou por alguns segundos e decidiu recuar, em vista da teimosia do advers�rio. Num tom de voz complacente, apelou para uma tr�gua:
- Seria mais sensato n�o ficarmos discutindo aqui na frente, onde os vizinhos podem ouvir. Vamos, entre e feche a porta.
Ao concluir que ambos iriam acabar se entendendo sem recorrer a medidas extremas, Olga resolveu omitir-se, permitindo que chegassem a um acordo entre eles:
- Enquanto voc�s conversam, vou cuidar da cozinha - n�o esperou resposta e saiu, sorrindo com o motivo t�o banal que deu in�cio aquele bate boca.
Edgar sentou-se no sof� mais pr�ximo, ainda profundamente intrigado por querer tirar satisfa��es com um estranho. Era sem nexo, deveria estar muito longe dali naquelas alturas. No mesmo instante, Mario adotou uma solu��o pacificadora:
- Por favor, me desculpe. N�o gosto de perder a guerra, mas sei reconhecer quando erro.
- N�o se deve julgar os outros assim t�o sumariamente - Edgar acomodou-se melhor no estofado, dissimulando a irrita��o que persistia em n�o abandon�-lo.
- H� de reconhecer que a acolhida oferecida por minha m�e podia perfeitamente criar uma interpreta��o errada a qualquer um.
- Se n�o fazia id�ia de quem eu era, deveria ter condi��es de deduzir que ela n�o seria capaz de permitir certas confian�as.
- Est� coberto de raz�o. Por�m na minha cabe�a imaginei voc� aproveitando-se de sua extrema ingenuidade. Depois, o sentimento de preserva��o toma conta da gente e n�o d� para controlar - sorriu.
Finalmente encerravam as hostilidades e um clima prop�cio a acordo come�ou a reinar entre eles. Mario tornou-se compreensivo a partir do momento que percebeu o equ�voco cometido, mostrando uma prudente disposi��o em evitar o prolongamento da discuss�o. Edgar notou pela primeira vez os olhos e os cabelos negros como �mbar, contrastando com a pele excessivamente branca, sem cor. N�o se podia dizer que era um prot�tipo de beleza masculina, mas os tra�os bem marcantes do maxilar e o contorno da face davam-lhe um ar meio infantil, quase que brejeiro. Embora sua altura fosse pouco abaixo da m�dia, possu�a uma complei��o f�sica bem avantajada. Era desses que, se estivesse com o cabelo molhado e de camiseta, poder-se-ia jurar que havia sa�do da gin�stica.
Olga acusou sua presen�a na sala carregando dois pratos nas m�os, cada um contendo um enorme peda�o de pizza caseira. Aproveitou para perguntar:
- Est�o mais calmos agora?
- Est� tudo bem, m�e - Mario levou o peda�o � boca, faminto.
- Nunca vi algu�m enfrentar meu filho dessa maneira, Edgar - Olga sorriu de modo tolerante - ele precisa entender que n�o � o �nico dono da verdade.
Edgar n�o respondeu. Estava ocupado devorando a pizza. At� naquele momento n�o lhe tinha ocorrido que estava de est�mago vazio. N�o comera nada desde que acordara.



Edgar jogou-se na cama e mergulhou num sono profundo. Dormira com as vozes que vinham do andar inferior ainda no seu ouvido. A m�e discutindo com o irm�o menor, barulho de panelas na cozinha, o cachorro que latia n�o sabia a raz�o. Seu quarto estava numa completa desordem e foi assim que ele o encontrou de manh� bem cedo quando o despertador disparou o alarme e ele pulou assustado. Ser� que havia sonhado? Os acontecimentos do dia anterior passaram por sua mente como se estivessem na penumbra, em meio a um denso nevoeiro. O vagar por ruas desconhecidas, a movimenta��o das criaturas debaixo do temporal, o devaneio da �gua molhando suas roupas e seu corpo. A casa antiga, a mulher hospitaleira, o filho anti-social. Desejou voltar l�. Iria voltar l�.
- Edgar! J� s�o seis horas.
Novamente um dia come�ava e a realidade tornou-se presente sem que ele assim o desejasse. Depois da higiene matinal, vestiu-se rapidamente e desceu para o caf�. Sentou-se � mesa, aguardando que a m�e o servisse. Era o �ltimo.
- Todos j� sa�ram, voc� sempre tem que atrasar - lamentou-se a m�e, carrancuda.
- Se a senhora vai encher minha paci�ncia logo cedo, caio fora sem comer nada, quer ver?
- Ora, cale-se e v� se come direito - resmungou, cheia de raiva - quer leite quente?
- Quero. O que a senhora estava discutindo com o papai, agora h� pouco?
- Nada que seja da sua conta. Vamos, apresse-se. Precisa tomar cuidado para n�o ser despedido do emprego. Se perder esse tamb�m, estaremos encrencados.
- J� sei. Na certa batiam boca por causa de dinheiro.
- Como voc� � curioso! Est� certo, reclamava da situa��o. Problema de contas atrasadas. V�o acabar cortando nosso cr�dito no armaz�m.
O mal que afligia a fam�lia era a falta cr�nica de dinheiro. O pai n�o conseguia dar conta das despesas e as brigas eram intermin�veis.
- A firma vai me pagar hoje. Vou ajudar com uma parte.
- � bom mesmo. N�o v� fazer como no m�s passado, quando deixou a gente a ver navios.
- A senhora exagera. Paguei a presta��o da televis�o, esqueceu?
- E acha o suficiente para cobrir o seu sustento? Na certa, n�o tem id�ia de quanto custa o aluguel e a comida que entra nesta casa. Estamos beirando a mis�ria.
Edgar acabou o caf� em sil�ncio e saiu. Era um al�vio quando via-se longe da turbul�ncia que era seu lar.


Quando Olga entrou com um copo de suco de laranja no quarto de Mario, ele j� havia acordado, as janelas abertas deixavam entrar o sol da manh� e a cama estava arrumada. Na escrivaninha localizada num canto onde a luminosidade era melhor aproveitada, ele debru�ava-se sobre os livros que trouxera no dia anterior.
- N�o seria melhor escovar os dentes e lavar o rosto antes de mais nada? - Olga deixou o copo sobre a mesa e tentou arrumar uma mecha de cabelo que lhe ca�a sobre os olhos pequenos.
- N�o quis abrir a porta para n�o fazer barulho e, pelo jeito, a senhora j� estava acordada. Nem percebi.
Na verdade, Mario n�o demonstrava afeto pela m�e, era exageradamente formal em seu relacionamento. Ambos procuravam cumprir suas obriga��es, nada mais. Com o falecimento do pai um ano antes, a casa transformara-se num verdadeiro mausol�u. Ningu�m os visitava, mesmo os parentes mais pr�ximos. Sobreviviam gra�as a uma polpuda pens�o que ela tinha direito como esposa e ele, como filho, sentia-se no dever de dedicar-se aos estudos fielmente e dando o m�ximo de si.
N�o que ele fosse fan�tico pelo col�gio. N�o era bem assim. N�o se poderia negar que tudo o que ele pensava estava relacionado com os estudos. Devorava os livros, mergulhava na mat�ria escolar, aprofundava-se como ningu�m nas tarefas que os professores designavam. Apenas n�o lhe restava outra alternativa, em sua opini�o. Era mais f�cil colocar como objetivo pela frente a fun��o de aluno aplicado do que enveredar por outros caminhos. Era muito mais c�modo. E, al�m do mais, sentia-se ainda muito crian�a, seu per�odo de adolesc�ncia ainda nem se encerrara, ele podia adiar um pouco mais suas aventuras pela vida afora. Havia o receio enorme do fracasso e da m�goa que isso poderia originar. Ele n�o tolerava o desconhecido e isso se traduzia na inseguran�a com qualquer novidade em sua rotina di�ria. N�o enfrentar os fatos poderia significar uma outra palavra mais forte: covardia.
Mario conservava na mem�ria um incidente que acontecera em casa, ainda quando o pai era vivo, que talvez tivesse dado in�cio a esse tipo de fobia. N�o se tratava, contudo, da raz�o principal do problema, apenas uma contribui��o para a forma��o de sua fr�gil maneira de encarar a realidade. Um dia, sentindo-se disposto a ajudar a m�e com os deveres dom�sticos, levantou-se da mesa logo ap�s o almo�o e sentiu-se encorajado a lavar a pilha de lou�as na pia da cozinha. Ele foi apanhado de surpresa, n�o entendeu como aquilo poderia ter acontecido. N�o estava tremendo, foi apenas um descuido de algu�m desacostumado com o tipo de servi�o. O prato em suas m�os de repente escorregou e n�o adiantou qualquer malabarismo que evitasse o pior. Ele foi parar no ch�o e partiu-se em v�rios peda�os.
- Meu Deus! - foi a �nica express�o que lhe ocorreu naquele momento. Ela ecoou pela copa logo em seguida ao som da lou�a partindo-se, mas apenas o tempo suficiente para que Olga acorresse, j� vermelha de raiva:
- Que desastrado! Veja o que fez com minha porcelana!
Lamuriando-se pelo ocorrido, ela agachou-se e foi recolhendo os cacos. Mario, com as m�os ainda cheias de sab�o, afirmou que iria comprar outro prato que substitu�sse o que fora quebrado.
- Voc� n�o sabe que n�o se pode importar mais essas pe�as? Mesmo que fosse poss�vel, passou pela sua cabe�a que se trata de um material car�ssimo?
- Vou trabalhar para cobrir o preju�zo - respondeu, ferido com o excesso de severidade.
- N�o tem dinheiro no mundo que pague um objeto de estima��o, voc� sabe muito bem disso - Olga levantou-se e reuniu os cacos sobre a mesa - fazia parte do conjunto que ganhei como presente de casamento. Tudo estava intacto, nem sequer uma lasca min�scula era poss�vel encontrar no aparelho inteiro.
Ela fitava a lou�a quebrada como se houvera perdido um membro de seu pr�prio corpo. N�o conseguia disfar�ar seu aborrecimento, ali�s, n�o fazia quest�o nenhuma disso. Mario teve a impress�o de que ela cairia em prantos em poucos instantes e, antes que fosse expulso dali, resolveu tomar a iniciativa e sair:
- Vou me arrumar para ir para o col�gio. Depois, fa�o quest�o de aproveitar minha hora de folga para procurar nas lojas de antig�idades ou em qualquer outro lugar onde possa existir alguma porcelana dessa mesma marca. Voltarei com uma pe�a igual a que a senhora acaba de perder, ou n�o me chamo Mario - indignou-se.
- N�o fa�a isso porque ser� in�til. J� ficarei satisfeita se voc� pensar melhor no que fez e procurar ter mais cuidado da pr�xima vez. Para falar a verdade, n�o quero ver voc� pr�ximo da pia nunca mais - ela passou as m�os pelo cabelo e tentou recompor-se - pode ir embora, voc� j� estragou meu dia.
Na ocasi�o, Mario n�o sentira raiva dela, ele culpou-se totalmente pelo ocorrido e depois, em algumas passagens semelhantes que aconteceram no decorrer de sua exist�ncia at� aquele momento, ele lamentava a detest�vel incapacidade para tudo. Jamais aceitava estar sendo muito exigente consigo pr�prio, nada correspondia de forma plena a seus anseios. E a mania de perfei��o que se pronunciava em tudo o que Olga fazia acabava por prejudicar o desenvolvimento da personalidade do filho.
Mario voltou do banheiro e fechou os cadernos. Lembrou-se de um compromisso assumido com um dos professores do col�gio e desceu as escadas freneticamente. Passou pela cozinha onde a m�e encontrava-se ocupada, partiu um peda�o de bolo sobre a mesa e despediu-se, dizendo que voltava para o almo�o. Enquanto aguardava o �nibus no ponto, veio-lhe � mente o encontro desastrado com Edgar e suspirou. Foi insensato e dominado por um incontrol�vel sentimento de auto-preserva��o. Que bobagem desconfiar que ele e sua m�e corriam perigo, estava na cara que se tratava de uma pessoa honesta, destitu�da de m�s inten��es. Se n�o fosse assim, sua m�e, indefesa, j� teria sido alvo de alguma agress�o. Quanta imaturidade de sua parte adotar uma posi��o t�o dr�stica sem analisar primeiro melhor o que se passava. N�o deveria ter se comportado daquela maneira, pensou. Arrependido, desejou poder v�-lo para explicar-se melhor, dizer que n�o era assim t�o perverso. Tinha necessidade de desfazer a imagem errada que o rapaz provavelmente criou de sua pessoa.
Ele acabou chegando com alguns minutos de atraso e encontrou a equipe j� reunida. O mestre orientou sobre o que se esperava da pesquisa solicitada e deixou-os envolvidos com a tarefa. Mario sentou-se ao lado de Clarice, que lhe oferecera o lugar, e escutou pacientemente a defini��o da incumb�ncia de cada um. Coube a ele e a colega ao lado o levantamento de dados sobre a vinda da corte portuguesa para o Brasil no s�culo XIX. Os outros iriam reunir elementos para estudar o acelerado desenvolvimento da Am�rica do Norte, em contraste com o que aconteceu no Brasil no mesmo per�odo. Como a consulta a uma infinidade de livros hist�ricos se fazia necess�ria, todos acabaram passando o resto do dia na biblioteca municipal. Mario chegou em casa quando escurecia. Ao contr�rio do que afirmara, perdeu o almo�o.
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